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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quinta-feira, 27.09.12

Eu e o Sporting

Era muito miúdo, quando fui à bola pela primeira vez. Honestamente não me lembro desse dia… Sei pelos próprios, que foi o meu pai e um tio que pegaram em mim e me “apresentaram” ao Sporting. E recordam que me portei ao nível de um leão, se bem que de juba pequena…

 

Por aquilo que afirmam foi um Sporting-Setúbal. Mas nem sei (nem se lembram!) o resultado final do jogo.

 

Depois desse, assisti a muitos outros jogos: em Alvalade a maioria, no Barreiro, em Setúbal (parece quase fetiche!), Jamor, Restelo e Tapadinha. Mais recentemente em Alverca e na Amadora.

 

Recordo mesmo um tempo em que começava o fim de semana a ver os juvenis ao sábado de manhã, os juniores à tarde e a equipa principal à noite. Chegava a casa de barriga cheia!

 

Não obstante estas presenças em campos de futebol sofro com o Sporting seja em que modalidade for. Atletismo (talvez mais, assumo!), andebol, futsal, xadrez ou bilhar… tudo é o nosso clube. E ai como me dói quando perdemos!

 

Ser do Sporting não é ser do melhor clube do mundo, é acima de tudo uma filosofia que perdura para o resto da nossa vida. E saber sofrer é também uma virtude. Porque na hora de ganhar é a glória perfeita.

 

Já passei, obviamente, o testemunho aos meus filhos, que tal como eu sofrem a bom sofrer com o Sporting.

 

Será isto a tal mística de que tanta gente fala?

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por José da Xã às 18:26

Quarta-feira, 26.09.12

Ainda o Outono...

 

(Como prometi  José. Aqui fica com carinho e amizade.)

 

Nas nuvens, que a chuva prenunciam

e nos acessos de vento desmedidos

vê-se o alterar do tempo,

como em nós ele passa lento

e vai deixando sulcos na pele

regados por lágrimas, que como cinzel

nos modelam a face...

 

Nos lembram dos dias, que já passados

faltam menos para contar...

E isso, que importa?

Quando cá dentro, a idade, não conta

mas uma criança a pular,

de poça em poça, em pingos tão grossos,

sem ter medo de se molhar.

 

Nua, simples, ou atribulada

a vida que gostas, não dá trégua, ou escolha

terás que atrever-te, a viver

entre ventos que sopram, gotas que caem

raios de sol que te afrontam,

mas que te beijam também... Uma certeza terás.

Vais vencer. Porque tem de ser. Cada dia, que sem temer, à vida te dás. 

 

(Muito obrigado pela companhia e pelo ser humano bom que és)

 

Fátima soares/Verniz Negro

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por José da Xã às 12:36

Quarta-feira, 26.09.12

Lágrimas de outono

(mui simbólica homenagem a Verniz Negro, pela paciência e sapiência)

 

Gosto destes dias de chuva que aplacam a ferocidade

De um sol demasiado tardio inundando um imenso verão.

 

Gosto de sentir a água fria como de fonte se tratasse

Jorrando do céu plúmbeo a vida em límpidas gotas.

 

Gosto do silvo sibilante do vento debaixo da fresta

Traz-me novas do outono feito de castanhas e vinho.

 

Gosto sim de me molhar e perceber no ar revolto

O perfume da terra molhada a pedir fria enxada

 

Gosto de ti simples, nua, como tu vida sabes ser.

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por José da Xã às 00:02

Domingo, 23.09.12

Outono na minha vida

 

(para a Maria de Fátima, com amizade)

 

Sinto o outono da vida nos ossos

Como um cão que ferra o dente.

Sinto o Outono da vida nos dias,

Como o vento que agita a copa.

 

Sinto o Outono da vida nos passos,

Como roda rangendo nos caminhos.

Sinto o outono da vida nas mãos,

Como uma deformada artrose.

 

Sinto o Outono da vida nas noites,

Como mantos negros de tristeza.

Sinto o outono da vida na voz

Como falcão percebendo a presa.

 

Sinto o Outono da vida nos sonhos,

Mas há muito que deixei de sonhar!

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por José da Xã às 22:44

Quarta-feira, 19.09.12

Sentidos dos dias - Paz XIX

Passara um mês desde que Helena reunira os filhos e lhes contara tudo. Desde que o mais novo se insurgira contra o pai, dizendo que ele tinha deveres para com a mãe! Para com todos eles. Não era assim sem mais nem menos que... "Aquilo era uma acção descabida. Uma traição!" Helena sorrira, a morrer por dentro. Exigira respeito, ao filho, para com o pai. Fez-lhe ver que no fundo, maior traição tinha sido ele ter-se obrigado a viver uma vida inteira que não queria, só por causa de todos eles. Fora um homem que desde o início podê-la-ia ter abandonado. Quando vira que não conseguia esquecer-se da outra e nunca o fizera. Assumira sempre o casamento, os filhos, pondo o seu próprio bem-estar para último. Honrando a família. Mas o certo é que existia outra família, que o "chamava" sem dizer palavra. Sem se fazer notar. Explicou como e o que achara de Zuleica, quando a conheceu. Era notório o amor que ambos ainda sentiam um pelo outro. Ela apenas fora vê-lo, porque o sabia mal e antes que ele morresse... Sem nada exigir. Calada, chorosa, curvada na seu orgulho de mulher. E Helena soube o que lhe doía. Custou-lhe a admiti-lo, todavia acabou por admirá-la!

