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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 29.08.12

Sentidos dos Dias - O segredo XXIII

Podia proibi-la de vê-lo, com todas as desculpas válidas e o facto de ser sua mulher... E ele jamais a perdoaria quando soubesse. Podia exigir estar presente, ou pelo menos próximo, que pudesse ouvir o que falavam, mas seria traição. Baixo da parte dela. Além de que fervendo em pouca água, lhe daria vontade de intervir. Portanto seguindo a sua capacidade de "encaixe", deixando-se levar pelo bom senso, foi assim que Helena voltou costas a Zuleica, e enquanto esta ia com o tal médico negro ao encontro de Pedro, ela foi com João até ao jardim do Convento. Pelo caminho cruzaram-se com o físico mais idoso que a cumprimentou efusivamente.

- D. Helena! Como está a senhora, hoje? Espero que tenha descansado. E o nosso doente?

- Bom dia, Dr., lamento desapontá-lo. Na realidade não preguei olho. O meu marido passou bem, dentro do esperado, suponho! Está agora...

- Sei, muito bem! Está com visitas. Não espero que compreenda. Aceito que me censure, mas na minha idade já vi de tudo e se isto não resultar...

- Devo presumir que este "tratamento de choque" é o que chamou de contenção de emoções? Não! Não percebo. Se ele piorar o senhor vai explicar a sua ideia, e praticas de medicina, também aos meus filhos!

- Não se revolte comigo. O seu marido é reincidente, portanto um homem forte! Já sobreviveu antes. Está cansado, muito cansado. Desmotivado. A pensar que desta, já não há volta a dar. Está bem acompanhado! E eu estou decidido a que saia daqui, como veio...Pelo seu pé! Ponho a minha carreira em jogo. Ele também precisa de estímulos...Bem dirigidos. A senhora foi um. Notou que gostou que viesse. Agora a outra senhora, segundo parece, também seria alguém com quem deve falar. Um homem deve tratar dos seus assuntos, não acha? Considere isto uma fisioterapia do músculo cardíaco.

Helena seguiu com João cada vez mais nervosa e angustiada. Não sabia que pensar. Se o homem era maluco ou seria ela que não estava boa do juízo! Em Portugal nenhum médico faria isto de certeza, mas queria despachar-se. Regressar depressa ao quarto, a fim de ver a reacção de Pedro. Se pudesse apanhar alguma coisa do fim da conversa... E diante do amigo dele ouviu finalmente, bebendo as palavras, a história dos dois. O segredo totalmente revelado. João fez questão de não omitir nada. Disse-lhe que menos, nem uma ou outra, o mereciam. E todo o tempo em que Pedro falaria com o seu primeiro amor, a mulher soube que existiam dois filhos, sim! Gémeos falsos. Não só o destino fizera o "favor" de os separar do pai, como dera àquela mulher mais uns "brindes" pelo caminho. João e a mulher foram para ela, o que Pedro devia ter sido. Depois do abandono ela trabalhou muito e conseguiu reerguer-se. Voltou à sua terra empregou-se novamente como professora. Os miúdos teriam por volta dos onze anos quando na sua escola, eram "vítimas" sucessivamente, da maldade de outros alunos. O que fez com que um deles não aceitasse que Zuleica não contasse o que acontecera  com o pai, uma vez que se recusara a deitar mão duma mentira. Contar-lhes que morrera! E assim livrar-se de mais explicações. 

Mas, num dia já muito cansada e sem ver por que adiar,(quando o miúdo não se calava, contagiando o outro) desesperada, triste e humilhada, sentou-os na frente e contou: O pai deixara-os. Era um soldado, que tinha escolhido vir para o seu país, como muitos fizeram. A culpa não era de ninguém, mas da guerra. Um dia, quem sabe, poderiam conhecê-lo... Só que nunca pensou que depois de ser bombardeada de perguntas, sobre o porquê dele nunca perguntar por eles? Se tinha outra família, como se chamava... e os ver já exaustos a dormir, um, durante a noite fugisse de casa. Explicara que queria apanhar boleia com o intuito de vir a Lisboa... Mas o que conseguiu foi, ser encontrado pelo irmão e a mãe, caído na estrada com uma bala alojada na espinha, disparada por não se sabe quem.

Resumindo: O resultado de todo aquele calvário era, além de muito mais de que ficou conhecedora, um dos filhos de Pedro ser nem mais nem menos o rapaz gerente do hotel onde ele ficara acomodado. O outro? E aqui Helena quase ia tendo ela própria, uma sincope! Era o Doutor Gil...Que vendo o irmão a esvair-se em sangue, jurou naquele momento, que seria médico se ele se salvasse. O que podia Helena fazer contra tamanha revelação? Tanto pormenor cheio de sangue, lágrimas. Uma vida de martírio? O que podia ela contra o maldito destino, ter posto agora um dos filhos a tratar do pai, e um outro, no seu hotel. Muito antes de todos terem chegado aqui...A um convento no meio do nada! Quando se levantara de manhã, nunca supos vir a sentir-se, assim... Pavorosamente siderada.

 

Verniz Negro

 

 

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por José da Xã às 10:30

Domingo, 26.08.12

Sentido dos dias – Maria da Graça XXII

 

Quando a mãe lhe comunicou que o pai ia a Angola, Maria da Graça apenas perguntou:

- Mas porquê Angola?

- Isso pergunta-lhe tu, se quiseres… - descartou-se Helena.

A relação entre a filha e o pai sempre fora de altos e baixos…  Se bem que Pedro não fosse um pai ausente era todavia um homem distante dos filhos. Ou pelo menos era essa a ideia que aparentava. Só que com a Maria da Graça, o alfarrabista usava de alguma indolência. Com o tempo ambos ficaram mais próximos de tal forma que a rapariga só estudava na loja, onde passava longas horas a seguir ao liceu e mais tarde à faculdade. De tal forma assim era que todos os momentos disponíveis para ambos eram usados para ler velhos e bons clássicos a que se seguiam naturais discussões sobre as ideias oriundas das obras…

A jovem admirava-se com o pai, nascido e criado em Trás-os-Montes e sem qualquer formação académica superior, discorria com saber as suas ideias e opiniões. Também sabia da escrita mas jamais solicitara ler o quer que fosse. Preferia-o assim…

A ideia peregrina do pai, em ir a Angola tornara-se para si um mistério. Sempre soubera das vicissitudes que o antecessor passara por terras de África numa guerra infame e injusta. Mas isto não lhe parecia razão suficiente para partir de Portugal… A não ser!

