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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 06.06.12

Trilhos Privados XXVII - Amena cavaqueira

 

A conversa entre Jorge Simas e Ricardo assessorada pelo fidelíssimo Xavier durara toda a noite. O jovem entrara na moradia do amigo do defunto Ludovico e dera com uma casa que era quase um museu. Por todo o lado se viam pinturas de gente supostamente nobre, envoltas em molduras douradas e claramente pesadas. Os móveis todos impecavelmente limpos e estimados pareciam ter origem em séculos anteriores. Espadas sabres e espingardas de carregar pela boca espalham-se pelas paredes da casa. Durante toda a noite um relógio de pé fez questão de estar presente com a sua música e badaladas que tocava de quarto em quarto de hora. Mais uma peça de museu. A um canto um gramofone com campânula de madeira do principio do século XX.

Um conjunto de “fauteils”, os únicos com evidentes traços de desgaste, espalhavam-se pela enorme sala. Duas enormes portas davam acesso a uma larga varanda donde se via toda a moradia de Célia, agora embrenhada em escuridão. Serenamente como tivessem todo o tempo do mundo, Jorge e Ricardo sentaram-se nuns cadeirões e foram absorvendo os perfumes e sons da noite. De quando em vez, quando o vento estava a favor, ouviam o som das ondas do mar na costa quase próxima. Com uma chávena de chá fumegante Jorge recostou-se e antes de levar a chávena à boca perguntou:

- Diga lá então meu caro o que anda a nossa menina Celinha a fazer?

Ricardo não sabia se havia de confiar naquela personagem tão atípica mas ao mesmo tempo tão correcta e calma. Mirou-o nos olhos e percebeu que a questão era sincera. Respirou fundo, soprou o chá quente, beberricou quase nada e foi dizendo:

- A menina Célia está metida em enormes trabalhos…

Novo golo e Jorge respondeu a si mesmo:

- Porque será que não me admiro?

- Como? – propôs Ricardo.

- Comentava para mim mesmo a razão de não me admirar da Célinha andar metida nesses trabalhos! E já agora sabe-me dizer que trabalhos são esses?

O rapaz ajeitou-se no cadeirão poisou a chávena em cima do pires e calmamente passou a mão pelo cabelo e finalmente decidiu-se a divulgar parte da história de Célia.

- Sabe senhor Simas…

- Por favor trate-me por Jorge – interrompeu.

- Pois seja, Jorge. Eu sempre gostei muito da Célia. Na escola falávamos pouco… ela tinha sempre olhos para os outros com carros e motas. Mas eu nunca deixei de a amar. Só que…

Respirou fundo, cruzou a perna por cima da outra e continuou:

- Eu sempre fui pobre e tenho de ganhar o meu sustento… Por isso todas as noites faço de motorista num carro luxuoso.

- Mas motorista de quem?

- Pois… é isso… Eu quase sempre vou buscar senhoras a hotéis… e levo-as a casa. E dão sempre boa gorgeja…

- E mais meu amigo…

- Bom na noite em que morreu o seu amigo, recebi ordem para ir ao Estoril o Hotel Palace buscar uma senhora…

Porém não foi uma senhora qualquer que transportei mas… Célia. Estava acompanhada de um chinês…

- De um chinês? Mas que coisa absurda e idiota…

- Pois também acho…

- Mas continue, continue…

- Eu percebi que ela me conheceu, mas eu fiz de conta que não era nada comigo. Só que a determinada altura ali perto da Boca do Inferno o chinês mandou-me parar, saiu e disse-me para levar a Célia a casa.

- Assim sem mais?

- Foi o que eu estranhei… mas não disse nada.

- E o meu caro amigo sabe como Célia chegou a esse nível tão baixo? Os pais de Célia não eram milionários mas o dinheiro não parecia ser problema…

- Eu posso estar eventualmente a especular, mas creio que tudo se precipitou após uma saída à noite a uma discoteca. Encontrei-a mais a uma amiga junto do carro na manhã em que morreu o pai de Célia. Ela parecia um bocado desorientada e quase não dizia coisa com coisa. Se me é permitido mais uma vez especular, Célia meteu-se com o meu ex-patrão. E ele não é flor que se cheire, isso não.

- E quem é ele?

- Só sei que se chama Gui de Guilherme e tem uma quantidade de tipas que trabalham para ele como acompanhantes… de luxo… Sabe o que quero dizer? Mas a Célia esclareceu depois que não tiveram nada. Ela e o chinês...Mesmo assim...

- Olhe meu caro amigo. Sei muito bem do que fala… Isso é um negócio perigoso…

- Eu sei que sim mas ele não tem medo de nada…

- Não tinha…

 

José da Xã

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por José da Xã às 01:26



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