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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Domingo, 29.07.12

Sentido dos dias – Teorias XIV

 

O negócio de alfarrabista não fora  no inicio grande aposta. A maioria das vezes o dinheiro que Pedro angariava da venda de alguns volumes nem chegava para pagar a luz da loja, quanto mais dar sustento à mulher e aos filhos. Valia-se então do dinheiro que herdada e que era bastante. Aliás Helena queixara-se da vida que tinha: abandonara o trabalho para criar os filhos e ajudar o marido mas este estava quase sempre ausente.

No entanto, nos últimos tempos, algo mudara em Pedro Rafael. Após o parto prematuro de Alberto, o filho mais novo, e de uma enorme teima com a mulher devido à sua postura evasiva, Pedro percebeu enfim de que nada valia exibir aquela tristeza e prostração. Tinha três filhos maravilhosos e uma companheira que o amava como ninguém. Devagar foi usando de uma nova postura e o ambiente em casa tornou-se mais familiar.

Certo dia um homem entrou na loja. Pedro arrumava uns compêndios acabados de comprar quando aquela figura quase gigante lhe apareceu. Era um homem de uma envergadura quase anormal. Media mais de um metro e noventa, pois teve de se baixar para passar na ombreira da porta e pesava muito acima dos 120 quilos. Espantado com aquela presença Pedro cumprimentou:

- Bom tarde.

- Boa tarde, cavalheiro. O Alberto?

O alfarrabista admirado com a questão respondeu com sinceridade:

- O senhor Alberto morreu, haverá uns anos valentes… Porquê?

O outro aproximou-se e estendeu a mão a Rafael. Esta viu a extremidade do seu braço ser literalmente engolida pela mão da visita mas sentiu-a quente, macia e afável.

- Chamo-me Hermínio Correia. Fui durante muitos anos cliente e amigo de Alberto. Lamento a sua perda.

Olhou à volta das estantes repletas. Pairava no ar um cheiro característico a mofo e a velho. Hermínio calmamente inspirou aquele ar bafiento e foi dizendo:

- Ele bem que me avisou…

- Como?

- Alberto respondeu-me uma vez, quando lhe perguntei porque não vendia a loja, que ninguém merecia receber este espólio. Mas por aquilo que vejo você mereceu…

Pedro não entendera a conversa. Apostou então num esclarecimento:

- Explique-me lá o que está a dizer.

- O velho Alberto era um amigo de longa data. Conheci-o quando frequentávamos a mesma escola. Você sabia que ele era licenciado em Filosofia?

- N… não.

- Pois, calculava. Mas como dizia conhecemo-nos na escola. Ele era muito rico… Herdara uma quantidade de quintas no Norte e prédios aqui em Lisboa. Filho único, neto único vendeu então as fazendas e comprou esta loja que se encontrava vazia. Calmamente com o resto do dinheiro foi adquirindo livros e mais livros. Encontrámo-nos anos mais tarde na baixa. Ele falou-me desta loja e então passei a visitá-lo com regularidade. Entretanto tive de partir para o estrangeiro e só cheguei há alguns dias.

- Eu nada sabia da vida dele. Apenas que me deixou em herança a loja com os livros…

- Então os prédios?

- Isso não sei meu amigo.

- Hum cheira-me que houve saias nisto.

- Saias? Como?

- Não interessa, são teorias minhas.

Continuou:

- E que tal vai o negócio?

- Mal! – foi a primeira reacção, mas logo emendou – nunca estamos contentes com o que temos sabe…

- Eu sei, eu sei. Mas Alberto tinha também umas ideias muito esquisitas quanto aos livros…

- Como assim?

- Ele muitas vezes me confidenciou que os livros tinham vida própria… E que todos tinham destinado um dono!

- A mim disse-me o mesmo…

- Ele tinha a ideia absurda de que um livro após ser lido a primeira vez ficava indelevelmente ligado ao leitor… – Hermínio dissera esta última frase como estivesse a dar uma palestra. Esbracejava, apontava aos volumes, sorria por fim.

- Hã. Como assim?

- Pois é, meu caro. Alberto tinha umas teorias um tanto… como hei-de dizer… fantasmagóricas…  Acreditava na força do pensamento  com razão de vida. Ele próprio vivia a sua vida dessa forma. Por isso ele lhe vendeu a loja. Porque você tinha para ele uma forma de estar muito semelhante à dele.

- Mas eu não acredito nessas coisas… dos livros terem… um destino predefinido.

- Isso julga o senhor… Mas para Alberto o seu livro ainda está por ler…

- O meu livro?

- Sim o seu livro da vida…

- O senhor confunde-me… Quem é realmente você?

O outro riu-se. E entregando-lhe um livro, respondeu:

- Apenas um mero cliente! Levo este! Quanto é?

Rafael pegou no livro e leu o título:

“O Advogado do Diabo”

 

José da Xã

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por José da Xã às 01:37

Quarta-feira, 25.07.12

Sentidos dos dias - Isolados XIII

Caxito fica na Província do Bengo tão perto de Luanda mas vive-se ali como se já no interior de Angola. João ia alertando o amigo para algumas modificações, sítios conhecidos de ambos e acima de tudo para a atenção que teriam de ter ao fechar o carro. Lá atrás levava abastecimento de gasolina que lhes desse pelo menos até novo ponto já estudado por si, visto que a maior parte das vezes, as bombas de combustível estavam todas secas, coisa que Pedro confirmou porque poucos metros à frente deles, apareciam várias pessoas que tinham jerricans cheios para venda... pelo dobro do preço, entenda-se. Assim a paragem foi pouco demorada. Somente para recordar, tirar algumas fotos, muitos apontamentos e "cumprimentar" o rio. Ao largo da cidade, passa o rio Bengo sobre o qual reza uma "lenda" que diz que quem beber da água deste rio ficará para sempre em África o que fez Pedro Rafael quase chegar às lágrimas. Aquela terra mexia com ele apesar de tanta dor que lhe causara em toda a sua vida, privando-o de ter uma existência normal e feliz. "Se ele tivesse ficado? Se com ela formassem hoje uma família? Vissem os netos ( que não tinha e ali precoces, como são as raparigas, já os haveria) a circundá-los, brincando a qualquer jogo infantil, sem preocupação. O tempo correria mole e quente como os beijos de que se lembrava. Teriam todos aqueles momentos especiais, que há no mundo para viver o amor que ele interrompera, abraçados debaixo do telheiro da casa, ou sentados de mão dada a beber refresco e a conversar."  

