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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Terça-feira, 12.06.12

Trilhos Privados XXXII - Compromisso

Ricardo bem esperou mas Jorge não apareceu no outro dia. Apenas ligou a informar as amigas e a pedir para avisarem o jovem, que teria assuntos a tratar que pediam a sua presença inadiável. Prometeu passar por lá no dia seguinte. Isso levou o rapaz a pensar na gravidade que teria o assunto que o levaria a não cumprir com a sua palavra. Por outro lado, dava-lhe mais um dia de recuperação e...Perto de Célia, da mãe e da governanta, cheio de mordomias, onde quase já se sentia parte da família.

E foi exactamente isso que Guiomar o fez saber. Ao invés de se afastar, ou se demitir do seu papel de mãe como até ali, por motivos muito válidos, a doença de Ludovico, jurou a si mesma que seria o pilar daquela família doravante. Por isso aproximou-se e tiveram uma longa conversa. Ricardo foi honesto. Completamente transparente sobre os seus sentimentos para com Célia. Tudo o que se tinha passado desde que se haviam cruzado o primeiro dia na escola. Como ficou logo interessado nela, para além do visível desconforto que sentia pela indiferença com ela o tratava. Mas não desistiu. Guiomar sorria um riso velado, mas de satisfação. Avaliava-o! Ele continuou a responder com verdade a tudo que lhe perguntava, mesmo que se sentisse um pouco acanhado. Em falta por ser motorista de prostitutas. A senhora parecia não se manifestar, apenas por sinais mais sérios ou traços mais brandos de expressão. E completamente elucidada foi a vez de ela o esclarecer.

- Muito bem, Ricardo. Agradeço-lhe a franqueza. O desvelo com que tratou a "situação" melindrosa  que envolvia a Célia. Pelo seu recato em não fazer disso qualquer alarido.

- Eu... Jamais! Creia-me eu...Amo...A sua filha. Há, muito. Nunca a prejudicaria. Nem contaria nada a ninguém do que se passava... - Apressou-se o moço a interrompê-la.

- Compreendo. Como lhe estava a dizer isso mostra o seu carácter vincado. O que me faz pensar... - Olhou-o um pouco e acrescentou - Que a minha filha fez uma boa opção, no meio da trapalhada toda em que se meteu.

- A Célia é no fim de tudo, uma rapariga espect...

- Por favor deixe-me continuar. Ou não terei força para dizer o que deve ser dito. Muita culpa foi minha. Se não ficasse totalmente empenhada com a doença do meu marido teria visto os sinais de insubordinação na minha filha. Cresciam dia a dia. Resolvi não ligar. Fiz pessimamente! Não eram tolices de adolescente, mas problemas graves de uma jovem que sempre viveu num clima extremamente pesado. Exigimos demasiado dela. A certa altura o meu marido já não podia e eu... Nunca me perdoarei pelo que ela passou. Provavelmente se fosse mais presente...

- São coisas que acontecem. Não se culpe.

- Meu querido rapaz! Ouvirmos o relato cru de uma noite maldita, da boca de uma filha não é fácil. Os pormenores mais chocantes, a baixa humilhação da chantagem. O facto daquele asiático ser, por qualquer motivo, alguém idóneo. E se não fosse? Não sei onde a minha filha estaria gora.

Ricardo ficou em silêncio. Lágrimas bailavam nos olhos de Guiomar mas mulher de fibra, recolheu-as sem as deixar rolar. Mais uns minutos de conversa e Ricardo tinha a bênção dela para se relacionarem "às claras". Ele riu sem maldade quando ela se afastou. Era natural uma senhora daquelas ser ainda um pouco antiquada.  

O resto do dia foi passado ao lado da rapariga entre abraços e alguns beijos. Um pequeno passeio pelo alpendre da cozinha, onde Genoveva os serviu de chocolate quente e bolo de laranja. E foi já de noite que Xavier bateu na porta, entrou cumprimentou, disse qualquer coisa à serviçal e entregou-lhe uma carta...Para Ricardo! Despediu-se e saiu. Mais tarde e avisado por Genoveva o rapaz leria a carta de Jorge Simas recolhido no seu quarto. Nela, o seu já quase idoso amigo, elucidava-o de como tudo se passara...Aquilo que ele não sabia.

