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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 27.06.12

Sentidos dos Dias - V Angola

A mente de Pedro Rafael deambulava entre o passado e o presente, para além de tomar atenção a todas as particularidades duma cidade completamente díspar daquilo que conhecera. Na viagem de táxi do aeroporto para o hotel, os seus olhos absorviam cada pormenor com sofreguidão enquanto o cérebro lhe disparava "slides" de épocas remotas e mais actuais, misturadas com a metrópole e a terra onde há pouco voltara a pôr os pés.

Já no quarto e esgotado, pôs a mala em cima da cama, depois de dispensar o empregado que o acompanhara e foi até à casa de banho refrescar-se. Para além de tudo era o clima (de cuja intensidade verdadeira, quase já se tinha esquecido) embora nas suas divagações, estivesse sempre presente aquele calor abrasador e humidade extrema, que só por si dá cabo dum homem.

Assomou-se à varanda sobre a baía. Calhara-lhe um quarto bastante confortável sem muito luxo no entanto. Observou a cidade. Luanda crescera tornando-se numa cidade cosmopolita. O trânsito era intenso lá em baixo, as pessoas que passavam, enchiam as ruas de pontos coloridos, por entre palmeiras e todo o cenário tropical. Mas havia outro tipo de gente. Empresários, executivos de ambos os sexos. Até as crianças que vira trajadas com o uniforme de algum colégio mais "chique" lhe davam a certeza, de que o tempo evoluíra e todos com ele... O que seria bom e de esperar. Angola era rica! Uma terra duma riqueza incalculável em diamantes, petróleo e outros recursos que a serem bem aproveitados fariam dela um Dubai, em África. Era hoje o segundo maior produtor de petróleo e exportador de diamantes da África Subsariana. A sua economia tinha vindo a crescer fortemente, mas o índice de corrupção ainda era um dos mais altos do mundo, e mesmo assim o seu desenvolvimento humano é muito baixo. Pedro ouvira nas noticias que a nível de cuidados de saúde as coisas também, tendiam a ficar diferentes. Desde 2011, Angola estava a implementar com sucesso um Plano Nacional de Emergência para interromper a transmissão do vírus da pólio, baseado no reforço da vacinação de rotina, na realização de campanhas nacionais aceleradas no reforço das actividades de vigilância epidemiológica. Recapitulou:

Um dos problemas com que poderia defrontar-se era com as línguas. Sentado na cama e de mapa na frente foi tracejando com lápis as regiões que teria de visitar. Ainda recordava um pouco dos termos nativos (em umbundu e kimbundu) e se necessitasse teria de levar consigo alguém que lhe servisse de guia e intérprete. Tantos anos depois recordar toda uma panóplia de termos era complicado. O seu destino seria na província do Uíge e aí predominava kikongo...  Mas não seria de todo necessário. Se ali estava calor em Negage estaria uma fornalha. Bom para os pés de cafezal...

Bateram na porta interrompendo-lhe os pensamentos o que o deixou intrigado. Quem poderia ser a menos que gente do hotel, se ninguém saberia da sua estada ali e poucas referências ou nenhumas... Abriu a porta algo receoso para ver na sua frente um rosto tisnado do sol, igualmente idoso, num corpo baixo e robusto vestido de camisa havaiana, calção e chinelo no pé.

O homem não se fez rogado e sem Pedro o mandar entrar irrompeu por ali adentro a gesticular e a falar alto, intervalando com risos de orelha a orelha.

- Ora, essa! Podiam dizer-me tudo, menos que veria o meu capitão por aqui... Depois destes anos todos? Dê-me cá um bacalhau Pedro Rafael. Então? Não se lembra de mim...Homem? Eu jamais esqueceria a sua cara e aquele dia em que fomos emboscados! Que raios! Não me diga que não se recorda? Sou o João Gonçalves! O mesmíssimo que o avisou da granada, a si e àquela rapariga com que você na altura... Que cena marada! Como é que ela se chamava?
Pedro Rafael não pode deixar de se sentir feliz. Dirigiu-se para os braços que ele lhe abria e disse.

- Zuleika! Chamava-se Zukleika!

- Exactamente! Era isso mesmo. Eu sabia que era qualquer coisa assim desse género... Bonita mulher, não meu capitão! Tinha olho para as escolher.

Gargalharam em conjunto, enquanto o outro ia dizendo baboseira atrás de baboseira, mostrando as fotos da família e explicando que mal o vira no átrio do hotel não queria acreditar nos seus olhos. Ainda esteve para ir embora com receio de não ser recordado ou bem-vindo, mas depois de confirmar o nome e o quarto em que Pedro ficara, não resistira a recordar os velhos tempos. Beber uma cervejita na companhia dum antigo camarada de armas e lembrar tanto do que haviam vivido juntos e estavam vivos para contar. Não! Alguma vez poderia deixar o seu amigo ali e não lhe falar.

- Então diga-me cá! O que faz aqui por Angola, meu capitão? Que estranhos ou bons ventos aqui o trazem...

- Nem eu sei, João. Calculas que é verdade.

- Hum... Talvez. Talvez. Mas um homem nunca esquece.

- Pois não meu amigo e uma das razões é essa.

- Ora, bem! E as outras pode saber-se?

- Ela! Gostava de revê-la. Saber se é viva, como está. Se...

João ficou sério de repente e franziu o sobrolho e os lábios. Depois passou o antebraço na testa a limpar o suor e acrescentou:

- Era de prever! Ainda lhe está aí atravessado na garganta o caso do rapaz, não é?

Pedro estremeceu da cabeça aos pés. Quase não conseguia articular um vocábulo mas ainda assim disse:

- O rapaz?! Então sempre nasceu. E era um rapaz. Diz-me João, por tudo o que te é sagrado. Sabes o que é feito dela? E do meu... filho?

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 14:54

Domingo, 24.06.12

Sentidos dos dias IV - Regresso

Através dos cabogramas Pedro denunciara a sua chegada à metrópole. Mil dias haviam passado desde que pusera os pés em Luanda. E agora de regresso tudo lhe parecia tão diferente. Deixara havia muito de ser um menino quase imberbe a quem haviam dado uma arma para matar. Os obuses e rajadas de metralhadora, as vísceras dos companheiros ao ar, as pernas e braços estropiados, haviam feito de Pedro Rafael um homem duro e quiçá frio. Muitos que com ele regressavam no paquete Infante D. Henrique falavam de saudades das suas terras, das famílias, das namoradas, saudades de tanta coisa… Mas Pedro falador por natureza quando partira da Metrópole, tornara-se silencioso e ouvinte. Curiosamente não tinha saudades de Portugal… Ou melhor passava a ter saudades de Angola. Do que lá ficara… Da inocência perdida e duma mulher…

Um mar de gente espalhava-se pelo cais da Rocha de Conde de Óbidos naquela tarde plúmbea a ameaçar chuva. Milhares de mãos acenavam do cais nem sabiam para quem. Bastava levantar a mão!