A imagem de Helena sobrepôs-se à do rio. Logo de seguida a de Maria da Graça e dos outros dois filhos. Foi como fazer uma aterragem de risco. Sentiu o estômago a comprimir-se. Reprimiu o vómito, da aguadilha que se lhe formara na boca. Fora um erro vir! Tinha de se convencer que a vida dele estava longe dali. Ter vindo não ia adiantar mais que ser ou não aceite por alguém, que possivelmente refizera a sua vida. O veria como um "incómodo" ao ter de explicar ao companheiro quem ele era. Ficaria um clima de "cortar à faca" no ar. Que começaria logo pelo filho. Como poderia ele esperar que o aceitasse depois da mãe lhe dizer que o pai lho fizera, mas a deixara lá. Certamente a primeira pergunta seria: "Se gostavas tanto dela porque não ficaste, ou a levaste contigo?"  O carro já deslizava de novo pela estrada de alcatrão, outrora uma picada. E os pensamentos velozes explodiam-lhe na cabeça como granadas. Cravavam-lhe garras no coração e na garganta como tigres esfomeados. "O que raios estava ali a fazer? Estava tudo errado. Tinha de regressar e esquecer-se. Nunca iria dar certo aquele encontro. Nunca! Havia demasiado tempo entre os dois, que adensara feridas e levara todos os perdões para longe... Talvez fosse melhor alertar João que a visita seria diferente. Focada mesmo nos sítios de antanho. E ela...Meu Deus! Ela?! Ia fugir de novo como o covarde que tinha sido? Estava tão perto! Só queria vê-la... Antes de morrer"

- Merda! Filhos duma jibóia. Cães do diabo!!! Cabrões....

O veículo começara a soluçar e a engasgar-se. Não andou muitos metros e o depósito indicava zero de combustível. João saiu desvairado, vermelho como um pimentão, a bufar e a praguejar como nunca ouvira, Algumas palavras no idioma local. Suava em bica e gesticulava dando murros no ar, pontapés nos pneus, em profunda cólera. Rafael não precisou de muito para perceber a má situação em que se encontravam.

- Fomos roubados! Levaram-nos os bidões de reserva também, não me digas?

- Aqueles filhos duma noite de lua cheia. Já sabia que não se pode baixar a guarda. Muitos vivem de roubar para vender. O pior é que aqui no meio de nenhures, estamos feitos!

O sol queimava-lhes a pele impiedosamente. Ambos já tinham bebido mais água que deveriam. Passara uma hora e dentro do carro, de portas abertas, não corria uma brisa. Duas girafas ignoraram-nos um bocado mais adiante. Pedro fez disparar a objectiva. "Contando que não aparecesse nenhum leão, ou rinoceronte..." João tentara o rádio que instalara no carro, visto telemóveis não serem de grande ajuda. O aparelho rouco fazia zumbidos e dava estalidos, que mais parecia estar a entrar-se em contacto com Marte. E a noite daí a nada estaria aí. Uma fogueira foi no que pensaram. Portanto não muito longe do jipe tentaram apanhar ramos e alguma erva seca. Com o isqueiro não seria difícil atear uma boa chama naquele estado desidratado, em que tudo estava. Andavam há poucos minutos dedicados a isso, bem como a manterem-se a salvo de possíveis predadores, quando viram um carro lá muito ao longe a aproximar-se numa nuvem de pó. "Qual era a possibilidade de um carro passar por ali àquela hora tardia e quem viria lá dentro? João apalpou o flanco esquerdo, onde Pedro só agora reparava desenhar-se o feitio duma pistola, ao mesmo tempo que lhe dizia para ficar calmo e junto dele. O deixar falar. Quando o jipe muito velho, de aspecto de ser da tropa nos seus dias áureos parou, vinham dentro três negros com espingardas sofisticadas. Um deles em pé sobre o tejadilho, com ela apontada para todo o lado, o "pendura" com a alça ao ombro. Mal os viram João começou a dialogar e a explicar o que lhes acontecera. Ao que parecia não falavam português, ou se esforçavam por isso. Os rostos fechados e o olhar desconfiado, quase agreste deixou Pedro algo preocupado, ao divagar sobre a arma do amigo. Em toda a conversa não se viu um sorriso, saírem do carro, ou mudarem de posições. Apenas negações e afirmações curtas. Como tinham vindo partiram na mesma nuvem de pó, que fez João praguejar de novo:

- Filhos duma vaca! Desculpe meu capitão, mas neste gajos não se pode confiar.

- Bem, ao menos estamos vivos. Será que regressam à noite? Também pouco têm que levar. Só o carro e as nossas vidas, mais pouca coisa.

- Hum... Disseram-me que regressariam com dois ou três jerricans, mas se quisermos algum, teremos de pagar bem. Supostamente são uma patrulha que anda por aí. Daqueles que ainda pensam que são os donos disto, se é que a haver donos não se matam uns aos outros. Ou comem todos no mesmo prato e dividem os despojos. Nunca se percebe muito bem o que querem e o que fazem.

- Veremos! Daqui também não vamos a lado nenhum. Portanto façamos a fogueira, enganemos o estômago com qualquer coisa que sobrou e montamos guarda. Posso fazer o primeiro turno.

- Raios, meu amigo! Voltámos aos velhos tempos ou quê?

Pedro riu-se e desvalorizou.

- João! Isto que se passa agora connosco, comparado com os velhos tempos, parece mais um musical do Fred e da Ginger, não?

João deu uma gargalhada alta e bem disposta, que fez esvoaçar algumas aves pousadas numa arvore próxima. O horizonte tinha já uma ponta de azul e ocre.

- Essa é boa, sim senhor! Bem, o carro ainda tem música, por isso vamos lá animar isto.

