Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 30.05.12

Trilhos Privados XXII - Locais estratégicos

 

Francisco observou bem o rapaz antes de ele entrar no carro. Alto, esguio, trajar normal para a idade. Cabelo negro, pele cara, olhos azuis. Alargou a sua observação ao carro. Um fiat punto preto, bem estimado, que pôs a circular com prontidão. Quando ele passou a pouca distância olharam-se. O rapaz fez um trejeito de sorriso, pelo vidro meio aberto atirou-lhe, um "bom, dia!". O que o surpreendeu.

"Ora, ora!" Por aqui o seu "faro" apurado dizia-lhe que era alguém habitante das redondezas. A quase naturalidade de movimentos e a saudação espontânea, deixaram Zeca de certo modo satisfeito. Não a desenvolver imediatamente "cenários obscuros" na sua mente habilitada e habituada. Por isso meteu-se na sua viatura também, olhando o relógio.

- Sete da manhã!- Disse para consigo, estendendo as considerações." Coitada da irmã, levantava-se tão cedo, quase de madrugada e ele ainda ficara a entretê-la enquanto se movia entre tabuleiros, leite, bolo, louças e mais sabe-se lá o quê." Mas adorava conversar com ela enquanto a via aprimorar tudo. E eram tão poucos esses momentos.  Arrancou finalmente, rumo ao Estoril poucos minutos depois.

Nesse instante Célia acordava, de uma noite mal passada e em sobressalto, com o som do rádio despertador que apontava as sete horas da manhã. Anunciava as notícias de seguida por entre um minuto de publicidade. A rapariga ergueu-se dorida, birrenta e espreguiçou-se. Foi direita ao armário e escolheu a roupa para vestir. De seguida entrou na pequena casa de banho do seu quarto e fez a sua higiene diária, recapitulando de memória, os passos e aulas desse dia. Ah! E a ida ao gabinete da direcção, devido ao cacifo. "Merda!" Pensou enquanto escovava os dentes e ouvia a voz do locutor intervalada, com a da colega, a desfiar o rol de misérias diário. Mais um cismo na Itália. Mais crise. A troika. E... Estava a acabar de se vestir, quando:

"A polícia foi chamada esta manhã ao Estoril Palace, a fim de desvendar um terrível homicídio ocorrido pela madrugada naquele local." - Dizia ele. Ao que a colega acrescentava... "O cidadão de origem asiática há pouco no nosso país em missão..."

Célia não ouviu mais nada! Saiu disparada do quarto, correu escada abaixo entrando na cozinha, quase derrubando Genoveva que acabara de põr o pequeno almoço na bandeja, para o levar a ambas. Sabia que uma das primeiras coisas que a governanta fazia, era acender a televisão para "companhia" como ela costumava brincar e foi lá que as duas viram a notícia em pormenor.

Os paramédicos recolhiam o corpo. A brigada especializada colhia amostras no local, para análise. A jornalista, uma Deolinda qualquer coisa, falava e falava...Além de entrevistar os que teriam visto o morto, pela última vez! Mas o que paralisou Célia  foi a foto de Heng no canto superior direito do ecrã, para lá de toda a definição sobre o homem e o motivo pelo qual estava em Portugal.

- Não! Não pode, ser. Ele não seria capaz de tanto. Não acredito. Como é que...

Genoveva viu o desespero. O pavor estampado no rosto da "miúda". Mais que nervoso misturado, aquilo já não era reacção de quem não sabia mais do que... E foi quando ela mesmo reparou.

- Mas... Alto, lá! Aquele não é o teu... Meu, Deus Célia! Quem é aquele homem?

A jovem desatou a chorar. Balbuciava, quase incompreensivelmente, que teria muita coisa a esclarecer com ela e a mãe, mas... Mais tarde. As aulas começavam às oito, tinha de se despachar. Enfrentar um dia longo e árduo. Forçosamente... Gui! Se ao menos pudesse contornar Genoveva e a mãe! Alguma explicação plausível que não as deixasse tão reféns do medo e da desilusão, sobre o seu comportamento último, como ela própria estava. Saiu da cozinha sem ouvir os reparos da mulher que a alertava que nem tinha comido. Subiu os degraus, a dois de cada vez e entrou no quarto para buscar os livros, a mochila e... O telemóvel tocou. Gui! Toda ela abanou.

"Então que me contas das notícias? Foi uma terrível perda, não achas? O teu amiguinho, tão galanteador. É sempre assim! Nunca tomam atenção no que se metem, depois acontece o pior. Coitado! Não sabes como lamento, a tua perda querida..."

"Cínico. Filho da p... Maldito!" Quis gritar-lhe. Bater-lhe. Erradicá-lo da sua vida. Do planeta, para sempre! Mas infelizmente não podia fazer nada contra ele. De repente o pensamento saltou-lhe para Ricardo e desabou. Ficou de rastos, ao cair no chão de joelhos a soluçar.

- Ele, não! Por favor... Fazei que este anormal não lhe faça mal. Ele não tem culpa. Sou eu. Só eu e...Não suportaria perdê-lo.

Depois da noite passada numa badalada festa, Gui acordara no seu apartamento como sempre ao lado de alguém. Desta vez ela não era uma miúda qualquer que encantasse. Nem uma das outras que já pusera a "circular"...Mas uma mulher casada! "Quarenta e cinco anos de experiência. Um colosso de mulher...Tinha sido das melhores quecas daquele mês!" Cogitava. "Uma noite memorável entre copos, sexo escaldante e alguma droga. Uma mulher assim, ficava a anos luz das "pitas" novas. Sabia o que queria. Deu e...Teve!" Riu trocista. Voltou a mirar-lhe o corpo nu, ainda adormecido e exclamou: Um mimo! Unindo os dedos e beijando-os. "Gaita! Tinha de perder aquele tique..." Nu, também, ligara a Célia reprimindo ao máximo a vontade de virar o ecrã para a cama. Ilustrar, abundantemente a sua noite, exibindo o seu "irrefutável" álibi! E uma vez que ainda era cedo, porque não? Voltou a deitar-se. Começou a beijá-la, lentamente. A acariciá-la primeiro ao de leve, aqui, ali e depois... Mais intimamente. Ela gemeu. Virou-se para o encarar a sorrir.

- Que horas, são?

- Cedo! Tão cedo... querida. Temos muito tempo até ires buscar o teu marido ao aeroporto. Aproveita cada minuto, princesa!

E sem perder tempo afastou-lhe as pernas e introduziu-se nela.   

 

Verniz Negro

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José da Xã às 15:38



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Maio 2012

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogues Importantes