Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Sexta-feira, 25.05.12

Trilhos privados - XVIII - Aflição

 

Ricardo despedira-se já tarde de Célia e de Genoveva. Chegou a ver a mãe da rapariga, como sonâmbula, descendo os degraus da quase imponente escada, que saída do átrio da entrada para o andar de cima. Provavelmente aí seriam quartos e outras divisões da casa, uma vez que em baixo tinha reparado, devido a uma rápida visita guiada da jovem, ficar a enorme sala de jantar, um espaçoso escritório servido por uma biblioteca que faria inveja a muitos e ao lado, uma sala de música. Depois mais desviados ficavam a cozinha, com o quarto de Genoveva na lateral e a cave, onde Célia dizia que já não ia, fazia tempo. A governanta rira-se por ter de lá ir constantemente buscar provisões. Dizia que quando ela era miúda andava sempre atrás dela, mas agora... Segundo parecia o quarto de Célia ficaria, tipo perto do sótão ou águas furtadas, para onde manifestara se escapava, sempre que queria estar mesmo no seu espaço.

A senhora acenou-lhe e sorriu-lhe vagamente e foi refugiar-se nos braços da filha. Em seguida acabou por o cumprimentar de fugida e agradecer-lhe a companhia que lhe fazia, acrescentando que voltasse sempre. Por vontade dele, nem ela sabia, não se iria embora mas tinha deveres a cumprir que não lhe agradavam especialmente. Por exemplo servir mais uma vez de "chauffeur" mal acabasse as aulas por volta das vinte e três. E assim foi. Mal terminou deu um pulo a casa comeu qualquer coisa rápido, trocou de roupa com excepção do chapéu, que levava na mochila com umas calças de ganga e um pólo para quando acabasse e já de fato, e aprumado, pulou de novo para o seu "chanato". Guiou direito ao local onde costumava ir buscar a limusina. Raios partam! Detestava aquela vida, mas tinha de se sustentar. Ganhar mais algum também, para as propinas e ali ganhava-se bem e não havia muitas perguntas. Era fazer o trabalhinho limpo e pouco mais havia a saber. Os pais de Ricardo tinham morrido num acidente aparatoso de comboio, quando ele era ainda miúdo. Portanto aos doze anos e sem mais ninguém para o amparar que um tio algo boémio, teve de trabalhar. E começou logo num bar. O tio conhecia o dono, ele não refilou. Mais tarde chatearam-se. Deixou a casa dele e arranjou uma pequenita para si. Estava farto de sair do bar, aturar bêbados e gente ociosa e ainda ter de ir ouvir o carpir do tio, após um dia de jogatina e tantas vezes, sarilhos. Não precisava daquilo! Portanto era comer e calar. O que não esperava é que mal chegasse a notícia fosse aquela. Não! Não tinha sido Gui, como por vezes lhe aparecia, com o seu ar superior lhe atirava as chaves como o dono atira o pau a um cão e virava costas, ouvindo-lhe somente o local aonde se dirigir. Desta vez eram dois dos capangas dele, que o informaram bastante convincentemente, que os serviços dele passavam a não ser necessários. "Merda!" Pensou, mas não deu o braço a torcer. Voltou para casa e mais tarde pensaria onde buscar uma nova colocação. Afinal também havia no meio mais gente conhecida.

Como o seu pensamento não andava muito longe de Célia resolveu telefonar-lhe. Estranhou-lhe a voz pesada, nervosa e então soube o motivo. Quando sairia por volta das três de casa dela, fora à sua vida. Ela teria nesse dia duas aulas de recuperação de matéria, a que não lhe apetecia nada ir, mas era importante não faltar, por isso fora. Saíra às quatro e chegara à escola por volta do quarto para a cinco, hora a que começaria a primeira até às seis. A seguinte seria até às sete, motivo pelo qual, ainda tivera esperança de vê-lo naquele dia. Porém nem chegara a ficar. Mal entrara na escola e já no corredor dos cacifos viu um aglomerado de alunos concentrado em grande animosidade. Pensou haver alguma bulha entre alguns, por namoricos ou desencontros, mas assim que se aproximou viu o motivo da agitação. Era o seu cacifo que além de completamente metido dentro com algum pontapé delinquente, exibia a vermelho a toda a largura as palavras: "Prepara-te, mula! Ainda não terminámos." Marta e Vanessa rodearam-na. Levaram-na dali para fora sob o olhar de montes de colegas. Outros nem conhecia. No dia seguinte teria de ir à Direcção explicar-se. Incomodada, resolvera refugiar-se em casa. Ainda não parara de temer por si, a mãe e Genoveva naquela noite! 

 

Verniz Negro

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José da Xã às 17:48



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Maio 2012

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogues Importantes