 

Verniz Negro

 

 

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por José da Xã às 15:38

Domingo, 22.07.12

Sentido dos dias – Confissão XII

Percebeu que alguém lhe batia à porta. Devagar, como se fosse um sacrifício levantar-se, chegou junto à velha porta e abriu-a. Deu de caras com Helena que de braços cruzados numa atitude pouco simpática, perguntou:

- Hoje o menino não vai para casa?

Pedro odiava quando a mulher o tratava por menino. Era como se regressasse ao tempo de criança pobre. Respirou fundo e respondeu com toda a calma que podia:

- Desculpa, tens razão, mas fiquei a arrumar uns livros nem dei pelo tempo passar.

Helena espreitou para dentro da loja tentando confirmar as declarações do marido e não vendo nada de diferente, acrescentou:

- Sim acredito. Mas deves ter metido uns sobre os outros…

O alfarrabista fechou a loja e dirigiram-se para casa. Caminhavam em silêncio, mas uma nuvem de tempestade parecia pairar por cima da cabeça de ambos. Foi Helena que começou:

- Temos de conversar… E muito a sério!

- Pois sim, fala!

Helena nem sabia por onde começar. A sua vida de casada com Pedro fora assim uma espécie de vida dupla. O marido desde a compra da loja jamais fora o mesmo. Passava horas e horas na livraria trazendo para casa uns parcos tostões. Não fosse a herança recebida e a família passaria imensas dificuldades. Mas o pior era aquele distanciamento que Pedro mantinha com a mulher e os filhos. Helena cansara-se. Não poderia ser uma personagem de segundo plano. E estava naquele momento decidida a colocar um fim.

- Eu nunca soube que segredo é esse que te consome as entranhas, que te faz ser um homem em casa e um outro na livraria. Eu preciso de saber!

O marido tentara durante anos adiar esta conversa e a divulgação do seu segredo. Mas agora era tempo de explicar tudo. Porém temia que Helena não entendesse, não aceitasse. Retirou um cigarro do maço Porto acendeu-o e perguntou:

- Mas saber o quê?

- Bolas homem, diz-me a verdade, fala comigo, desabafa… Sou a tua mulher, carrego na minha barriga um terceiro filho que não queria mas que tu pretendeste, por isso tenho o direito de saber.

Pedro meteu a mão ao bolso das calças à procura de uma pequena garrafa de aguardente. Habituara-se ao álcool tentando enfrentar cada dia, cada hora. Aquela revista reavivara-lhe tais memórias que… Doía-lhe o coração e o peito. As lágrimas começaram a correr cara abaixo. Parou então. Helena imitou-o. Mas não desarmou.

- Não entras em casa sem me dizeres tudo. Não quero discussões à frente dos miúdos. Portanto fazes o favor de falar. E a verdade…

Rafael olhou o céu já negro da noite e suspirou. Nem sabia como começar. Lembrava-se dos tiros e das explosões das granadas, dos gritos dos companheiros estropiados, do silêncio dos mortos a quem teve de fechar os olhos, do cheiro a carne humana queimada e de… Zuleica. As noites serenas, as lágrimas choradas e que ela secava com ternura… Os risos e os abraços, o amor à flor da pele, duma pele castanha e sedosa. O perfume de mangas e ananases…

- Hum… Na guerra, perto do quartel havia uma aldeia de nativos… E morava lá uma rapariga…

- A Zuleica que vos lavava a roupa? Já me tinhas contando.

- Essa mesma. Mas… Eu vivi com ela muito tempo… - e fiquei mais tempo em África do que o costume por causa dela... – disse tudo num repente, como se vomitasse as palavras.

Helena deixou sair um longo e profundo suspiro. A rua estava deserta. Um ou outro táxi passavam devagar. As lágrimas corriam também pela cara bonita da grávida. Buscou um lenço da parte de dentro da manga da camisola, assou-se e foi dizendo:

- És um canalha… Porque quiseste casar comigo? Para a esqueceres? Ou quando fazias amor comigo pensavas que estavas com ela? Não mereces o amor que tenho. Mas podes ir embora para Angola, vai ter com ela, desaparece da minha vista…

Era esta reacção que Pedro tentara evitar. Sempre pensara que o nascimento dos filhos o faria esquecer Zuleica. Mas aquela revista que agora guardava entre as suas coisas acordara-lhe uma imensidão de recordações. Tinha de lhe explicar, de a fazer entender.

O frio da noite envolvia-os. Cigarro atrás de cigarro, Pedro fumava compulsivamente enquanto Helena encostada a um prédio carpia de mansinho. Mas refém da coragem e tenacidade uma vez mais enfrentou o marido:

- Como me pudeste enganar?

- Mas eu não te enganei. Eu amo-te…

- Como podes amar duas pessoas ao mesmo tempo? Explica-me…

- Amando só… Não sei!

- Vai à tua vida, vai. Deixa-me em paz…

- Helena não me faças isso! Eu gosto tanto de ti.

De súbito Helena baixou-se com a mão na barriga. Gemia agora mais que chorava. Anunciou:

- Chama um táxi depressa e leva-me para o hospital.

 

 

José da Xã

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por José da Xã às 01:48

Quarta-feira, 18.07.12

Sentidos dos dias - Vidas XI

O Sol aquela hora da manhã já lhes queria arrancar a pele. Dentro do jipe e com o ar condicionado quase no máximo. O astro rei a bater nos vidros fazia-se implacável, como se quisesse entrar e participar da conversa. A telefonia baixa, acabara de dar o tempo, as notícias e uma música dolente com uma voz pacífica corria, como o veículo ora mais ou menos célere. Lá à frente a estrada parecia derreter-se num tremelicar que adivinhava um dia de inferno. Nada a que os dois amigos não estivessem habituados. E foi quando debaixo duma das poucas sombras pararam para "matar o bicho" e desentorpecer as pernas, que a conversa se fez mais franca. Até aí, focara-se em trivialidades e possíveis cenários que encontrariam.

- Diga-me cá, Pedro! Você nunca mais aqui pôs os pés...O que me leva a pensar que terá uma boa vida lá pelo nosso Portugal. Porquê agora no fim da vida? Nem me diga que é só por causa dela e do miúdo. Você tem filhos lá seus, não tem?

- Uma vida boa sim, João. Posso considerá-la. Não foi melhor por culpa minha.

