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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Terça-feira, 22.05.12

Trilhos Privados – XV Negociações

O Mercedes negociava as curvas a alta velocidade logo seguido por um outro. Heng olhou o relógio e viu um só ponteiro. Por isso sentia fome… Então dirigiu-se a um restaurante que conhecia havia muitos anos. Esperou que ainda estivesse aberto. Conforme se aproximava do Estoril, maior era o trânsito. De tal forma que os seus companheiros acabaram por perdê-lo. Não obstante estar sol o dia exibia de um frio glaciar acompanhado de uma brisa que ajudava a arrefecer ainda mais os corpos. O restaurante ainda se encontrava aberto, mas foi com dificuldade que conseguiu um lugar de estacionamento. Assim que penetrou na enorme sala Heng foi logo reconhecido por alguém que o cumprimentou na língua materna. Um abraço efusivo e uma mesa especial. Heng sentia-se agora bem, após uma manhã demasiado atribulada. Já sentado ligou aos seus companheiros que o atenderam e com quem falou em Mandarim. Deu-lhes a morada e em breve, estavam também sentados à mesa.

O restaurante de comida chinesa era espaçoso, contendo um grande número de mesas. Mas naquele instante apenas os três chineses estavam presentes.

Heng pegou novamente no telefone e ligou. Do outro lado atenderam:

- Ora viva… Então tens alguma coisa para mim?

- Augusto, pareces aborrecido…

- O que é que tu achas? Deixas-me aqui pendurado toda a manhã…

- Pois, tens razão. Mas só agora obtive respostas – mentiu.

- E…

- Vamos continuar as negociações. Há alguns detalhes que necessitam ser limados. Podemos reunir hoje?

- Claro – respondeu Augusto ansioso – e a que horas?

Heng olhou novamente o seu Patek Phillipe de ouro, onde já se viam os dois ponteiros e avançou:

- Duas e meia no meu hotel, achas bem?

- Perfeito… - depois avançou – e vê lá se não me deixas outra vez pendurado como esta manhã. Tenho urgência em resolver isto…

- Obviamente. É do interesse de todos acabar com isto o mais breve possível. Então às duas.

- Combinado.

Na mesa apareciam já acepipes que Heng iniciou a comer. Os seus companheiros, todavia, não pareciam estar muto felizes. E fizeram questão de o demonstrar. Heng Yong não esperava aquela reacção e atacou-os também. E num momento para o outro a conversa pareceu azedar-se. Mas pararam antes que alguém do restaurante desse por isso. Finalmente comeram com calma, beberam chá de jasmim, pagaram a conta e após as despedidas saíram calmos. De regresso à estrada Heng lembrou-se da cena quase canalha dos seus companheiros. Mas reconheceu que eles tinham razão. Perdera-se de amores por uma ocidental que não o queria…

As mãos crisparam-se no volante quando se lembrou do beijo entre Célia e Ricardo. Aquela mulher era… Sacudiu então a cabeça de forma a afastar as recordações. Chegou ao hotel num instante, deixando que o rapaz arrumasse o carro. Subiu ao seu quarto onde pegou na pasta e dirigiu-se ao lobby do hotel onde aguardou Augusto Nunes. Este surgiu às duas e meia pontualmente. Cumprimentaram-se e seguiram para uma sala previamente reservada por Heng, onde reiniciaram as conversações.

Eram dez da noite quando encontraram uma plataforma de entendimento. Porém o acordo só seria válido quando as estruturas superiores de ambos os lados o validassem. Augusto recostou-se na cadeira visivelmente satisfeito. A gravata já se encontrava desabotoada, assim como a camisa. Por seu lado Heng mantinha a compostura e o profissionalismo. Assim que deram por encerradas as negociações cada um pegou no seu telemóvel dando conta das últimas evoluções. O chinês não obstante a sua postura fria e austera, mostrava-se realmente muito cansado. De tal forma que comunicou aos seus companheiros que regressava ao quarto para descansar. E quando lhe perguntaram se não jantava, Heng apenas respondeu que não tinha fome.

Dirigiu-se ao elevador e carregou no número 5. As portas fecharam com um som e arrancou. Chegado ao seu corredor dirigiu-se ao quarto. Passou o cartão magnético pela ranhura e um estalido avisou-o que a porta estava destrancada. Entrou e as luzes acenderam automaticamente. Era uma suite enorme com casa de banho, sala de estar e um quarto. Heng olhou todo aquele luxo e sentiu-se mal. Lembrou-se de que tanta gente morria à fome e ele… mirava aquela riqueza sem entusiasmo. Foi até à varanda donde podia ver o mar. A noite estava fria, muito fria. Sentiu a brisa do mar entrar pelas narinas e respirou com prazer o ar húmido da noite. A cabeça latejava com violência. Apeteceu-lhe chorar. Tanta coisa que podia ter e não tinha o que queria. Bateram-lhe à porta. Calmamente Heng abriu-a. E foi com total surpresa que o asiático viu uma pistola ser-lhe apontada. E por quem…

 

José da Xã

 

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por José da Xã às 23:30



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