O que importava, afinal? Que Pedro Rafael voltasse para Portugal, agora que tudo tinha sido posto à luz do dia. Continuasse a viver infeliz e uma mentira junto deles? Ou prefeririam como ela, abdicar do seu amor, mas que ele pudesse fazer também justiça. Àquela mulher! Aos filhos, que cresceram sempre sem o amor e amparo do pai? Caramba! De certeza que a nenhum dos seus descendentes, estava a ser exigido o sacrifício. O suportar da dor que ela, mãe deles e mulher de Pedro estava a viver. E ainda assim escolhera... Faria o que fosse preciso para que Pedro fosse feliz. Pelo respeito que sempre lhe dera. Anos seguidos de se ter anulado para criar os filhos. Ficar junto dela, porque assim tinha prometido nos votos do casamento... Mas, hoje? Convenhamos! Os filhos estavam criados. Cada um seguia a sua vida. Ela e ele, ficariam como todos os pais ficam quando os filhos vão à procura do seu mundo. De o conquistar. Engolindo o orgulho e as lágrimas, a voz a embargar-se Helena finalizou.

- Foi muito melhor assim. Ele fará sempre parte das nossas vidas. Vocês podem visitá-lo, conhecer os vossos irmãos. Eu? fico bem! Em paz com a minha consciência. Feliz por ele, que merece sem dúvida ser feliz, os últimos anos da sua vida!

Maria da Graça abraçara-se à mãe. O filho mais velho encolhera os ombros, resignado. O mais novo estava ainda revoltado.

- Mãezinha! Sempre foste uma grande mulher. Não sei se o que aconteceu contigo e o pai, a passar-se comigo,teria essa coragem. Essa tua maneira de ser. Pode parecer desprendimento, frieza. Mas sabemos tão bem que é apenas imensa dignidade. E por amares o pai. Adoro-te mãe! 

- A mãe é uma grande parva, isso sim! Qual é a mulher que entrega o homem à outra de "bandeja!" Tenha lá ele os filhos que tiver. Nós não temos nada a ver com isso. A mãe conheceu-o depois. Eu continuo a achar que...

- Não continuas a achar nada. Um dia quando tiveres os teus filhos vais querer o melhor para eles. Vocês sempre tiveram o melhor. Os outros lá longe, nunca tiveram nada. Gosto muito de ti meu filho, mas pelo amor que me possas ter, respeita a minha decisão. O teu pai!

Ali em frente do mar, onde muitas vezes passeara de mãos dadas com Pedro, Helena era verdadeira consigo mesma. Quando viera embora desejara com todas as forças que Pedro a seguisse. Nas primeiras semanas ainda teve esperança. Mas, deixara as cartas. Nelas ilibava-os de culpas. Explicava o que queria e compreendia que a felicidade também lhes assistia, aos dois, agora. Aquela felicidade que mesmo em sobressalto tivera sempre. O certo é que Pedro telefonara. Estava recomposto, calmo. Perguntara-lhe se tinha a certeza. Mordeu os lábios e disfarçou o desgosto ao telefone. Mais algumas palavras, em que bastantes delas foram de elogio. Como a amaria, para sempre. Nunca esqueceria que aquele amor que ela lhe votava era tão enorme, que lhe permitia ter aquele altruísmo... E ponto final. Era assim que tinha de encarar a sua vida com ele. No fundo sentia-se em paz. Mais ou menos bem. A dor passaria. Afinal se ele tivesse morrido seria muito pior. Zuleica merecia ser feliz. Os filhos terem a oportunidade de conhecerem o homem bom, que o pai era, apenas vítima das circunstâncias... Pudessem todos os que lá deixaram filhos e sofrimento, colmatá-lo. As ondas banhavam-lhe os pés. Os olhos procuravam o horizonte. Para lá daquela linha longíqua, estava Pedro! O amor da sua vida. Sorriu tristemente. Sussurrou baixinho: "Sê feliz, meu amor. Sempre e em cada dia da tua vida!" Inverteu caminho, limpou bem os pés com a mão e calçou-se. Andou mais um pouco e viu a camioneta que a levaria a casa. Fez sinal e entrou. Subiu as escadas e meteu a chave na porta. Foi brindada por um coro de gargalhadas. As traquinices do costume.

- Mãe! Importas-te de ficar com eles esta semana. Eu a e Lígia queríamos, descansar um bocado. Tipo uma segunda Lua de Mel? Quem sabe não dê uma salto a Angola... - O filho mais velho riu-se com ar cúmplice. - Foi a Graça, que teve a ideia digo-te já!