- O que quer dizer com isso homem? No fundo o que você deixou para trás aconteceu a tantos...Não se pode viver sempre no passado. Você não teve culpa de nada. E se tem uma boa mulher, filhos uma vida desafogada, feita, é descansar agora. Esperar por ela.

- Por não conseguir deixar de pensar nela é que quase desperdicei e arruinei a minha vida.

- Eh, lá! Eu falava da morte. Essa está certa aí ao virar de qualquer esquina. Espera-nos. Mas conte-me lá, se me acha capaz de ouvir, tanto que o amargura homem? O caminho é longo e ainda agora começámos. Então a sua senhora... Sabe dos seus motivos?

- Sabe, João. Anos atrás quando fui obrigado a contar-lhe estava ela grávida do nosso terceiro filho. Tivemos uma discussão tal, que o gaiato nasceu prematuro. Há coisas na minha vida que apesar de me correr bem, ser hoje um homem de sucesso estive por um triz de não ser ninguém.

- Compreendo...

Pedro bateu nas costas do amigo e mais uma vez regressados ao carro, com ele em andamento já depois de consolado o estômago e refrescada a pele com uns salpicos de água, continuou a narrativa.

- Não meu caro! Nem te passa pela cabeça. Perguntar-me-ás: O que leva um homem que tem uma mulher ainda hoje bonita, a melhor de todas quiçá. Uns filhos que nunca lhe deram problemas, de quem me orgulho e um presente feito de sucessos a arrastar-se no passado? Querer sempre algo que lhe falta, mas não sabe explicar. Um sentimento de amargura constante. Eu? Tive tudo. Mas parte de mim perdeu-se. E não acaba!  

- E a sua senhora sempre conviveu com isso. Grande mulher! Se fosse outra...

- Se fosse outra, não gostasse de mim e tivesse essa espectacularidade que lhe atribuís, quando uma semana depois do miúdo ter nacido me ameaçou que, ou eu mudava ou ela sairia com os filhos, teria ido embora.

- Mas se você não mudou... Está aqui é porque de muito, não serviu.

- Tive de me adaptar. Fazer das tripas coração. Ela tinha razão. Já não estava a ser vida, as noites passadas em branco. A ameaçar viciar-me no álcool. Fumar que nem um danado para ela me ir encontrar assim, esgotado. Irritadiço. Ou quando mais tarde já trabalhava no que era meu me resguardava, no chegar cada vez mais tarde a casa, para esconder que bebera: Apesar disso nunca ter interferido a sério com o que fazia. Outra mulher? Ela já nem falava disso. Sabia que mulher me assombrava. Não sei se fiz bem em contar-lhe, entendes? Um homem deve guardar os seus fantasmas consigo.

- Ah, Pedro, meu amigo! Não se martirize. Quando os fantasmas começam a azucrinar o miolo, temos mesmo de desabafar. Sei do que falo. Eu com a minha e sabe que a conheci aqui, fiz toda a minha vida...Não terei esse tipo de alucinação. Mas tenho outras que você acumula com essas. As pernas pelo ar, os miolos desfeitos, os camaradas a esvaírem-se em sangue nos braços. A nossa própria saliva a lavar a pó da estrada e dar a impressão que todos nos haviam abandonado. Um dia um balázio era o nosso destino. Não se condene sem razão. Depois de tudo o que passamos, temos sorte de estar aqui e com o juízo todo. Fez bem contar-lhe. Afinal ela foi a sua parceira. É a mãe dos seus filhos.

- Fui um covarde, João! Devia ter regressado na altura. Ter resolvido os meus assuntos pendentes. Assim deixei-me envolver por ela. Que me aqueceu a alma depois de destroçada. Me ajudou quando eu não sabia o que queria, ou o que fazer depois de ter visto a carnificina acontecer. De não concordar com nada daquilo que nos mandavam fazer e... Depois duma noite já de cabeça toldada, me ter aquecido o corpo na cama também e achar que devia casar come ela. Afinal seria lá o meu lugar. Quando tinha sempre a outra no pensamento...

- Hum... Desculpe que lhe diga meu capitão, mas as mulheres sempre lhe deram volta rápida ao juízo. Você ficou sempre um bocado à nora com as raparigas. E depois essa sua mania de ser cavalheiro. Quando se dorme com alguém não se tem forçosamente de se cumprir com a pompa do casamento...Bah!

- Educações muito rígidas, meu bom camarada. Uma mãe católica, um pai conservador. Uma aldeia para lá do sol posto e pouca soltura. Eu fui para Àfrica sem saber nada! Cheguei aqui e pouco mais tinha aprendido, que disparar, limpar armas e matar.

João sorriu solidário. Interrompeu a conversa logo de seguida, apontando para um aglomerado de casas que emergia do pó lá ao fundo.

- Eis a nossa primeira paragem. Caxito!

 

Verniz Negro

 

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por José da Xã às 12:46

Domingo, 15.07.12

Sentido dos dias - X Fortuna

 

A amargura que geralmente acompanhava Pedro Rafael agudizou-se com a morte dos pais numa semana. Ana Rosa falecera vítima de um enfarte fulminante. Andava a sachar o milho quando começou a sentir os primeiros sintomas. Ainda foi para o hospital de Bragança mas quando ali chegou apenas confirmaram o óbito.

Na semana seguinte foi a vez de João Gouveia. Este não conseguira suportar viver sozinho, sem a sua Aninhas – como gostava de chamar à mulher – e numa tarde levou até um poço meio de água verde e putrefacta, a velha bigorna, herança de um avô ferreiro, passou-lhe uma cabo à volta e na outra ponta enfiou o pescoço. Sabia que aquele era um passo sem retorno, mas mesmo assim era preferível a viver só. Deixou em cima da mesa da cozinha uma carta para os filhos que dizia:

“Não aguento viver sem a vossa mãe. Vou ter com ela. Desculpem-me.”

A vida em Lisboa, no entanto, parecia correr bem. Começou como empregado de balcão na drogaria do senhor Acácio, mas depressa passou a ter o seu próprio negócio. Entre a sua casa e a loja onde trabalhava, Pedro passava sempre por um alfarrabista. Este era um homem alto e esquálido. Exibia um pequeno bigode, já branco e nas mãos evidenciavam-se dois enormes anéis de ouro. Os cabelos também alvos, eram ralos mas bem distribuídos.