Foi nesse instante que a dúvida se instalou na mente de Maria da Graça. Havia claramente um passado na vida do pai relacionado com Angola e que não se chamava Guerra Colonial. Mas o que seria?

Perguntar-lhe directamente seria um erro enorme e que ele desvalorizaria com qualquer desculpa esfarrapada. Haveria que ter tacto, saber conduzir a conversa, ladear as questões importantes tentando dar relevância ao supérfluo.

Maria da Graça cedo percebeu que a mãe sabia das razões da viagem mas não as pretendia divulgar. Estava no seu pleno direito de esposa e mãe. Mas ela como filha já adulta necessitava saber. Não que o tentasse dissuadir a partir, isso não! Se algo conhecia do pai era a sua profunda teimosia.

Foi apoiada no conceito de que o pai lhe revelaria as coisas sem saber, que se aproximou de Pedro Rafael num fim de tarde chuvoso e muito sombrio. A chuva miúda e muito fina quase parecia pó e chuva caia suavemente sobre o seu guarda-chuva. Saíra de casa decidida em desvendar o mistério da partida do pai. Todavia tinha de pensar como abordar o assunto sem que ele se melindrasse ou fugisse consecutivamente às respostas. Foi pelo caminho remoendo ideias e mais ideias, e sem vislumbrar algo que sentisse fantástico para iniciar a conversa, deixou que o seu espírito encontrasse as perguntas certas apenas quando chegasse perto do pai.

Quando chegou, o livreiro acabava de receber um cheque de um dos velhíssimos amigos de Hermínio, que continuadamente apareciam na loja em busca de algo estranho ou bizarro. Conhecendo-o cumprimentou:

- Ora viva Dr. Meireles… Bons olhos o vejam.

O ancião elevou os olhos a cobertos de umas grossas lentes para as faces formosas de Maria da Graça e percebendo quem era devolveu:

- Olha a minha querida menina… Como está?

- Bem… E o meu amigo?

- Impecavelmente... Desde que o seu paizinho me arranje algo para ler… - e riu mostrando uma enorme ausência de dentes. Depois partiu levando um saco cheio de livros estranhos. Pedro pode finalmente cumprimentar a filha:

- Olá cachopa. Que vieste aqui fazer com este tempo?

- Nem sei paizinho! Quer crer? Ando preocupada com a minha vida… só isso.

- Preocupada? Como assim?

- Sabe… O meu trabalho não é muito interessante… Gostava de… outra coisa…

- Que coisa?

- Não sei realmente… Olhe sabe, necessito de aventura!

- Aventura? Mas tu endoideceste?

- Não senhor. Estou a pensar em partir para uma missão católica em África.

A última palavra de Maria de Graça fez o pai mudar de tom… E de atitude…

- Nem penses! Eu não te deixo ir… - disse com rispidez.

Tocara-lhe no ponto fraco. Agora bastava desbravar este enigma. Sem fazer caso das ultimas palavras de Pedro, Graça continuou:

- Na igreja está-se a formar um grupo de missionários para partirmos para África e como sei que o pai andou por lá, sei que na guerra, queria saber a sua opinião entre Angola ou Moçambique.

Pedro quase espumava. Tentava acalmar-se mas não conseguia… Sentiu o coração bater mais forte e sentou-se. Não podia ser… A filha também… Sentiu que tudo andava à roda e caiu por cima da secretária.

Maria da Graça correu lesta para o pai, sabendo dos seus problemas cardíacos:

- Paizinho, pai… Acorde, por favor… - batia-lhe ao de leve da face tentando reanimá-lo.

As pestanas tremeram e finalmente acordou:

- Pai, paizinho – chorava Maria da Graça – Estás bem?

Pedro respirou muito fundo e disse numa voz cava:

- Estou filha, mas peço-te não vás para Angola…

- Porquê meu pai?

- Porque deixas lá o coração!

 

José da Xã

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por José da Xã às 01:22

Quarta-feira, 22.08.12

Sentidos dos dias - Humilhação XXI

Helena não dormiu bem toda a noite. Encontrou o marido pior que pensaria. À sua cabeceira um médico. Mais tarde, nesse dia, conheceria um outro. De cor, jovem ainda. O primeiro mais idoso, informou-a que o rapaz era seu interno e  teria todo o interesse em te-lo ali. Quanto a ele era um futuro portento da cardiologia. Acumulando também, conhecimentos sobre a medicina paralela e naturalista, que muitos povos de África possuem como "legado."  Helena não ficou muito bem impressionada com o jovem clínico. Pareceu-lhe algo arrogante ao olhá-la, quase tentou evitar-lhe o aperto de mão. Mas vinha cansada, algo irritada com o clima. Insatisfeita com a conversa de João e aquela coisa dos filhos, que não acabara por elucidar visto que mal o jeep parara, ficaram rodeados de gente. Frades e ajudantes, mais a confusão de malas e instalações. Depois as novidades e por fim... Pedro!

Parecia ter envelhecido mais cinco anos. Helena sentiu os olhos marejados de lágrimas ao ver o marido, mas fez força para ele não a ver fraquejar. Beijou-o, afagou-lhe o rosto e encorajou-o. Disse-lhe que tinha de se por bom, porque os filhos estavam à espera e os dois, ainda tinham muito para viver. Mas na realidade os fios, máquinas, biombos. Com o soro e montes de artefactos hospitalares, mais um enorme aparelho de ar condicionado portátil a fim de manter a temperatura fresca, deixaram-na esvaída... Mas ao mesmo tempo esperançosa! Aquilo poderia ser um convento, mas aquele quarto agora, parecia mais uma dependência eficiente que qualquer valência de cardiologia. Havia uma enfermeira sempre atenta à medicação, alterações do paciente e quando Helena se afastou por exigência do Dr. Germano (o tal mais velho), com a indicação de que queria falar-lhe, depois de o ouvir com atenção, fez questão de o informar que ela poderia ser dispensada. Com ela ali e sendo mulher dele, fazia questão de tomar conta do marido durante noite e dia, o tempo que ele levasse para poder ser transferido para Portugal. Logo aí recebeu um sorriso quase escarninho e a resposta que a enfermeira se manteria. Ela poderia ser uma mais valia, mas ao mesmo tempo um empecilho. Além de não ter preparação de enfermagem a ponto de substituir a outra profissional, em caso de agravamento, a vinda dela poderia complicar as coisas, uma vez que ela estando ali era uma grande carga emocional. 

