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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Sexta-feira, 08.06.12

Trilhos Privados XXIX – Decisão

 

Quando Gui chegou a casa percebeu que à sua porta parara uma viatura preta. Fechou o portão eléctrico e encaminhou-se para casa. Meteu a chave à porta mas percebeu que algo de estranho tinha acontecido em casa. Acendeu a luz e viu a casa toda revirada. Quadros rasgados, porcelanas partidas, móveis deitados ao chão. Olhou à volta mas não viu ninguém. De repente lembrou-se do carro estranho que vira parar quase à sua porta.

Saiu para o jardim mas quando se voltou sentiu que a sua cabeça era um alvo.

Quando acordou encontrava-se sentado e amarrado a uma cadeira na sua sala totalmente caótica. À sua volta quatro homens que mais pareciam armários riam-se dele. Pela primeira vez Gui teve medo. O sentimento que ele adorava fazer sentir aos outros era agora a sua vez de apreciar.

- O que é isto?

Uma voz atrás de si respondeu-lhe:

- Há muitos anos eu e o meu amigo Ludovico combatemos em África durante meses a fio. E esse meu amigo salvou-me mais que uma vez de morrer.

Gui tentava ver quem era o dono da voz sem sucesso. O outro continuou:

- Após o Serviço Militar cumprido regressámos a Portugal. Mas depressa percebemos que o futuro passava por Angola. E lá voltámos nós para África. Deu-se o 25 de Abril e ao contrário de muitos nós fomos pondo cá as nossas poupanças e comprámos algumas coisas, especialmente terrenos agrícolas no Alentejo.

O jovem sentiu de repente uma mão forte que lhe apertava os ombros. De repente devolveu:

- Vai-me contar a história da Carochinha?

-Não meu rapaz, mas em 1975 quando a reforma agrária quis tomar conta das terras que eu tinha comprado achei que era altura de defender o que tanto me custara a ganhar. Assim eu e o Ludovico criámos uma actividade…

Calou-se. Esperava que o rapaz dissesse alguma coisa, mas o jovem remeteu-se ao silêncio. Então continuou:

- … Que consistia em defender aqueles que tinham alguma coisa de seu. Assim organizámos uma quantidade de acções de forma a evitar roubos e assaltos. Especialmente feitos naquela altura do PREC. Tu sabes o que foi o PREC?

Gui negava.

- Calculei. Mas a essas acções nós pusemos o pomposo nome de “trilhos Privados”… Já tinhas ouvido falar? – falava como estivesse a viver num sonho.

Guilherme nunca ouvira e negou:

- Pois bem – regressando à realidade – Creio que estás metido num belo dum sarilho… Mas sabes – e calou-se à espera que Gui falasse – eu tenho uma solução… Ou melhor tenho uma de três soluções.

- Ou morres agora e aqui vítima de uma fuga de gáz. Ou vais com a gente até à polícia e contas tudo o que fizeste nestes últimos dias: porque tentaste matar o chinês Heng, porque querias acabar com Ricardo e acima de tudo denunciares s tuas belíssimas actividades com mulheres. E finalmente dou-te a hipótese de saíres de Portugal mas nunca mais vais ter um dia de descanso, seja onde for. A minha organização está ramificada por todo o mundo e far-te-ei a vida num autêntico inferno…

- Você não pode…

- Eu não posso? E tu podes?

- Meu caro… Ficas a saber que sei das tuas actividades faz muito tempo. Sei que violaste Célia…

- Foi ela que veio ter comigo…

- Pois foi… e se em vez dela fosse um gay também lho fazias?

O silêncio do jovem denunciou-o.

- Só gostava de saber como é que o filho do velho Acácio deu nisto?

Guilherme quando ouviu falar no nome do pai quis levantar-se mas foi prontamente impedido.

- Não fale de quem não conhece…

- O teu pai era um dos meus grandes amigos: Acácio Avelar Saraiva de seu nome… Quem te dera a ti ser como ele. Bastava metade e já era muito bom.

O homem apareceu  finalmente à frente de Gui. Já vira aquela cara algures, mas não se lembrava onde. Tentou ganhar tempo:

- Donde o conheço?

- A mim? Humm creio que nunca me viste…

- Vi sim, eu jamais esqueço uma cara.

- Sim já percebi isso quando trouxeste a Célia contigo para aqui e tiraste todas aquelas fotografias. Ou julgas que eu não sei… Enganas-te. Eu sei muito mais do que tu julgas, muito mais do que tu esperas e ainda mais do tu desejas…

- Mas quem é o senhor?

O homem virou as costas a Gui e dirigindo-se a um outro sentado no sofá repleto de estilhaços de vidros e loiças, perguntou-lhe:

- Que achas Xavier digo-lhe quem sou?

 

 José da Xã

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por José da Xã às 15:05



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