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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Terça-feira, 29.05.12

Trilhos privados - XXI Ceia

O velho Fiat Uno cinzento e muito mal estimado, estava parado a algumas dezenas de metros da moradia de Célia. Discretamente, Francisco José Torres mais conhecido por Zeca pelos amigos e família, aguardava um sinal no seu telemóvel da irmã Genoveva, governanta daquela casa em Sintra. De vez em quando, conseguia ver a única pessoa que era realmente da sua família.

Zeca tinha 52 anos e trabalhava na polícia Judiciária para mais de 25 anos. De estatura mediana, o agente era muito competente sendo responsável pela solução de alguns dos maiores crimes. Principalmente o caso do “Assassino Nu” que matara o chefe Arcílio, havia vários anos.

Mas Francisco debaixo de aquele seu ar bonacheirão e quase redondo sabia também ser simpático e alegre. Tinha um tique que herdara do tempo de tropa mas no fundo era um pândego e homem sempre muito bem disposto. Para tudo tinha uma piada ou pelo menos uma história. Confidenciava muitas vezes que tomara esta postura desde que lera o livro “O Valente Soldado Cheivk”. Um exímio personagem em escapar a casos mais problemáticos. Todavia Zeca não tinha ainda assim essa sorte e à sua porta batiam sempre as piores coisas. Por isso ria sempre que podia. Adorava comer mas bebia pouco. Às vezes em dias de muito calor lá beberricava uma cerveja.

Mas o polícia tinha um grande senão. Chamava-se Deolinda Veiga, jornalista de profissão e tinha com Francisco uma amizade demasiado colorida.

O aparelho vibrou. E Zeca leu no visor: mana!

Saiu do carro, fechou a porta sem a trancar e encaminhou-se para o portão que ficava por detrás da casa. Aqui escapuliu-se para dentro do terreno da casa e entrando pela porta do jardim chegou à cozinha onde em cima da mesa já fumegava uma enorme caneca de chá. Em frente, num prato raso uma quantidade larga de biscoitos que Francisco foi então comendo e saboreando com prazer. A irmã chegou entretanto vindo de dentro da casa com um tabuleiro vazio.

- Boa noite Zeca.

O irmão levantou-se e deu a face para a mana beijar. Após os cumprimentos voltou a sentar-se e continuou a comer. As bolachas derretiam debaixo de um som seco, quase parecia um cabra a comer favas. Genoveva não aprecia aquela forma pouco civilizada de comer do irmão e chamou-o à atenção:

- Olha lá, não sabes comer de outra maneira? Pareces um animal…

Zeca parou mas em vez de ficar ofendido, riu-se:

- Mas eu sou um animal… racional.

- Pois, pois deixa-te de brincadeiras e porta-te como deve ser, se fazes favor – repreendeu a irmã.

Zeca soubera dos últimos trágicos acontecimentos e foi assim adiantando:

- O velho lá morreu…

- Não era velho, estava muito doente…

- Oh… velhos somos quase todos…

- Isso dizes tu. Mas eu não estou!

O agente nem deu seguimento à última frase da irmã. Explorou outras ideias.

- Ontem estava aí um chinês com um ar estranho…

- Tu estiveste cá… no funeral?

- Sim mas à distância…

- Mas porquê?

- Eu não gosto de misturas…. Mas estava a dizer-te que estava aí um chinês, no funeral…

- Ah sim lembro-me… Acho que é um professor da Célia…

- Hum… Cheira-me… – e mexeu no nariz.

- Mas cheira-te a quê?

- Não sei… Havia no tipo algo que não me agradou.

- Tu e as tuas teorias da conspiração…

- Chama-lhe teorias, chama! E como está a viúva?

- Mal muito mal, parece uma boneca. Não tem vontade própria, uma miséria…

- Agora têm de tratar da papelada: Finanças, notário, bancos…

- Isso tem de ser a menina a fazer ou andar para a frente com as coisas…

- Se elas precisarem de alguma ajuda avisa… Tenho por aí amigos…

- Eu sei Zeca, eu sei! Ma deixa lá passar uns dias…

A conversa continuou por muito tempo. Francisco nunca tinha pressa, quando começava a conversar e foi Genoveva que o incitou a ir embora. Já na rua quando ia a caminho do carro passou por ele uma viatura com um tipo ao volante. Zeca não ligou e nem se preocupou a pensar quem seria.

Quando entrou no carro, tocou novamente o telefone. Era do serviço:

- Boa noite Zeca!

- Olá Patrocínio, diz.

- Tens de ir para o Estoril…

- Ao casino? – e riu-se.

 - Não ao Hotel Palace… Um chinês apareceu morto.

Por seria que ele não se sentia espantado?

 

José da Xã

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por José da Xã às 11:15



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