Todos os dias Pedro e o livreiro cumprimentavam-se. A loja era escura e pequena, dificilmente alguém conseguiria ler um título que fosse, lá dentro. Mas para Pedro e Alberto – o dono da loja – nascera, naqueles encontros fugazes, uma sólida amizade. Certa vez, quando regressava a casa, o transmontano trazia consigo um conjunto de revistas velhas que comprara na Feira da Ladra. Vinha tão entusiasmado com a compra que a apresentou a Alberto. Este olhou-as e depois de as abrir perguntou:

- Quanto deu por elas?

- Vinte e cinco tostões…

- Hum foi bom preço! Mas também cá tenho disso.

- Tem? E vende-as?

- Vendo…

Mas Pedro acabou por não comprar, pois sabia que Helena iria mais uma vez dizer mal da sua vida:

- Mas onde vou por tanta coisa, homem de Deus? Tens de parar com essas compras.

Aliás dias mais tarde Pedro Rafael entrou em casa eufórico. Foi a única vez que Helena viu o marido realmente feliz. Abraçou-se à mulher que carregava na barriga o terceiro filho e declarou:

- Para o mês que vem deixo o senhor Acácio.

- Que dizes homem?

- O Alberto alfarrabista passou-me o negócio.

- Ai que me dá uma coisa… Que fizeste tu?

Os receios de Helena pareciam ser evidentes, mas Pedro sossegou-a:

- Sabes, meu amor, que os livros são uma das minhas paixões… e o Alberto está velho e doente.

- Doente? Com quê?

- Não sei, não me quis dizer. Mas quer passar o negócio e convidou-me a ficar com ele.

Helena tremia só de pensar nos livros que começariam a aparecer em casa. Mas pior era saber se o negócio tinha pernas para andar. Jamais vira alguém entrar na loja a não ser o marido. Um torvelinho de emoções sacudia a grávida. Mas também tinha consciência de que aquele era a verdadeira tendência do marido e assim foi perguntando:

- Será que conseguimos pagar ao homem?

O marido nem respondeu pois a alegria de Pedro Rafael era quase contagiante. Maria da Graça e João apareceram a correr de encontro ao pai. Este ergueu ambos os filhos como se fossem meras penas e disse-lhes:

- O pai hoje está muito contente.

Helena só para ver o marido feliz daquela maneira sentia-se contente também. E no mês seguinte lá estava Pedro Rafael à porta da sua nova loja. Entretanto fizera algumas modificações que Alberto não gostava mas que ainda assim opinava:

- Os livros velhos não gostam de ser acordados…

- Acordados?

- Pois não acreditas pois não, mas é a verdade... Os livros acordam-nos para muitas coisas e por isso devemos deixá-los lá no escuro e sossego da prateleira.

- Então como se vendem?

- Cada livro tem um dono a quem é destinado…

Pedro percebia que Alberto já não falava, apenas delirava. Morreria meses mais tarde com um forte ataque de diabetes. Não deixara herdeiros e no dia do seu funeral um homem veio ter com Pedro Rafael e estendendo-lhe a mão, comunicou-lhe:

- O Alberto não tinha família. Por isso deixou toda a sua fortuna e a loja para si.

Pedro nem queria acreditar.

- Como diz?

- Alberto era de sangue “azul”. Tinha um título que agora se perde mas deixou escrito que todos os seus bens e dinheiro passassem para seu nome. O senhor passou a ser muito rico.

Pedro nem reagiu. Agradeceu e foi para a loja. Acendeu as luzes e deixou que os livros ao fim de tantos anos vissem claridade. Sentia-se como se caísse num profundo abismo. Olhou os milhares de livros e revistas  à sua volta e de repente pegou num. Era um almanaque de 1959 editado pela Editorial Notícias. Foi folheando a revista até que viu um título:

“Luanda, a bela capital de Angola”.

Acordara a lembrança.

 

José da xâ

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por José da Xã às 09:00

Quarta-feira, 11.07.12

Sentido dos dias - Coincidências IX

 

Pedro Rafael ia entrar no jipe quando reparou que se esquecera do diário em cima da mesa de cabeceira. Estivera a ler passagens, durante todo o tempo que não conseguia conciliar o sono. A rever lugares, sítios, antecipando tudo que iria agora encontrar e preparando-se de algum modo para isso. O coração já não era o mesmo, embora ainda fosse um homem vigoroso naquela idade. Contudo a "máquina" parecia querer falhar amiúde. Motivo de alguma preocupação do seu médico assistente de muitos anos, que desaconselhara terminantemente a viagem. Todavia, Pedro se não fosse, morreria na mesma. Assim, mais valia se tivesse de ser, morrer "consolado". Pelo menos com a sua consciência tranquila, depois de rever aquela mulher de quem se separara por covardia talvez, mas que vivera todos os dias consigo! Em cada acto, ou pensamento que votava a algo. Portanto desculpou-se perante o amigo e voltou atrás, numa espécie de passo de corrida para o ir buscar. Mas com o calor imenso, logo àquelas horas da manhã, desfaleceu um pouco no átrio, tendo que se apoiar a uma bonita e fresca coluna de mármore. Ir sem o diário estava fora de questão. Lá anotava tudo. Um dia se calhar ainda lhe daria algum dissabor, ou aquando da sua morte, se fosse antes de Helena, ela o lesse, jamais lhe perdoaria o que lá estava escrito. Porém não poderia enganar-se. Nunca atraiçoar-se a si mesmo, já que o fizera a tantos que puseram toda a sua vida e esperança nele.

Um dos empregados da recepção, que acumularia funções com uma colega e lhe tinha feito a admissão no dia anterior, saiu detrás do balcão e veio ver se ele necessitava de ajuda. Pedro Rafael ficou algo incomodado quando reparou que o rapaz, um jovem muito bem apessoado originário sem dúvida do "cruzamento" dum branco com uma negra, cuja pele era dum dourado bonito muito claro, o sorriso bondoso se estendia aos olhos também bastante expressivos, algo amendoados, com uma cor muito peculiar! Castanhos tão transparente, orlados por uma circunferência verde muito bonita, o interpelou. Uma vez que era inválido. Embora "circulasse" rapidamente na cadeira de rodas.