Helena ia esbofeteando o homem, mas calou-se e admitiu que a gravidade da situação o requeria. Segundo ele Pedro agora estava, estável portanto seria de evitar qualquer comoção supérflua. Por isso se ela queria ajudar que o mimasse, ajudasse na higiene, alimentação quando ele começasse a comer e até a distraí-lo, mas não falasse de coisas muito emotivas. Não fizesse grande força ou exigência para ele melhorar, sobretudo não o culpasse de estar assim. Helena ficara miserável. Naquela maldita terra parecia ninguém gostar dela, ou achar que a sua vinda fora boa ideia. Raios! Por momentos sentia uns ciúmes doentios e uma vontade de gritar e barafustar! Se ele estava assim fora por causa daquela "preta de merda" que não lhe saía da cabeça. Ainda assim engoliu em seco e o resto do dia e noite, ficou calada e cumpriu tudo escrupulosamente. Tomou um calmante e um analgésico para a dor de cabeça e mal se deitou pensou que dormiria. No entanto ficou a olhar para ele encolhida no seu canto. A ouvir-lhe a respiração pesada, o som da gota do soro a cair diligente e a maldita máquina a trabalhar. A enfermeira que entrou duas vezes para tirar notas e lhe sorriu, saindo tão fantasmagoricamente como entrou. 

E resolveu por momentos ir até lá a fora de mansinho não se afastando das redondezas. A noite era um quadro irreal com a lua, estrelas as palmeiras. O vermelho da terra, o branco das pedras a ladear os caminhos e os odores. Depois os ruídos e um ou outro piar de ave que desconhecia, mais um soçobrar de elefantes que se banhavam muito ao longe nalgum lago perto, quiçá. Todo aquele conjunto de sombras e luzes e cheiros, com os animais pachorrentos e ainda o que ela sabia e poderia lembrar-se, dos filmes que vira de África fizeram-na a custo, curvar-se ao encanto que aquela terra teria provocado no seu homem, a ponto de o encantar para sempre. Ela estava ali há apenas algumas horas e sentia o chamamento. Porém mal recordou Zuleica rangeu os dentes e fechou os punhos. Voltou para dentro, fechou bem a porta e acomodou-se até amanhecer com uma ideia fixa: João ia elucidá-la de tudo o que não lhe contara, mal o dia raiasse ou ela não se chamasse Helena... 

E foi assim que mal se despachou e deixou Pedro "bem entregue", saiu porta fora e foi encontrá-lo a apanhar folhas secas com um ansinho... "Que lata! Até parece que não havia nada de mais importante que empossar-se em jardineiro."

- Bom dia, senhor João. Espero que tenha dormido bem, porque...

Ia morrendo! Não! Não morreria tão depressa e ainda suportaria tudo e mais alguma coisa, mas aquilo? Agora percebia porque Pedro se apaixonara por ela. Era... Linda! Ainda hoje. Mais alta que ela, muito bem feita, e... fina. E aqueles olhos lindíssimos. Com a fala, tão delicada e o sorriso? Franco! Não, isto era inaceitável.

- Olá, D. Helena! Hum... Vejo que chega a tempo de conhecer uma velha amiga. Chegou ontem à tarde com o Dr. Gil. Principalmente porque o Pedro não poderá... Bem, infelizmente está na hora do Pedro e ela falarem. Talvez seja este o único sítio onde o possam fazer, como a senhora sabe.

Helena sentiu-se incendiar. Deviam estar a gozá-la! Era esta ideia de pouca emoção que o seu marido precisava? E desde quando ela vinha, sem a consultarem a si? Passara a noite debaixo de mesmo tecto que aquela...aquela...  

 

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 01:36

Domingo, 19.08.12

Sentido dos dias – Arrumar a vida XX

Não seria uma mera doença que impediria Pedro de partir. Retivera-o sim por mais algum tempo mas nada lhe retirara nem o desejo nem a teimosia de retornar a Angola.

Nessa tarde de domingo de loja fechada, começou a arrumar a sua vida interior antes de voar para África. Para tanto foi à velha mala e começou a retirar de lá alguns papéis. Pedaços de vida escritos havia anos. O tal livro jamais compilado. Centenas e centenas de folhas A4 ou apenas nacos de papel, onde num vislumbre escrevia o que sentia ou aquilo que se recordava.

E havia ainda diário de guerra. Mas esse… Seria provavelmente outro livro. Tinha medo de o abrir, de relembrar o que acontecera tantos anos atrás… Todavia um dia teria de ser! Mas não agora…

Pegou novamente nos textos e foi relendo o que escrevera. Alguns tinham data outros nem tanto… Porém ia lendo e rindo. E lembrava-se de quase tudo. As notas que tirara de Alberto por causa da livraria também ali se encontravam. E aquela teoria impensável que os livros tinham um destino antecipado… Ria para dentro porque por fora a sua fisionomia mantinha-se impenetrável. Sempre fora assim, ou pelo menos a guerra obrigara-o a reservar os seus sentimentos. Podiam-se contar pelos dedos as vezes que ele sorrira de forma espontânea e simpática. Jamais!

Foi colocando os papéis por ordem de datas. Os outros, sem qualquer referência de data, foi-os deixando de lado. Muita da escrita nem parecia dele, tão distante que estava agora da realidade. Dava-lhe a estúpida sensação que quem escrevera aquilo fora outra pessoa tão diferente do Pedro Rafael Assunção que era agora…

O actual escritório que fora em tempos um dos quartos dos filhos entretanto independente, tinha apenas a porta encostada. Sentiu que alguém abria a porta. Só podia ser Helena. Esta olhou o marido e percebeu como ele estava velho. Como a vida o tinha comido por dentro e por fora. Lembrou-se daquela tarde em que o foi esperar à Doca Rocha de Conde de Óbidos, como madrinha de guerra de um soldado que apenas conhecia por carta. E nesse mesmo dia conheceu os pais dele e seus futuros sogros. Gente simples e boa… Uma lágrima teimou em cair na alcatifa.