Pedro sentado em cima de caixas de cerveja Cuca fumava um cigarro, vício que o tomara no meio do mato. Quantas vezes passara horas e horas de sentinela, tendo apenas o paivante como companhia. O navio atracou. Todos acorreram ao portaló de saída onde fora colocada uma prancha. Rafael deixou-se ficar para o fim… De quando em vez um companheiro passava por ele a correr e perguntava:

- Então “Rafa” não vens? Olha que já chegámos.

- Já vou, já vou… – respondia em voz serena como fosse outra a vontade. E provavelmente era…

A multidão inicial parecia desaparecer e ele que era dos últimos, depressa viu a mãe e o pai. Que choravam, que riam, que se benziam.

- Deus seja louvado, é o nosso menino…

Um abraço envolveu-o parecia uma carcaça, dum lado a mãe que o devorava com beijos, do outro o pai sempre austero mas lavado em lágrimas… Foi a primeira vez que Pedro Rafael viu o pai chorar.

- Filho, filho… chegaste bem… Deixa-me olhar para ti. Estás tão magrinho…– a mãe.

- Então rapaz como correu isso por lá? Ganhamos a guerra ou não? – o pai.

Filosofias de vida tão diferentes e às quais Pedro apenas queria dizer: Basta!

Mas não podia, nem devia. Faltava ele falar. Mas não lhe apetecia. Um fotógrafo apareceu e tirou uma foto aos três. Depois entregou um papel a Pedro dizendo:

- Passe pela minha loja a partir de amanhã à tarde para levantar a fotografia. Nesse papel está a morada.

E lá ia ele à procura de mais vítimas.

O silêncio mantinha-se… Aquele cheiro do pai a esterco das ovelhas acordou-o:

- E vocês como estão por cá? Ena mãe está cheia de cabelos brancos…

- Pois estou meu filho! E tudo por tua causa… Mal escrevias… e quando o fazias dizias tão pouco. A mãe de Asdrúbal todos os dias recebia carta do filho…

Só faltava a crítica, pensou… Mas eles tinham razão. A sua vida em Angola não fora só guerra. Muitos sentimentos haviam ficado por lá. Mas agora não havia nada a fazer. Pensou em Zuleica, nas noites que passara com ela, nos sonhos que com ela sonhara, nos desejos que ambos haviam projectado.

Entretanto lembrou-se da madrinha de guerra, que o queria conhecer. E estaria ali à sua espera. Olhou em redor e a multidão quase que dispersara por completo. Ao longe uma mulher de mala na frente das pernas parecia aguardar. Pedro Rafael aproximou-se e perguntou:

- Boa tarde é a dona Helena?

A mulher ergueu os olhos e Pedro viu pela primeira vez um olhar simples e terno daquela que seria a sua mulher.

- Sou a Helena sou… É o Pedro Rafael?

- Em pouca carne e muito osso… - e riu-se.

O militar apresentou os pais e dali partiram devagar. Nem sabiam para onde ir… O pai olhou o velho relógio de bolso e confirmou:

- Comboio para o Porto só às oito da noite. Ainda temos muito tempo até lá.

Mas o filho não estava para regressar:

- Pai eu daqui a dois dias tenho de estar em Lisboa no quartel. Eu vou ficar lá. Quando for desmobilizado regresso então a casa. Mas hoje não posso ir. Mal lá chegue tenho de voltar para trás…

Foi um choque para os pais. Mas o filho tinha razão: ir e vir eram quase dois dias até Campo de Víboras. O tempo que tinha para o descanso. Assim caminharam todos até à estação de Santa Apolónia e ali ficaram os quatro à conversa horas a fio. Até que o comboio para o Porto partiu e com eles os pais de Pedro Rafael, descansados e felizes pelo bom regresso do filho.

- E a menina como vai para casa?

- Vou a pé. Tenho uma tia aqui na Graça e vou lá dormir - e olhando para o relógio exclamou – ai tâo tarde…

Para Pedro não havia horas. Tinha umas notas pequenas que tinha ganho ao jogo na viagem de regresso e podia dormir numa pensão.

- Posso acompanhá-la até a casa?

- Pode, claro.

- E diga-me há lá uma pensão perto?

- Até mais que uma.

Pedro desconhecia o caminho, assim:

- Para aonde vamos, então?

 

 

José da Xã

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por José da Xã às 21:51

Quarta-feira, 20.06.12

Sentidos dos dias - III Zuleica

Pedro voava sobre o Atlântico. Do mesmo que há tantos anos atrás, o Vera Cruz rasgava águas impiedosamente, com pressa de descarregar mais um contingente de tropas. Era como uma linha de montagem a fornecer peças continuadamente para engrenar a máquina de guerra. Mas não era só chumbo. Eram carne e sangue de muitos que já não regressavam. Mais uns quantos que vinham sem préstimo, naqueles corpos atacados pelas maleitas tropicais, a que não estavam habituados. Outros... A cabeça deixava de lhes funcionar a preceito e ainda mais, como ele ficavam obrigados a possuir uma sala de cinema privativa, cujo o lugar na primeira fila era sempre seu, rodeado de caras desfeitas e corpos em decomposição. A fita que passava no ecrã era sempre a mesma! Tiros, pó, gritos, desorientação, carros, lama, vegetação luxuriante. Palhotas, vultos emboscados, crianças, mulheres a correr e entre todos aqueles rostos um... Zuleica!

Era uma bonita jovem mulata, cuja pele era bastante clara em relação aos demais habitantes. Senhora de belos, expressivos e enormes olhos verdes, com sorriso tão branco que lembrava neve no meio daquele clima abrasador. Uma mulher diferente. Instruída, com pensamento próprio sobre o diferendo. Curvas generosas, carne... Firme! Que não fazia questão de mostrar em demasia, mas o que estava à vista... Foi nesta altura que Pedro Rafael acordou. Nem sabia como, pegara no sono, mas detestava aviões. Ficara-lhe da maldita guerra quando do céu vinha a chuva da morte e na terra se abriam crateras do tamanho de uma casa. A mulher que ia ao lado dele olhou-o desconfiada quando estremeceu e despertou, depois limitou-se a sorrir e a dizer:

- Não gosta de voar?

Ele sorriu de volta e respondeu com muito poucas palavras para abortar logo ali a possível “familiaridade” que viesse a nascer.