- Necessita alguma coisa, Senhor Pedro Rafael? Um médico. Uma água. O senhor, sente-se bem?

O português era impecável. A mão, fora do que seria habitual, já tinha pousado sobre um dos cotovelos de Pedro com um toque tão doce e prestável, que nem teve vontade de lhe fazer sentir que a familiaridade seria de evitar. Sentado, o rapaz dava-lhe quase pelo ombro. O que o fazia reparar que era alto. Seria bem constituído em pé, munido de força. Atrás do balcão realmente ninguém o diria sentado naquela, mas sim numa cadeira ou banco qualquer vulgares.

- Não, muito obrigado! Isto é natural. A diferença de temperatura é muito grande. O corpo ainda não se me habituou, mas a água seria bem vinda. No entanto tenho um amigo à espera, necessito ir buscar algo ao quarto...Ficará para depois.

O rapaz fez imediatamente sinal a um outro empregado que passava e sibilou uma palavra que Pedro não entendeu logo. Passados segundos o mesmo homem aparecia com uma bandeja e um copo, tendo ao lado uma garrafa do Luso semi fresca, que lhe saberia pela vida.

- Deixe-me por favor ajudá-lo. Sente-se um pouco, aproveite a sua água. Eu, ou um dos meus funcionários, iremos ao seu quarto buscar o que pretende.

Pedro voltou a olhar o rapaz. A face inspirava-lhe uma calma fora do normal. O olhar quase o hipnotizava, mas até confiar-lhe o diário nas mãos...

Quem lhe afirmaria que não o abriria e leria alguma linha? O rapaz voltou a perguntar como se sentia. Fê-lo tão meigamente, a oferecer de novo toda a assistência e disponibilidade que Pedro permitiu. Deu as indicações de onde estava e o que era e sentou-se a refrescar-se um pouco, enquanto mandava uma mensagem a...

- Então, homem? Estou uma carrada de tempo no jipe, a torrar e tu aqui dentro a beber aguinha?

Pedro revelou ao amigo a peripécia. Mal ia a meio as portas do elevador abriram-se e a cadeira de rodas deslizou rápido até perto dos dois. Uma mão estendida revelando um punho de camisa muito branca e bem passada, com umas unhas muito bem tratadas, apresentou-lhe o seu caderno com firmeza. Bem apertado sobre os elásticos.

- Era isto que lhe faltava, suponho? Espero ter sido breve o suficiente para não ter causado qualquer atraso suplementar.

Pedro estava admiradíssimo. O homem tinha ido e vindo num segundo, como conseguira tão rápido? Seria impossível ter-se perdido em contemplações no quarto, ou se atrevido sequer abrir o diário, porque o percurso do elevador era bem célere também. Mas o que o admirou mais foi a pergunta do amigo.

- Jorge... André? És...Tu?

O rapaz sorriu e acenou afirmativamente. Antes que João começasse com mais perguntas, ou evasivas esclareceu que trabalhava ali e tinha sido promovido a gerente há dois dias. Que a família estava bem. Ao que João quis saber se ainda no mesmo sítio. O jovem sorriu e acrescentou se ele achava possível viverem noutro lugar. Nunca! E logo de seguida, opinou, que talvez fosse melhor meterem-se ao caminho, uma vez que o sol daqui a pouco tão alto, não permitiria grandes distâncias. João riu-se, deu-lhe uma palmada amigável nas costas e virando Pedro também, já na direcção da porta começou a caminhar enquanto dizia.

- És um miúdo fantástico. Parabéns pelo novo cargo. - E já no umbral das portas de vidro que se afastavam para passarem gritou. - Dá cumprimentos à tua mãe!

Pedro, ainda atónito e já o veículo arrancava a toda a brida, inquiriu:

- Conhecesses o rapaz e a família? São alguém dos nossos tempo por acaso?

 

Verniz Negro

 

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por José da Xã às 14:17

Domingo, 08.07.12

Sentidos dos dias - Cismas? VIII

 

Após a desmobilização o jovem Pedro partiu para a sua aldeia transmontana de Campo de Víboras. Aí reviu amigos e familiares, comendo e bebendo em quase todas as casas, como de um herói se tratasse. Quase todos os amigos que com ele haviam partido para África, tinham regressado estropiados e alguns mesmo jamais apareceram.

Mas num ápice Pedro cansou-se da boa vida e com a desculpa de trabalho, regressou finalmente a Lisboa para enfrentar os clientes da drogaria do senhor Acácio. E obviamente para rever Helena com quem começou a namorar. Foi, todavia, um namoro de apenas alguns meses. Helena trabalhava como empregada de escritório numa empresa de automóveis e Pedro, com o trabalho de balconista depressa pretendeu arrumar a vida. Alugaram então uma casa no bairro das colónias aos Anjos, e num Sábado solarengo mas a prometer ainda assim alguma chuva, casavam ambos, numa cerimónia pouco concorrida de convidados. Apenas os pais de Pedro e uns tios que viviam em Vila Franca apareceram na boda. E da parte de Helena havia também pouca família…

Com a vivência diária, a jovem esposa depressa percebeu que o marido carregava consigo um segredo. Era frequente dar com ele a olhar o céu sem nenhuma razão aparente ou achá-lo a escrever qualquer coisa que ele escondia mal a pressentia. Enfrentou-o então por diversas vezes mas Pedro calmamente foi sempre respondendo:

- Não te preocupes, isto são consequências da guerra…

Mas ela não acreditava. Sabia que o marido passara muita coisa no mato: fome, sede, incerteza do momento seguinte mas acima de tudo, medo. Tudo razões provavelmente válidas noutro homem mas em Pedro… sentia que havia algo nele que não era… ele, mas sim outro.

Certa noite Pedro foi acordado pela mulher já grávida, que o abanava:

- Pedro, Pedro acorda.

Estremunhado o rapaz acordou e respondeu:

- Que se passa mulher? Está na hora?

E olhando para a barriga redonda de Helena interrogava-se:

- Vou chamar um táxi?

