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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Domingo, 20.05.12

Trilhos Privados – XIII Ameaças

Quando desligou o telefone Augusto Nunes estava irritadíssimo. A desculpa dada por Heng Yong fora demasiado vaga. Custava-lhe compreender como é que o chinês ainda não comunicara aos seus patrões o teor da reunião do dia anterior.

- Isto não me cheira bem. Este sacana anda a preparar alguma – disse para consigo.

Entretanto voltou a pegar no telemóvel, buscou um número e ligou:

- Vicente? Olá bom dia, é Augusto.

- Ora, viva! O que é que se passa? Para me estares a ligar é porque necessitas de mim para alguns dos teus trabalhos…

- É verdade Vicente… Tenho aí um gajo, que creio, que me está a fazer a folha. E eu preciso de saber o quê…

- Quem é?

- Bom não quero falar por telefone. Podes vir ao meu escritório?

- Posso claro! A que horas?

- Já!

- Então dá-me meia hora que eu já aí apareço.

- Obrigado.

Durante esse tempo de espera Augusto foi fazendo outras chamadas tentando amenizar os seus clientes quanto ao andamento das reuniões. Todavia faltava o mais importante, aquele que lhe pagaria uma pequena fortuna. Havia no seu íntimo um temor quanto ao fracasso das conversações. Estavam milhões, muitos milhões em jogo. E a ele apenas caberia uma infinitésima parte desse valor. E mesmo assim era muito.

Tocaram à porta. A secretária foi abrir. Finalmente Vicente entrou no gabinete. Este era um homem já com alguma idade. Do alto do seu metro e oitenta e algumas arrobas de peso Vicente até parecia um homem afável. Estendeu a mão gorda e sapuda a Augusto que o cumprimentou afavelmente.

- Obrigado Vicente por vires tão depressa.

- Conta-me o que queres de mim e depressa que tenho alguém à minha espera…

Era conhecido o gosto de Vicente por mulheres bonitas. Augusto percebeu a deixa e avançou:

- Há um tipo chinês que se encontra em Portugal para negociar aí umas coisas. Ontem saiu da reunião como estivesse com medo de alguma coisa e hoje de manhã telefonou-me a dizer que não podia vir à reunião por não ter informação dos patrões. Ora eu não acredito…

- Mas tens alguma razão para desconfiar dele?

- Até agora não, mas deixou-me com a pulga na orelha aquela saída assim…

- E o que é que queres que eu faça?

- Que o sigas a ver se ele se reúne com mais alguém… Eu preciso saber pormenores. Tratas-me disso?

- Claro e onde é que ele está hospedado?

- No Estoril Palácio…

Vicente deu um assobio e declarou:

- Esse menino trata-se bem…

- Pois, isso não me interessa. Só quero saber os passos dele…

Assim que Vicente saiu do escritório, Augusto respirou fundo e ligou novo número no telemóvel. Enquanto chamava deu meia volta à cadeira e ficou a olhar a paisagem que dava para a A5 e para a mata de Monsanto. À esquerda viu a ponte sobre o Tejo repleta de trânsito que vinha da outra banda.

Atenderam:

- Está, fala Augusto Nunes, tenho necessidade urgente de falar com o seu patrão… Ele que me ligue assim que puder. Obrigado.

Mal desligou foi a vez do seu telefone tocar. Viu o nome do visor e sorriu:

- Bom dia, como está? Foi rápido…

- Que me quer?

- É sobre aquele negócio dos chineses…

- Mas isso não está já resolvido?

- Ainda não. Tivemos ontem uma reunião que terminou abruptamente e pensámos em ter outra hoje de manhã mas o comanditário adiou… Não sabemos o que passa naquelas cabecinhas amarelas.

- Você está a ser pago para resolver os problemas e não é tão pouco como isso…

- Eu sei, eu sei… – consentiu Augusto numa voz de quase subserviência.

- E mais, o governo está muito empenhado em resolver esta situação rapidamente.

- Estou a fazer o melhor que posso e sei. Apenas queria que ficasse com conhecimento de como estão a decorrer as negociações.

- Acho bem, mas o tempo urge…

Desligaram! Augusto coçou a cabeça…

 

José da Xã

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por José da Xã às 23:02



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