- Não é das minhas coisas preferidas, não senhor!

Ela ainda ficou um pouco à espera de mais, mas Pedro Rafael fixou os olhos no filme que estava a dar sem nada ver. O beijo dos actores voltara a recordar-lhe os seus próprios beijos. Os daquela mulher com quem vivera uma eternidade, que jamais voltaria. Conhecera-a num dia de mercado em que as tropas, algumas numa rápida folga, outras em revista, deambulavam por ali ou pelos bares. Muitos enrolados em negras e encharcados de Whisky barato. Tantos foram os bastardos que por lá ficaram. Isto fazia o seu estômago revolver-se. Tratar-se um ser humano como gado para se fazer dele refúgio de frustração. Mas ele, não o tinha feito? Não seria também por isso que lá ia? Tirar a limpo a humilhante história do filho. Da sua degradante actuação perante ela? A ser verdade tê-la-ia tratado como lixo, e jamais lho merecera. Devia-lhe muito. O ter continuado são e inteiro. Devia-lhe... tudo!

O dia estava muito quente, o suor escorria-lhe em bica. Havia os cheiros activos da criação, peixe, frutas, legumes e especiarias. O colorido da terra, mais o explodir de cores das bancadas e dos vestidos, com lenços da mulheres atados na cabeça. Ouvia-se o choro das crianças que carregavam nas costas, enquanto mais dormiam. E a discussão sobre preços e qualidade ou frescura do produto. No fundo e em tempo de paz seria aprazível, estar ali. Porém, não havia paz, ou sossego. Acabava-se a olhar nos olhos dum simples pescador que vendia, como se ele fosse o nosso inimigo. Pronto a empunhar uma arma e desfazer-nos por inteiro. Aconteceu quando se refrescava numa torneira aberta, perto onde os putos chapinhavam e brincavam entre si. Viu-a! Falava com outra rapariga mais escura, despreocupadamente, olhando para ela enquanto explicava qualquer coisa, e sem querer chocara com ele, que atabalhoado se desfez em desculpas. A primeira coisa que o arrasou foram os olhos verdes e o contraste da pele. Seguidamente o ar de surpresa, coberto de receio e desconfiança. E o outro! Inquisidor. Como podia ela achá-lo tão indesejável na sua presença? Nunca o vira, sabia quem ou como era? Que estava ali sem vontade. Obrigado como tantos. Porém aquele olhar duro  foi pior que a tal rajada. Era como um insulto. Como se lhe desse uma ordem para se ir embora. Aquela terra não era sua. Contrariamente ao que os olhos expressavam, a boca linda e carnuda, abriu-se num sorriso breve e desvalorizou o encontrão violento. Pedro ficou tão atarantado, preso nela que tinha de fazer algo. O que fez foi convidá-las para um refresco ali. Ela não quis aceitar. Pareceu na defensiva, mas a outra convenceu-a. Beberam-no em pé, sorvidos de cocos. A Pedro pareceu-lhe que jamais bebera coisa mais gostosa na sua vida e a imagem daquele dia nunca se desvaneceria da sua mente.

Esteve dias sem a ver. A guerra voltou a pedir a sua concentração, o seu melhor desempenho. Por vezes a improvisação que nem sabia possuir e então... Foi o destino. Num dia em que tinham sido destacados para inspeccionar uma aldeia sob suspeita, encontrou-a de novo. Morava ali pelo visto. A conversa entre os dois chegou a dar-se, mas breve. Não morreram ambos nesse dia por um triz. Rapidez de um colega que mais tarde lá ficou radicado e os avisou, do click da granada. Depois? Depois foi novamente o inferno. Ele só teve tempo de agarrar nela e proteger-se dando-lhe uma estrita ordem para que não o abandonasse. Ao fim do dia todos exaustos, mas passado o pior e capturados os cabecilhas do ataque, neutralizada a aldeia, ela iria com eles... Entre os reféns! Não houvera palavra sua que adiantasse, para a defender. Contudo chegados ao aquartelamento alguém discerniu, por intervenção de muitos outros, que a rapariga estava inocente e com Pedro. Não fazia parte dos rebeldes. Teria sido assim que começara o quebrar do gelo dela para com ele? Demorou muito para a ter nos braços mas quando aconteceu... O seu devaneio foi interrompido pela voz da hospedeira. Uma ordem para apertarem os cintos e da proximidade da pista. Pedro tornou-se um vulcão em actividade. No seu interior nada era pacífico. Até o sangue rivalizava com os miolos e entrara em ebulição.

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 12:28

Domingo, 17.06.12

Sentidos dos Dias - II Partida

 

Assim que confirmou com os próprios olhos o que lhe haviam dito, correu desenfreado para casa. Entrou de rompante pela sala da mãe Ana Rosa que preparava o almoço. Esta vendo-o entrar assim de supetão foi dizendo:

- Que é lá isso rapaz…

- Mãe, mãe vou à inspecção em Maio.

O coração de mãe quase desfaleceu. A guerra era notícia todos os dias. Sabia o que aí vinha: as mortes e os estropiados, a incerteza e a dúvida. Uma lágrima quis correr cara abaixo mas Ana Rosa não permitiu escondeu-a nas mãos molhadas de um galo que estava a depenar. Olhou a figura de Senhor do Aflitos pendurado na parede, repleto de pontos pretos das moscas e sujidade e murmurou:

- Se ele escapar com vida à guerra levo o Nosso Senhor.

Depois foi dizendo:

- Que bom Pedro. Estás um homem. Mas em que dia de Maio?

- Logo no dia 1. Em Bragança… Mãe vou a Bragança

Pedro Rafael jamais saíra da aldeia mais que a distância de Vimioso. Ir à capital da região era uma aventura. O jovem era robusto e saudável. Ajudava o pai e a mãe na vida do campo. Todos os dias carregava a guincha até à horta onde com preceito e sabedoria ia desviando o curso de água que regava o milho e as couves, o feijão ou o cebolo. Na escola depressa aprendeu a ler e a escrever. E era na escrita que se sentia melhor. Um dia professora Palmira vendo-o tão ávido de leitura emprestou-lhe um livro de poesias. Pedro leu-o de uma penada. E quando o devolveu fez tantas perguntas à professora que esta quase se arrependia de lhe ter emprestado o dito livro.

Quando a noite arribou à aldeia os jovens juntaram-se junto à cruz como era costume e foram espalhando a alegria pela convocatória:

- Vou dia 1 – dizia Asdrúbal.

. Também eu…

- E eu.

- Vamos todos juntos… - concluiu um deles.

