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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Sexta-feira, 11.05.12

Trilhos Privados - IV - A caminho de Lisboa

Enquanto o Porsche 911 negociava as curvas da marginal devagar, Gui lembrava-se da última noite. Em alguns anos de frequentar a mesma já tivera muitas “namoradas” mas nenhuma se entregara a ele assim: em estado puro. Um sorriso felino surgiu-lhe na face enquanto via o mar espraiar-se até à Trafaria.

Num sinal vermelho pegou no telemóvel. Buscou um nome e ligou. O equipamento do carro fez de telefone. Atenderam:

- Olá Gui, tudo bem?

- Bom dia, Sérgio. Está tudo maravilha…

- Oh, essa voz…

- Tenho material novo!

- A sério? Isso é fixe, meu! E que tal?

- Ui nem imaginas… Do melhor. Um torrão de açúcar…

- Olha lá, quando é que podemos ver isso? Está para chegar aí um grupo de chineses que vêm cá por causa da EDP…

- Mas ouve! Aquilo vai sair caro… muito caro.

- Quanto? Mais ou menos?

- Ainda não te posso dizer. Estou a pensar ainda em preços…

- Mas, valerá a pena?

Guilherme juntou os dedos da mão direita e deu um beijo que o outro ouviu. Depois acrescentou:

- Como aquilo não apanhas todos os dias…

- É conhecida?

- Ela? Não, mas a família sim. Com algum bago mas com muito nome… e vinte aninhos.

- Ouve lá, não me arranjes sarilhos.

- Não está descansado. Tirei-lhe umas fotos muito, mas muito comprometedoras…

- Então vê lá o preço. Depois diz-me alguma coisa.

Um silêncio breve sobreveio e do outro lado da linha o outro continuou:

- Vens para Lisboa?

- Vou. Estou a entrar neste instante na A5 no Estádio Nacional.

- Queres vir almoçar comigo?

- Não posso, mas obrigado na mesma. Tenho aí uns assuntos pendentes…

Novo silêncio e novamente a voz:

- Não me digas que ainda tens aquele negócio…

Guilherme sabia a que o outro se referia. E respondeu:

- Claro! Então com esta crise é do melhor…

- Toma cuidado com essa merda, ainda um dia dá mau resultado!

- Está tudo sob controle…

- Então tchau, aí. E quando tiveres mais novidades diz-me, ok?

- Fica descansado. Fica bem.

Desligou e pode finalmente concentrar-se na condução. Tocou o telefone. O jovem viu a origem e atendeu:

- Então?

- Pagou tudo. Até ao último tostão.

- Boa… Vemo-nos à noite no bar da discoteca. Até lá guardas o bago como deve ser…

- Fica descansado. Até logo.

Riu-se. O negócio de cobranças difíceis crescia a olhos vistos. Tudo começara quando Guilherme ajudou Carlos Azóia a receber uma conta. Carlos era talvez o único verdadeiro amigo de Gui. Desde o tempo de escola, quando Guilherme magro, enfezado era o saco de porrada de muitos colegas. O único que o defendia era Carlos e assim ficaram amigos. Hoje Carlos vivia em Serpa, onde comprara uma pequena herdade. Raramente vinha a Lisboa. Quando pretendeu sair da cidade vendera casa a um vigarista, que não tencionava pagar. Entretanto comprara a herdade a contar com o dinheiro do andar. Foi então que Guilherme disponibilizou uma equipa de homens para “conversarem” com o comprador. As coisas não correram bem logo de início, pois o vígaro teve azar e foi parar três dias ao hospital. Quando saiu tinha uma equipa de seguranças a quem pagou o andar. O assunto fixou resolvido para Carlos e abriu-se então uma nova aventura para Guilherme.

 

José da Xã

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por José da Xã às 12:33



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