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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Sábado, 12.05.12

Trilhos privados - V Plano

 

Passavam pouco mais das sete da manhã, quando o táxi parou junto do carro de Célia depois de Vanessa lhe dar as coordenadas do sítio e nome da discoteca. Como era possível que não se lembrasse de nada? Nem sequer de qualquer pormenor mais íntimo, da noite passada com Gui, a não ser a triste realidade que os lençóis mostravam? Se lho afirmassem diria não ser possível ter feito uma coisa tão estúpida como aquilo... Mas estava feito! E virgindades perdem-se. WTF, o tipo até era giro, além de um incrível anormal... Mas não o veria mais. Aquilo de passar lá em casa, não fora mais que a típica conversa da treta, de quem dorme com alguém e sem ter mais que dizer, atira aquela. Ou o também "deja vu": "Depois telefono-te." O pior seria, o agora! Lidar com o facto de chegar a casa àquela hora, sem uma boa desculpa, para contornar Genoveva que já estaria em pé. Depois convencê-la a bem... Com muito jeitinho a desculpá-la perante a mãe.

Vanessa dissera-lhe que vinha a caminho, para depois aparecerem as duas, mas não havia meio de chegar, portanto depois de um busca no fundo da mala e de ter encontrado as chaves do carro, resignou-se a entrar e a ter de enfrentar tudo sozinha. Como explicaria o seu aspecto miserável? O cabelo sujo, desgrenhado e a cheirar a tabaco que tresandava? A roupa amarfanhada, imunda, tal qual alguém tivesse despejado o conteúdo do estômago em cima dela. E aquelas nódoas negras no antebraço esquerdo? O ínfimo orifício, tipo picadela de agulha que no centro de uma... Não! Ele não seria capaz de drogá-la. Seria? Um arrepio de pânico percorreu-a. A chave tremeu-lhe na mão não encontrando à primeira a fechadura. E então ouviu uma voz atrás de si.

- Célia! Tu por aqui a estas horas?

Virou-se assustada, desejando estar o mais longe possível e viu  o rosto admirado de Ricardo a percorrê-la de cima a baixo.

- Eu... Hei... Pois, bem... Eu... Aqui. Sim. Olá...

O rapaz percebeu tudo na voz trémula. Na postura insegura, dela. A desorientação do flagrante, misturada com medo. Acima de tudo, o desespero, bem como o embaraço de não associar a pessoa ao nome.  Tinha todo o tipo de ter passado a noite ali. Mas com quem? Deveria ter vindo com amigos, mas não havia mais ninguém ao redor. 

- Pareces algo desorientada, posso ajudar-te? Lembras-te de mim, não? Ricardo... Da Faculdade.

- Sim, sim Ricardo. Claro! Como não me lembraria. - Acrescentou, disfarçando mal - Fiquei de me encontrar aqui com a Vanessa. O meu carro teve um furo e...

Ele dissimuladamente olhou para as rodas. Para a posição estável do automóvel, o que lhe indicava que se estes estavam bons, os do lado de lá bons estariam, ou o carro descairia ligeiramente, mas não disse nada. Sorriu ao mesmo tempo que Vanessa aparecia saída de um táxi.

- Bom dia, Célia. Olá Ricardo. Ai, miúda quem olha para ti... Que mau aspecto. O que te aconteceu ontem, afinal depois de teres saído com aquele tipo? Quem era ele, teu conhecido?

Célia ficou de todas a cores, quando Ricardo remeteu os olhos para o lado esquerdo  e olhou o céu, como se avaliasse o estado do tempo. De seguida ouviu em silêncio também o "bichanar" das duas e percebeu nitidamente do que se tratava. Talvez não fosse muito boa ideia mas morava perto e...

- Segundo me parece um bom banho e mudares de roupa, seria o ideal para tornar credível um qualquer acidente... Com o pneu. - Riu - Ou quem sabe, uma possível operação de trânsito tardia, em que detiveram pessoas para identificação e... Se enganaram claro! Levando o justo e o pecador, soltando-vos agora de manhã com imensos pedidos de desculpa. 

- Bem! Caíste do céu não, Ricardo. Não me passaria pela cabeça uma desculpa tão plausível. Se bem que...

- Necessita um pouco mais de empenho eu sei. Que tal virem até minha casa. Eu moro já ali à esquina. A Célia toma banho veste o uniforme de novo e depois de um café bem forte, acompanho as duas... Prometo salvar-vos. Afinal um cavalheiro é necessário quando duas "princesas" estão em apuros.

- Uma! Só ela se faz favor.

- Obrigadinha. És realmente um conforto Vanessa. Mas não posso demorar-me muito mais. Cada segundo que passa...

- Arriscas a tua cabeça. Percebo. Mas entre apareceres assim e mais apresentável. Que tal pormo-nos a caminho? Dez minutos para o banho. Dez para o café forte e em mais 20 minutos estás em casa. São, 7, 20 se às 8 não estiveres a cruzar o umbral da tua porta permito que me esbofeteies. Não me dirijas mais a palavra.

Eram realmente 8h quando Célia e os seus dois "guarda-costas" batiam à porta que dava para a entrada da cozinha. O que nunca esperou foi que Genoveva lhe abrisse a porta lavada em lágrimas e gritos estridentes viessem do interior da habitação. Também o que jamais pensou, foi que o que a esperava fosse tão difícil, que remeteria o "problema" da sua noite para segundo plano.

- A estas horas! Filha ingrata... Nem sequer estava em casa quando o pai faleceu.

Ricardo e Vanessa entreolharam-se e nunca nas suas vidas, se tinham sentido tão insignificantes, como naquele momento.

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 19:51



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