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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quinta-feira, 31.05.12

Trilhos Privados – XXIII - Deolinda

De um momento para o outro a entrada sumptuosa do Hotel Palace no Estoril enchera-se de jornalistas oriundos de todo o mundo. Um festival de cinema trouxera à costa do Sol uma quantidade invulgar de actores e actrizes de renome internacional, assim como de realizadores e produtores de cinema. Muitos deles optaram por ficar no Estoril Palace devido não só ao seu requinte mas acima de tudo tendo em atenção a proximidade com o local do certame. Daí a quantidade de jornalistas e curiosos que esperavam a saída dos artistas. Entre eles encontrava-se Deolinda, uma jornalista de um diário de grande tiragem, que acorria a tudo o que era notícia. Tinha um faro natural para os grandes acontecimentos e conseguia quase sempre as melhoras caixas para o jornal. O sol ainda nem nascera e já o reboliço no lobby do hotel era enorme. Nem os seguranças contratados conseguiam, mesmo duma forma pouco simpática, demover jornalistas, fotógrafos e curiosos. Reinava a confusão naquela entrada de hotel. Coincidentemente com as “visitas” inesperadas decorria a mudança de turnos dos funcionários: recepcionistas, cozinheiros, empregados de mesa e senhoras da limpeza, iam entrando e saindo no meio de toda aquela multidão ávida de notícias, uns e de autografos e fotos, outros.

Deolinda era uma mulher de quase meio século de idade. Baixa e magra tinha todavia uma genica imensa. Raramente os colegas a viam almoçar. Trocava a refeição por uns bons cigarros que fumava quase sem parar. A nova lei antitabágica retirara-lhe todavia muitos cigarros da boca. Mas sempre que podia era vê-la a uma janela, cigarro na mão e cabeça do lado de fora expirando o fumo. Tinha uma relação um tanto acalorada com Francisco Torres, um bófia que odiava que ela fumasse. Independentemente de tudo adoravam estar um com o outro e nessa madrugada, ambos se haviam levantado muito cedo. Ele ia ter com a irmã, governanta de uma casa para os lados de Sintra, e ela assentava arraiais ali no hotel. Zeca havia-a deixado no Estoril e partira por caminhos do interior para a vila preferida de Lord Byron.

Deolinda estava sentada num degrau da escada exterior do hotel quando percebeu uma agitação incomum que se passava fora do estabelecimento. Diversos carros de polícia haviam surgido em alta velocidade. Provavelmente alguém do hotel, impotente para suster tanta gente, mandara vir uma brigada. Porém o seu instinto fê-la apagar o cigarro e seguir atrás dos polícias como se fosse uma deles. A “lata” com que se simulava para chegar onde queria era um dos seus grandes trunfos. A sua baixa estatura era outro dos factores que jogava a seu favor. E quase sem saber Deolinda entrou no hotel passando com à-vontade a primeira barreira de seguranças. Obviamente que haveria outras mas a jornalista não se enganara quando percebeu que havia mais qualquer coisa. Meteu-se no elevador com os polícias deixando-os carregar no botão primeiro indicando para que andar é que iam. Seguidamente carregou num número superior. Chegado ao andar os polícias saíram em passo apressado. Deolinda deixou-se ficar para o fim e assim que todos saíram ela foi atrás deles. O corredor estava repleto de gente, quase todos polícias e apenas alguns elementos do hotel. A jornalista deixou-se ficar afastada e quando chegou outro elevador com mais agentes da autoridade acabou por perguntar inocentemente a um agente:

- E que tal?

- Eh pá, tá morto…

- Morto? Cena marada…

Caminharam lado a lado devagar até ao ajuntamento. De repente o polícia acordou e perguntou-lhe:

- Ouve lá quem és tu?

Deolinda num ápice teve de arranjar uma desculpa.

- Não digas ao gajo…

- A quem?

- Ao meu marido.

- E quem é o teu marido, pode-se saber?

- Podes mas mais baixinho, se fizeres favor.

