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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Domingo, 17.06.12

Sentidos dos Dias - II Partida

 

Assim que confirmou com os próprios olhos o que lhe haviam dito, correu desenfreado para casa. Entrou de rompante pela sala da mãe Ana Rosa que preparava o almoço. Esta vendo-o entrar assim de supetão foi dizendo:

- Que é lá isso rapaz…

- Mãe, mãe vou à inspecção em Maio.

O coração de mãe quase desfaleceu. A guerra era notícia todos os dias. Sabia o que aí vinha: as mortes e os estropiados, a incerteza e a dúvida. Uma lágrima quis correr cara abaixo mas Ana Rosa não permitiu escondeu-a nas mãos molhadas de um galo que estava a depenar. Olhou a figura de Senhor do Aflitos pendurado na parede, repleto de pontos pretos das moscas e sujidade e murmurou:

- Se ele escapar com vida à guerra levo o Nosso Senhor.

Depois foi dizendo:

- Que bom Pedro. Estás um homem. Mas em que dia de Maio?

- Logo no dia 1. Em Bragança… Mãe vou a Bragança

Pedro Rafael jamais saíra da aldeia mais que a distância de Vimioso. Ir à capital da região era uma aventura. O jovem era robusto e saudável. Ajudava o pai e a mãe na vida do campo. Todos os dias carregava a guincha até à horta onde com preceito e sabedoria ia desviando o curso de água que regava o milho e as couves, o feijão ou o cebolo. Na escola depressa aprendeu a ler e a escrever. E era na escrita que se sentia melhor. Um dia professora Palmira vendo-o tão ávido de leitura emprestou-lhe um livro de poesias. Pedro leu-o de uma penada. E quando o devolveu fez tantas perguntas à professora que esta quase se arrependia de lhe ter emprestado o dito livro.

Quando a noite arribou à aldeia os jovens juntaram-se junto à cruz como era costume e foram espalhando a alegria pela convocatória:

- Vou dia 1 – dizia Asdrúbal.

. Também eu…

- E eu.

- Vamos todos juntos… - concluiu um deles.

Pedro levantou-se e acrescentou:

- Mas temos de ir no dia antes. Aquilo começa de manhã logo às oito. E não há carreira tão cedo que nos leve até lá a tempo e horas.

Olharam-se e de repente Asdrúbal riu com vontade.

- Boa… Viva… Antes de inspecção vamos passar a noite…

Calou-se e os amigos olharam, miraram-no uma vez mais com atenção esperando o resto:

- … nas gajas…

E erguendo-se levantou os braços e rodopiou nos calcanhares como dançasse uma sevilhana.

- Trolaró, laró…

Pedro assustou-se com a proposta e perguntou:

- Tens dinheiro? Eu nem um vintém, para amostra.

O outro sentou-se logo esmorecido. Estava também ele sem chavo.

- Mas quando chegarmos temos logo a festa do Nosso Senhor dos Aflitos. Quem é que a faz este ano?

- É o Zé Pinche!

- Ui então vai ser de arromba. Por isso ele anda a alimentar um porco vai para uma data de tempo. Deve ser para a festa.

Pedro Rafael ouvia os amigos falarem mas o seu espírito já viajava. Sabia que a partir de agora o caminho estaria traçado e sem retorno. Como gostava de ler ia muitas vezes à loja do “Tchico” ver os jornais que ele por lá tinha, a maioria com meses de atraso. Mas Pedro não se importava queria saber apenas. Mas lia que havia guerra em África, que os portugueses defendiam com galhardia as nossas províncias. Obviamente que havia sempre vítimas mas esse era o preço a pagar por se defender o que era português. E Pedro pretendia fazer parte desses homens, nunca imaginando o que era verdadeiramente a guerra.

Partiram todos nesse último dia de Abril para Bragança, onde chegaram já noite. O Lourenço tinha uma tia que era governanta num velho solar e arranjou guarida para todos os rapazes da aldeia. Após muitas horas lá veio o veredicto: todos aptos. Foi uma alegria.

Quando Ana Rosa e João Gouveia, mais conhecido pelo “Brasileiro”, por em novo ter partido para terras de Vera Cruz em busca de fortuna, o que jamais conseguiu, trazendo apenas de lá a mania de certos nomes – Rafael, do filho era um deles – enquanto na aldeia ganhava uma alcunha, olharam o filho acabado de regressar da capital provinciana, viram aquele brilho nos olhos do jovem, logo perceberam que a partida estaria para breve.

No ano seguinte Pedro partiu então para o Porto onde assentou praça. Quando jurou bandeira a mãe e o pai não conseguiam evitar as lágrimas. Era uma honra servir o país, dizia João. Era um erro mandá-los tão novos para a frente de combate, chorava Ana Rosa.

O embarque no paquete Vera Cruz fez-se num dia frio de Novembro. Alguns dos seus amigos já haviam partido, outros ainda haviam ido para a Marinha navegando em mares altos, vomitando tripas em dias e dias de malagueiro.

Antes de deixar a aldeia para partir para Angola, foi à capela mirou com grande sentimento a enorme imagem de Cristo caído na Cruz. E pediu. Pediu para ser um homem corajoso e que se essa fosse a vontade de Deus que o deixasse regressar a casa são e alvo.

Pedro tinha finalmente consciência que a guerra o haveria de mudar, para sempre.

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por José da Xã às 15:03



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