- Oh, meu filho, claro que fico. Os meus netos são a minha maior riqueza, para além dos meus rebentos. E o casmurro do teu irmão? 

- Acreditas que a tua filha o convenceu também a ir. Aquele "miúda" é de fibra. Faz-nos andar todos na linha.

- Fico tão feliz. Finalmente tudo parecer estar a compor-se. Ele ter começado a perdoar o pai... É muito bom! Quanto à Maria da Graça...

- Tem a quem sair.

- Ah, sim! A quem?

- A ti, mãe! És uma mulher extraordinária. Os teus filhos só podem achar exemplo e inspiração em ti, mãe.

Entre abraços e lágrimas Helena sentia-se grata. Pelos filhos, netos e por Pedro ter estado na sua vida. Ter originado com ela, esta parte da sua felicidade. Sim! Ela também se sentia uma mulher feliz.

 

Fim

 

Verniz Negro

 

Ao meu grande amigo José da Xã!

 

 

Esta foi a última de algumas histórias que "entrançámos", juntos, por agora... Quem sabe um dia não surjam mais. É altura de paramos um bocadinho. Viver com mais calma outros compromissos. A vida em si. Mas nunca se pára uma amizade, pois não José? Podem-se afastar as pessoas. Pode não haver todos os dias, ou semanas aquela partilha, cumplicidade, mas a presença essa está sempre connosco. Dentro do coração e no pensamento. Agradeço-te até hoje a amizade... Que espero se vá fortificando. Durando para sempre, porque vou estar sempre aqui para ti, assim precises de mim. Me queiras por perto!

 

Obrigado, amigo! Foram semana divertidas de muita "inspiração forçada", outras vezes não. Quando por exemplo, nos saíam as ideias mal acabávamos de escrever o capítulo anterior. Para ti desejo o melhor. Todo o sucesso do mundo. Mais uma vez foi giro. Muito giro. E vamo-nos "vendo" por aí! Beijo enorme. Bons escritos!

 

Verniz Negro/Fátima Soares

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por José da Xã às 13:59

Domingo, 16.09.12

Sentido dos dias – Descoberta XXVIII

Assim que desligou o telemóvel Maria da Graça sentou-se na velha cadeira da livraria e tapou a boca num espanto desmedido. Calculava que a ida do pai a Angola, não era no mínimo inocente mas aquilo… Tinha de falar com os irmãos, contar-lhes da novidade. Pensou na mãe. Lá longe para onde fora a correr quando soubera do estado do marido, sozinha a lidar com uma miríade de acontecimentos. E agora já regressada... A sua voz calma a contar-lhe ao telefone, porque tinha de desabafar. A pedir-lhe para reunir os irmãos para conversarem todos. Coitada! Como conseguia ela, ser aquela mulher impressionante e sacrificada? Pegou novamente no telemóvel e ligou a João, o irmão mais novo e com ela tinha uma relação de muita proximidade. Esperou que atendesse, não obstante ainda ser cedo.

- Estou Gracinha, bom dia.

- Boa dia mano, como estás?

- Acordado – e riu numa gargalhada sonora e bem disposta que a irmã gostou de ouvir.

- Tenho enormes novidades para te contar.

- E são boas?

- Não sei, tu próprio analisarás…

- Então diz-me.

- Sabes aquela ideia idiota do pai ir a Angola?

- Sim sei…

- Não era tão idiota como isso.

- Então?

- O pai quando esteve em África na guerra teve lá uma namorada.

- Mas isso já desconfiávamos… Hum… cheira-me que essa história tem outros contornos…

- Pois tem! A mãe deu de caras com uma outra realidade.

- Coitada… Mas diz-me o que passa.

- Temos dois irmãos gémeos…

Um silêncio foi tão grande que Maria da Graça, chamou:

- João! Estás aí?

- Estou sim… - a voz parecia mortiça e triste.

- Então o que se passa?

- Levei um murro nos estomago.

- Pois calculei.

- Eu sempre percebi que o pai ia à procura de qualquer coisa. Jamais pensei que fosse de dois filhos.

- Mas o pai também não sabia…

- Não? De certeza?

- Não! Apenas tinha conhecimento da gravidez da senhora com quem teve uma longa história de amor. Quando regressou na altura à metrópole ela disse-lhe o estado em que estava mas o pai temeu que ela apenas estivesse a tentar prendê-lo.

- E o pai viveu todos estes anos na dúvida…

- Exactamente. E quando se sentiu mais doente pretendeu esclarecer todo esse passado.

- Mas a mãe sabia da existência dessa senhora?

- Sabia!

- Ui! Agora entendo algumas atitudes e conversas …

- Que conversas?

- Quando miúdo ouvi diversas vezes a mãe a solicitar ao pai que mudasse de maneira de ser, que ela não aguentava viver com aquela tristeza permanente dele.

- Não admira que assim se sentisse – desculpou Maria da Graça.