- Mas quem é?

O cérebro de Deolinda quase escaldava tal a velocidade dos pensamentos para arranjar uma desculpa esfarrapada, pois não queria que ninguém soubesse da sua relação com Zeca. Teve sorte. Nesse mesmo instante apareceram dois bombeiros em passo de corrida que traziam uma maca e um paramédico. Afastaram toda a gente e penetraram no que deveria ser um quarto. Deolinda não se aproximou mais, deixando os polícias trabalhar. Entretanto alguém veio para o corredor telefonar do telemóvel. E a jornalista fazendo-se distraída pode ouvir a conversa:

- Boa noite Zeca!

Após um minuto...

- Desculpa, interromper-te, mas...Tens de vir para o Estoril…

Deolinda fez um esgar irónico e apurou mais o ouvido.

- Não ao Hotel Palace…Pois, já sei não estava no programa, contudo o que queres que faça? Um tipo chinês apareceu morto.

Zeca teria anuido. Porque ela desligou o aparelho e foi juntar-se aos demais.

A jornalista riu-se. Nem imaginava como ficaria Zeca quando a visse ali naquele corredor. No instante seguinte surgiram mais bombeiros com mais equipamento médico. Deolinda estranhou tanta coisa para um morto. E se…

- Hum… Cheira-me a esturro.. Tenho de tirar isto a limpo.

Devagar, foi-se chegando perto da entrada do quarto, já repleto de agentes da autoridade e percebeu que a vítima vivia ainda. Um dos paramédicos aplicava Suporte Avançado de Vida num corpo estendido no chão. Foi nessa altura que sentiu uma mão que quase parecia uma garra felina a pegar-lhe no pescoço. Estremeceu com o susto mas logo recuperou o sangue frio, dizendo:

- Largue-me animal.

Sentiu novamente o chão debaixo dos pés, virou-se de repente e deu de caras com um chinês enorme. Fria e calculista ajeitou a roupa e perguntou:

- Quem é você?

- Isso pelgunto eu? Qui fazis aqui?

Deolinda assumiu:

- Sou jornalista e você quem é?

- Tu falas de molte de Heng.

- Mas então esse homem está morto ou vivo?

- Não falas estal vivo…

Deolinda já não sabia que dizer. Estava ali um mistério… e rebentara quase nas suas mãos… Pensou:

- Ai se não fosse o cigarro não sabia disto…

E palpou com agrado a caixa rectangular dos cigarros.

 

José da Xã

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por José da Xã às 19:27

Quarta-feira, 30.05.12

Trilhos Privados XXII - Locais estratégicos

 

Francisco observou bem o rapaz antes de ele entrar no carro. Alto, esguio, trajar normal para a idade. Cabelo negro, pele cara, olhos azuis. Alargou a sua observação ao carro. Um fiat punto preto, bem estimado, que pôs a circular com prontidão. Quando ele passou a pouca distância olharam-se. O rapaz fez um trejeito de sorriso, pelo vidro meio aberto atirou-lhe, um "bom, dia!". O que o surpreendeu.

"Ora, ora!" Por aqui o seu "faro" apurado dizia-lhe que era alguém habitante das redondezas. A quase naturalidade de movimentos e a saudação espontânea, deixaram Zeca de certo modo satisfeito. Não a desenvolver imediatamente "cenários obscuros" na sua mente habilitada e habituada. Por isso meteu-se na sua viatura também, olhando o relógio.

- Sete da manhã!- Disse para consigo, estendendo as considerações." Coitada da irmã, levantava-se tão cedo, quase de madrugada e ele ainda ficara a entretê-la enquanto se movia entre tabuleiros, leite, bolo, louças e mais sabe-se lá o quê." Mas adorava conversar com ela enquanto a via aprimorar tudo. E eram tão poucos esses momentos.  Arrancou finalmente, rumo ao Estoril poucos minutos depois.

