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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 23.05.12

Trilhos Privados - XVI - O Convite

Pelo caminho Ricardo ouviu pacientemente Célia. Se lhe dissesse que gostava do que ouvia, mentia. Se confessasse que no fundo, estava tão desiludido e magoado, que só lhe apetecia largar-lhe a mão e desaparecer, perdê-la-ia de novo. Não que ela quisesse talvez, mas as circunstâncias em volta dela, com a chantagem… Ricardo sabia que ela sozinha não podia fazer muito mais. Ou se submetia, ou era o escândalo. Mal o pai acabara de morrer, seria tudo o que não convinha àquela família. Nem com ele vivo… Por isso engoliu em seco. Se gostava dela, a queria para si, não seria a merda de um porco qualquer, que numa noite de copos a tinha seduzido e emporcalhado, no mais íntimo que uma mulher pode ter, o orgulho da reputação, que os separava. Que raios! Ela também provocara, mas quantas vezes, ele já não tinha bebido demais. Uma ou duas, acabado a acordar ao pé de alguém que nem sabia quem era, de onde aparecera. Bem, de onde aparecera…se calhar do interior de uma limusina preta, onde choravam sozinhas quando as levava a casa à noite. O que lhe fazia ter um cuidado e rigor imensos. Algum dia ainda se dava mal e não queria aproveitar-se. Mas também eram poucas as que andavam naquilo por sujeição. Havia imensas, que sustentavam vícios. Anos passados, estavam tão agarradas àquilo que não saberiam viver de outro modo. Não se deixarem encantar com uma pipa de massa, hotéis de luxo, aviões particulares, desfiles de moda, promessas variadas e mais. Eram jóias, guarda-roupa, casas. Cartões e passes, livres. Tanto, que a maior parte das pessoas nem sonhava. Muitas eram mantidas por gente importante. Se viessem a saber… Políticos com vidas estabilizadas e filhos. Banqueiros e outros. Enfim…Uma miséria. Depois havia as outras, que já mais entradotas deixavam de ter interesse. Acabavam a levar pancada. A fazer o que eles queriam de pior. Entre a sarjeta e elas, pouca diferença havia. Uma autêntica podridão. Era dessas que Ricardo tinha mais pena. Infelizes, não amealhavam quando bonitas e novas, gastavam tudo em luxo, bebida e drogas. Acabavam uns farrapos humanos. Ele jamais gostaria, ou queria imaginar Célia metida naquilo. Perto da casa dela Genoveva esperava-os assomando à janela. Abriu-lhes a porta e reconheceu o rapaz da outra vez que lá estivera. Sorriu-lhe! Engraçava com o moço. Parecia ser boa gente. Fazer bem à sua “menina”. Ela precisava de companhias assim. Depois de informar a rapariga que a mãe tomara vários comprimidos e aterrara num sono de pedra, Genoveva convidou Ricardo para almoçar. O rapaz aceitou. Todo o tempo que estivesse perto de Célia não só a protegia como lhe sabia bem. Especialmente quando ela apareceu em fato de treino e rabo-de-cavalo, pronta para se esmerar na cozinha. A governanta tinha outras coisas à espera e agradeceu sobremaneira. Toda a sala ainda estava desarrumada. Ou pelo menos não ao seu gosto. Havia marcas de copos nos móveis, cinzeiros por despejar… Enquanto esperara que Célia aparecesse, tinha feito muito, mas faltava ficar tudo impecável. Por isso deixou-a a tratar do bacalhau com natas e foi para a sala e resto da casa arrumar. Célia gostava de cozinhar. Fazia-o bem, depois de tantas vezes observar Genoveva, enquanto fazia trabalhos da escola, ou a desenhava por prazer. O que não contava foi que Ricardo se juntasse a ela a colaborar. Num, todo iam-se completando nas tarefas, exactamente fazendo-as como equipa. O que a levou por momentos a sorrir feliz, em todas aquelas horas tristes, metendo-se com ele.

- Quem veja parece que fizémos sempre isto juntos. – Disse, ao pôr o tabuleiro no forno.

- E isso é mau? – Respondeu ele voltando-se, enquanto acabava de pôr a mesa para três.

- Não! Muito bom. Não estou acostumada a ter gente da minha idade aqui. Assim, então…

Ricardo reparou no semblante dela, melancólico. Não condizia com o sorriso algo descontraído. Por momentos sentiu uma infinita vontade e abraçá-la. Percebeu como devia ser difícil ser filha única de pais já “idosos”, numa família tradicional daquelas. Mas conteve-se. Foi no preciso momento, que ela reparou ter-se esquecido de pôr o pão ralado, por cima no bacalhau e se queimou ao fazê-lo, que ele se precipitou para a ajudar a pôr a mão debaixo de água corrente, que tudo se alterou.

- Que desastrada! Eu… Distrai-me contigo. Estava tão feliz que…Esqueci-me de tudo.

- Hum… Distraiste-te…Comigo?

- Sim. Também podíamos comê-lo sem o pão ralado e…Mas…

As cabeças estavam tão juntas, olhos nos olhos. As mãos de ambos debaixo da água corrente. A respiração batia na cara do outro, quente! E quando ele lhe afastou o cabelo da cara, deixando um rasto molhado na pele, roçando-lhe o dedo nos lábios, o beijo aconteceu. Desta vez ainda mais intenso. As mãos dele, molhadas entraram-lhe por baixo da camisola, sentindo-lhe o tremor do corpo. As dela aterraram-lhe no peito percebendo-lhe o desenfreado do coração. Ele estreitou-a tanto, como se a quisesse fazer parte de si. Ela não se afastou e deixou-se ir. Num momento a porta da cozinha trancou-se com a corrente de ar. Eles nem se aperceberam. Ricardo beijava-a, saboreava-lhe os lábios, a orelha. Suspirava-lhe nervosamente no pescoço. Queria-a! Ela correspondia, arquejante. No minuto seguinte, quase se amavam completamente. Célia não via qualquer semelhança entre o que lhe acontecia e Gui… Mais! Começava a capacitar-se que apaixonara seriamente. Mas foi Ricardo que, tenho a força necessária para parar e onde estava, se afastou, fazendo-a criar também noção do que estavam prestes a fazer. Mal tiveram tempo de se recompor, Genoveva assomava e batia à porta apressada.

- Então! Tudo bem aí dentro?

-Tudo bem, por aqui e a senhora? – Respondeu Ricardo com uma naturalidade invejável a abrir-lhe a passagem.

- Desculpem! Abri uma janela lá dentro para arejar e deve ter feito correspondência. - Afirmou Genoveva a espiar Célia com olhos de lince.

A rapariga estava um pouco corada, mas respondeu.

- Estava-nos a saber bem o vento. Aqui está um calor… Do forno! Mas, deve estar quase pronto.

- Pois! Cheira muito bem. – Concluiu Genoveva a sorrir.

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 22:12



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