- Calma homem, calma. Ainda não chegou a hora… Tu é que estavas quase aos gritos a dormir…

- Eu?

- Sim tu… E a chamares por um nome… Zuleica…

Pedro acordou então:

- Zuleica? – disfarçou.

- Sim, sabes quem é?

Tinha de inventar uma desculpa. E depressa que Helena não era nada idiota.

- Sim já sei quem é…

Helena calada aguardava com atenção. Entretanto acendera o candeeiro da mesinha de cabeceira.

- Havia junto ao nosso quartel uma tabanca. E morava lá uma cachopa que se chamava realmente Zuleica e que me lavava – depressa emendou – nos lavava a roupa. Nós dávamos-lhe umas moeditas e ela tratava da nossa indumentária. Todos nós gostávamos muito dela…

- Entendi… disse Helena e sorriu.

- Ei não estejas com essa cara que é verdade.

Este podia ser o segredo. Helena compreendia que aqueles homens no meio do mato, afastados de toda a gente, tivessem outras mulheres por lá. Portanto, se fosse isto era um segredo de pouca monta.

- Vá dorme… Vê se descansas e não pensas mais na guerra – disse a mulher virando-se com dificuldade na cama devido ao adiantado estado de gravidez.

Porém Pedro virou-se para o outro lado e desejou arduamente que Helena tivesse acreditado na sua história. A esposa era uma mulher fantástica mas como podia ele esquecer, como?

No dia seguinte era sábado. Helena trabalhava de manhã até ao meio dia, assim como Pedro na loja das drogas, mas até à uma. Por isso quando o jovem chegou a casa já a mulher acabara de fazer o almoço e aguardava-o. Com calma comeram. Depois foi novamente Helena a puxar a conversa:

- Diz-me homem… Que tens tu nesse teu espírito que nem dormes em paz?

Pedro assustou-se mas não podia ceder.

- Que dizes tu? Não sei o que queres dizer… Por vezes tens umas cismas…

Helena pacientemente, levantou-se do seu lugar abraçou o marido ainda sentado e beijando-lhe o cabelo segredou-lhe:

- Se for menina chamamos-lhe Zuleica.

Mas Pedro percebendo o alcance do desafio, não lhe deu troco. Disse apenas:

- Gostas desse nome?

Helena apenas sorriu e foi dizendo:

- Não, prefiro Maria da Graça como a minha avó…

- Se for menina assim será!

 

José da Xã

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por José da Xã às 11:40

Quarta-feira, 04.07.12

Sentidos dos Dias - Planos e dúvidas VII

Pedro Rafael sonhava. Lavado em suor, virava-se na cama! O som das granadas a explodir era tão real. Tal como a terra que levantavam ao redor. Os gritos de camaradas e o destroçar dos nativos em aflição e terror, fazendo de tudo um pandemónio tornava-se insuportável. Não se via nada a certa altura com o pó. Apenas vultos. Nem se reconheciam se amigos, se dos outros. Muitos acabavam a cair num fogo cruzado... E a roupa pegada ao corpo! O cheiro do sangue e o tilintar das chapas identificadores no seu peito, enquanto corria também buscando abrigo.

E no meio de tudo uns olhos verdes! Um sorriso magnífico... E a pele dela nua, abraçada a si. Tão unidos, que não se saberia onde começava um e terminaria o outro. O perfume dela. Os lábios, a língua...E sem saber donde vinha, de repente, uma rajada de metralhadora que lha arrancaria dos braços, a qualquer momento. Cobrindo ambos de sangue e a ele de culpa.

Uma culpa que jamais poderia suportar. Ter contribuído para a morte dela por algum soldado inimigo, cheio de ódio que a marcasse como "colaboradora" dos brancos, militares. Suporiam alguns, que a olhavam de revês, que ela sendo africana vendo e sabendo algumas coisas que seriam, supostos segredos, lhos poderia transmitir... Como naquela maldita emboscada em que tinham ido por uma informação anónima de que ali, existia um paiol inimigo. E era verdade. Tinham escapado ambos graças a João. E foi entre morteiros e gritos, que Pedro Rafael se sentou na cama a arquejar com a cabeça a latejar!

Nunca lidara bem com o facto de Zuleica poder morrer por sua culpa. Sempre que a deixava sozinha para ir numa missão normal, em que regressava dali a horas, rezando a todos os santos para voltar mesmo... Repentinamente cumprir alguma ordem sigilosa, ou ainda por necessidade estratégica se deslocavam para mais longe em que ficava ausente por dias, a sua atenção ficava dividida. O coração subia-lhe para a boca. Nunca tivera intenção de amá-la assim! Quando a conheceu realmente gostara da simpatia. Da forma de falar. Achara-a um certo conforto. Faziam falta ali, pessoas e rostos amistosos. E de seguida, veio a graça, que lhe encontrava, quando ele falava e ela o ouvia falar do continente como se ele fosse o centro do mundo. Ela elucidava-o sobre Angola, as suas gentes e riam. Sabia-lhe tão bem rir por momentos e esquecer a guerra. E depois...Quando o envolvimento se adensou, continuou a jurar a si mesmo que não se envolveria, mas...Fora impossível! E não poderia nunca renegá-la. Não quando uma mulher se dá assim a um homem! De alma e coração. E ele já não sabia não se preocupar. Lidar bem com um desenlace fatal...Tal como não conseguia lidar com aquela certeza agora, de que o seu filho nascera.

Antes era uma suposição forte que já não lhe permitia descansar, uma vida inteira. Principalmente quando olhava os seus filhos com Helena... De tal forma que tivera de vir tirar a limpo aquela história. João fora um bom amigo de novo! Se não o tivesse encontrado demoraria muito mais e nunca estaria tão seguro. Combinaram que iria com ele a todo o lado que ele quisesse visitar, de todos por onde andaram no passado. Que o levaria até perto. Mas mesmo a ela? Isso...Não! Pedro teria de ir sozinho. E quanto ao filho?

