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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Domingo, 01.07.12

Sentido dos dias – VI Dilema

 

Era uma daquelas manhãs negras de chuva e vento. Pelas fendas da janela de madeira velha e carunchosa o vento assobiava num silvo agudo e incomodativo.

Pedro Rafael acabou por acordar contrariado. Apetecia-lhe dormir até tarde. Ou mesmo não acordar durante muitas horas. Sentia o corpo mole a exigir ripanço. Porém Pedro percebeu que a sua vida tinha de dar uma volta. Necessitava urgentemente de fazer algo. Tratou da sua higiene, vestiu-se, pagou a conta do quarto e saiu para a rua. Tinha fome…

Mas estanhava aquela chuva miudinha, quase parecia pó de chuva. Lembrou-se de como eram as tempestades em Angola… A água caía de supetão em torrentes quase diluvianas ficando depois a pairar um cheiro característico a terra molhada. Da mesma maneira que aparecera, desaparecia deixando que o sol, forte e impiedoso, rapidamente secasse a terra. Mesmo habituado às chuvas angolanas, Pedro não pretendeu ainda assim lançar-se ao caminho. Tinha primeiro de comer qualquer coisa, ir ao quartel buscar a guia, entregar a farda, e por fim partir… Porém esse é que era o dilema… Partir!

- Olá bom dia.

A voz soou-lhe familiar. Virando-se meio círculo deu de caras com Helena que lhe estendeu a mão num cumprimento pouco feminino. Pela primeira vez Rafael tocou na mão de Helena. Sentiu-a trémula e levemente suada. No entanto sedosa e… fazia-lhe lembrar, pelo toque… Zuleica. Mas como poderia esquecer aquela mulher, como?

Helena por sua vez, aguardava uma resposta ao seu cumprimento para além da mão estendida e que Pedro apertava com doçura.

- Bom dia – repetiu – estás neste mundo?

Acordado pela questão Rafael “aterrou” por fim e calmamente foi-se desculpando:

- Bom dia Helena como estás? Desculpa mas habituei-me na guerra a viajar com o meu pensamento e agora… estava numa dessas viagens. Mas aqui não há guerra…

- Pois não… Mas há muitos carros e pessoas e aquelas coisas amarelas que fazem um barulho enorme…

- Os eléctricos? – Helena riu-se. Jamais pensou que alguém diria que os simpáticos transportes sobre carris que atravessavam Lisboa faziam muito barulho. Para ela que nascera numa aldeia encostada a Alenquer, cedo se habituou a vir para Lisboa. Enfim, decidida virou-se para Pedro e perguntou-lhe:

- E agora que vais fazer? Regressas à terra?

As questões eram pertinentes mas o ainda militar nem sabia que responder. Após um silêncio longo e quiçá esclarecedor para a jovem, foi dizendo:

- Tenho de ir a Campo, tenho! Depois não sei.

Por causa de Zuleica Pedro Rafael ficara em África mais tempo do que era previsto. Mas teve obrigatoriamente de regressar e deixar para trás uma vida… A sua! Agarrada a uma mulher e não sabia mais o quê… E se fosse a Trás-os-Montes poderia nunca mais voltar à cidade que lhe parecia ser um mar de oportunidades.

Por fim olhou a jovem madrinha de Guerra e perguntou-lhe:

- Achas que vá?

Helena não esperava a pergunta, mas com algum bom senso foi respondendo:

- Podes e deves ir à tua terra… Visita a tua família, revê amigos mas não te prendas por lá… Vais passar a vida a guardar gado como me contaste ontem à noite, que foi a tua vida até aos vinte anos? Não sei se é isso que queres para ti…

O jovem não entendeu bem o que ela queria dizer… Havia nas palavras de Helena algo que não descortinava. Atrapalhado, temeroso e repleto de incertezas Pedro Rafael disse:

- Achas que consigo aqui trabalho?

Helena olhou-o nos olhos e respondeu com autoridade:

- Oh Pedro, aqui em Lisboa o que não falta é trabalho… Falta sim quem o faça!

Aquela vitalidade demonstrada por Helena estimulou-o. A chuva continuava a cair agora mais de mansinho e ambos conversavam debaixo de um toldo de uma drogaria. O patrão saiu à rua e foi retirando algumas coisas para dentro expostas não fosse a chuva, ajudada pelo vento estragá-las. Pegou num braçado de vassouras de cabo de madeira, atadas num cordel e deixou à mostra um papel que colara no vidro da montra: Precisa-se empregado.

Pedro leu o anúncio e virando-se para Helena sorriu pela primeira vez desde que saíra de Angola.

- E… - observou.

- É sempre uma oportunidade…

- Assim já não vou à terra…

- Dizes que ainda estás na tropa… Pedes para te apresentares para a semana…

O tropa olhou o saco volumoso e pesado que tinha na mão. Mirou Helena com ternura. Observou à sua volta o ambiente. E pensou… Helena aguardava por uma decisão. E num instante percebeu que o rapaz vivia um profundo dilema. Serena e discretamente deu-lhe a mão e sussurrou-lhe ao ouvido:

- Coragem, vá!

Foi o que ele quis ouvir…

 

José da Xã

 

 

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por José da Xã às 17:19



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