Pedro levantou-se e acrescentou:

- Mas temos de ir no dia antes. Aquilo começa de manhã logo às oito. E não há carreira tão cedo que nos leve até lá a tempo e horas.

Olharam-se e de repente Asdrúbal riu com vontade.

- Boa… Viva… Antes de inspecção vamos passar a noite…

Calou-se e os amigos olharam, miraram-no uma vez mais com atenção esperando o resto:

- … nas gajas…

E erguendo-se levantou os braços e rodopiou nos calcanhares como dançasse uma sevilhana.

- Trolaró, laró…

Pedro assustou-se com a proposta e perguntou:

- Tens dinheiro? Eu nem um vintém, para amostra.

O outro sentou-se logo esmorecido. Estava também ele sem chavo.

- Mas quando chegarmos temos logo a festa do Nosso Senhor dos Aflitos. Quem é que a faz este ano?

- É o Zé Pinche!

- Ui então vai ser de arromba. Por isso ele anda a alimentar um porco vai para uma data de tempo. Deve ser para a festa.

Pedro Rafael ouvia os amigos falarem mas o seu espírito já viajava. Sabia que a partir de agora o caminho estaria traçado e sem retorno. Como gostava de ler ia muitas vezes à loja do “Tchico” ver os jornais que ele por lá tinha, a maioria com meses de atraso. Mas Pedro não se importava queria saber apenas. Mas lia que havia guerra em África, que os portugueses defendiam com galhardia as nossas províncias. Obviamente que havia sempre vítimas mas esse era o preço a pagar por se defender o que era português. E Pedro pretendia fazer parte desses homens, nunca imaginando o que era verdadeiramente a guerra.

Partiram todos nesse último dia de Abril para Bragança, onde chegaram já noite. O Lourenço tinha uma tia que era governanta num velho solar e arranjou guarida para todos os rapazes da aldeia. Após muitas horas lá veio o veredicto: todos aptos. Foi uma alegria.

Quando Ana Rosa e João Gouveia, mais conhecido pelo “Brasileiro”, por em novo ter partido para terras de Vera Cruz em busca de fortuna, o que jamais conseguiu, trazendo apenas de lá a mania de certos nomes – Rafael, do filho era um deles – enquanto na aldeia ganhava uma alcunha, olharam o filho acabado de regressar da capital provinciana, viram aquele brilho nos olhos do jovem, logo perceberam que a partida estaria para breve.

No ano seguinte Pedro partiu então para o Porto onde assentou praça. Quando jurou bandeira a mãe e o pai não conseguiam evitar as lágrimas. Era uma honra servir o país, dizia João. Era um erro mandá-los tão novos para a frente de combate, chorava Ana Rosa.

O embarque no paquete Vera Cruz fez-se num dia frio de Novembro. Alguns dos seus amigos já haviam partido, outros ainda haviam ido para a Marinha navegando em mares altos, vomitando tripas em dias e dias de malagueiro.

Antes de deixar a aldeia para partir para Angola, foi à capela mirou com grande sentimento a enorme imagem de Cristo caído na Cruz. E pediu. Pediu para ser um homem corajoso e que se essa fosse a vontade de Deus que o deixasse regressar a casa são e alvo.

Pedro tinha finalmente consciência que a guerra o haveria de mudar, para sempre.

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por José da Xã às 15:03

Quinta-feira, 14.06.12

Sentidos dos Dias - I O Diário

 

 

"Somente os mortos viram o fim da guerra."

 

Platão

 

Pedro Assunção. De seu nome completo Pedro Rafael Rocha Lopes Assunção, passava entre o dedo polegar e o indicador, a sua chapa identificativa da companhia onde servira, na guerra em que combatera, olhando-a. Afagando-a como se a uma Lâmpada de Aladino sustendo a respiração. O desejo de que as imagens, sons, odores se voltassem a repetir naquele ecrã da memória tão martirizado. O fio que a agarrava pendia-lhe da mão. Com alguma relutância voltou a colocá-la na caixa, perto de uma outra medalha de mérito que jamais quis merecer. Acarretavam-lhe demasiado desgosto, raiva. Recordavam-no da morte, de amigos e oponentes, alagados no seu sangue entre pernas estropiadas e intestinos à mostra, moscas e demasiado calor. Vegetação luxuriante, falta de munições e demasiado pó. Sem água! Sujidade. Desconforto. Medo!

Havia tanto tempo! E o horror continuava. Cada ruído, silvo, desconfiança, ansiedade. O eterno pesadelo e os suores frios acompanhavam-no em noites inteiras sem dormir. Muitas delas em que a mulher, outrora a sua madrinha de guerra, o ia encontrar sentado na habitual cadeira frente à janela fixando a noite sem nada ver, até ser dia. Tudo o que perpassava diante da sua retina, não eram os ramos das árvores lá fora no roçagar calmo de uma noite de Verão. O sibilar das cigarras e dos grilos cantando à desgarrada. Nem aquela lua enorme que o observava silenciosa. Muito menos o ressonar fraco e baixo, raro de Helena. Os movimentos acompanhados de algum suspiro fundo, ao virar-se na cama, que antigamente quando mais jovem, bastavam, para o fazerem levantar e aninhar-se junto dela para se embrenhar no seu corpo e procurar esquecer. Libertar-se da culpa, da mágoa, da tensão.

Hoje ela, pacificamente como sempre fora seu hábito, ajudava-o a preparar a mala. Limitara-se a olhá-lo quando lhe comunicara que teria forçosamente de voltar a África antes de... Morrer! Embora a sua vontade fosse contrapor, impedi-lo, anuiu simplesmente. Vivera toda a sua vida ao lado daquele homem partilhando o seu corpo, a comida, o tecto. Dando-lhe filhos que tinham crescido e ido à sua vida, mas sempre soubera que ele era seu e... Não era. Metade dele parecia ter ficado para trás. Por mais que fizesse e fosse tudo o que ele desejava, lhe apontava ser, tinha havido muito para além de si e algo contra o qual ela não podia combater. Ele já travava a sua própria batalha há anos demais. Tinha de admitir que para serenar, ou perecer tentando essa paz, era impreterível voltar.