- Então a mãe descobriu isso tudo?

- Um dos médicos que está a tratar do pai é um dos rapazes…

- Ena que coisa estranha… Então e agora?

- Agora não sei…

- E já falaste à Ana?

- Ainda não… Tu sabes que ela vive naquele seu mundo do teatro muito especial e sempre ligou pouco a todos nós.

- Eu sei eu sei, mas tens de lhe contar…

- Pois tenho, mas mais logo.

- Queres que vá ter contigo aí à loja?

Ela queria . Mas custava-lhe dizer. Mas ganhou coragem e respondeu:

- Sim gostava muito… Sinto-me agora que sei que tenho mais dois irmãos, mais só!

- Mais só? Então e eu? Não conto?

- Contas João contas… Mas falta-me algo…

- A nova descoberta não te deu grande alegria.

- Pois não… Falta-me o sentido dos dias.

E desligou.

 

José da Xã 

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por José da Xã às 13:26

Quarta-feira, 12.09.12

Sentidos dos dias - Decisão XXVII

Helena temeu entrar no quarto e encarar Pedro. Mas fê-lo. E na mesma altura o seu coração poderia ter parado para sempre, porque não lhe faria mais falta sentir. Sentir-se assim, humilhada. Momentos depois ficou grata, quase feliz do marido estar sentado na cama, sem monitorização qualquer, com um sorriso de orelha a orelha. Acompanhado do médico mais patético de África, que ela tinha de aturar constantemente.

- Viu! Que lhe dizia eu D. Helena! O nosso homem reagiu às mil maravilhas ao "choque" que a senhora tanto temia.

Helena era extremamente educada, ou tê-lo-ia mandado à merda, acrescentando mais uns mimos..."Para "choque" dele, se calhar. Velhaco! Estava a gozá-la nitidamente do marido ter "arrebitado" com o encontro da outra!" Mas quando ela chegara, não ter mostrado qualquer evolução ou melhoria, além do sorriso. E claro, a afabilidade normal que se mostra a alguém que nos é "querido". Pedro Rafael deve ter notado o seu rosto contraído, o sorriso que lhe bailava nos olhos morreu-lhe junto com o dos lábios, porque sabia que a magoava. Sabia tudo o que ela não queria. Desde, que ele não tivesse vindo, a ter de vir ela também e presenciar este "ressurgir dos mortos", por alguém que mais uma vez se certificava ele mantivera bem vivo, dentro de si. O resto da tarde correu mais ou menos. Trocaram poucas palavras. Eram mais as indicações médicas, os avisos. A hora da medicação, o conter de muito mais por aquele dia, no que contava a emoção. "Pois, claro! Ele já as devia ter tido todas!" Que não sobrasse muito para ela... Já estava habituada às sobras da outra, pelo visto. Era mais do mesmo!Helena retraiu-se. Recordou o semblante dela consternado. A posição outrora altiva, curvada e decidiu que no fundo a outra? Era "outra" coitada! "Se ele lhe assobiasse corria...Como cão perdigueiro a abanar a cauda para junto do dono!" De repente um laivo de ódio perpassou pela cabeça e pelo coração de Helena na direcção de Pedro. Mas sorriu e conteve-se. "Até porque ela já corria há tantos anos atrás daquele assobio..."

À noite e depois dum caldo frugal, já no refeitório dos monges, momento em que Pedro agradeceu a hospitalidade e terem-lhe salvo praticamente a vida, quando correram prontamente a chamar os médicos, ele e Helena recolheram-se. Ela ajudou-o a caminhar, calmamente, com o braço por cima do seu ombro. Um dos monges sempre a distância curta, não fosse ser necessário algo. Porém, mal os viu na ombreira da porta despediu-se. Helena ajudou o marido a despir-se. Ele afagou-lhe a face, beijou-lhe os lábios de raspão. "Notaria quiçá que ela quase se esquivara ao gesto?" Ainda assim respondia e sorria quando ele falava, de tudo! Menos do que ela necessitava ouvir.

"A minha viagem está acabada. Estou em paz com a minha consciência. Pus em dia o que tinha vindo fazer. Ela e eu? O tempo passou e entre nós... Há um fosso, intransponível!" Resumindo: "Porque raios ele não falava com ela? Não explicava o que tinham dito, tinham sentido e decidido? Talvez amanhã! Como dissera o clínico, chegava de emoções. Mas Helena não pregou olho e o amanhã surgiu. Pedro pouco saíu do quarto. Das vezes que estavam sós, apenas se olhavam, comprometidos. Era pior que antes! Ele recearia contar? Ela não perguntaria! Não daria parte de fraca. E foi quando saiu para vir buscar toalhas lavadas, que no corredor e com a porta entreaberta, ouviu Pedro confessar a Joâo:

- Não sei que fazer, meu amigo! A minha mulher não merece isto, mas o facto é que eu...Não consigo! Compreendes?