Deus! Porquê tanto mistério quis saber? No fundo agora sentado na cama depois de ter bebido um copo de água e tomado um calmante, repara que João se esquivara. Sabia o quê? Nada! Mal se falara no rapaz e na mãe, o outro retraíra-se. Era como se fosse um assunto tabu. Mais! Algo que estava tão enraizado numa cortina de secretismo, que velho amigo mudava logo de tema. Mas tinham ficado de se encontrar de manhã e isso é que importava! Depois de comprarem algumas coisas necessárias para levar, fazer-se-iam à estrada. O amigo estava bem de vida. Não rico mas vivia folgadamente. Possuía um jipe que depois de bem carregado e atestado o depósito, com mais um ou dois bidões de reserva para os sítios mais inóspitos onde não havia combustível, não constituiria problema de maior que os atrasasse. E ligara ao anoitecer, depois de estarem juntos a confirmar. Acertara tudo com a mulher, a quem contara a história de Pedro e ela entendera os seus motivos. E foi já vestido e num nervoso desadequado à sua idade, que a madrugada o brindou. Mais uma hora e desceria para encontrar João no hall à sua espera, para fazer a viagem que sempre habitara a sua mente desde o dia que pusera o pé no cais, em Lisboa!

 

Verniz Negro

 

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por José da Xã às 00:10

Domingo, 01.07.12

Sentido dos dias – VI Dilema

 

Era uma daquelas manhãs negras de chuva e vento. Pelas fendas da janela de madeira velha e carunchosa o vento assobiava num silvo agudo e incomodativo.

Pedro Rafael acabou por acordar contrariado. Apetecia-lhe dormir até tarde. Ou mesmo não acordar durante muitas horas. Sentia o corpo mole a exigir ripanço. Porém Pedro percebeu que a sua vida tinha de dar uma volta. Necessitava urgentemente de fazer algo. Tratou da sua higiene, vestiu-se, pagou a conta do quarto e saiu para a rua. Tinha fome…

Mas estanhava aquela chuva miudinha, quase parecia pó de chuva. Lembrou-se de como eram as tempestades em Angola… A água caía de supetão em torrentes quase diluvianas ficando depois a pairar um cheiro característico a terra molhada. Da mesma maneira que aparecera, desaparecia deixando que o sol, forte e impiedoso, rapidamente secasse a terra. Mesmo habituado às chuvas angolanas, Pedro não pretendeu ainda assim lançar-se ao caminho. Tinha primeiro de comer qualquer coisa, ir ao quartel buscar a guia, entregar a farda, e por fim partir… Porém esse é que era o dilema… Partir!

- Olá bom dia.

A voz soou-lhe familiar. Virando-se meio círculo deu de caras com Helena que lhe estendeu a mão num cumprimento pouco feminino. Pela primeira vez Rafael tocou na mão de Helena. Sentiu-a trémula e levemente suada. No entanto sedosa e… fazia-lhe lembrar, pelo toque… Zuleica. Mas como poderia esquecer aquela mulher, como?

Helena por sua vez, aguardava uma resposta ao seu cumprimento para além da mão estendida e que Pedro apertava com doçura.

- Bom dia – repetiu – estás neste mundo?

Acordado pela questão Rafael “aterrou” por fim e calmamente foi-se desculpando:

- Bom dia Helena como estás? Desculpa mas habituei-me na guerra a viajar com o meu pensamento e agora… estava numa dessas viagens. Mas aqui não há guerra…

- Pois não… Mas há muitos carros e pessoas e aquelas coisas amarelas que fazem um barulho enorme…

- Os eléctricos? – Helena riu-se. Jamais pensou que alguém diria que os simpáticos transportes sobre carris que atravessavam Lisboa faziam muito barulho. Para ela que nascera numa aldeia encostada a Alenquer, cedo se habituou a vir para Lisboa. Enfim, decidida virou-se para Pedro e perguntou-lhe:

- E agora que vais fazer? Regressas à terra?

As questões eram pertinentes mas o ainda militar nem sabia que responder. Após um silêncio longo e quiçá esclarecedor para a jovem, foi dizendo:

- Tenho de ir a Campo, tenho! Depois não sei.

Por causa de Zuleica Pedro Rafael ficara em África mais tempo do que era previsto. Mas teve obrigatoriamente de regressar e deixar para trás uma vida… A sua! Agarrada a uma mulher e não sabia mais o quê… E se fosse a Trás-os-Montes poderia nunca mais voltar à cidade que lhe parecia ser um mar de oportunidades.

Por fim olhou a jovem madrinha de Guerra e perguntou-lhe:

- Achas que vá?

Helena não esperava a pergunta, mas com algum bom senso foi respondendo:

- Podes e deves ir à tua terra… Visita a tua família, revê amigos mas não te prendas por lá… Vais passar a vida a guardar gado como me contaste ontem à noite, que foi a tua vida até aos vinte anos? Não sei se é isso que queres para ti…

O jovem não entendeu bem o que ela queria dizer… Havia nas palavras de Helena algo que não descortinava. Atrapalhado, temeroso e repleto de incertezas Pedro Rafael disse:

- Achas que consigo aqui trabalho?

Helena olhou-o nos olhos e respondeu com autoridade:

- Oh Pedro, aqui em Lisboa o que não falta é trabalho… Falta sim quem o faça!

Aquela vitalidade demonstrada por Helena estimulou-o. A chuva continuava a cair agora mais de mansinho e ambos conversavam debaixo de um toldo de uma drogaria. O patrão saiu à rua e foi retirando algumas coisas para dentro expostas não fosse a chuva, ajudada pelo vento estragá-las. Pegou num braçado de vassouras de cabo de madeira, atadas num cordel e deixou à mostra um papel que colara no vidro da montra: Precisa-se empregado.

Pedro leu o anúncio e virando-se para Helena sorriu pela primeira vez desde que saíra de Angola.

- E… - observou.

- É sempre uma oportunidade…

- Assim já não vou à terra…

- Dizes que ainda estás na tropa… Pedes para te apresentares para a semana…

O tropa olhou o saco volumoso e pesado que tinha na mão. Mirou Helena com ternura. Observou à sua volta o ambiente. E pensou… Helena aguardava por uma decisão. E num instante percebeu que o rapaz vivia um profundo dilema. Serena e discretamente deu-lhe a mão e sussurrou-lhe ao ouvido:

- Coragem, vá!

Foi o que ele quis ouvir…

 

José da Xã

 

 

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por José da Xã às 17:19


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