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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quinta-feira, 07.06.12

Trilhos Privados XXVIII - Luta

Dentro da escola e longe da vista de Zeca, Gui magoou Célia pegando-lhe no braço, com uma violência de tal modo, que a obrigou a vergar-se e dois colegas que passavam olharem e afastarem-se depressa, a falar entre si. Devido a isso, empurrou-a para um canto e com a mão a encostá-la com força à parede, a outra a pegar-lhe no queixo de forma abrupta, ameaçou:

- Não me lixes! Quem era o tipo?! Dizes ou conversas com a minha naifa. Esse rosto deixa de ser tão bonito e altivo, minha cara. É só eu querer.

Célia estremeceu e gelou. Sem alternativa, como diria quem era o irmão de Genoveva? Sabia lá, para além do que era mesmo...Irmão da governanta! Embora lhe soasse estranho todo aquele interrogatório, a insatisfação dele em não se retirar, aprofundar e até desafiar Gui de certo modo.

- Não sei quem é. Aliás, sei é irmão da minha... - Articulou com dificuldade e dor, com mais um apertão da mão dele que parecia uma garra.

- O gajo é da bófia! Cheiro-os à distância. Mas não faz mal, querida. O importante é que hoje tenho planos para ti. Se me livrei do china, também posso muito bem dar um jeitinho neste. Se me dás cabo do negócio é melhor pensares na mamã. Tão depressiva! Sempre a dormir. É fácil trocar os compridos, sabes? Lamento se terás de lidar com outro funeral. Com a culpa de ser uma má filha e não estar por perto para impedires, a tua criada de ter morto a patroa. Defendê-la quando for presa. Isto é, já com o mano na quinta das tabuletas. Tenho contactos minha...Muitos! Topas?

- Como sabes da minha mãe? És doentio! Larga-me! - Intimou ela pondo toda a sua força no berro que deu.

Uma contínua que levava um livro de ponto e passava no corredor olhou para a esquerda e viu-os. Gui automaticamente largou-a. Fingiu ser uma briga de namorados.

- O que se passa, aqui?! Saem daí a bem e vão para as aulas, ou peço ajuda e chamo o director.

- Calma! Calma, dona Sofia. - Disse Guilherme de braços no ar a ler o nome da mulher no cartão de identificação. Com um sorriso de orelha a orelha, a destilar charme. - Eu e a minha miúda estávamos só aqui a curtir um bocado, mas... Sabe como é. Já foi mais nova. Não me diga que já não fez o mesmo. - E fazendo um tipo de vénia, sempre a sorrir, estendeu a mão para puxar Célia e despediu-se. - Vamos já embora. A senhora manda. Tenha um bom dia.  

Célia estava horrorizada com a forma e facilidade com que ele se descartava das situações e das pessoas. Ainda que a mulher não lhe tivesse achado graça. Pensou que teria de fugir-lhe. Pedir ajuda a alguém... Mas a quem? Sentia-se perdida, completamente derrotada. Mas pensava na mãe. Em Genoveva. Se ao menos pudesse esquivar-se, usar o telemóvel... "Oh, não!" Quase desfaleceu quando a poucos passos de distância deles, Ricardo se aproximava. Acabada a conversa com Jorge Simas mal entrou no carro dirigiu-se à escola. Alguma coisa lhe dizia que Célia precisava dele. Uma angústia crescente e uma urgência enorme, percorreram-no, todo o tempo em que conduziu.

- Deixa-a imediatamente, ou estás feito!

- Sim? E és tu que me assustas, principezinho. Anda! Estou mesmo a necessitar expulsar um bocado de tensão.

A faca apareceu-lhe nas mãos. Instintivamente Ricardo afastou-se do golpe que raspou o ar. Célia gelada de terror, mas ainda em poder das suas faculdades reactivas, correu e gritou por ajuda. Incrédula ouviu o sino a tocar ao mesmo tempo e tapar-lhe a voz. Demorou um minuto, até as portas se abrirem e começarem a sair pessoas de todos os lados. O que viram depois, e Célia também, ninguém queria acreditar.

Ricardo estrebuchava no chão coberto de sangue. De Gui nem sinais. Ajoelhado ao pé do rapaz estava Heng...Com a faca na mão, todo ele tremia, enquanto olhava para a jovem e afirmava totalmente comprometido.

- Não fui eu. Só estava aqui para a proteger, detê-lo se fosse preciso. Têm de me acreditar. Ele! Foi ele. Meteu-me a faca na mão e fugiu...

As cabeças que não segredavam entre si, procuravam por toda a parte quem poderia ser a pessoa a quem ele se referia, mas não havia nada de novo. Só o facto de... Como poderia um morto ter ressuscitado?

Foi no entanto quando a empregada Sofia chegou a correr, já acompanhada do director da escola, depois de o ter alertado de que poderia haver alguma confusão, que Zeca também entrou em acção, com dois polícias que entretanto chamara. Gui entrara no carro com a camisa ensanguentada. Na pressa com que saiu dali, julgando-se livre e ilibado, nem reparou que um outro carro o seguia. Tudo se deu muito rápido. Quase ao mesmo tempo, que a ambulância para assistir Ricardo chegava.

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 00:01



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