- Hum... Mas não consegue o quê meu capitão? Esquecer a Zuleica e ponto final, Portugal consigo, mais a patroa. Ou dizer à sua mulher que regressa sozinha?

Se fossem pratos, copos ou tachos, Helena teria sido descoberta. Eram toalhas e quando lhe caíram das mãos, baixou-se lesta a apanhá-las, admirada com essa sua destreza, na sua idade. O certo é que um frenesim nervoso a percorrera como uma descarga eléctrica. Não entrou, virou a esquina do edifico. Ficou ali, com as lágrimas a correr a quatro, a pedir a Deus para ninguém a ver... Até que João saíu. Recompôs-se e fez o que era suposto. Como sempre! Cumpriu mais uma cena, daquele teatro. O dia viu a noite chegar e nada de palavras. De Zuleica. Somente dos filhos, da casa e quem ficara a cuidar? Da loja e pouco ou mais nada, que "estás com um ar tão cansado, devias repousar um pouco". Ao que ela se escusou. E mais uma noite os brindou. Helena pensava se alguma vez dormiria de novo com ele. Se regressariam juntos? Voltariam a ter sequer o que sempre tinham tido, fosse verdade ou mentira? Os pensamentos e palavras de João matraqueavam-lhe os miolos, até ferverem. Por isso levantou-se. Escreveu uma carta e já possuidora da informação dada nessa tarde, que a recuperaçãoo de Pedro seria lenta mas uma realidade, tomou uma decisão. No outro dia manhã cedo, perguntou se podia telefonar. Autorizada, fez uma chamada. De seguida procurou falar com o  frade que administrava o convento. Sendo-lhe cedido um acompanhante (nada menos nada mais, que o frade Martim, que os acompanhava sempre a ela e Pedro quando ele esticava as pernas) Helena saiu do convento, a seguir ao almoço enquanto o marido dormitava.

A casa de Zuleica não era longe, afinal. Nem rica nem pobre. Asseada e acolhedora. Onde duas mulheres se poderiam entender, com uma chávena de café... Uma segunda carta ficou em cima da mesa. Zuleica prometeu-lhe lê-la só dali a uma meia hora, quando ela já fosse distante.  Feito isto e de volta ao convento, Helena sorriu ao marido. Sondou-o sobre a sua saúde. O tempo que pensava ficar e obteve quase a resposta que queria... Ainda faltaria "bastante" para regressarem. E assim cuidou e mimou. A noite sucedeu-se ao dia. Fim de dia esse, em que Helena beijou Pedro. Disse-lhe como o amava. Como desejava que tudo ficasse bem e ele melhorasse depressa. Sobretudo para que ambos pudessem ainda ser felizes, no resto das suas vidas. Ele adormeceu calmo. Grato. E de manhã ao acordar, encontrou somente uma carta... Da esposa!

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 00:14

Domingo, 09.09.12

Sentido dos dias – Medo XXVI

 

Já sentado na cadeira no avião rodeado por muitos passageiros, Pedro sentiu pela primeira vez medo. Mas não era igual ao que sentira muitos anos antes no meio do mato, aguardando escondido que o inimigo se revelasse. Este era um receio bem diferente. Assim que tomou consciência do que estava prestes a fazer, um arrepio atravessou-o de cima a baixo. Um gosto amargo subiu-lhe à boca e as mãos suavam como se estivesse num deserto.

Olhou àsua volta enquanto passageiros continuavam a entrar e arrumar sacos e malas nos compoartimentos por cima das cabeças. A seu lado uma jovem, já instalada, abria um livro e lia, completamente indiferente ao movimento dos passageiros que chegavam.

Da escotilha vedada Pedro podia ver a azáfama que o pessoal do aeroporto tinha para com o avião. Eram malas e mais malas que chegavam, cabos, tubos, um manancial de coisas que Rafael desconhecia completamente que fossem necessários para colocar o avião a andar. Ao longe viu o céu azul… O mesmo onde dali a uns minutos estaria a embrenhar-se.

A mulher recusara-se a ir com ele ao Aeroporto. Ficara em casa, lavada em légrimas. Fora a filha que o trouxera às Partidas da Porteta. Ajudou-o com o carro para colocar a mala e largou-o à entrada, dizendo:

- Pai… Vai e volta bem, sim?

- Claro minha flor. Em breve estarei  de volta.

Dois beijos trocados e ainda teve tempo da filha desaparecer no carro. Estava agora sózinho, entregue a si próprio, numa viagem que não sabia o que iria dar. Mas tinha de a fazer, viver ou morrer em paz…

Na banco da frente dois miúdos lutavam por um lugar à janela e foi a mãe que duma forma autoritária impôs disciplina. Sossegaram finalmente e Pedro pode novamente passar os olhos pelo interior do avião e procurar algo que o serenasse.