Por isso punha-lhe as camisas, impecavelmente passadas, na mala. Tudo o que se lembrava lhe pudesse faltar, em colaboração ao que ele juntava e fingia que não via os gestos pesados. A respiração funda. Já aquela distância no olhar. Custava-lhe sobretudo e custou-lhe imenso, no dia em que casados recentemente, Pedro lhe contou que houvera alguém...Com diplomacia afirmara-lhe que acabara, nada mais poderia existir, mas...Ficara. Não conseguia esquecer. E embora fosse a ela que amava, preferira, tinha de descobrir isso também. O que fora feito dela? Do filho que mais tarde se constou, ficara prenhe de si..."Era boato! Uma forma que elas tinham de os agarrar ou fazer com que as trouxessem para a Metrópole...", asseguravam-lhe muitos camaradas já a caminho do navio para regressar, quando ele pretendia retroceder e ir procurá-la. Mas convenceu-se que teriam uma certa razão já o vira acontecer. Essa torpe forma de chantagem e... Havia Helena. O retrato que guardava sempre na carteira junto da medalha da nossa Senhora que a mãe lhe dera, no dia da partida. E o diário!

Aquele companheiro de dias sem sentidos, ou com eles demasiado despertos. Na alcova com Zuleica entre saraivada de morteiros, sirenes de alarme de novo combate a despoletar-se. A pressa de extravasar a paixão. Mas, o correr para fora de casa ainda a arranjar-se. A pegar na arma atabalhoadamente, deixando-a lá...A chorar. A gritar que... Sabia, lá! Tantas vezes as armadilhas rebentavam logo à frente e mais um corpo ia pelo ar. As rajadas e os obuses debitavam fogo como a boca de um dragão. Mas Helena jamais podia compreender. Ninguém podia...Ou só quem lá vivera naqueles dias. Naqueles malditos mil dias de horror e morte. E porque regressava? Porque anotara sagradamente cada passagem, hora, local, emoção e tanto que vivera naquele A2 demasiado gordo, preso com elásticos grossos? Talvez fosse ele também. O diário a chamar por si e a pedir-lhe que fosse, porque ainda tinha lá que fazer. Hoje com quase 70 anos era loucura! Seria?

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 23:47

Quinta-feira, 14.06.12

Sentidos dos dias - Introdução

 

 

 

Nova História

 

A vida! Crescer. E quando a um homem não é só o que lhe pedem para ser... Homem! Mas também soldado. Que lute! Por algo que nunca quis fosse seu. Longe da pátria, numa terra estranha, gente que não a sua e uma arma na mão. Matar ou morrer.

Não podes pensar. Só agir. Ninguém se importa se és pacifista, se não queres estar ali, tens nojo do que se passa ao teu lado, mas não podes intervir. Lembras-te de casa. Rostos, cheiros. Do Lar! Ali vês terra vermelha e pó! Carros de combate. Comes mal, bebes uma zurrapa e engoles pó. Ele habita o teu corpo e está por todo o lado. Queres gritar. Abandonar tudo mas seria a desonra. A prisão. E depois um dia...Acaba! Tão abruptamente que ao acordares longe tens de te beliscar todos os dias para saberes se é real.

O corpo no entanto recusa essa paz, faz-te recordar. Martiriza-te e dói-te. Não há sossego.

Algo ficou para trás. Reviver um passado é como arrancar mexilhão da rocha. Terá de ser a ferramenta muito rija… E o saco enorme! Quase três anos no mato. Precisamente mil dias. A matar nem sabia bem o quê, que os turras jamais davam a cara. Finalmente o regresso à Metrópole. Rever família, amigos, conhecer a madrinha de guerra.

 África marca um homem. O tal pó vermelho da terra, os olhares sinceros dos nativos, aquele pôr do sol escarlate. E os sentimentos? Que fazer deles?  Hoje, tantos anos passados, quando a meta final se aproxima em passos gigantes, é necessário procurar os sentidos dos dias… Passados e presentes. A mão treme já. Ela que fora tão firme de FBP empunhada. Quiçá para poderes dormir à noite e te levantares leve, necessites regressar. A vida não se compadece dos dias idos. É um rolo compressor que tudo derrete e trucida. Evocações a um passado já tão longínquo. Passou tanto tempo...Tanto tempo! Valeria a pena reabrir a ferida? Ninguém sabe o que existe por detrás duma alma ferida. Dor, ensejo? Paixão, revolta? Esperança ou desilusão? Apenas um sorriso de alegria? Como estará a terra? As gentes? E...

Era ali, mas hoje nada está de pé. Nada é o mesmo. E, sentes-te... Um nada também? Sacas o livro do bolso e recapitulas. Começas a viver de novo o inferno, para poderes alcançar o céu! è como um filme diante dos teus olhos.

 

Aos Domingos e 4ªas feiras

 

Verniz Negro / José da Xã

 

 

 

 

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por José da Xã às 12:41

Terça-feira, 12.06.12

Trilhos Privados XXXII - Compromisso

Ricardo bem esperou mas Jorge não apareceu no outro dia. Apenas ligou a informar as amigas e a pedir para avisarem o jovem, que teria assuntos a tratar que pediam a sua presença inadiável. Prometeu passar por lá no dia seguinte. Isso levou o rapaz a pensar na gravidade que teria o assunto que o levaria a não cumprir com a sua palavra. Por outro lado, dava-lhe mais um dia de recuperação e...Perto de Célia, da mãe e da governanta, cheio de mordomias, onde quase já se sentia parte da família.

E foi exactamente isso que Guiomar o fez saber. Ao invés de se afastar, ou se demitir do seu papel de mãe como até ali, por motivos muito válidos, a doença de Ludovico, jurou a si mesma que seria o pilar daquela família doravante. Por isso aproximou-se e tiveram uma longa conversa. Ricardo foi honesto. Completamente transparente sobre os seus sentimentos para com Célia. Tudo o que se tinha passado desde que se haviam cruzado o primeiro dia na escola. Como ficou logo interessado nela, para além do visível desconforto que sentia pela indiferença com ela o tratava. Mas não desistiu. Guiomar sorria um riso velado, mas de satisfação. Avaliava-o! Ele continuou a responder com verdade a tudo que lhe perguntava, mesmo que se sentisse um pouco acanhado. Em falta por ser motorista de prostitutas. A senhora parecia não se manifestar, apenas por sinais mais sérios ou traços mais brandos de expressão. E completamente elucidada foi a vez de ela o esclarecer.

- Muito bem, Ricardo. Agradeço-lhe a franqueza. O desvelo com que tratou a "situação" melindrosa  que envolvia a Célia. Pelo seu recato em não fazer disso qualquer alarido.

- Eu... Jamais! Creia-me eu...Amo...A sua filha. Há, muito. Nunca a prejudicaria. Nem contaria nada a ninguém do que se passava... - Apressou-se o moço a interrompê-la.

- Compreendo. Como lhe estava a dizer isso mostra o seu carácter vincado. O que me faz pensar... - Olhou-o um pouco e acrescentou - Que a minha filha fez uma boa opção, no meio da trapalhada toda em que se meteu.