O marido tinha dado pela entrada da esposa, mas ao contrário do que muitas vezes acontecera permitiu que ela se aproximasse dele. Ela abraçou-o por detrás com carinho e declarou:

- Sei que sou impotente para te impedir que vás a Angola. A dúvida que toda a vida te consumiu há-de ser dissipada. E hás-de regressar e viver os restos dos teus dias finalmente em paz…

Pedro virou-se para a mulher e naquele breve instante sorriu. Um sorriso sincero e grato. Ergueu-se, pegou na face, já rasgado pelos anos, da mulher e deu-lhe um beijo simples. Tocou-lhe os lábios com simplicidade e finalmente declarou:

- Obrigado Helena.

Era um agradecimento profundo. Mas parecia prenunciar algo diferente. Se por um lado a mulher gostou do gesto carinhoso do marido, por outro sentiu que havia ali algo… tenebroso. Mas rapidamente afastou essa sua ideia. Assim e vendo os papéis em cima da mesa perguntou:

- Que estás a fazer?

Pedro voltou a sorrir. E respondeu duma forma franca e aberta, como ela nunca o vira:

- Estou a arrumar a minha vida. Anos e anos de parvoíces escritas para um dia poder compilar e…

Uma pausa para respirar, como se as recordações o cansassem. Mas continuou:

- E um dia espero poder publicar um livro com tudo isto… Mais o diário de guerra…

Helena riu também. Havia anos que ela sabia de todos aqueles textos, do diário, mas jamais lhe dera a curiosidade de ler fosse o que fosse. Seria trair a confiança dele. Porém gostaria de ler algo dele e assim pediu:

- Posso ler alguma coisa que escreveste nesses papéis?

O marido pegou em diversas folhas e entregou-lhe, sem mais comentário. Helena aceitou e sentou-se num velho “fauteuil”. Sem pressas foi lendo e passando folha a folha. O marido continuou a arrumar mais papéis. Quando de repente se virou para a mulher, viu-a lavada em lágrimas. Assustado ergueu-se do seu cadeirão e dirigiu-se à mulher, preocupado.

- Que tens Helena? Dói-te alguma coisa?

A mulher levantou os olhos para o marido e encontrando o olhar ansioso de Pedro, disse apenas:

- Onde aprendeste a escrever assim?

- Hã? Não entendo…

- Tu escreves coisas maravilhosas. Porque me escondeste isto toda a vida?

A pergunta tinha razão de ser. Mas Rafael não sabia responder.

- Mas eu não escrevo assim tão bem… Há coisas que saem melhor que outras… isso é verdade.

Helena levantou-se e foi a vez dela agradecer:

- Muito obrigado por teres partilhado isto comigo. Fico muito feliz!

Finalmente o antigo soldado, o herdeiro de uma fortuna, o alfarrabista que nascera e crescera numa aldeia de Trás-os-Montes, arrumara a sua vida. A lágrima sagrada rolava por entre as rugas até cair na mão de Helena

Faltava agora apenas e só um por maior.

 

José da Xã

 

 

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por José da Xã às 10:11

Quarta-feira, 15.08.12

Sentidos dos dias - Ressentimento XIX

Helena jamais poria um pé que fosse em África! Havia-o jurado há muito, sob uma raiva a pender para o ódio, que foi controlando dentro de si como podia. Aquela terra tirara-lhe o que mais sagrado preservava. O amor e a felicidade justa a que tinha direito, vivendo-a sempre por metade. Pedro Rafael estava ali apenas em corpo. Muito raramente como pai, amante, amigo, companheiro...Pessoa!

Quando atendeu o telefone a João e se inteirou da situação, depois de desligar, as lágrimas corriam-lhe a quatro. Mulher determinada telefonou aos filhos. Pediu-lhes que viessem para casa e enquanto esperava tratou de fazer a mala. Uma coisa pequena, porque assim que pudesse trataria de trazer Pedro para Portugal para junto dos seus. No seu íntimo existiu, constantemente, um sentimento esquisito que lhe sussurrava que aquela viagem seria um grande risco, podendo ser até fatal. Sabia dos problemas do marido. Por mais duma vez, fora hospitalizado. Assim e já dentro do avião, todo o seu ser se revoltava. Amaldiçoava aquela mulher e o filho. A estúpida guerra maldita, que o tinha feito conhecê-la.

Mal Marida da Graça e os irmãos souberam que o pai tinha tido outro ataque, ao que parecia bastante grave, queriam todos acompanhá-la, com alguma reserva do mais velho. Tinha algumas reuniões importantíssimas agendadas nessa semana, mas disse que cancelaria. Porém Helena queria estar primeiro a sós com o marido. De certa forma, os filhos sabiam que entre os pais nem sempre havia o melhor clima, mas Helena e Pedro, também não, nunca tinham desabafado com nenhum, fazendo-os conhecedores da real situação. Por isso iria... Sem saber ao certo para onde, só que o Pedro estava tão mal que nem pudera ser levado para o Hospital, tendo de ser assistido num convento qualquer de que já nem sabia o nome, só que ficava em Negage, fosse lá isso onde fosse. Que estava a ser tratado por dois médicos e pessoal do local.

Uma coisa era certa: "Se ele pensava que o deixaria (a melhorar e ficar capaz) ir de novo atrás daquela mula e da cria, estava muito enganado!"

Mal o visse com forças enfiavam-se num avião e só descansada em solo luso. Foi este o pensamento no aeroporto e quando entrou no Jipe e conheceu João em pessoa. Simpático senhor. Muito amigo de Pedro notava-se. Falador... Quando ela tinha uma dor de cabeça monstruosa. Estava aquele calor que a indispunha mais e irritava. Soube que ele viera de madrugada, pois não queria ausentar-se muito tempo do lado do amigo, mas também, não permitiria que mais ninguém viesse buscá-la. Era o seu dever! E continuava a dizer que não percebia como Pedro se tinha metido naquilo ela sendo uma mulher tão bonita. Tendo a sua vida toda...E com um problema daqueles. No entanto não o condenava dadas as circunstâncias e...Foi quando ela ganhou coragem para perguntar que ele a olhou muito sério. Durante uns minutos ficou calado, mas respondeu.

- Ela? Se já estão assim tão próximo, sabe que ele está mal? Sabe de todo, que ele está cá e o motivo? Há possibilidade dela...

