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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quinta-feira, 31.05.12

Trilhos Privados – XXIII - Deolinda

De um momento para o outro a entrada sumptuosa do Hotel Palace no Estoril enchera-se de jornalistas oriundos de todo o mundo. Um festival de cinema trouxera à costa do Sol uma quantidade invulgar de actores e actrizes de renome internacional, assim como de realizadores e produtores de cinema. Muitos deles optaram por ficar no Estoril Palace devido não só ao seu requinte mas acima de tudo tendo em atenção a proximidade com o local do certame. Daí a quantidade de jornalistas e curiosos que esperavam a saída dos artistas. Entre eles encontrava-se Deolinda, uma jornalista de um diário de grande tiragem, que acorria a tudo o que era notícia. Tinha um faro natural para os grandes acontecimentos e conseguia quase sempre as melhoras caixas para o jornal. O sol ainda nem nascera e já o reboliço no lobby do hotel era enorme. Nem os seguranças contratados conseguiam, mesmo duma forma pouco simpática, demover jornalistas, fotógrafos e curiosos. Reinava a confusão naquela entrada de hotel. Coincidentemente com as “visitas” inesperadas decorria a mudança de turnos dos funcionários: recepcionistas, cozinheiros, empregados de mesa e senhoras da limpeza, iam entrando e saindo no meio de toda aquela multidão ávida de notícias, uns e de autografos e fotos, outros.

Deolinda era uma mulher de quase meio século de idade. Baixa e magra tinha todavia uma genica imensa. Raramente os colegas a viam almoçar. Trocava a refeição por uns bons cigarros que fumava quase sem parar. A nova lei antitabágica retirara-lhe todavia muitos cigarros da boca. Mas sempre que podia era vê-la a uma janela, cigarro na mão e cabeça do lado de fora expirando o fumo. Tinha uma relação um tanto acalorada com Francisco Torres, um bófia que odiava que ela fumasse. Independentemente de tudo adoravam estar um com o outro e nessa madrugada, ambos se haviam levantado muito cedo. Ele ia ter com a irmã, governanta de uma casa para os lados de Sintra, e ela assentava arraiais ali no hotel. Zeca havia-a deixado no Estoril e partira por caminhos do interior para a vila preferida de Lord Byron.

Deolinda estava sentada num degrau da escada exterior do hotel quando percebeu uma agitação incomum que se passava fora do estabelecimento. Diversos carros de polícia haviam surgido em alta velocidade. Provavelmente alguém do hotel, impotente para suster tanta gente, mandara vir uma brigada. Porém o seu instinto fê-la apagar o cigarro e seguir atrás dos polícias como se fosse uma deles. A “lata” com que se simulava para chegar onde queria era um dos seus grandes trunfos. A sua baixa estatura era outro dos factores que jogava a seu favor. E quase sem saber Deolinda entrou no hotel passando com à-vontade a primeira barreira de seguranças. Obviamente que haveria outras mas a jornalista não se enganara quando percebeu que havia mais qualquer coisa. Meteu-se no elevador com os polícias deixando-os carregar no botão primeiro indicando para que andar é que iam. Seguidamente carregou num número superior. Chegado ao andar os polícias saíram em passo apressado. Deolinda deixou-se ficar para o fim e assim que todos saíram ela foi atrás deles. O corredor estava repleto de gente, quase todos polícias e apenas alguns elementos do hotel. A jornalista deixou-se ficar afastada e quando chegou outro elevador com mais agentes da autoridade acabou por perguntar inocentemente a um agente:

- E que tal?

- Eh pá, tá morto…

- Morto? Cena marada…

Caminharam lado a lado devagar até ao ajuntamento. De repente o polícia acordou e perguntou-lhe:

- Ouve lá quem és tu?

Deolinda num ápice teve de arranjar uma desculpa.

- Não digas ao gajo…

- A quem?

- Ao meu marido.

- E quem é o teu marido, pode-se saber?

- Podes mas mais baixinho, se fizeres favor.

- Mas quem é?

O cérebro de Deolinda quase escaldava tal a velocidade dos pensamentos para arranjar uma desculpa esfarrapada, pois não queria que ninguém soubesse da sua relação com Zeca. Teve sorte. Nesse mesmo instante apareceram dois bombeiros em passo de corrida que traziam uma maca e um paramédico. Afastaram toda a gente e penetraram no que deveria ser um quarto. Deolinda não se aproximou mais, deixando os polícias trabalhar. Entretanto alguém veio para o corredor telefonar do telemóvel. E a jornalista fazendo-se distraída pode ouvir a conversa:

- Boa noite Zeca!

Após um minuto...

- Desculpa, interromper-te, mas...Tens de vir para o Estoril…

Deolinda fez um esgar irónico e apurou mais o ouvido.

- Não ao Hotel Palace…Pois, já sei não estava no programa, contudo o que queres que faça? Um tipo chinês apareceu morto.

Zeca teria anuido. Porque ela desligou o aparelho e foi juntar-se aos demais.

A jornalista riu-se. Nem imaginava como ficaria Zeca quando a visse ali naquele corredor. No instante seguinte surgiram mais bombeiros com mais equipamento médico. Deolinda estranhou tanta coisa para um morto. E se…

- Hum… Cheira-me a esturro.. Tenho de tirar isto a limpo.

Devagar, foi-se chegando perto da entrada do quarto, já repleto de agentes da autoridade e percebeu que a vítima vivia ainda. Um dos paramédicos aplicava Suporte Avançado de Vida num corpo estendido no chão. Foi nessa altura que sentiu uma mão que quase parecia uma garra felina a pegar-lhe no pescoço. Estremeceu com o susto mas logo recuperou o sangue frio, dizendo:

- Largue-me animal.

Sentiu novamente o chão debaixo dos pés, virou-se de repente e deu de caras com um chinês enorme. Fria e calculista ajeitou a roupa e perguntou:

- Quem é você?

- Isso pelgunto eu? Qui fazis aqui?

Deolinda assumiu:

- Sou jornalista e você quem é?

- Tu falas de molte de Heng.

- Mas então esse homem está morto ou vivo?

- Não falas estal vivo…

Deolinda já não sabia que dizer. Estava ali um mistério… e rebentara quase nas suas mãos… Pensou:

- Ai se não fosse o cigarro não sabia disto…

E palpou com agrado a caixa rectangular dos cigarros.

 

José da Xã

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por José da Xã às 19:27



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