O avião deu um esticão, finalmente deslocava-se. Ainda era no alcatrão mas dali a uns instantes seria no ar… E de súbito Pedro teve vontade de sair dali, fugir, regressar ao aconchego do lar… Porém agora seria totalmente impossível. Viu os carros na segunda circular a movimentarem-se em passo lento devido ao engarrafamento, percebeu uma quantidade de prédios ao longe, mas tudo, tudo assente num medo que quase não sabia esconder. Alguém então falou. Era o comandante que dava as boas vindas e desejava que todos fizessem boa viagem. A seguir os comissários de bordo fizeram uma pequena demonstração quanto aos coletes de salvação…

- Mas para que quero aquilo? – perguntou a si próprio.

A questão ficou sem resposta… Mas fez o possível por manter a tenção. A jovem companheira de viagem nem ligava, tantas seriam as vezes que ouvira aquele discurso. A avião parara agora. Pedro apenas continuava a reparar nas casas e no que o horizonte lhe podia ofertar.

Um esticão e o aeroplano arrancou comno se estivesse numa corrida. Ganhou velocidade de tal forma que as linhas de amaraelo pintadas no alcatrão negro passavam velozmente.

- Será agora?

Uma sensação estranha tomou-lhe todo o seu corpo… Olhou o chão e viu que ele se afastava cada vez mais. A cabeça encostada, as mãos apertadas uma contra a outra, uma muito breve náusea a formar-se na boca do estômago. Os dentes rangiam tal era a força que Pedro fazia. Depois fechou os olhos e tentou repousar… acima fde tudo o espírito.

A passageira ao seu lado levantou os olhos do livro e reparando na palidez de Pedro logo perguntou:

- É a primeira vez que viaja de avião?

O alafarrabista nem sabia o que dizer. Para ele até falar podia prejudicar o vôo. Finalmente percebeu a patetice em que entrara e respondeu com a maoir calma possível:

- Por acaso é… Nota-se muito?

- Nota! – e riu-se.

A avião continuava a subir. Rafael olhou pela janela e aquilo que minutos antes eram enormes edifícios não passavam que pequenos pontos. Depois sentiu a curva e finalmente o mar. Os azuis juntavam-se duma forma que Pedro jamais esqueceria…

A jovem fechou o livro e perguntou-lhe:

- É a primeira vez que vai a Angola?

A pergunta era inocente, mas o alfarrabista teve medo de responder a verdade. Optou por uma resposta que contentasse a outra:

- De avião sim!

- Acredito que vai gostar…

A resposta dera resultado. Só que a conversa não ficou por ali. A jovem começou a falar até que finalmente desculpou-se:

- Sabe Angola é um vício… Quem lá vai, fica lá… refém. Entende?

Pedro nem sabia o que dizer. Todavia respondeu:

- Entendo e de que maneira…

O medo desaparecera!

 

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por José da Xã às 07:16

Quarta-feira, 05.09.12

Sentidos dos dias - Desorientação XXV

Helena sentiu o chão a fugir-lhe debaixo dos pés. A sua vontade de se despachar para poder ouvir algum bocado da conversa do dois, deu lugar a uma desorientação estúpida, que nunca sentira antes. Uma impotência que lhe dava medo! Se por um lado tinha a noção que deveria estar ao lado do marido, não só para lutar por "aquilo" que era "seu", mas zelar para que a emoção não o prejudicasse, por outro e agora como escolha, a puder fazê-la, seria desaparecer. Ou melhor! Voltar àquela tarde em que ficara pela primeira vez cara a cara com Pedro. Poder reverter toda a sua vida. Amava-o?! Muito. Ainda hoje ele era, fora sempre o homem da sua vida. Tivera os seus filhos e esforçara-se constantemente por estar à altura. Ser a esposa que ele idealizara, mas hoje? Lá atrás... Se tivesse sido mais forte, teria esquecido a empatia. O envolvimento. Não teria logo partido para uma relação precoce, com a sua mania de ser boa samaritana. De o pôr à frente de todas as suas prioridades... Até do emprego. Da sua formação académica que na altura a uma mulher custava tanto a conseguir. E hoje? Que coisa! Sentia-se parva com aquela palavra a repetir-se na sua cabeça. "Hoje... Hoje o quê?!" A saber o que se fizera entendível, neste momento, ponderava se talvez não fosse melhor ele ter regressado a Angola.  Ter feito toda a sua vida ao pé de Zuleica e ela ter seguido o seu caminho. 