- A Célia é no fim de tudo, uma rapariga espect...

- Por favor deixe-me continuar. Ou não terei força para dizer o que deve ser dito. Muita culpa foi minha. Se não ficasse totalmente empenhada com a doença do meu marido teria visto os sinais de insubordinação na minha filha. Cresciam dia a dia. Resolvi não ligar. Fiz pessimamente! Não eram tolices de adolescente, mas problemas graves de uma jovem que sempre viveu num clima extremamente pesado. Exigimos demasiado dela. A certa altura o meu marido já não podia e eu... Nunca me perdoarei pelo que ela passou. Provavelmente se fosse mais presente...

- São coisas que acontecem. Não se culpe.

- Meu querido rapaz! Ouvirmos o relato cru de uma noite maldita, da boca de uma filha não é fácil. Os pormenores mais chocantes, a baixa humilhação da chantagem. O facto daquele asiático ser, por qualquer motivo, alguém idóneo. E se não fosse? Não sei onde a minha filha estaria gora.

Ricardo ficou em silêncio. Lágrimas bailavam nos olhos de Guiomar mas mulher de fibra, recolheu-as sem as deixar rolar. Mais uns minutos de conversa e Ricardo tinha a bênção dela para se relacionarem "às claras". Ele riu sem maldade quando ela se afastou. Era natural uma senhora daquelas ser ainda um pouco antiquada.  

O resto do dia foi passado ao lado da rapariga entre abraços e alguns beijos. Um pequeno passeio pelo alpendre da cozinha, onde Genoveva os serviu de chocolate quente e bolo de laranja. E foi já de noite que Xavier bateu na porta, entrou cumprimentou, disse qualquer coisa à serviçal e entregou-lhe uma carta...Para Ricardo! Despediu-se e saiu. Mais tarde e avisado por Genoveva o rapaz leria a carta de Jorge Simas recolhido no seu quarto. Nela, o seu já quase idoso amigo, elucidava-o de como tudo se passara...Aquilo que ele não sabia.

Heng escapara porque homem de "negócios" visado por muitos interesses contrários, andava sempre de colecte á prova de balas! Sorte quando abriu a porta ao mandante de Gui. Caso contrário não estaria lá quando ele tentou matar Ricardo. Quanto a Gui, o "tempo" que lhe dariam seria uma deportação para a Sibéria com a conivência de Zeca. - Ricardo até abriu os olhos ao ler. 

Mais à frente explicava a organização Trilhos Privados, em pormenor, e tudo o que faziam. A certa altura quando chegou à parte de Gui, Jorge dizia que o tinha embarcado num avião para o "destino". Ficara descansado. Porém, tinha sido avisado, mal chegara a casa depois de estar com ele, na de Célia, que o avião caíra a meio do percurso. Alguém alegava ter visto o piloto e co-piloto saltarem de pára-quedas, mas o aparelho despenhara-se. Ora Jorge mal soube disto, meteu-se ele mesmo, num avião com Zeca e foram inspeccionar o local. Os homens da organização de ambos, aguardava-nos. Chegados ao destino a polícia local tinha identificado Gui pela dentadura, visto que o aparelho se incendiara. Zeca, policial experimentado quis saber quem fazia parte da tripulação. Mal mostrou os nomes a Jorge ficou explicado acidente. Ambos os tripulantes eram chineses.

Mais tarde e já no aeroporto de regresso... Heng mandara-lhes alguém, para agradecer terem-lhe acobertado a participação no caso e o deixarem ir em paz. Portanto, se no futuro necessitassem dos seus serviços... Ricardo estava estupefacto. Célia e ele estavam finalmente livres de Gui. Jorge estaria quiçá a poucas horas de voltar a estar com ele. E Zeca? Seria também um "anjo da guarda" nas vidas do jovem casal. Com a aprovação de Guiomar e os mimos de Genoveva, o jovem adormeceria feliz. Quase se sentiu recomposto de imediato, pelo peso que lhe saíra de cima. No entanto antes de se deitar mandou uma mensagem.

Célia no seu quarto sentiu o telemóvel vibrar e leu: "Duvidas que te amo, ou não?" Digitou de volta. "Não duvido nem um pouco. Porque também te...Amo, meu maluco. Vê se dormes!" Já enfiada na cama o aparelho voltou a dar sinal. Ela leu. "Queres casar comigo?".

Teve vontade de saltar do leito e ir ter com ele, mas... Não! Respeitaria a sua casa, a mãe e Genoveva. Mais! Passaria respeitar-se a si mesma. E a dar graças por Ricardo na sua vida. De volta  respondeu. "Hum... Vou pensar no teu caso." Riu-se. Apertou o telemóvel contra o peito e apagou a luz.

 

 

Fim

 

 

Verniz negro

 

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por José da Xã às 23:03

Terça-feira, 12.06.12

Trilhos Privados XXXI - De regresso

O carro de Célia parou à porta da clínica privada acendendo os quatro piscas. A jovem saiu a correr e entrou no edifício. Algum tempo depois reaparecia com Ricardo que combalido caminhava devagar. Com cuidado e carinho ajudou.o a entrar no lado do pendura e colocou-lhe o cinto. Depois de se assegurar que ele estava bem, deu a volta a correr pela frente do veículo, agradecendo à paciência dos automobilistas que esperaram entretanto na fila que se juntou para estacionar e arrancou finalmente.

Quando chegou a casa esperavam-na no jardim Genoveva e Jorge Simas. Uma vez imobilizados novamente a rapariga abriu a porta a Ricardo. Mas já lá estavam Jorge e Genoveva para auxiliar. Um braço de cada lado e o jovem erguia-se a caminhar ainda hesitante, para a enorme sala. A tarde estava fria. Um vento gelado penetrava nos corpos arrefecendo-os. Por isso na lareira ardia uma chama crepitante e acolhedora. O rapaz sorriu e agradeceu o fogo aceso. Sentado finalmente num sofá, Célia ajoelhou à frente perguntando-lhe:

- Como te sentes? Dói-te alguma coisa?

Ricardo sorriu e respondeu com doçura:

- Estou óptimo - E acariciou os cabelos da bela jovem.

Jorge Simas aproximou-se e estendendo a mão para um cumprimento tardio mas compreensível, desviou-se para o lado assim que Genoveva entrou trazendo um café bem quentinho e aromático para todos. 

- Ora, ora meu jovem! Segundo vejo é um valente. .. E um cavalheiro!

O rapaz agradeceu o elogio com um bonito e espontâneo sorriso e por fim perguntou:

- Mas Jorge conte-me tudo desde que fui para o hospital, por favor.