- Dona, Helena! Não se mace com isso. O que importa é o meu capitão melhorar. Irem à vossa vida. Convenco-o a portar-se como deve, vai ver!

- Desculpe senhor, João. O senhor não me conhece mas fará um ideia do que foi a minha vida. Não é capricho meu não querer sequer lembrar-me que essa mulher existe e se interpôs sempre entre mim, e o meu marido, quando mais cruzar-me com ela. Seria...O último ultraje, percebe?

João começava a entender a má vontade dela em estar ali e provavelmente seriam complicados os próximos dias.

- Compreendo perfeitamente e vou ser sincero consigo. Sei onde ela mora, sempre soube mais ou menos a vida dela. Como foi vivendo desde que... Bem! Desde que o Pedro foi e eu fiquei. Garanto-lhe por muito que lhe possa custar ouvir, que ela não teve culpa de nada. Nem ele, talvez. Simplesmente aconteceu. Como tantos que cá estiveram. Coisas ainda muito piores. Mas isso agora não importa. Quando começámos esta aventura disse ao Pedro que não iria com ele até ela. Não quero ter mais nada a ver com isto! No bom sentido, diga-se. Acho que se ele quer e necessita, para ficar em paz, falar-lhe, o deve deixar. Mas devem fazê-lo a dois. Sem nós a influenciar ou opinar... A senhora tem mais que razões. Eu não sou defensor da Zuleica, no entanto ela sempre foi uma mulher direita. Forte, decidida. Trabalhadora, lutadora. Nos primeiros tempos a coisa foi muito difícil, por isso sem gostar muito de o fazer recorreu a mim. Em último caso, por saber que eu estava dentro do assunto...

- Se calhar para você interceder por ela. Fazê-lo voltar, escrevendo, ligando! Alguma vez disse, ao Pedro. Isso que me está a contar? Da dificuldade?

João queria manter a primeira impressão de Helena. Uma senhora conformada e admirável, mas assim a insinuar coisas era difícil.

- Jamais, D. Helena! Jamais! Uma coisa que ela me fez jurar logo de início, era que em caso algum o contactasse. Participasse algo sobre ela e...

- É orgulhosa! Ou está ressentida, rancorosa. A encontrarem-se há-de fazê-lo sentir-se ainda pior. Ele é um parvo e...

- Lamento que, o que eu  disse, a faça pensar assim. Só conhecendo. Se a vir e se lhe falar, mudará logo a sua forma de "julgar". A Zuleica é uma mulher tranquila. Resignada. Trabalhadora. Sobre tudo muito honesta e fiel.

Parou um pouco a pensar se devia ou não acrescenar aquilo, mas francamente Helena estava a irritá-lo a falar sem conhecimento de causa. Por isso acrescentou:

- Nunca se casou. No fundo e como diz é outra parva...

- Já vi que tem em si, um acérrimo defensor. E... admirador.

João percebeu o ódio de décadas. A malícia no olhar e no sorriso de Helena. Zuleica para ela tinha de ser uma "perdida". Alguém vil. Por um momento não gostou da direcção que a conversa levava. Se ela pensava que por um momento, os dois, alguma vez tinham tido algo. Mesmo que ela não quisesse, da parte dele haveria interesse... Esta, podia ter tido a sua quota de sofrimento, mas teria sem dúvida, muito a aprender com a outra.

- Vou fazer ouvidos moucos a esse comentário, minha senhora. Como estamos a chegar pergunto-lhe só: Se você ficasse sozinha numa terra em convulsão, olhada pelos seus conterrâneos como tendo dormido e sido conivente com o inimigo. Trazendo na barriga um filho dele. Sem arranjar trabalho em lado nenhum, por causa disso. Temendo pela sua vida e a do feto. Não tendo como se manter a si e à criança, depois... E sendo uma mulher que não aceita derrotas, talvez se tivesse chegado a mim também, para me pedir que a deixasse trabalhar a dias em minha casa, sendo ela professora diplomada e das boas? Ah! Devo dizer-lhe. Já eu era casado. A minha mulher estava também de esperanças. Fique a senhora a saber, que os filhos do Pedro e o meu mais velho nasceram no mesmo dia à mesma hora. Curioso não é? Que eu fosse visitar duas mulheres que pariram e uma fosse a minha, e a outra? A dum colega de armas que a deixou prenhe e nem mais perguntou por ela?

- Filhos! Disse... Filhos?!

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 12:57

Domingo, 12.08.12

O Sentido dos dias – Partida adiada XVIII

Os anos passaram com a velocidade natural da vida. Quando deu por si Pedro Rafael acariciava as cãs. Ainda se lembrava do seu casamento com Helena e dessa primeira noite e ora mirava os filhos já crescidos a requererem liberdade. Durante todo esse tempo muita coisa acontecera. As guerras indesejáveis com Helena por causa duma história de amor mal resolvida e que ainda o marcava, o azar e sorte de um negócio pouco rentável, um livro começado e ainda não terminado, um destino ainda por encontrar.

Certa noite Pedro deitou-se mais cedo. Colocou as mãos a fazer de almofada mirando o tecto do quarto e numa declaração quase dita de supetão, anunciou:

- Helena, vou a Angola…

A mulher soergueu-se da cama e sem surpresa perguntou:

- E isso é para breve?

Pedro Rafael admirou-se pela forma fria como Helena aceitou a sua vontade. Serenamente  como se fosse a coisa mais normal na vida de ambos, o marido perguntou:

- Queres vir comigo?

Helena esboçou um sorriso e com toda a calma do mundo declarou:

- Creio que já falámos disto diversas vezes. Não quero ir, nem nunca irei a Angola.

- Como queiras… Mas eu tenho de ir, entendes?

Helena não entendia. Aliás, a referência àquele país africano era quase sempre símbolo de desavença conjugal. Só que desta vez estava já cansada e nem se preocupou em dizer fosse o que fosse. Virou-se na cama dando-lhe as costas ao marido numa atitude que Pedro embrenhado nos seus pensamentos nem reparou.

A decisão de partir para África transformou o livreiro. Tornou-se mais afável e mais aberto. Às refeições passou a falar de uma forma mais aberta, rindo e brincando com os filhos. Helena por sua vez sentia-se mais apreensiva. Sabia do passado do marido e daquela história de amor que durante todo o casamento pairara como uma nuvem negra ameaçando tempestade.

