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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Segunda-feira, 21.05.12

Trilhos Privados - XIV - Perigo

Heng ia arrancar com o carro quando ao olhar pelo retrovisor viu Célia beijar Ricardo. O chinês estremeceu de ciúme. Mas não teve tempo sequer de se indignar, capacitar do que faria, porque a sua intervenção foi necessária logo de seguida. Ou melhor…Teria sido preferível que ignorasse, quando Guilherme deu um safanão em Ricardo e o separou de Célia violentamente, pegando-se os dois imediatamente numa cena de troca de palavras que breve levou ao pugilato. Estava a ficar feia, mal Guilherme sacou uma ponta e mola. Célia gritava aflita, mas era impedida de se aproximar por Vanessa que a segurava e Marta que tentava nervosamente ligar para a polícia do telemóvel, tendo-o já deixado cair, tremendo por todo o lado. Portanto Heng, mal percebeu os acontecimentos a precipitarem-se rapidamente para uma tragédia, interveio. Como todo o oriental capacitado saiu do carro e ao abrigo de alguma vegetação nas redondezas surgiu por detrás de Gui, quando Ricardo se esquivava de mais um golpe no ar. Perito em artes marciais, aplicou um violento golpe de rins a Gui que não só deixou que a faca lhe caísse das mãos aterrando perto de Ricardo, como caiu de joelhos sem fôlego. Célia continuava histericamente possessa. A querer correr ao encontro de Ricardo que segurava agora a faca. Insistentemente lhe pedia para não a usar, ao que ele lhe respondeu com um olhar de surpresa e confusão como se dissesse “Achas-me capaz disso?” e mal Gui se levantou e se defendia como podia de Heng, a coisa só podia complicar-se mais, quando surgiu um outro carro negro de onde saíram mais dois chineses, consequentemente da equipa de Heng, que já fartos de esperar resolveram seguir-lhe as coordenadas do GPS.

Um deles sem perceber nada imobilizou Ricardo. Mal desfeitas as dúvidas, libertou-o, já Gui estava dominado por Heng e Chiang a quem, o primeiro ordenava, que agarrasse a fim de o interrogar. Vanessa entretanto deixara Célia escapar. Esta abraçara-se a Ricardo que acabou com um sorriso leve extemporâneo, ao ver-lhe a preferência e preocupação. O outro Chinês não tirava os olhos de ambos, com ar ameaçador. Como Marta mais chorava e tremia que conseguira ligar com sucesso, acabou sem telemóvel e Vanessa a fechá-lo pondo-lho na carteira sem a amiga saber porque, raios ela agia assim, se a polícia fazia falta e bem. Agora não eram só elas e Ricardo, meio de quase nenhures sem protecção, mas ainda estavam os três chineses, com o rapaz da faca. Porém Vanessa em poucas linhas esboçou o que se passava e a rapariga acalmou.

Heng entretanto fez um sinal de desprezo na direcção de Ricardo com o queixo, instigando-o a levar Célia e ir embora dali. Ricardo não obedeceu. Quis saber o que pretendiam fazer com o outro. Heng disse-lhe não ser da conta dele. O jovem discordou. Segundo lhe parecia Heng queria levar a “peito” a sua protecção a Célia, talvez pretendendo aniquilar de raiz o “problema” que Gui constituía, isso ele não permitiria. Não só por discordar de medidas extremas, mas por os outros serem asiáticos e no todo, não terem muito a ver com as rixas de dois rapazes por uma “miúda”, sendo que Ricardo se achava muito homem para a proteger sozinho. Por isso, se o clima entre Heng e Gui, que o olhava com ódio de quem o “marcou”, já não era bom, entre Ricardo e o chinês não ficou grande coisa quando o preferido de Célia lhe deu uma ordem directa e segura.

- Deixa-o, ir!

- Não! O que você não fez, eu farei.

- E o que é que eu não fiz, pode saber-se? Se só há pouco fui informado do que realmente se passa. Isto não lhe diz respeito. Embora agradeça a sua pronta ajuda, agradeço que se retire.

Heng voltou a encarar Ricardo com ar trocista. Assumidamente julgou o outro menos altivo. Combativo. Seria outro problema que teria de ver mais tarde. Com calma. E Célia ainda de mãos dadas com o jovem, dava-lhe uma raiva inaudita, mas controlou-a. Com ela seria diferente. Por certo estava melindrada e aliava-se a quem conhecia…Mas, e o beijo dos dois? Todavia foi a própria rapariga que lhe pediu que deixasse ir Gui. Coisa que ele nunca entenderia, uma vez que a libertá-lo, ele voltaria a persegui-la e manipulá-la. Decididamente existiam coisas nos ocidentais que só lhe pareciam fraqueza. Estupidez redonda, mas acedeu. Gui cuspiu algumas palavras imperceptíveis entre dentes, na direcção de Heng. Com um olhar de ódio para Ricardo e Célia saíu dali. Passados minutos ouvia-se o motor de uma mota a desaparecer. Heng visivelmente contrariado, por ser desrespeitado e inferiorizado na frente dos seus homens, deu ordem a que o seguissem e em breve os dois carros se faziam à estrada. Célia despediu-se das duas amigas, que depois de se certificarem se ficava bem, também foram embora com Marta a dizer a Vanessa que no caminho teria de lhe explicar tudo ao pormenor. A jovem e o rapaz acabaram por fazer o caminho a pé, lado a lado de mãos dadas tendo muito que conversar.

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 16:20



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