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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 16.05.12

Trilhos Privados IX - Troca de planos

O jantar decorria estranhamente animado. Quer pela boa disposição dos asiáticos, após algumas anedotas mais vulgares contadas por Gui, quer pelas gargalhadas e voz estridente de Miriam. Exibia-se, tentando contagiar Célia. Interrogava-a com familiaridade descabida, ou pretendia colocá-la ao seu nível, induzindo a rapariga a participar mais efusivamente, coisa que não obteve sucesso. Célia apenas respondia delicadamente com sim, um não polido, quando interpelada. Comia calmamente e mal olhava os presentes. Mas sorria. E encantava com o seu recato. Especialmente Hen que não tirava os olhos dela. Não equacionara ainda qual seria o seu papel naquilo, mas não deveria ser coisa boa, para Gui a ter obrigado a estar presente. Contudo talvez não passasse mesmo de companhia, a fim de tentar tirar algum lucro da presença dos estrangeiros aqui no País. O que não lhe agradava nada eram os modos de Miriam. A excessiva intimidade entre ela e um deles. Não se coibia de a beijar no pescoço, e sussurar-lhe coisas ao ouvido que a faziam rir-se abertamente sem pudor nenhum. Depois Gui que estrategicamente, ou não, ficara sentado ao lado de Hen. Sempre que ela olhava em frente, encontrava o olhar de um completamente fascinado a observá-la, e o do outro, a fazer mil e um trejeitos dissimulados de face, para que fosse mais "amável".

Ela só pensava em casa. No pai morto. Na mãe com quem ainda não trocara duas palavras decentes, para se consolarem uma à outra e em Genoveva... Sozinha no meio de toda aquela gente. Isso levou-a a olhar discretamente o relógio. O que não passou despercebido a Hen. O homem estava literalmente admirado. Arrebatado com aquela mulher. Tão diferente das mulheres ocidentais. De Miriam por exemplo. Mas Miriam seria uma... E Célia? Não! De todo. Desde o início que parecia deslocada naquele ambiente. Comedida, elegante, reservada. E aquela forma de baixar os olhos mal ele a fixava. Lembrava-lhe as mulheres orientais, cheias de misticismo. Aquela faceta secreta. Hen concluía que uma mulher para se tornar atraente e incrivelmente sedutora, não precisa falar a todo o tempo, mostrando dominar qualquer tema. Nem sequer chamar as atenções sobre si, de modo evidente. Mostrar-se à altura do homem. Têm alturas que a simples postura, a forma de olhar, sorrir e saber quando falar ou estar, simplesmente participativa mas algo ausente, faz despertar nos homens aquele instinto de conquista que se verifica difícil. Tornam-se um desafio. Absolutamente inultrapassável, deste modo, a sua imensa atracção. Hen daria tudo para poder falar a sós com ela. Conhecê-la antes de tudo. Depois... Não teria duvidas que seria uma noite inesquecível. No entanto, não forçaria nada. Deixaria correr o tempo, ao sabor do tempo dela. Muito longe do que se passaria em seguida, Célia viu Miriam convidá-la para a seguir até ao WC, o que recusou com um leve abanar de cabeça. Nesse breve instante Hen pedira um chá, já os outros bebiam café. Célia acompanhou-o numa chávena. O que o deixou ainda, mais rendido. E quase logo de seguida ainda ela terminava, Gui aproximou-se e pediu desculpa para lhe falar a sós. Nada mais nada menos, foi directo ao assunto e deu-lhe um ultimato:

- Não me importo que saias de madrugada. Alguém vai estar à tua espera para te levar a casa. Mas agora, minha filha... Começa a tua parte.

A rapariga sentiu a cabeça à roda. As faces a ficarem rubras, ao mesmos tempo que as mãos se lhe gelaram e ficaram suadas. Não podia ser! Não aquilo... Ele não lhe faria isso. Porque ela não conseguiria. Não era quem ele pensava. As pernas tremeram-lhe ao ouvi-lo relembrar as fotos. Que se o não fizesse, iria direito aos jornais. De manhã ao lado da notícia do falecimento do pai, também veriam as fotos do nu da filha... E não só! Por isso, mal os cumprimentos de despedida se fizeram, seguiu Hen quando ele lhe indicou o elevador. Queria chorar, gritar, fugir dali, mas ao contrário cruzaram a porta da luxuosa suite onde ele se instalava. O que se seguiria? Não queria pensar. Enquanto ele despia o casaco e tirava o laço abrindo a camisa, ela só pensava que nesse instante decorria o velório do pai e ela teria de dormir com um tipo qualquer, que não conhecia... De repente o estômago revolveu-se-lhe, teve de vomitar. De regresso da casa de banho esperava-a uma surpresa, mas não a única da noite. Hen quis que lhe contasse tudo o que a atormentava. Ela recusou. Ele insistiu. Ela desabou em choro e em explicações. O chinês ia mudando de fisionomia, mal ouvia o seu relato. No fim afirmou apenas:

- Por favor, lamento imenso o mal entendido. Não sei como compensá-la deste terrível incidente. O mínimo que posso fazer é acomapanhá-la a casa. Penso que se estiver a ser observada, não haverá problema em que saia comigo. Pensarão que vamos terminar a noite num qualquer night club. Sei que é costume terem alguém à espera para vos levarem ao vosso destino, portanto aproveitaremos esse carro.

Saíram pouco depois de braço dado. Célia com a cara mais aceitável que conseguia, permitiu-se sorrir quando ele a olhou sorrindo por seu turno. Para lá da porta do hotel e passados segundos, um carro parou para os transportar. O que ela nunca esperou, foi que o motorista que saiu para lhes abrir a porta, fosse Ricardo.

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 01:56



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