Uma tarde ao almoço Pedro agarrou a mulher pela cintura e puxando-a para si, obrigou-a a sentar-se nas suas pernas. Jamais durante o seu casamento Helena fora abordada pelo marido daquela forma. Ainda assim tentou esquivar-se, dizendo:

- Larga-me homem… olha que caio!

Ele riu-se e atirou:

- Se caíres, cais nos meus braços…

Nesse mesmo instante Pedro sentiu um aperto no coração. Faltava-lhe o ar e a dor cresceu. Helena depressa percebeu que o marido tinha algo diferente e perguntou:

- Que tens, homem? Estás tão pálido…

Mas ele não respondeu. De mão no coração Pedro sentia a vida a fugir. Num momento de breve lucidez pediu:

- Chama o 112…

O INEM chegou rápido levando o alfarrabista para o hospital. Após uma bateria de exames foi-lhe diagnosticado um pequeno enfarte. Esforços e outras emoções teriam de ser controladas. E entre elas a viagem a Angola.

Pedro nem queria acreditar. Agora que tinha quase tudo preparado para partir, surgira-lhe aquele entrave. Mas não esmoreceu. Com a mesma coragem com que enfrentara muitas vezes o inimigo invisível por entre a floresta selvagem e o capim ressequido pelo sol quente dos trópicos, Pedro atirou-se a uma nova vida onde não cabia o álcool nem o tabaco. Foram por isso tempos muito difíceis, regressando aquele seu ar melancólico e taciturno.

Recomeçou a escrever o seu livro. Devagar, ao sabor das lembranças e das memórias ia alinhavando textos e mais textos. Porém nem a mulher nem os filhos tinham direito a ler os testemunhos que Pedro ia calmamente desenvolvendo. Sempre que alguém se aproximava lá escondia Pedro por entre a pasta já velha e surrada os seus escritos. A doença obrigara-o a alguma calma e serenidade. Era a Maria da Graça a filha mais velha que tomava agora conta da velha livraria. Também ela adorava refugiar-se naquele espólio. E lia muito do que por lá encontrava. E sonhava tal e qual o pai…

Uma tarde estando já melhor, Pedro regressou à livraria. Encontrou-a sem clientes mas com uma lojista atenta. Por detrás de uma resma de livros que tentava em vão arrumar, Maria da Graça dera conta da entrada de alguém e perguntou:

- Boa tarde deseja alguma coisa?

Quando reparou no pai riu-se e foi acrescentando:

- Que tal um banquinho para se sentar?

Ao que o pai respondeu:

- Olha minha menina aprende que os livros também falam…

Lembrou-se então de Alberto. E riu-se. A filha imitou-o. Pegou então num livro ao acaso e leu o título:

- Bom livro este…

- Como se chama?

 - “Africa Minha”

 

José da Xã

 

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por José da Xã às 13:11

Quarta-feira, 08.08.12

Sentido dos dias - Perto XVII

O resto da viagem correu sem acidentes. Andaram mais que o estipulado, não fosse acontecer novo percalço e noite já alta chegaram a Negage. O rio Cáua corria indiferente, escuro, só reflectindo a luz duma lua branca magnífica, no meio de pouca claridade. Tão tarde da noite João preferiu não arriscar os dois únicos hotéis da zona, até porque a maior parte do seu espólio se tinha esgotado. Preferia que o seu amigo resguardasse o dele, para qualquer eventualidade futura. Portanto, adiantou-se na estrada até à missão de padres capuchinhos, datada de 1970. Lá por certo lhes dariam guarida de boa vontade. Os aprovisionariam do que necessitassem, dentro das suas possibilidades. Ainda que dormissem num catre, ou no chão mesmo, fazê-lo ali era estar seguro. Longe de predadores de toda a espécie, dos mosquitos e dos "renegados" ou aproveitadores. Foram bem recebidos. E mesmo àquela hora, havia sempre alguém de vigília. Logo que se lavaram, uma malga de caldo condimentado e grosso para confortar o estômago, soube-lhes como o melhor manjar.

Já cada um nas suas celas exíguas Pedro, exausto, deixou-se cair na cama estreita. Doía-lhe a perna. Todo o corpo. E a imagem da enorme cobra ao ombro do negro, passou-lhe do novo pela memória...Havia algo que o protegia ali. Que parecia querer que ele levasse a sua missão até termo. Olhando o enorme crucifixo pendurado nas paredes caiadas suspirou. Devia fechar os olhos e dormir. Apagar apenas! Como se o mundo o engolisse, de preferência sem sonhar. Contudo voltou a erguer-se e sentado acendeu a vela da mesa de apoio, tosca, única peça de decoração além do jarro e bacia, com o penico de esmalte branco. Escreveu. Data. Hora e acontecimentos recentes. Parou! Levantou-se e alto como era, não lhe foi difícil espreitar pelo pequeno buraco com grades, que servia de janela. O cheiro do rio, misturado com a frescura da terra, à noite, acariciada pela torreira do sol implacável, durante o dia trouxeram-lhe a imagem dos cafezais. O seu aroma. Pedro Rafael inspirou sôfrego. Atreveu a vista mais longe alcançando as palmeiras. O branco do edifício em contraste com o chão, de caminhos bem definidos orlados de pedras pequenas claras. Um céu de cortar a respiração. E...Pensou nela!

"Estava tão perto. Tão perto! Como estaria ao fim de tanto tempo? Ainda seria bela, de certeza! E aqueles olhos verdes que o enfeitiçaram... O sorriso como um monte de neve pura. O seu menear de ancas. As pernas lindíssimas. Os seios, cheios, cabelos..."

Aquela mulher iria com ele para a tumba! Com todos os sentidos ainda despertos, sempre que pensava nela. Aquele tambor no peito. Era tal se ouvia antes nas picadas, transmitir-se pelo ar, de cubata em cubata como sinalização...Mas o seu tambor? Era o coração. A paixão forte! Tão vincada que ainda que morresse daí a segundos, se a visse morreria feliz. E portanto era um homem casado. Com filhos. Uma vida tão distante e ainda hoje..."Deus! Largaria tudo se ela o quisesse. Se estivesse livre." Que estupidez! Onde estava com a cabeça? E... Helena?! Não lhe merecia aquilo.