Heng escapara porque homem de "negócios" visado por muitos interesses contrários, andava sempre de colecte á prova de balas! Sorte quando abriu a porta ao mandante de Gui. Caso contrário não estaria lá quando ele tentou matar Ricardo. Quanto a Gui, o "tempo" que lhe dariam seria uma deportação para a Sibéria com a conivência de Zeca. - Ricardo até abriu os olhos ao ler. 

Mais à frente explicava a organização Trilhos Privados, em pormenor, e tudo o que faziam. A certa altura quando chegou à parte de Gui, Jorge dizia que o tinha embarcado num avião para o "destino". Ficara descansado. Porém, tinha sido avisado, mal chegara a casa depois de estar com ele, na de Célia, que o avião caíra a meio do percurso. Alguém alegava ter visto o piloto e co-piloto saltarem de pára-quedas, mas o aparelho despenhara-se. Ora Jorge mal soube disto, meteu-se ele mesmo, num avião com Zeca e foram inspeccionar o local. Os homens da organização de ambos, aguardava-nos. Chegados ao destino a polícia local tinha identificado Gui pela dentadura, visto que o aparelho se incendiara. Zeca, policial experimentado quis saber quem fazia parte da tripulação. Mal mostrou os nomes a Jorge ficou explicado acidente. Ambos os tripulantes eram chineses.

Mais tarde e já no aeroporto de regresso... Heng mandara-lhes alguém, para agradecer terem-lhe acobertado a participação no caso e o deixarem ir em paz. Portanto, se no futuro necessitassem dos seus serviços... Ricardo estava estupefacto. Célia e ele estavam finalmente livres de Gui. Jorge estaria quiçá a poucas horas de voltar a estar com ele. E Zeca? Seria também um "anjo da guarda" nas vidas do jovem casal. Com a aprovação de Guiomar e os mimos de Genoveva, o jovem adormeceria feliz. Quase se sentiu recomposto de imediato, pelo peso que lhe saíra de cima. No entanto antes de se deitar mandou uma mensagem.

Célia no seu quarto sentiu o telemóvel vibrar e leu: "Duvidas que te amo, ou não?" Digitou de volta. "Não duvido nem um pouco. Porque também te...Amo, meu maluco. Vê se dormes!" Já enfiada na cama o aparelho voltou a dar sinal. Ela leu. "Queres casar comigo?".

Teve vontade de saltar do leito e ir ter com ele, mas... Não! Respeitaria a sua casa, a mãe e Genoveva. Mais! Passaria respeitar-se a si mesma. E a dar graças por Ricardo na sua vida. De volta  respondeu. "Hum... Vou pensar no teu caso." Riu-se. Apertou o telemóvel contra o peito e apagou a luz.

 

 

Fim

 

 

Verniz negro

 

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por José da Xã às 23:03


4 comentários

De Fátima Soares a 12.06.2012 às 23:10

Mais uma que chega ao fim! Obrigado por me dares sempre a mim a "última parte" por acaso gosto muito de terminar uma história, é óptimo. Ficamos de certo modo aliviados daquela pressão, mas depois começamos a pensar se valeu a pena e valeu! Obrigada José. Foi um prazer. Beijo e uma boa noite, bom feriado.

De José da Xã a 12.06.2012 às 23:26

Quem, neste caso, se deve sentir grato sou eu. A paciência que tiveste comigo... Muito e muito obrigado por aceitares escrever comigo neste espaço que não é só meu mas também teu. E~obviamente dos nossos leitores...

De Lynx a 13.06.2012 às 00:09

Obrigado.
Gostei muito da história.
Já estou a espera do próximo.
Realmente fiquei leitora assídua.

De Fátima Soares a 13.06.2012 às 00:20

Olá Lynx ! É com uma enorme alegria que vejo que alguém nos lê e gosta muito obrigado. Em meu nome e do José ficamos muito agradecidos. Um beijinho e bom feriado!

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