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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Sexta-feira, 18.05.12

Trilhos Privados – XI - Paixão

O telefone tocou três vezes antes que Heng atendesse. Com a voz estremunhada de sono atendeu:

- Estou, quem fala?

Responderam-lhe em mandarim. Heng devolveu a resposta na língua materna. Depois dirigiu-se à casa de banho onde tomou um banho, rapou a barba e acabou a sua higiene pessoal. De seguida vestiu um fato escuro, escolheu uma camisa branca com monograma e optou por uma gravata de seda com traços regimentais ingleses de tons escuros.

A noite fora muito longa. Fora-lhe extremamente difícil adormecer. Sempre que fechava os olhos só via a face de Célia. E aquele olhar de quem vive num permanente suplício. Pairava no seu íntimo uma pergunta à qual ele ainda não obtivera resposta. Como é que Célia tinha ali chegado? Porque vivia naquele mundo paralelo?

Desceu até à sala de pequeno almoço onde já se encontravam os seus fieis companheiros. Sentou-se à mesa e pediu sumo de laranja, torradas e café forte. Comeu em silêncio, pois o seu pensamento não se encontrava ali entre aquelas paredes luxuosas e de imenso requinte. Quando acabou a refeição ligou o telemóvel e fez uma chamada. Esperou que atendessem.

- Bom dia, Heng.

- Bom dia Nunes, está tudo bem?

- Está. Estamos a sair para ir à reunião.

- É melhor não vires…

Do outro lado um primeiro silêncio. Depois uma voz mais revoltada, acusou:

- Tu estás a brincar não estás? Eu gosto pouco de brincadeiras…

- Não estou a brincar, não. Acontece é que ainda não recebi resposta dos meus chefes… quanto às vossas propostas. E sem isso não há reunião.

A verdade é que nem Heng nem os seus assessores haviam comunicado qualquer informação a Pequim. Mas isso Augusto Nunes não sabia. Este, preocupado e pressionado para um entendimento rápido, sentiu que algo lhe escapava. Mas não sabia o quê.

- Bom, fico a aguardar evolução neste processo – concluiu Augusto.

- Muito bem. Assim que saiba alguma coisa ligo-te e combinamos nova reunião.

Heng desligou e sem comunicar à sua equipa dirigiu-se à recepção.

- Necessito alugar um carro…

- Com certeza senhor Yong. Com ou sem motorista?

O asiático pensou um pouco e respondeu:

- Sem!

- E tem preferência por alguma marca?

- Um Mercedes se for possível. Com mudanças automáticas.

- Sim senhor, vou já tratar disso.

Meia hora mais tarde Heng dirigia-se para a morada que se lembrava de Célia. Inscreveu o nome no GPS do carro e este indicava agora o caminho. Conduzia depressa e sem medo. Sabia que muita coisa podia depender da sua rapidez de decisão. Entretanto aproveitou o caminho e ligou para a China. Rapidamente contou como correra a reunião do dia anterior e apresentou as vantagens e os perigos daquele negócio. E obviamente necessitava de novas indicações.

Quando desligou, tentou falar à sua equipa mas esta não atendeu, o que o surpreendeu sobremaneira. Temia que eles começassem a perceber que ele tinha outros interesses para além dos negócios e que esses interesses, envolviam saias. Pelo GPS do carro, percebeu que já estava perto da casa de Célia. Quando entrou na rua notou no fundo um ajuntamento. Estacionou e foi a pé até à moradia. Um magote de gente de negro vestida, espalhava-se pelo jardim. Heng aproximou-se devagar, vestiu a face com um ar pesaroso e penetrou na casa. Esta era ampla e arejada, bem mobilada com gosto. Por todo o lado espalhavam-se móveis e objectos de boa qualidade, impecavelmente limpos e dispostos. Um quadro com uma senhora de chapéu enfiado na cabeça e ar pesado, assumia uma pose quase ditatorial. Talvez fosse alguma antepassada... O chinês foi serenamente entrando até que penetrou numa enorme sala, onde as pessoas se juntavam em grupos. Ao meio podia ver-se um caixão aberto ladeado por dois círios acesos. Num fauteil de veludo azul escuro, sentava-se uma senhora totalmente vestida de negro e que chorava em silêncio e a seu lado um jovem afagava-lhe as mãos trémulas e brancas. Heng olhou-a e quando Célia levantou os olhos, deu um salto da cadeira.

Em meia dúzia de passos chegou-se ao chinês. Os seus olhos chispavam lume de comprometida. As mãos crispadas. Mas estava linda, naquele seu longo vestido negro…

- O que está aqui a fazer? Por favor deixe-me enterrar o meu pai…

Heng em voz baixa apenas lhe disse:

- Não venho aqui para lhe fazer qualquer mal… mas para a defender…

Célia quase que riu:

- Defender? Defender de quem? Eu não tenho medo de ninguém e muito menos de si.

Foi a vez dele rir:

- E se fosse do Gui?

 

José da xã

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por José da Xã às 14:49



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