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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Domingo, 31.07.16

Contos tontos - 20

A questão abriu as hostilidades de forma brutal.

- Como posso emendar este erro? Diga-me como?

O padre acabara de receber em confissão, uma notícia que o deixara prostrado. Devagar sacudiu uma pequena partícula branca que sobressaía da batina enquanto procurava na sua mente as palavras para uma resposta. Passou a mão pelo cabelo alvo e ajeitou um cruxifixo de madeira que carregava ao pescoço.

Por fim adiantou:

- Esse erro jamais poderá ser emendado! E o meu irmão sabe isso…

A fraternidade a que apelava o padre não carregava do mesmo sentido que aquela em que vivera mais de vinte anos. Todavia aceitou a irmandade mas não a resposta:

- Já vivi demasiado tempo para perceber que há muita coisa que posso fazer para me remir do meu erro. Não me venha dizer que nada há que se possa fazer?

A igreja estava em silêncio. A porta principal estava aberta e poderia dar acesso a outros crentes, mas estes eram cada vez em menor número e assim o perigo de alguém ouvir a conversa parecia ser nulo. A ética eclesiástica mandava perdoar, ensinar novos caminhos, colocar a palavra de Deus na frente dos pecadores e usá-la como arma que abalava consciências. Mas aquela falta parecia ser demasiada complicada para ser resolvida apenas com uma mera absolvição… A verdade nem sempre era vista como a melhor solução para este tipo de falha. E a sua denúncia pública advinda de confissão não fazia sentido. E pior… o seu estatuto como padre ficaria profundamente arruinado.

O tempo parecia correr lesto e o confessor pareceu ficar mais nervoso. Pelas frestas do pequeno cubículo o padre podia ver toda a nave principal da sua bela igreja. Não reparou em alguém que tivesse entretanto entrado.

- Estou tão abismado com a sua falta, que nem tenho uma resposta a seu gosto.

- Sei que sim, senhor Padre. Mas eu necessito de ter uma resposta rápida. A minha vida depende disso. A minha e demais pessoas… E só o senhor tem capacidade para me ajudar.

Um suspiro longo escutado pelo confessor retirou-lhe credibilidade. Do lado de fora o homem levantou-se numa reacção quase violenta e argumentou:

- Já entendi que não me vai ajudar. Vou procurar quem me valha. Eu apenas afirmei que não acredito em Jesus. Mas falo do treinador do Sporting… não do seu cruxificado.

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por José da Xã às 00:10

Quinta-feira, 28.07.16

Contos tontos - 19

Ajeitou a gravata quando pressentiu que a porta se preparava para ser aberta. Um homem corpulento, de tez pálida penetrou na sala estendendo a mão para a visita. Não obstante o aspecto volumoso parecia afável.

- Engenheiro Daniel Messias? Como está? – Cumprimentou.

A visita retribuiu:

- Muito bem, obrigado! Mas trate-me só pelo meu nome, se fizer favor.

O anfitrião sorriu com a franqueza e acrescentou:

- Claro. Faça o fineza de se sentar.

E continuou:

- Veio responder ao anúncio?

- Exactamente!

- Como compreende há uma série de questões que gostaria de ver esclarecidas…

- Com todo o gosto!

O entrevistador recostou-se na cadeira e desbobinou um ror de perguntas. Ao fim de quase uma hora declarou:

- Creio que preenche todos os nossos requisitos. Sabe do negócio, tem ideias precisas do que necessitamos… Isso é muito bom! Já agora posso só colocar uma questão do foro mais pessoal?

- Obviamente…

- Quais são neste momento os seus sonhos, os seus desejos?

Resposta contínua:

- Não tenho sonhos…

- Como não?

- É como lhe disse… Não são os sonhos que me fazem mover.

- Então como chegou aqui? Como se licenciou?

- Desde cedo tive consciência que os sonhos só me atrapalhavam. Por isso abdiquei deles e apenas dei valor à lógica da vida.

Atrapalhado por aquela postura e entrevistador sentiu-se atemorizado. No entanto foi acrescentando:

- Nunca desejou um brinquedo, ter uma namorada, comprar um carro?

- Nunca! Sinto que só devo ter aquilo que posso. Os sonhos só acarretam desilusão, ansiedade e obviamente depressão. Sou pragmático e realista. O curso que frequentei não correspondeu a um desejo, mas a um estudo lógico pois rapidamente percebi que esta seria a profissão com maior empregabilidade.

- Mas acredite, que o melhor do sonho não está na conquista final… Apenas no caminho até lá!

- Acredito que assim seja. Mas prefiro não sonhar… Nem de noite!

- Se ninguém sonhasse viveríamos muito longe desta realidade. O sonho é que faz andar o mundo…

- Fez. Não faz mais! Hoje vivemos num mundo adepto de certezas e pragmatismos. Ninguém mais quer saber se o sonho comanda a vida… Sonhar com algo, como forma de vida, é somente uma mera utopia… ultrapassada.

- Nunca vi o mundo por esse prisma… sinceramente. E nessa sua filosofia onde cabe a felicidade?

A pergunta tinha rasteira. A resposta dada esquivou-se a ela:

- O que é a felicidade?

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por José da Xã às 23:09

Sexta-feira, 22.07.16

Contos tontos - 18

Mirou-se ao espelho e gostou do que viu. Estava completamente nua e assim pode com calma autoavaliar-se: o cabelo longo cor de avelã tapava-lhe quase todas as costas, a face parecia ter sido esculpida por um mestre renascentista, os olhos cor de azeitona pouco madura.

Descendo pode apreciar o pescoço pequeno. O peito saliente e firme destacava-se no corpo bronzeado. Finalmente um mui singelo traço de pêlos púbicos que terminava na zona mais íntima.

Passou a mão pelo ventre magro e sorriu ao mesmo tempo que imaginava quantas das suas amigas adorariam ter a sua beleza e formosura. Sentia-se perfeita!

Era sexta feira e a noite aproximava-se cálida e acolhedora. Os ingredientes perfeitos para a festa. Rodou nos calcanhares e pegou no telemóvel. Nenhuma mensagem.

Olhou as horas e achou que realmente ainda era muito cedo. Decidiu vestir-se informalmente e comer qualquer coisa antes de sair. Por fim um toque de mensagem alertou-a para alguma novidade.

Correu para o aparelho desbloqueou-o e leu:

- Festa cancelada, fica para próxima!

Irritada atirou com o aparelho para o sofá e deu um grito fino. No instante seguinte estava de volta ao telemóvel a enviar mensagens. Não gostou das respostas… Alguém a desconvidara… Como seria possível?  A ela, a única que os rapazes adoravam conhecer… A rapariga mais bonita da sociedade… Aquela de quem todas tinham inveja…

Finalmente o telemóvel tocou. Não conheceu o número, todavia atendeu… Mal conseguia ouvir tal era a barulheira do outro lado… Pensou em desligar mas logo a seguir perguntou:

- Quem fala?

Um coro de vozes respondeu:

- A tua solidão…. Ahahahahahahahah!

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por José da Xã às 20:20


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