Sem saber, formaria com Pedro este triangulo amoroso de miseráveis insatisfeitos. Três almas diferentes, que nunca tiveram descanso. Que sem se conhecerem, duas delas, partilharam aquela terceira, sendo quiçá, ela ( a esposa)a menos beneficiada, embora o tivesse ao lado. Caramba! Ele era o seu homem. Dormiam juntos. Nos primeiros tempos Pedro era fogoso. Exigia dela o que qualquer homem pede duma mulher, mas... Todavia ela nunca viu na relação de ambos, qualquer tipo de escândalo em lhe dar o que pedia. E era muito satisfatória a sua relação sexual. Porém no fim ficava sempre aquela sensação de frustração no seu íntimo. Quando ele a deixava muitas vezes imediatamente e ia fumar para a janela, pensativo. Não havia aquela conversa carinhosa, depois. Aqueles afagos e o ficar um pouco, que acontecia tão esporadicamente... Noutras entrava furioso na casa de banho e tomava banho mal acabavam. Como se quisesse tirar o gosto e o cheiro dela, de si. Seria isso? Equacionou através dos anos tantos cenários para as atitudes esquisitas... Meu Deus, tinha tantas! E a pensar assim enlouqueceria. Ela tinha de acreditar que Pedro também a amava quando o expressava e a quisera, também. E os filhos? Mas... Quando tinham começado os problemas, o afastamento? As discussões e a raiva surda que se apagava no corpo, mas se tornava amiúde uma "tarefa" a cumprir e não...Amor! Se bem que da parte dela era, mas sempre com medo de saber o porquê daquelas fúrias. Da instabilidade, das horas tardias para chegar a casa, do álcool. O fechar-se no escritório até altas horas a escrever como um fugitivo, escondendo o que fazia. O olhar perdido, o pensamento em noutro lado. Tudo se fazia claro... Hoje! 

Ele vivera com ela sempre pensando noutra! Quantas vezes teria fechado os olhos e imaginado que estava com ela? Se saciara quase de modo violento, lembrando-a e a rejeitava a seguir? Naquelas formas malucas de estar, que a princípio lhe pareceram desadequadas. As evasivas pobres que não lhe serviam. Havia algo mais e ela sentia-o. Sempre sentiu. E quando ele contou doeu-lhe como mais nada doeria, mas nunca imaginou que aquela "sombra distante" significasse mais, muito mais que ela nunca significou para ele de facto! De repente teve de sair do lado de João, tentar  ir respirar noutro lado. r os pensamentos no lugar sozinha. Mas onde raios naquela terra, se podia respirar, com o maldito clima? Onde podia ir, se não conhecia nada dos arredores? Sujeita a cair nalgum barranco, ou ser vítima de um animal ou... Mas tinha de fugir dali, mesmo que os dois estivessem agora nos braços um do outro (o que seria difícil dada a monitorização a que Pedro estava sujeito)... Mas como o filho dos dois ao pé. O outro médico de conivência até podiam... Jesus! Isto era insuportável, estava a ser vulgar e absurda. E quando o melhor do "seu longe", passou pelo extremo do convento muito distanciado do sítio onde estivera, pelo menos sentou-se num banco isolado de tudo, debaixo duma palmeira com uma sombra providencial e desabou. Sem ninguém a ver chorou como nunca chorara. Nada indicado para a sua idade. Daqui a nada seriam dois com um avc, para tratar. Tentou acalmar-se. Enquanto isso apalpou o telemóvel. Afagou-o pensando nos filhos. Especialmente em Maria da Graça. De mulher para mulher. Não de mãe para filha! Helena necessitava desabafar. Gritar e revoltar-se, sob pena de rebentar. No entanto, para que ia macular a imagem do pai, perante os seus descendentes? Ela era que tinha de lidar com aquilo e decidir. Teimosa, cheia de altivez levantou-se, mal pressentiu o vulto de Zuleica a caminhar na sua direcção. Maldita, sina! Ia ter de ouvi-la? Falar-lhe depois de não saber como fora o seu encontro com o homem... Que afinal, ao que parecia as duas amavam! Ou ela não teria ido lá. Nem que o filho pedisse, ou o outro clínico quisesse. Se ela não sentisse nada, que desprezo... Distanciamento. Ou Pedro lhe fosse hoje, indiferente, não se abalaria do sítio onde morava ali, por uma homem que a abandonara e aos filhos, sem nunca mais dar notícias. Mesmo que ele estivesse às portas da morte! Ou seria outra estúpida que levava o  ser cordial, solidária e humanista, à letra, mesmo para quem a ferira? Reparou que os bonitos olhos verdes estavam raiados de sangue. Também chorara! E toda a contrariedade e desdém lhe passaram naquela hora. Queria poder ser capaz de a odiar. De enfrentá-la e deixar claro que teria sido a última vez que falaram e se viam. Tanto! Muito mais combatia dentro de si em relação à outra, mas sobrepunha-se sobretudo dó! Até de si mesma. Não podia desfeitear a outra! Ela era uma vítima maior que ela talvez dado o que sabia agora. E quando ela lhe disse uma única palavra (obrigado) e a olhou nos olhos com aquele ar resignado e sofrido e seguiu caminho, placidamente, teve vontade que se sentasse. Ficassem ali, uma ao lado da outra em silêncio, com lágrimas, problemas e um sentimento em comum, que talvez ambas quisessem partilhar, tentar compreender, dar volta a algo que não tinha volta a dar.

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 11:28

Domingo, 02.09.12

Sentido dos dias – Leituras XXIV

Meticulosamente foi arrumando as roupas na mala. Helena escolhera-as e colocara-as em cima a cama para que o marido a arrumasse. Sempre fora assim… metódico.

