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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Domingo, 15.07.12

Sentido dos dias - X Fortuna

 

A amargura que geralmente acompanhava Pedro Rafael agudizou-se com a morte dos pais numa semana. Ana Rosa falecera vítima de um enfarte fulminante. Andava a sachar o milho quando começou a sentir os primeiros sintomas. Ainda foi para o hospital de Bragança mas quando ali chegou apenas confirmaram o óbito.

Na semana seguinte foi a vez de João Gouveia. Este não conseguira suportar viver sozinho, sem a sua Aninhas – como gostava de chamar à mulher – e numa tarde levou até um poço meio de água verde e putrefacta, a velha bigorna, herança de um avô ferreiro, passou-lhe uma cabo à volta e na outra ponta enfiou o pescoço. Sabia que aquele era um passo sem retorno, mas mesmo assim era preferível a viver só. Deixou em cima da mesa da cozinha uma carta para os filhos que dizia:

“Não aguento viver sem a vossa mãe. Vou ter com ela. Desculpem-me.”

A vida em Lisboa, no entanto, parecia correr bem. Começou como empregado de balcão na drogaria do senhor Acácio, mas depressa passou a ter o seu próprio negócio. Entre a sua casa e a loja onde trabalhava, Pedro passava sempre por um alfarrabista. Este era um homem alto e esquálido. Exibia um pequeno bigode, já branco e nas mãos evidenciavam-se dois enormes anéis de ouro. Os cabelos também alvos, eram ralos mas bem distribuídos.

Todos os dias Pedro e o livreiro cumprimentavam-se. A loja era escura e pequena, dificilmente alguém conseguiria ler um título que fosse, lá dentro. Mas para Pedro e Alberto – o dono da loja – nascera, naqueles encontros fugazes, uma sólida amizade. Certa vez, quando regressava a casa, o transmontano trazia consigo um conjunto de revistas velhas que comprara na Feira da Ladra. Vinha tão entusiasmado com a compra que a apresentou a Alberto. Este olhou-as e depois de as abrir perguntou:

- Quanto deu por elas?

- Vinte e cinco tostões…

- Hum foi bom preço! Mas também cá tenho disso.

- Tem? E vende-as?

- Vendo…

Mas Pedro acabou por não comprar, pois sabia que Helena iria mais uma vez dizer mal da sua vida:

- Mas onde vou por tanta coisa, homem de Deus? Tens de parar com essas compras.

Aliás dias mais tarde Pedro Rafael entrou em casa eufórico. Foi a única vez que Helena viu o marido realmente feliz. Abraçou-se à mulher que carregava na barriga o terceiro filho e declarou:

- Para o mês que vem deixo o senhor Acácio.

- Que dizes homem?

- O Alberto alfarrabista passou-me o negócio.

- Ai que me dá uma coisa… Que fizeste tu?

Os receios de Helena pareciam ser evidentes, mas Pedro sossegou-a:

- Sabes, meu amor, que os livros são uma das minhas paixões… e o Alberto está velho e doente.

- Doente? Com quê?

- Não sei, não me quis dizer. Mas quer passar o negócio e convidou-me a ficar com ele.

Helena tremia só de pensar nos livros que começariam a aparecer em casa. Mas pior era saber se o negócio tinha pernas para andar. Jamais vira alguém entrar na loja a não ser o marido. Um torvelinho de emoções sacudia a grávida. Mas também tinha consciência de que aquele era a verdadeira tendência do marido e assim foi perguntando:

- Será que conseguimos pagar ao homem?

O marido nem respondeu pois a alegria de Pedro Rafael era quase contagiante. Maria da Graça e João apareceram a correr de encontro ao pai. Este ergueu ambos os filhos como se fossem meras penas e disse-lhes:

- O pai hoje está muito contente.

Helena só para ver o marido feliz daquela maneira sentia-se contente também. E no mês seguinte lá estava Pedro Rafael à porta da sua nova loja. Entretanto fizera algumas modificações que Alberto não gostava mas que ainda assim opinava:

- Os livros velhos não gostam de ser acordados…

- Acordados?

- Pois não acreditas pois não, mas é a verdade... Os livros acordam-nos para muitas coisas e por isso devemos deixá-los lá no escuro e sossego da prateleira.

- Então como se vendem?

- Cada livro tem um dono a quem é destinado…

Pedro percebia que Alberto já não falava, apenas delirava. Morreria meses mais tarde com um forte ataque de diabetes. Não deixara herdeiros e no dia do seu funeral um homem veio ter com Pedro Rafael e estendendo-lhe a mão, comunicou-lhe:

- O Alberto não tinha família. Por isso deixou toda a sua fortuna e a loja para si.

Pedro nem queria acreditar.

- Como diz?

- Alberto era de sangue “azul”. Tinha um título que agora se perde mas deixou escrito que todos os seus bens e dinheiro passassem para seu nome. O senhor passou a ser muito rico.

Pedro nem reagiu. Agradeceu e foi para a loja. Acendeu as luzes e deixou que os livros ao fim de tantos anos vissem claridade. Sentia-se como se caísse num profundo abismo. Olhou os milhares de livros e revistas  à sua volta e de repente pegou num. Era um almanaque de 1959 editado pela Editorial Notícias. Foi folheando a revista até que viu um título:

“Luanda, a bela capital de Angola”.

Acordara a lembrança.

 

José da xâ

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por José da Xã às 09:00



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