Nesse momento Guiomar descia as escadas e Jorge quase se calou, mas ela já sabia alguns pormenores portanto... E ter o rapaz ali era de sua autoria. Fora ela que sabendo que ele interviera para livrar a filha do pior, logo o quis para o compensar devidamente por tudo. Além disso engraçava com o "miúdo". E mal ela lhe deu as boas vindas continuou.

- Ui isso é uma história muito comprida…

- Eu tenho tempo. E se é assim tão longa é melhor começar já… Se a senhora não se importar e a Célia...

Ambas acenaram concordando.

- Pois bem. Vamos lá desde o inicio. O pai de Gui foi nosso amigo e pediu-nos, antes de morrer, que tomássemos conta dele e sem que ele soubesse. Durante uns tempos fomos seguindo o patife. Mas ele era como uma enguia. Penso até que começou a perceber que o tínhamos na mira. Certo dia por culpa nossa perdemo-lo… Pensei que estava no estrangeiro. Assim constava. Só o voltei a ver no funeral do velho Ludovico. Foi aí que recrutei uma brigada para o seguir…De novo! Não gostei do aspecto!

- Mas e eu?

- Tu o quê meu mariola? – riu-se Jorge.

- Como entro nesse… filme.

- Tu foste contratado pelo Gui, certo?

- Certo?

- Vi-te aqui à porta naquele dia. Cigarro atrás de cigarro...Hum! Pensei. Sabíamos dos negócios de cobranças difíceis, das mulheres da noite, do tráfico de armas e de droga… portanto Gui não era um tipo fiável. E tu corroboraste a coisa. Após o funeral  do meu amigo passámos na organização a controlar todos os movimentos e conversas de Gui.

- E o que é feito dele?

- Creio que esse assunto terá de ficar para mais tarde.

Ricardo fez um trejeito de face contrariado e um esgar de dor.

- Aquele sacana violou Célia, drogou-a, chantageou-a, tentou matar-me… e vocês dão-lhe... Mais tempo para tramar outras?

Célia assustada com a reacção do namorado, tentava acalmá-lo:

- Calma amor, calma…

Por sua vez, o velho militar ria-se:

- Mas cheira-me que desse tempo tu não queres partilhar.

- Como assim?

- Sabes onde fica Yakutsk?

- Não… sei lá, na China?

- Na Sibéria!

- Na Sibéria?

- Porquê lá?

- É a cidade mais fria do mundo. Vinte graus negativos é a média de temperatura. Pode ser que seja suficiente para lhe arrefecer os ânimos. Metemo-lo num avião e só espero que me digam que está tudo certo. - E piscou o olho. Ricardo não percebeu mas continuou a inquirir.

- E quanto aos outros? O polícia, o chinês?

- O polícia faz parte da “nossa” gente. Está tudo sobre controle. Mas agora tenta descansar. Amanhã falaremos mais, Há uns pormenores que a Guiomar e as senhoras presentes compreenderão serem só referentes a cavalheiros. Podes esperar não podes?

- Que remédio.

- Muito bem. Até amanhã meu jovem. Adeus Guiomar. Célia... Genoveva.

Elas roderam-np mal Jorge saíu. Sorria. Pensava que entre mulheres Ricardo nem sentiria as dores. Ainda mais com Célia que destilava amor em cada olhar.

Ainda bem.

 

 Verniz Negro/José da Xã

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por José da Xã às 01:08

Sexta-feira, 08.06.12

Trilhos Privados XXIX – Decisão

 

Quando Gui chegou a casa percebeu que à sua porta parara uma viatura preta. Fechou o portão eléctrico e encaminhou-se para casa. Meteu a chave à porta mas percebeu que algo de estranho tinha acontecido em casa. Acendeu a luz e viu a casa toda revirada. Quadros rasgados, porcelanas partidas, móveis deitados ao chão. Olhou à volta mas não viu ninguém. De repente lembrou-se do carro estranho que vira parar quase à sua porta.

Saiu para o jardim mas quando se voltou sentiu que a sua cabeça era um alvo.

Quando acordou encontrava-se sentado e amarrado a uma cadeira na sua sala totalmente caótica. À sua volta quatro homens que mais pareciam armários riam-se dele. Pela primeira vez Gui teve medo. O sentimento que ele adorava fazer sentir aos outros era agora a sua vez de apreciar.

- O que é isto?

Uma voz atrás de si respondeu-lhe:

- Há muitos anos eu e o meu amigo Ludovico combatemos em África durante meses a fio. E esse meu amigo salvou-me mais que uma vez de morrer.

Gui tentava ver quem era o dono da voz sem sucesso. O outro continuou:

- Após o Serviço Militar cumprido regressámos a Portugal. Mas depressa percebemos que o futuro passava por Angola. E lá voltámos nós para África. Deu-se o 25 de Abril e ao contrário de muitos nós fomos pondo cá as nossas poupanças e comprámos algumas coisas, especialmente terrenos agrícolas no Alentejo.

O jovem sentiu de repente uma mão forte que lhe apertava os ombros. De repente devolveu:

- Vai-me contar a história da Carochinha?

-Não meu rapaz, mas em 1975 quando a reforma agrária quis tomar conta das terras que eu tinha comprado achei que era altura de defender o que tanto me custara a ganhar. Assim eu e o Ludovico criámos uma actividade…

Calou-se. Esperava que o rapaz dissesse alguma coisa, mas o jovem remeteu-se ao silêncio. Então continuou:

- … Que consistia em defender aqueles que tinham alguma coisa de seu. Assim organizámos uma quantidade de acções de forma a evitar roubos e assaltos. Especialmente feitos naquela altura do PREC. Tu sabes o que foi o PREC?

Gui negava.

- Calculei. Mas a essas acções nós pusemos o pomposo nome de “trilhos Privados”… Já tinhas ouvido falar? – falava como estivesse a viver num sonho.

Guilherme nunca ouvira e negou:

- Pois bem – regressando à realidade – Creio que estás metido num belo dum sarilho… Mas sabes – e calou-se à espera que Gui falasse – eu tenho uma solução… Ou melhor tenho uma de três soluções.

- Ou morres agora e aqui vítima de uma fuga de gáz. Ou vais com a gente até à polícia e contas tudo o que fizeste nestes últimos dias: porque tentaste matar o chinês Heng, porque querias acabar com Ricardo e acima de tudo denunciares s tuas belíssimas actividades com mulheres. E finalmente dou-te a hipótese de saíres de Portugal mas nunca mais vais ter um dia de descanso, seja onde for. A minha organização está ramificada por todo o mundo e far-te-ei a vida num autêntico inferno…

- Você não pode…

- Eu não posso? E tu podes?