A cabeça rebentava-lhe. Daí a nada nasceria o sol e se não dormisse poucas horas que fosse, arriscaria a ficar doente. Pelo caminho com o calor e toda aquela excitação acontecer-lhe-ia o que adiava..."Não! Não era a porcaria dum derrame qualquer cerebral... Uma merda dum ataque cardíaco, que fariam com que perdesse tudo de novo. Queria vê-la. Falar-lhe, desculpar-se. Como? Não sabia! Mas se ela sentisse o que ele sentia... Queria ver o filho. O fruto daquele amor tão lindo, que..."

Agarrou na toalha puída, mas imaculada, e molhou-a no jarro de água. Levou-a à cabeça. Entretanto na sacola que levava consigo, para além de algumas outras coisas essenciais, procurou um analgésico. Tomou-o! Apagou a luz e deitou-se. Pela fresta da janela e reflectida no pequeno quarto, entrava a luz do luar que incidia no Cristo da cruz. Rezou! Implorou um pouco de paz. Conseguir dormir. Aguentar. "Por favor, Senhor! Só vê-la. Só te peço isso. Deixa-me chegar lá. Falar-lhe. Sentir-me de novo um homem digno. Depois, meu Deus... Sou todo teu!"

Era já meio da manhã quando João, para lá da grossa porta de madeira, o chamou:

- Então, meu capitão? O manhã já vai alta... Está tudo bem, aí dentro?

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 14:09

Domingo, 05.08.12

Sentido dos dias – Na aldeia XVI

O carro parou com um ronco.

- Chegámos  - suspirou Pedro.

- Finalmente… Isto é onde Deus perdeu as botas – confessou Helena.

O condutor saiu do carro. Espreguiçou-se e aspirou com prazer um ar frio da noite. Reconheceu o odor a lenha arder nas lareiras, o perfume das margaridas em plena primavera, o aroma da terra molhada devido a uma chuva teimosa que caíra durante a tarde.

No céu as estrelas espalhavam-se como num manto. A Lua era a rainha da escuridão brilhando de forma imponente. Pedro virou-se para dentro do carro onde Helena tentava em vão acordar as crianças mais novas e solicitou:

- Deixa as crianças dormir… Vem cá fora respirar este ar…

Helena acabou por sair mas foi dizendo:

- O que é que tem este ar? É igual aos outros…

Pedro não desarmava.

- Isso dizes tu. Estás habituada ao de Lisboa…

Helena devolveu:

- Que eu saiba vivi mais de vinte anos em Alenquer que é muito longe de Lisboa…

Pedro não desejava discussão, por isso mudou de conversa.

- Será melhor entrarmos. Está frio aqui fora…

Pedro meteu a chave à porta e entrou numa escuridão mas que ele conhecia muito bem. Lá dentro um cheiro a bafio misturava-se com o ar da rua. Tacteou e encontro um velho interrupto de luz, último melhoramente feito pelo pai antes de falecer.

Demoraram a instalar-se. Mas quando finalmente Pedro se deitou na velha cama de ferro que herdara dos pais passou o braço por cima do pescoço da mulher e puxou-a para si. De uma forma ternurenta, que Helena não conhecia no marido, beijou-a na testa e sussurrou:

- Obrigado!

Helena sorriu e encostou-se mais ao marido.

No dia seguinte Pedro acordou com o som de um galo a cantar. O sol parecia, também ele, querer acordá-lo ao entrar por uma fresta dos taipais de madeira que tapavam a janela. Levantou-se devagar tentando não acordar Helena e dirigiu-se para a pequena varanda que havia na cozinha e que lhe dava acesso ao quintal.

Devagar descerrou todos os taipais e abriu finalmente a porta. A beleza do que viu à sua frente deixou-o sem palavras. Aquela encosta que se abria na sua frente até quase se perder de vista e de um tom verde que ele já esquecera fê-lo dizer algo:

-É aqui que tenho de começar a escrever livro da minha vida…

As palavras de Hermínio, numa das suas últimas visitas à loja em Lisboa, deixaram marcas profundas no seu coração.

Mas que livro tinha ele que escrever? Ou seria que as palavras tinham outro sentido? Ele adorava escrever mas… um livro? Respirou profundamente.  Não sabia que pensar!

Ao fim de quase vinte anos de ter partido para África para cumprir a tropa, Rafael regressava agora às suas origens em busca de si próprio, talvez. Em Maio a festa do Senhor dos Aflitos tinha peso na vida dos que ali haviam nascido. Prometera na viagem para Angola regressar a Campo para levar o andor do Santo Padroeiro, se regressasse vivo e bem de saúde. E estava agora ali para cumprir o que prometera.

Mas dentro do seu coração e da sua alma morava uma dúvida e um sonho. Zuleica dera-lhe a entender que esperava um filho seu. Mas seria verdade? Ou apenas uma forma de o fazer regressar a Angola para os seus braços?

Porém o sonho de voltar ao país que realmente o transformara, mantinha-se.

Durante três dias calcorreou as terras herdades e quase abandonadas. Entrou no velho palheiro do pai e encontrou as guinchas penduradas, assim como os escrinhos quase todos desfeitos. As arcas de madeira carcomida pelo bicho ainda pareciam ser imponentes. Mostrou às suas crianças onde brincara e onde crescera. A escola primária e o lagar do azeito do Ti Salomão. Foi um tempo de apaziguamento com o passado.

De mão dada com Helena, enquanto as crianças corriam à frente deles numa das veredas, Pedro Rafael desabafou:

- Helena, foi aqui que tudo começou. É daqui que tenho de recomeçar.

- Mas recomeçar o quê?

O transmontano olhou em seu redor. As cerejeiras começavam a surgir com uns berlindes tão pequenos que mal se viam, o vento acariciava a seara num chão próximo e a chilreada da passarada era música para os seus ouvidos.

- Escuta isto, Helena…

- Isto o quê?

- Isto tudo que aqui vez sou eu…

- Não entendo, homem!

De súbito calou-se e respondeu apenas:

- Pois não Helena, pois não!

