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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 04.07.12

Sentidos dos Dias - Planos e dúvidas VII

Pedro Rafael sonhava. Lavado em suor, virava-se na cama! O som das granadas a explodir era tão real. Tal como a terra que levantavam ao redor. Os gritos de camaradas e o destroçar dos nativos em aflição e terror, fazendo de tudo um pandemónio tornava-se insuportável. Não se via nada a certa altura com o pó. Apenas vultos. Nem se reconheciam se amigos, se dos outros. Muitos acabavam a cair num fogo cruzado... E a roupa pegada ao corpo! O cheiro do sangue e o tilintar das chapas identificadores no seu peito, enquanto corria também buscando abrigo.

E no meio de tudo uns olhos verdes! Um sorriso magnífico... E a pele dela nua, abraçada a si. Tão unidos, que não se saberia onde começava um e terminaria o outro. O perfume dela. Os lábios, a língua...E sem saber donde vinha, de repente, uma rajada de metralhadora que lha arrancaria dos braços, a qualquer momento. Cobrindo ambos de sangue e a ele de culpa.

Uma culpa que jamais poderia suportar. Ter contribuído para a morte dela por algum soldado inimigo, cheio de ódio que a marcasse como "colaboradora" dos brancos, militares. Suporiam alguns, que a olhavam de revês, que ela sendo africana vendo e sabendo algumas coisas que seriam, supostos segredos, lhos poderia transmitir... Como naquela maldita emboscada em que tinham ido por uma informação anónima de que ali, existia um paiol inimigo. E era verdade. Tinham escapado ambos graças a João. E foi entre morteiros e gritos, que Pedro Rafael se sentou na cama a arquejar com a cabeça a latejar!

Nunca lidara bem com o facto de Zuleica poder morrer por sua culpa. Sempre que a deixava sozinha para ir numa missão normal, em que regressava dali a horas, rezando a todos os santos para voltar mesmo... Repentinamente cumprir alguma ordem sigilosa, ou ainda por necessidade estratégica se deslocavam para mais longe em que ficava ausente por dias, a sua atenção ficava dividida. O coração subia-lhe para a boca. Nunca tivera intenção de amá-la assim! Quando a conheceu realmente gostara da simpatia. Da forma de falar. Achara-a um certo conforto. Faziam falta ali, pessoas e rostos amistosos. E de seguida, veio a graça, que lhe encontrava, quando ele falava e ela o ouvia falar do continente como se ele fosse o centro do mundo. Ela elucidava-o sobre Angola, as suas gentes e riam. Sabia-lhe tão bem rir por momentos e esquecer a guerra. E depois...Quando o envolvimento se adensou, continuou a jurar a si mesmo que não se envolveria, mas...Fora impossível! E não poderia nunca renegá-la. Não quando uma mulher se dá assim a um homem! De alma e coração. E ele já não sabia não se preocupar. Lidar bem com um desenlace fatal...Tal como não conseguia lidar com aquela certeza agora, de que o seu filho nascera.

Antes era uma suposição forte que já não lhe permitia descansar, uma vida inteira. Principalmente quando olhava os seus filhos com Helena... De tal forma que tivera de vir tirar a limpo aquela história. João fora um bom amigo de novo! Se não o tivesse encontrado demoraria muito mais e nunca estaria tão seguro. Combinaram que iria com ele a todo o lado que ele quisesse visitar, de todos por onde andaram no passado. Que o levaria até perto. Mas mesmo a ela? Isso...Não! Pedro teria de ir sozinho. E quanto ao filho?

Deus! Porquê tanto mistério quis saber? No fundo agora sentado na cama depois de ter bebido um copo de água e tomado um calmante, repara que João se esquivara. Sabia o quê? Nada! Mal se falara no rapaz e na mãe, o outro retraíra-se. Era como se fosse um assunto tabu. Mais! Algo que estava tão enraizado numa cortina de secretismo, que velho amigo mudava logo de tema. Mas tinham ficado de se encontrar de manhã e isso é que importava! Depois de comprarem algumas coisas necessárias para levar, fazer-se-iam à estrada. O amigo estava bem de vida. Não rico mas vivia folgadamente. Possuía um jipe que depois de bem carregado e atestado o depósito, com mais um ou dois bidões de reserva para os sítios mais inóspitos onde não havia combustível, não constituiria problema de maior que os atrasasse. E ligara ao anoitecer, depois de estarem juntos a confirmar. Acertara tudo com a mulher, a quem contara a história de Pedro e ela entendera os seus motivos. E foi já vestido e num nervoso desadequado à sua idade, que a madrugada o brindou. Mais uma hora e desceria para encontrar João no hall à sua espera, para fazer a viagem que sempre habitara a sua mente desde o dia que pusera o pé no cais, em Lisboa!

 

Verniz Negro

 

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por José da Xã às 00:10



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