Helena da porta do quarto olhou o marido e achou-o envelhecido. O cabelo branco rareava já e as rugas cortavam-lhe a face qual regos de arado em terra fecunda. Depois aquela respiração sempre funda e lenta. Aquele coração não iria resistir a tantas emoções que o esperariam em Angola.

Pedro pegava na roupa e lentamente dispunha-a na mala. Depois buscava outra e repetia o gesto. Olhou para a porta e reparou que a mulher o observava com carinho mas também com alguma contida raiva. Ela sabia o que ele iria fazer a África, mas era impossível evitar a viagem…

Do meio de alguma tralha para arrumar Pedro Rafael recolheu uma velha sebenta. As folhas amarelas, o cheiro que ele tão bem conhecia de papel velho, as recordações ali escritas havia tantos anos… Sentou-se então na borda da cama e abriu o caderno. Na primeira página uma data e um local. Depois as descrições.

Começou a ler devagar, como sempre fazia, um diário com mais de quarenta anos. Pedro nem reparou nos erros ortográficos que ele próprio escrevera. Só lia… e sentia como se tudo surgisse na sua mente uma vez mais… Os camaradas de guerra, as patrulhas furtivas, os tiroteios por vezes quase incessantes, os corpos estropiados, os gritos lancinantes dos feridos, o cheiro de carne humana queimada. Mais á frente novos ataques descritos quase ao pormenor jornalístico. E por fim…

Durante páginas e páginas leu um conjunto de sentimentos sinceros e quiçá ingénuos. Folheando as páginas uma a uma Pedro lembrava-se como se fosse naquele instante o momento em que escrevera aqueles textos. Nas tendas os camaradas quando o viam de caneta em punho logo brincavam:

- Aí está o nosso cronista…

- Ainda ganhas um Nobel com esses textos – observava em tom meio a sério meio a brincar o tenente que comandava o batalhão já muito dizimado.

Aquelas noites de luar intenso e calor profundo davam-lhe serenidade interior. Não paz… que esta era palavra proibida em tempo de guerra. E depois haviam os cheiros daquela terra, os aromas das frutas maduras que misturadas com a selva próxima originavam sensações inebriantes.

As lágrimas começaram a cair, pela face marcada, sem que desse por isso. Havia muitos anos que evitava a leitura daquela e de outras sebentas, porque se conhecia e sabia de antemão as reacções que a sua alma e o seu coração iriam sofrer. Mas um dia teria de ser… E agora a poucas horas de embarcar para uma terra donde saíra, havia mais de quarenta anos tinha que ter a coragem de enfrentar o seu passado.

Fora no passado que a sua vida sofrera um enorme revés, fora no passado que Pedro amara sofregamente, fora no passado que quisera deixar suas lembranças. Mas estas nunca por lá ficaram. Viajaram no tempo consigo, permanentemente.

Não havia dia nenhum que o alfarrabista não se lembrasse de Zuleica. Dos momentos felizes que com ela passara, dos desejos sonhados a dois, das promessas jamais cumpridas. Era tempo de refazer o passado. Não que ele vivesse muito mais tempo para o poder gozar, mas acima de tudo poder partir em paz consigo mesmo.

João surgiu à porta do quarto sem que Pedro notasse. O filho mais novo, contra a vontade do pai inscrevera-se anos antes na Escola Naval e hoje era já um oficial. Vendo o pai embrenhado na leitura das sebentas, pensou em não o maçar… Porém o pai partiria no dia seguinte e…  Podia ser a última vez!

Devagar sentou-se ao lado de Pedro, passou-lhe o braço por cima do ombro e despediu-se:

- Pai venho despedir-me…

- Obrigado João… Também não vão ser muitos dia… Espero regressar muito em breve.

- Eu sei pai, eu sei… Mas ainda assim…

E calou-se. Pedir um abraço ao pai era algo que nunca passara pelo seu pensamento. Todavia ambos eram homens e não obstante a forma sempre discreta com que o pai mimava os filhos, João sentiu vontade de pelo menos naquele instante sentir o pai mais próximo de si.

Finalmente arriscou:

- Dê-me um abraço… meu pai!

Pedro ergueu-se devagar, abriu os braços e recebeu neles o corpo atlético do filho. Foi a primeira vez que Pedro abraçou o seu benjamim… E de súbito as palavras saíram como se fosse outro a pronunciá-las:

- Que Deus te abençoe meu filho! E obrigado…

O militar afastou-se do antecessor admirado, não com a bênção mas com o agradecimento. E sem pejos perguntou:

- Agradeces-me porquê pai?

Pedro esboçou um sorriso. Era raro nele, muito raro. Finalmente respondeu:

- Porque nunca o fiz, nem a ti nem aos teus irmãos… Agradeço-te apenas o amor que me tens e à tua mãe.

-Pai… esta conversa parece uma despedida muito dramática…

- Meu filho, a vida foi, é e será sempre um drama… 

 

José da Xã

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por José da Xã às 02:05


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