 

José da Xã

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por José da Xã às 10:25

Quarta-feira, 01.08.12

Sentidos dos dias - Misticismo XV

 

A primeira ronda fora sua. Agora enquanto via João andar sorrateiramente de volta da fogueira,  a agitar o que já morria nela, Pedro sentia todo o corpo pesado. As pernas matavam-no. Os pés estavam inchadíssimos, com as tiras das sandálias pressionadas contra a sua carne crestada do sol. A pele dos braços e do rosto era fogo! Um unguento seria uma maravilha ali, um bom banho e uma cama então...Sentia as nádegas suadas. Os elásticos dos slipes comprimidos nas virilhas. Teve ganas de tirar os calções e tudo o que o incomodava, dormir nu. Mas os mosquitos... Outra contingência que acontecesse e preferiu deixar-se estar. Aguentar. Recordou a família longe. Como estaria Helena? Os filhos, cada um na sua labuta. E mais uma vez o médico, que lhe dissera, que para além da vacinação habitual, de quem se desloca para estes países, ele deveria levar um mundo de panaceias e "mezinhas" modernas que lhe permitissem passar melhor, enquanto por ali se atrevesse. Mas Pedro Rafael rira-se! Quem estivera numa guerra daquelas e sobrevivera, com certeza aguentaria (mesmo uma imensidão de anos depois) umas bolhas d'água, umas "assaduras". Muitos desconfortos que já esquecera, obviamente. E daria graças por uma mala recheada de prontos socorros específicos. Alguém que lhos aplicasse. 

Confiava totalmente no amigo. Era uma questão de principio. Conhecia-o quase como a si mesmo. Já lhe salvara a própria vida, por isso adormeceu. Extenuado. Com o episódio, na cabeça, em que João o salvava a si e a Zuleica naquele dia de horror. E... Sonhou! Continuou a sonhar, um sono algo leve e fundo. Perturbado e não compensador. Vi-a de novo. Nua! A dirigir-se na sua direcção. Bela, jovem, a debitar amor e paixão por cada poro do corpo. Esteve de novo com ela! Sentiu ainda naquela madorna doentia, o seu coração a disparar e a pele dela sedosa sobre os seus dedos. Ouviu-lhe os murmúrios, os suspiros. Aparou-lhe os seios nas mãos e a urgência. Deu-se! Como se pudesse fazer um qualquer tipo de alquimia, pegar numa ponta do véu do tempo, para obrigá-lo a voltar atrás! Saboreou beijos, suor, e gemeu também sem pudor. Mais tarde quando acordasse veria que mesmo idoso ainda era... E de repente o sonho mudou! Viu Alberto. Falava qualquer coisa imperceptível. O rosto muito sério. Calculou que fosse um aviso, mas era apenas um sonho a transformar-se em pesadelo. Ele a querer acordar sem conseguir. Como naquelas alturas em que dormimos e sabemos que não o queremos fazer mais! Teimamos em acordar, mas o subconsciente e o corpo ordena, aquele tipo de transe. Até que se recobre domínio sob todas as nossas funções cognitivas de alerta, é um caso sério. E foi nesse torpor quase agonizante, que o "gigante" de antanho, dentro da sua loja de alfarrabista, lhe falava agora sobre o destino. Sobre cada livro ter o destino de cada pessoa. Este se ir escrevendo a cada dia, muitas vezes a caracteres de sangue suor, lágrimas e... Sentiu uma guinada no tornozelo direito. Tinha o pé entalado e doeu-lhe ser arrancado sem delicadeza, pelo abanão abrupto, e o despertar fez-se violentamente também.

"Tu! Patrão. Ainda não é hoje que terminarás o teu livro. Tens uma dívida com África e tens de lha pagar. Só depois...Só depois..." As palavras bateram-lhe tão fortes e nítidas na cabeça como se uma pedrada o tivesse atingido, embora o negro possante que o empurrara para fora do gipe com as portas todas escancaradas, como adormecera, apenas o olhasse fixamente. A arma em punho na sua direcção apontasse a matar, disparando logo de seguida. Mas ao lado! Pedro ficou em pânico. Onde estava João? Haviam-no morto? Demorou um bocado a situar-se na cena que tinha na frente. O negro enorme, de camuflado exibia agora na sua frente uma cobra mortífera, de vários metros. Uma grossura impressionável. Por entre um português "arranhado" percebeu que esteve a um décimo de segundo de ser mordido. Este chegara na hora certa. Mas donde raios surgira? Poucos minutos passados, começou a ouvir vozes. Olhou para trás ainda algo confuso e viu o carro dos outros três, que ao início da noite, passara por eles. João conferenciava sobre o bidão de gasolina que estava do seu lado. Agitava algumas notas na mão. Este possivelmente viera com eles... Sem saber o que fazer, Pedro compôs-se, empertigou-se dando-se alguma importância mesmo depois do acontecido, agradeceu. O negro nada disse. Atirou com o animal para cima das costas e virou-lhas, deixando-o a olhar embasbacado. Mal chegou ao pé dos restantes o português foi substituído pelo dialecto em comum. Risada abundante. Logo depois, já o dia queria raiar, o carro com todos lá dentro, fazia-se à estrada e depressa desaparecia. João não tardou a encher o seu depósito para seguirem viagem, logo que apagou convenientemente a fogueira. Pedro atónito, estava ainda sem acção, mas perguntou:

- Sabes o que o tipo fez?! Se não fosse ele... Mas porque se riam tanto?

- Ora, meu capitão, não se hão-de estar a rir. Não é de si, fique descansado! Coisas destas acontecem até a eles. Uma bicha daquelas. Foi obra!

- Então riam-se de quê? Falavam sobre que assunto, tão bem dispostos?

- Pois, claro! Rejubilavam sobre me deixarem quase "teso" com a porcaria do preço do bidão. E gozavam! Além disso já tinham almoço. Portanto a noite correu-lhes de feição. Mais umas litradas de aguardente, a que um deles tresandava. Algumas garrafas que vi no caixote da bagageira...

Pedro acenou concordando, mas sem contudo conseguir distrair-se da voz do negro na sua cabeça. Do olhar dele. Daquele género de misticismo que o envolvia e tudo naquela terra. "Tu! Patrão. Ainda não é hoje que terminarás o teu livro. Tens uma dívida com África e tens de lha pagar. Só depois...Só depois..." As palavras pareciam bailar a cada quilómetro conquistado da savana. Uma brisa fresca e bem-vinda, ainda lhes fazia ser possível respirar sem dificuldade.

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 14:37


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