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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quinta-feira, 17.05.12

Trilhos Privados X - Confronto

Ricardo estava impecável na sua farda de motorista de luxo. O carro era uma espectacular limusina preta. Célia assim que o viu voltou a gelar. Os olhos grandes azuis do rapaz lembravam-lhe o oceano glaciar árctico, nos dias de maior calmaria. A face normalmente afável, mostrava traços duros, os lábios que costumavam ser bonitos e carnudos, crispados quase numa fenda. Mal a encarou remeteu os olhos a Hen e logo depois ao chão, aprimorando-se nas suas funções e nem uma palavra.

Sentados no banco de trás, a alguma distância, a rapariga viu Hen carregar no botão e a divisória de vidro descer enquanto de costas, Ricardo muito direito, se mantinha imóvel esperando coordenadas. Ela apreciou-lhe o cabelo ondulado negro, debaixo do boné. E recordou a postura dele no branco da camisa, gravata e tudo impecavelmente assente, num corpo atraente que fazia a maior parte das raparigas da escola, já tarde alta quando por vezes ele e Célia se encontravam, olhá-lo e trocarem segredinhos. No entanto ele parecia ignorá-las, dar toda a sua atenção a...Ela. Estúpida! Como nunca reparara melhor. Deixara praticamente o rapaz sempre a falar sozinho, virando as costas demasiado depressa, ou respondendo um simples olá, ou aceno contrariado de cabeça, quando ele a cumprimentava com o mais bonito e franco sorriso. Que tinha se ele era pobre e estudava de noite? Mas também! Quem era ele para olhar agora assim para ela, se também estava ali a serviço dos outros? Como é que explicaria isso? Anormal! Ela ao menos estava a ser coagida. Por sua culpa e leviandade, sim, mas era obrigada. Ele tinha de entender isso.

Hen mandou-o seguir na direcção de casa dela. A jovem ainda esteve para argumentar que não seria muito desejável que uma limusina parasse na sua porta e ela saísse lá de dentro, dadas as circunstâncias. Mas como ele tinha sido tão gentil, educado para além de extraordinariamente correcto calou-se. Passados alguns minutos e ultrapassado Cascais, um pouco mais à frente o chinês fez novamente sinal a Ricardo que encostasse, perto de um aglomerado de casas junto à Boca do Inferno. Sem grandes explicações, disse que se apearia ali para dar uma volta nas redondezas. Que ele a deixasse em casa o mais rápido possível. Se indagado pelos outros, sobre onde os tinha levado, dissesse que tinham ambos saído no Guincho e ido divertir-se. Hen tê-lo-ia dispensado depois. Recorrido ao seu próprio pessoal. Contudo antes de sair do veículo Hen pediu o numero de telemóvel a Célia a fim de se certificar se chegara bem. Se não houvera nenhum contratempo com o seu "álibi". Caso necessitasse da presença dele, estaria pronto a suportar qualquer esquema, que fizesse credível o atraso. A rapariga agradeceu, cedeu o número, após o que ele muito respeitosamente lhe beijou a mão e se despediu, assim, saindo. Os olhos de Ricardo ou a voz, não se fizeram ouvir ou mexeram, em todo e qualquer momento até alguns metros antes da residência de Célia e foi porque ela baixou a divisória e lhe ordenou que parasse. Quando ele não obedeceu logo, fê-lo, depois de um convincente grito histérico.

Assim que o carro se imobilizou Célia rapidamente trocou de roupa e saiu. Começava a ficar pratica naquilo...Que lástima! Furiosa dirigiu-se ao lugar do condutor, uma vez que o jovem não se mexera, nem sequer perguntara o que ela fazia lá atrás.

- És capaz, de sair daí já e falares comigo! Como raios me explicas, estares a conduzir este carro?

Ele olhou-a superior, com ar trocista quase desdém, o que a fez ficar ainda mais enraivecida. Mas precisava manter o mínimo de controle e despachar-se. Viu-o sair com uma calma enervante. Encostar-se ao carro, como se estivesse num lindo dia de Verão à espera de uma qualquer madame, vip.

- Penso que não tens nada a ver com a minha vida. Se há alguém a explicar-se és tu. Gostei! Afinal tão pudica e não passas de uma reles... puta!

A mão dela aterrou-lhe na cara sem que ele esperasse, o que o fez empertigar-se. Ficar muito próximo dela. A respiração a bater-lhe na face. Os olhos chispavam ódio.

- Não voltas a fazer o que fizeste, ouviste? E esquece que me conheces. Que terias em mim alguém que te via como não és. Banhos, agora...Só em casa dos teus patronos... Benfeitores.

- Não é o que pensas! Eu...

Sem lhe dar tempo para mais uma palavra, o rapaz meteu-se no carro e arrancou deixando-a ali sozinha. Não era longe até sua casa. Seria até preferível chegar a pé, se alguém viesse a sair ou estivesse por ali a fumar. Foi o caso exacto. Quando se aproximou, o patrão de Zulmira estava à porta da sua residência. Ainda se via luz lá dentro e parecia estar tudo praticamente na mesma. Sabia que tinha demorado muito mais que uma hora. E quando Jorge Simas lhe perguntou se já se sentia melhor, acenou com a cabeça. Mal o homem se chegou perto e a informou que já estavam a ficar preocupados com a sua demora, ela só se protegeu nos braços dele e soluçou como em poucas vezes fizera na sua vida.

- Chora, minha filha. Sei como te deves sentir. Nada será como antes, Célia. Tens de ser forte por ti e pela tua mãe, pequena. Mas tens a Genoveva e isto com o tempo passa. Estarei aqui com a minha mulher para vos amparar. Sabes como gostava do teu pai.

Por fim entraram os dois em casa.

 

(por motivo de grande afazer laboral do meu companheiro de escrita, o capítulo foi continuado por mim.)

 

 Verniz Negro

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por José da Xã às 12:26



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