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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 20.06.12

Sentidos dos dias - III Zuleica

Pedro voava sobre o Atlântico. Do mesmo que há tantos anos atrás, o Vera Cruz rasgava águas impiedosamente, com pressa de descarregar mais um contingente de tropas. Era como uma linha de montagem a fornecer peças continuadamente para engrenar a máquina de guerra. Mas não era só chumbo. Eram carne e sangue de muitos que já não regressavam. Mais uns quantos que vinham sem préstimo, naqueles corpos atacados pelas maleitas tropicais, a que não estavam habituados. Outros... A cabeça deixava de lhes funcionar a preceito e ainda mais, como ele ficavam obrigados a possuir uma sala de cinema privativa, cujo o lugar na primeira fila era sempre seu, rodeado de caras desfeitas e corpos em decomposição. A fita que passava no ecrã era sempre a mesma! Tiros, pó, gritos, desorientação, carros, lama, vegetação luxuriante. Palhotas, vultos emboscados, crianças, mulheres a correr e entre todos aqueles rostos um... Zuleica!

Era uma bonita jovem mulata, cuja pele era bastante clara em relação aos demais habitantes. Senhora de belos, expressivos e enormes olhos verdes, com sorriso tão branco que lembrava neve no meio daquele clima abrasador. Uma mulher diferente. Instruída, com pensamento próprio sobre o diferendo. Curvas generosas, carne... Firme! Que não fazia questão de mostrar em demasia, mas o que estava à vista... Foi nesta altura que Pedro Rafael acordou. Nem sabia como, pegara no sono, mas detestava aviões. Ficara-lhe da maldita guerra quando do céu vinha a chuva da morte e na terra se abriam crateras do tamanho de uma casa. A mulher que ia ao lado dele olhou-o desconfiada quando estremeceu e despertou, depois limitou-se a sorrir e a dizer:

- Não gosta de voar?

Ele sorriu de volta e respondeu com muito poucas palavras para abortar logo ali a possível “familiaridade” que viesse a nascer.

- Não é das minhas coisas preferidas, não senhor!

Ela ainda ficou um pouco à espera de mais, mas Pedro Rafael fixou os olhos no filme que estava a dar sem nada ver. O beijo dos actores voltara a recordar-lhe os seus próprios beijos. Os daquela mulher com quem vivera uma eternidade, que jamais voltaria. Conhecera-a num dia de mercado em que as tropas, algumas numa rápida folga, outras em revista, deambulavam por ali ou pelos bares. Muitos enrolados em negras e encharcados de Whisky barato. Tantos foram os bastardos que por lá ficaram. Isto fazia o seu estômago revolver-se. Tratar-se um ser humano como gado para se fazer dele refúgio de frustração. Mas ele, não o tinha feito? Não seria também por isso que lá ia? Tirar a limpo a humilhante história do filho. Da sua degradante actuação perante ela? A ser verdade tê-la-ia tratado como lixo, e jamais lho merecera. Devia-lhe muito. O ter continuado são e inteiro. Devia-lhe... tudo!

O dia estava muito quente, o suor escorria-lhe em bica. Havia os cheiros activos da criação, peixe, frutas, legumes e especiarias. O colorido da terra, mais o explodir de cores das bancadas e dos vestidos, com lenços da mulheres atados na cabeça. Ouvia-se o choro das crianças que carregavam nas costas, enquanto mais dormiam. E a discussão sobre preços e qualidade ou frescura do produto. No fundo e em tempo de paz seria aprazível, estar ali. Porém, não havia paz, ou sossego. Acabava-se a olhar nos olhos dum simples pescador que vendia, como se ele fosse o nosso inimigo. Pronto a empunhar uma arma e desfazer-nos por inteiro. Aconteceu quando se refrescava numa torneira aberta, perto onde os putos chapinhavam e brincavam entre si. Viu-a! Falava com outra rapariga mais escura, despreocupadamente, olhando para ela enquanto explicava qualquer coisa, e sem querer chocara com ele, que atabalhoado se desfez em desculpas. A primeira coisa que o arrasou foram os olhos verdes e o contraste da pele. Seguidamente o ar de surpresa, coberto de receio e desconfiança. E o outro! Inquisidor. Como podia ela achá-lo tão indesejável na sua presença? Nunca o vira, sabia quem ou como era? Que estava ali sem vontade. Obrigado como tantos. Porém aquele olhar duro  foi pior que a tal rajada. Era como um insulto. Como se lhe desse uma ordem para se ir embora. Aquela terra não era sua. Contrariamente ao que os olhos expressavam, a boca linda e carnuda, abriu-se num sorriso breve e desvalorizou o encontrão violento. Pedro ficou tão atarantado, preso nela que tinha de fazer algo. O que fez foi convidá-las para um refresco ali. Ela não quis aceitar. Pareceu na defensiva, mas a outra convenceu-a. Beberam-no em pé, sorvidos de cocos. A Pedro pareceu-lhe que jamais bebera coisa mais gostosa na sua vida e a imagem daquele dia nunca se desvaneceria da sua mente.

Esteve dias sem a ver. A guerra voltou a pedir a sua concentração, o seu melhor desempenho. Por vezes a improvisação que nem sabia possuir e então... Foi o destino. Num dia em que tinham sido destacados para inspeccionar uma aldeia sob suspeita, encontrou-a de novo. Morava ali pelo visto. A conversa entre os dois chegou a dar-se, mas breve. Não morreram ambos nesse dia por um triz. Rapidez de um colega que mais tarde lá ficou radicado e os avisou, do click da granada. Depois? Depois foi novamente o inferno. Ele só teve tempo de agarrar nela e proteger-se dando-lhe uma estrita ordem para que não o abandonasse. Ao fim do dia todos exaustos, mas passado o pior e capturados os cabecilhas do ataque, neutralizada a aldeia, ela iria com eles... Entre os reféns! Não houvera palavra sua que adiantasse, para a defender. Contudo chegados ao aquartelamento alguém discerniu, por intervenção de muitos outros, que a rapariga estava inocente e com Pedro. Não fazia parte dos rebeldes. Teria sido assim que começara o quebrar do gelo dela para com ele? Demorou muito para a ter nos braços mas quando aconteceu... O seu devaneio foi interrompido pela voz da hospedeira. Uma ordem para apertarem os cintos e da proximidade da pista. Pedro tornou-se um vulcão em actividade. No seu interior nada era pacífico. Até o sangue rivalizava com os miolos e entrara em ebulição.

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 12:28



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