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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Segunda-feira, 14.05.12

Trilhos Privados VII - O velório

 

Nada do que Vanessa e Ricardo disseram apressadamente a Genoveva fazia sentido. Falaram aos tropeços e como seria desejável dadas as circunstâncias, saíram logo, mas nos seus olhos a mulher não viu sinceridade, antes aflição. Talvez se devesse à morte do patrão. Ao descabido que tudo ficava perante isso. Genoveva não repreendeu Célia. Não era ela a mãe, embora o “fosse.” Só a tomou nos braços e lhe ouviu os soluços. Toda a tremideira e choque, que também poderiam não ser exagerados, porque ele era seu pai, porém… Era como se a miúda chorasse por ele desaparecer, mas por ela mesma. Pela mãe que sabia provavelmente entraria numa das suas depressões habituais, não servindo para nada, como na maior parte das vezes. Nem para uma breve decisão. Basicamente só gritava e se lamentava…Cumpria ao mínimo e dedicava-se ao marido. Já não era mau. Ficava Genoveva! Como um muro. “O que seria das duas agora? Mais que nunca necessitariam de alguém com o juízo assente.

O dia correu num suspiro. A noite chegou e a casa encheu-se de parentes, conhecidos, amigos e vizinhos mais próximos para velarem o morto. Embora falecesse em casa, a causa da morte estava mais que apurada, devido a isso, foi tudo mais simples. O funeral seria mesmo no dia seguinte pela manhã. Genoveva andava num corrupio. Graças aos céus que Zulmira, a serviçal de uma das “boas” casas das redondezas, tinha vindo ajudá-la a mando dos patrões, há muito sabedores da doença de Ludovico e impossibilidade de auxílio, por parte de mais criados dispensados há muito.

Entre café quente, choros e conversas a noite fria ia-se passando. A mãe de Célia sentada perto da urna parecia distante. O olhar perdido, sempre em silêncio, mesmo quando interpelada, sorrindo apenas "mecanicamente" não adivinhava nada de bom. A rapariga com ar extremamente cansado fosse do vestido preto, pesadíssimo para a idade, ou do peso das “funções” que lhe cabiam, a par da criada iam recebendo as pessoas. Indicavam o caminho ouviam e acenavam, fazendo “sala”. No entanto por volta das dez da noite Genoveva reparou que Célia se retirou para um canto e aproximou-se.

- Que se passa minha querida, estás mal disposta?

- Um pouco. Se pudéssemos abreviar isto e descansar só que fosse uma meia hora…mandá-los embora com uma desculpa qualquer. Isto é mórbido.

Genoveva entendeu-a. Estava extenuada. Quase a desatinar. Há tanto tempo na casa, muitas das pessoas olhavam a mulher, já como da família, por isso talvez não levassem a mal quando desculpasse a pequena dizendo que teria ido descansar um pouco, descendo mais tarde. Foi o que salvou Célia. Mal se retirou, sentiu o telemóvel a estremecer-lhe na perna direita. Sacou-o visivelmente contrariada e leu o visor. “Estou cá fora à tua espera. Como vês, cumpro o que digo! Que tal irmos dar uma volta? GUI." Célia ficou de todas as cores. Primeiro nervosa. Depois indignada e respondeu. “O meu pai faleceu!Tenho a casa cheia de pessoas a… Não estou sequer em condições de falar contigo, quanto mais, sair… Vai-te embora! Não temos nada a dizer.”

O que leu a seguir deixou Célia estarrecida. “Engano teu, querida. Lamento a morte do velho, mas se não estás aqui fora em 15 minutos, bem-disposta e “disponível”, terás a agradável surpresa de me veres entrar e juntar à festa! Tenho comigo imagens tuas… “frescas”! À altura… percebeste?

Célia não queria acreditar no que lhe estava a acontecer. Como se ia esgueirar de casa no meio de todo aquele aparato, com a mãe à beira de um ataque, o pai morto e Genoveva… Mas se o não fizesse, Guilherme cumpriria a ameaça! Subiu ao quarto a correr. Trocou o vestido por umas calças de ganga, uma blusa e ténis. Agarrou na mala e no telemóvel e desceu. Do fundo do enorme corredor fez sinal a Genoveva que ia sair um pouco. A mulher veio em polvorosa ao encontro dela e antes que pudesse argumentar, Célia foi tão efusiva a dizer que precisava de um pouco de ar ou não responderia por si, que a criada ficou a vê-la desaparecer atrás da porta. Prometendo-lhe que no máximo, daí a uma hora estaria em casa. E mal chegou ao carro entrou e explodiu. Mas encontrou a cara trocista de Guilherme com um saco na mão e uma ordem, seca!

- Banco de trás, rápido. Troca de roupa e faz uma maquilhagem à altura. Espera-nos um jantar de negócios.

A rapariga ainda refilou, mas um apertão no braço, não deixou dúvida que ele não aceitaria uma recusa. Por isso fez o que ele disse. Despiu-se, vestiu-se e pintou-se, tudo com o olhar dele insistentemente cravado nela, amiúde, pelo retrovisor enquanto conduzia. Não fossem também, aquelas palavras dele, como vergastadas no rosto mais uma afronta a engolir.

- Querida! Fica à vontade. Tudo o que mostras eu já vi…Ontem! Em pormenor e devo dizer que… - Beijou os dois dedos como se lhe chamasse um “Petisco!”.

 

 

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 11:22



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