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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 27.06.12

Sentidos dos Dias - V Angola

A mente de Pedro Rafael deambulava entre o passado e o presente, para além de tomar atenção a todas as particularidades duma cidade completamente díspar daquilo que conhecera. Na viagem de táxi do aeroporto para o hotel, os seus olhos absorviam cada pormenor com sofreguidão enquanto o cérebro lhe disparava "slides" de épocas remotas e mais actuais, misturadas com a metrópole e a terra onde há pouco voltara a pôr os pés.

Já no quarto e esgotado, pôs a mala em cima da cama, depois de dispensar o empregado que o acompanhara e foi até à casa de banho refrescar-se. Para além de tudo era o clima (de cuja intensidade verdadeira, quase já se tinha esquecido) embora nas suas divagações, estivesse sempre presente aquele calor abrasador e humidade extrema, que só por si dá cabo dum homem.

Assomou-se à varanda sobre a baía. Calhara-lhe um quarto bastante confortável sem muito luxo no entanto. Observou a cidade. Luanda crescera tornando-se numa cidade cosmopolita. O trânsito era intenso lá em baixo, as pessoas que passavam, enchiam as ruas de pontos coloridos, por entre palmeiras e todo o cenário tropical. Mas havia outro tipo de gente. Empresários, executivos de ambos os sexos. Até as crianças que vira trajadas com o uniforme de algum colégio mais "chique" lhe davam a certeza, de que o tempo evoluíra e todos com ele... O que seria bom e de esperar. Angola era rica! Uma terra duma riqueza incalculável em diamantes, petróleo e outros recursos que a serem bem aproveitados fariam dela um Dubai, em África. Era hoje o segundo maior produtor de petróleo e exportador de diamantes da África Subsariana. A sua economia tinha vindo a crescer fortemente, mas o índice de corrupção ainda era um dos mais altos do mundo, e mesmo assim o seu desenvolvimento humano é muito baixo. Pedro ouvira nas noticias que a nível de cuidados de saúde as coisas também, tendiam a ficar diferentes. Desde 2011, Angola estava a implementar com sucesso um Plano Nacional de Emergência para interromper a transmissão do vírus da pólio, baseado no reforço da vacinação de rotina, na realização de campanhas nacionais aceleradas no reforço das actividades de vigilância epidemiológica. Recapitulou:

Um dos problemas com que poderia defrontar-se era com as línguas. Sentado na cama e de mapa na frente foi tracejando com lápis as regiões que teria de visitar. Ainda recordava um pouco dos termos nativos (em umbundu e kimbundu) e se necessitasse teria de levar consigo alguém que lhe servisse de guia e intérprete. Tantos anos depois recordar toda uma panóplia de termos era complicado. O seu destino seria na província do Uíge e aí predominava kikongo...  Mas não seria de todo necessário. Se ali estava calor em Negage estaria uma fornalha. Bom para os pés de cafezal...

Bateram na porta interrompendo-lhe os pensamentos o que o deixou intrigado. Quem poderia ser a menos que gente do hotel, se ninguém saberia da sua estada ali e poucas referências ou nenhumas... Abriu a porta algo receoso para ver na sua frente um rosto tisnado do sol, igualmente idoso, num corpo baixo e robusto vestido de camisa havaiana, calção e chinelo no pé.

O homem não se fez rogado e sem Pedro o mandar entrar irrompeu por ali adentro a gesticular e a falar alto, intervalando com risos de orelha a orelha.

- Ora, essa! Podiam dizer-me tudo, menos que veria o meu capitão por aqui... Depois destes anos todos? Dê-me cá um bacalhau Pedro Rafael. Então? Não se lembra de mim...Homem? Eu jamais esqueceria a sua cara e aquele dia em que fomos emboscados! Que raios! Não me diga que não se recorda? Sou o João Gonçalves! O mesmíssimo que o avisou da granada, a si e àquela rapariga com que você na altura... Que cena marada! Como é que ela se chamava?
Pedro Rafael não pode deixar de se sentir feliz. Dirigiu-se para os braços que ele lhe abria e disse.

- Zuleika! Chamava-se Zukleika!

- Exactamente! Era isso mesmo. Eu sabia que era qualquer coisa assim desse género... Bonita mulher, não meu capitão! Tinha olho para as escolher.

Gargalharam em conjunto, enquanto o outro ia dizendo baboseira atrás de baboseira, mostrando as fotos da família e explicando que mal o vira no átrio do hotel não queria acreditar nos seus olhos. Ainda esteve para ir embora com receio de não ser recordado ou bem-vindo, mas depois de confirmar o nome e o quarto em que Pedro ficara, não resistira a recordar os velhos tempos. Beber uma cervejita na companhia dum antigo camarada de armas e lembrar tanto do que haviam vivido juntos e estavam vivos para contar. Não! Alguma vez poderia deixar o seu amigo ali e não lhe falar.

- Então diga-me cá! O que faz aqui por Angola, meu capitão? Que estranhos ou bons ventos aqui o trazem...

- Nem eu sei, João. Calculas que é verdade.

- Hum... Talvez. Talvez. Mas um homem nunca esquece.

- Pois não meu amigo e uma das razões é essa.

- Ora, bem! E as outras pode saber-se?

- Ela! Gostava de revê-la. Saber se é viva, como está. Se...

João ficou sério de repente e franziu o sobrolho e os lábios. Depois passou o antebraço na testa a limpar o suor e acrescentou:

- Era de prever! Ainda lhe está aí atravessado na garganta o caso do rapaz, não é?

Pedro estremeceu da cabeça aos pés. Quase não conseguia articular um vocábulo mas ainda assim disse:

- O rapaz?! Então sempre nasceu. E era um rapaz. Diz-me João, por tudo o que te é sagrado. Sabes o que é feito dela? E do meu... filho?

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 14:54



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