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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Domingo, 08.07.12

Sentidos dos dias - Cismas? VIII

 

Após a desmobilização o jovem Pedro partiu para a sua aldeia transmontana de Campo de Víboras. Aí reviu amigos e familiares, comendo e bebendo em quase todas as casas, como de um herói se tratasse. Quase todos os amigos que com ele haviam partido para África, tinham regressado estropiados e alguns mesmo jamais apareceram.

Mas num ápice Pedro cansou-se da boa vida e com a desculpa de trabalho, regressou finalmente a Lisboa para enfrentar os clientes da drogaria do senhor Acácio. E obviamente para rever Helena com quem começou a namorar. Foi, todavia, um namoro de apenas alguns meses. Helena trabalhava como empregada de escritório numa empresa de automóveis e Pedro, com o trabalho de balconista depressa pretendeu arrumar a vida. Alugaram então uma casa no bairro das colónias aos Anjos, e num Sábado solarengo mas a prometer ainda assim alguma chuva, casavam ambos, numa cerimónia pouco concorrida de convidados. Apenas os pais de Pedro e uns tios que viviam em Vila Franca apareceram na boda. E da parte de Helena havia também pouca família…

Com a vivência diária, a jovem esposa depressa percebeu que o marido carregava consigo um segredo. Era frequente dar com ele a olhar o céu sem nenhuma razão aparente ou achá-lo a escrever qualquer coisa que ele escondia mal a pressentia. Enfrentou-o então por diversas vezes mas Pedro calmamente foi sempre respondendo:

- Não te preocupes, isto são consequências da guerra…

Mas ela não acreditava. Sabia que o marido passara muita coisa no mato: fome, sede, incerteza do momento seguinte mas acima de tudo, medo. Tudo razões provavelmente válidas noutro homem mas em Pedro… sentia que havia algo nele que não era… ele, mas sim outro.

Certa noite Pedro foi acordado pela mulher já grávida, que o abanava:

- Pedro, Pedro acorda.

Estremunhado o rapaz acordou e respondeu:

- Que se passa mulher? Está na hora?

E olhando para a barriga redonda de Helena interrogava-se:

- Vou chamar um táxi?

- Calma homem, calma. Ainda não chegou a hora… Tu é que estavas quase aos gritos a dormir…

- Eu?

- Sim tu… E a chamares por um nome… Zuleica…

Pedro acordou então:

- Zuleica? – disfarçou.

- Sim, sabes quem é?

Tinha de inventar uma desculpa. E depressa que Helena não era nada idiota.

- Sim já sei quem é…

Helena calada aguardava com atenção. Entretanto acendera o candeeiro da mesinha de cabeceira.

- Havia junto ao nosso quartel uma tabanca. E morava lá uma cachopa que se chamava realmente Zuleica e que me lavava – depressa emendou – nos lavava a roupa. Nós dávamos-lhe umas moeditas e ela tratava da nossa indumentária. Todos nós gostávamos muito dela…

- Entendi… disse Helena e sorriu.

- Ei não estejas com essa cara que é verdade.

Este podia ser o segredo. Helena compreendia que aqueles homens no meio do mato, afastados de toda a gente, tivessem outras mulheres por lá. Portanto, se fosse isto era um segredo de pouca monta.

- Vá dorme… Vê se descansas e não pensas mais na guerra – disse a mulher virando-se com dificuldade na cama devido ao adiantado estado de gravidez.

Porém Pedro virou-se para o outro lado e desejou arduamente que Helena tivesse acreditado na sua história. A esposa era uma mulher fantástica mas como podia ele esquecer, como?

No dia seguinte era sábado. Helena trabalhava de manhã até ao meio dia, assim como Pedro na loja das drogas, mas até à uma. Por isso quando o jovem chegou a casa já a mulher acabara de fazer o almoço e aguardava-o. Com calma comeram. Depois foi novamente Helena a puxar a conversa:

- Diz-me homem… Que tens tu nesse teu espírito que nem dormes em paz?

Pedro assustou-se mas não podia ceder.

- Que dizes tu? Não sei o que queres dizer… Por vezes tens umas cismas…

Helena pacientemente, levantou-se do seu lugar abraçou o marido ainda sentado e beijando-lhe o cabelo segredou-lhe:

- Se for menina chamamos-lhe Zuleica.

Mas Pedro percebendo o alcance do desafio, não lhe deu troco. Disse apenas:

- Gostas desse nome?

Helena apenas sorriu e foi dizendo:

- Não, prefiro Maria da Graça como a minha avó…

- Se for menina assim será!

 

José da Xã

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por José da Xã às 11:40



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