- Meu caro… Ficas a saber que sei das tuas actividades faz muito tempo. Sei que violaste Célia…

- Foi ela que veio ter comigo…

- Pois foi… e se em vez dela fosse um gay também lho fazias?

O silêncio do jovem denunciou-o.

- Só gostava de saber como é que o filho do velho Acácio deu nisto?

Guilherme quando ouviu falar no nome do pai quis levantar-se mas foi prontamente impedido.

- Não fale de quem não conhece…

- O teu pai era um dos meus grandes amigos: Acácio Avelar Saraiva de seu nome… Quem te dera a ti ser como ele. Bastava metade e já era muito bom.

O homem apareceu  finalmente à frente de Gui. Já vira aquela cara algures, mas não se lembrava onde. Tentou ganhar tempo:

- Donde o conheço?

- A mim? Humm creio que nunca me viste…

- Vi sim, eu jamais esqueço uma cara.

- Sim já percebi isso quando trouxeste a Célia contigo para aqui e tiraste todas aquelas fotografias. Ou julgas que eu não sei… Enganas-te. Eu sei muito mais do que tu julgas, muito mais do que tu esperas e ainda mais do tu desejas…

- Mas quem é o senhor?

O homem virou as costas a Gui e dirigindo-se a um outro sentado no sofá repleto de estilhaços de vidros e loiças, perguntou-lhe:

- Que achas Xavier digo-lhe quem sou?

 

 José da Xã

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por José da Xã às 15:05

Quinta-feira, 07.06.12

Trilhos Privados XXVIII - Luta

Dentro da escola e longe da vista de Zeca, Gui magoou Célia pegando-lhe no braço, com uma violência de tal modo, que a obrigou a vergar-se e dois colegas que passavam olharem e afastarem-se depressa, a falar entre si. Devido a isso, empurrou-a para um canto e com a mão a encostá-la com força à parede, a outra a pegar-lhe no queixo de forma abrupta, ameaçou:

- Não me lixes! Quem era o tipo?! Dizes ou conversas com a minha naifa. Esse rosto deixa de ser tão bonito e altivo, minha cara. É só eu querer.

Célia estremeceu e gelou. Sem alternativa, como diria quem era o irmão de Genoveva? Sabia lá, para além do que era mesmo...Irmão da governanta! Embora lhe soasse estranho todo aquele interrogatório, a insatisfação dele em não se retirar, aprofundar e até desafiar Gui de certo modo.

- Não sei quem é. Aliás, sei é irmão da minha... - Articulou com dificuldade e dor, com mais um apertão da mão dele que parecia uma garra.

- O gajo é da bófia! Cheiro-os à distância. Mas não faz mal, querida. O importante é que hoje tenho planos para ti. Se me livrei do china, também posso muito bem dar um jeitinho neste. Se me dás cabo do negócio é melhor pensares na mamã. Tão depressiva! Sempre a dormir. É fácil trocar os compridos, sabes? Lamento se terás de lidar com outro funeral. Com a culpa de ser uma má filha e não estar por perto para impedires, a tua criada de ter morto a patroa. Defendê-la quando for presa. Isto é, já com o mano na quinta das tabuletas. Tenho contactos minha...Muitos! Topas?

- Como sabes da minha mãe? És doentio! Larga-me! - Intimou ela pondo toda a sua força no berro que deu.

Uma contínua que levava um livro de ponto e passava no corredor olhou para a esquerda e viu-os. Gui automaticamente largou-a. Fingiu ser uma briga de namorados.

- O que se passa, aqui?! Saem daí a bem e vão para as aulas, ou peço ajuda e chamo o director.

- Calma! Calma, dona Sofia. - Disse Guilherme de braços no ar a ler o nome da mulher no cartão de identificação. Com um sorriso de orelha a orelha, a destilar charme. - Eu e a minha miúda estávamos só aqui a curtir um bocado, mas... Sabe como é. Já foi mais nova. Não me diga que já não fez o mesmo. - E fazendo um tipo de vénia, sempre a sorrir, estendeu a mão para puxar Célia e despediu-se. - Vamos já embora. A senhora manda. Tenha um bom dia.  

Célia estava horrorizada com a forma e facilidade com que ele se descartava das situações e das pessoas. Ainda que a mulher não lhe tivesse achado graça. Pensou que teria de fugir-lhe. Pedir ajuda a alguém... Mas a quem? Sentia-se perdida, completamente derrotada. Mas pensava na mãe. Em Genoveva. Se ao menos pudesse esquivar-se, usar o telemóvel... "Oh, não!" Quase desfaleceu quando a poucos passos de distância deles, Ricardo se aproximava. Acabada a conversa com Jorge Simas mal entrou no carro dirigiu-se à escola. Alguma coisa lhe dizia que Célia precisava dele. Uma angústia crescente e uma urgência enorme, percorreram-no, todo o tempo em que conduziu.

- Deixa-a imediatamente, ou estás feito!

- Sim? E és tu que me assustas, principezinho. Anda! Estou mesmo a necessitar expulsar um bocado de tensão.

A faca apareceu-lhe nas mãos. Instintivamente Ricardo afastou-se do golpe que raspou o ar. Célia gelada de terror, mas ainda em poder das suas faculdades reactivas, correu e gritou por ajuda. Incrédula ouviu o sino a tocar ao mesmo tempo e tapar-lhe a voz. Demorou um minuto, até as portas se abrirem e começarem a sair pessoas de todos os lados. O que viram depois, e Célia também, ninguém queria acreditar.

Ricardo estrebuchava no chão coberto de sangue. De Gui nem sinais. Ajoelhado ao pé do rapaz estava Heng...Com a faca na mão, todo ele tremia, enquanto olhava para a jovem e afirmava totalmente comprometido.

- Não fui eu. Só estava aqui para a proteger, detê-lo se fosse preciso. Têm de me acreditar. Ele! Foi ele. Meteu-me a faca na mão e fugiu...

As cabeças que não segredavam entre si, procuravam por toda a parte quem poderia ser a pessoa a quem ele se referia, mas não havia nada de novo. Só o facto de... Como poderia um morto ter ressuscitado?

Foi no entanto quando a empregada Sofia chegou a correr, já acompanhada do director da escola, depois de o ter alertado de que poderia haver alguma confusão, que Zeca também entrou em acção, com dois polícias que entretanto chamara. Gui entrara no carro com a camisa ensanguentada. Na pressa com que saiu dali, julgando-se livre e ilibado, nem reparou que um outro carro o seguia. Tudo se deu muito rápido. Quase ao mesmo tempo, que a ambulância para assistir Ricardo chegava.

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 00:01

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