Nesse instante Célia acordava, de uma noite mal passada e em sobressalto, com o som do rádio despertador que apontava as sete horas da manhã. Anunciava as notícias de seguida por entre um minuto de publicidade. A rapariga ergueu-se dorida, birrenta e espreguiçou-se. Foi direita ao armário e escolheu a roupa para vestir. De seguida entrou na pequena casa de banho do seu quarto e fez a sua higiene diária, recapitulando de memória, os passos e aulas desse dia. Ah! E a ida ao gabinete da direcção, devido ao cacifo. "Merda!" Pensou enquanto escovava os dentes e ouvia a voz do locutor intervalada, com a da colega, a desfiar o rol de misérias diário. Mais um cismo na Itália. Mais crise. A troika. E... Estava a acabar de se vestir, quando:

"A polícia foi chamada esta manhã ao Estoril Palace, a fim de desvendar um terrível homicídio ocorrido pela madrugada naquele local." - Dizia ele. Ao que a colega acrescentava... "O cidadão de origem asiática há pouco no nosso país em missão..."

Célia não ouviu mais nada! Saiu disparada do quarto, correu escada abaixo entrando na cozinha, quase derrubando Genoveva que acabara de põr o pequeno almoço na bandeja, para o levar a ambas. Sabia que uma das primeiras coisas que a governanta fazia, era acender a televisão para "companhia" como ela costumava brincar e foi lá que as duas viram a notícia em pormenor.

Os paramédicos recolhiam o corpo. A brigada especializada colhia amostras no local, para análise. A jornalista, uma Deolinda qualquer coisa, falava e falava...Além de entrevistar os que teriam visto o morto, pela última vez! Mas o que paralisou Célia  foi a foto de Heng no canto superior direito do ecrã, para lá de toda a definição sobre o homem e o motivo pelo qual estava em Portugal.

- Não! Não pode, ser. Ele não seria capaz de tanto. Não acredito. Como é que...

Genoveva viu o desespero. O pavor estampado no rosto da "miúda". Mais que nervoso misturado, aquilo já não era reacção de quem não sabia mais do que... E foi quando ela mesmo reparou.

- Mas... Alto, lá! Aquele não é o teu... Meu, Deus Célia! Quem é aquele homem?

A jovem desatou a chorar. Balbuciava, quase incompreensivelmente, que teria muita coisa a esclarecer com ela e a mãe, mas... Mais tarde. As aulas começavam às oito, tinha de se despachar. Enfrentar um dia longo e árduo. Forçosamente... Gui! Se ao menos pudesse contornar Genoveva e a mãe! Alguma explicação plausível que não as deixasse tão reféns do medo e da desilusão, sobre o seu comportamento último, como ela própria estava. Saiu da cozinha sem ouvir os reparos da mulher que a alertava que nem tinha comido. Subiu os degraus, a dois de cada vez e entrou no quarto para buscar os livros, a mochila e... O telemóvel tocou. Gui! Toda ela abanou.

"Então que me contas das notícias? Foi uma terrível perda, não achas? O teu amiguinho, tão galanteador. É sempre assim! Nunca tomam atenção no que se metem, depois acontece o pior. Coitado! Não sabes como lamento, a tua perda querida..."

"Cínico. Filho da p... Maldito!" Quis gritar-lhe. Bater-lhe. Erradicá-lo da sua vida. Do planeta, para sempre! Mas infelizmente não podia fazer nada contra ele. De repente o pensamento saltou-lhe para Ricardo e desabou. Ficou de rastos, ao cair no chão de joelhos a soluçar.

- Ele, não! Por favor... Fazei que este anormal não lhe faça mal. Ele não tem culpa. Sou eu. Só eu e...Não suportaria perdê-lo.

Depois da noite passada numa badalada festa, Gui acordara no seu apartamento como sempre ao lado de alguém. Desta vez ela não era uma miúda qualquer que encantasse. Nem uma das outras que já pusera a "circular"...Mas uma mulher casada! "Quarenta e cinco anos de experiência. Um colosso de mulher...Tinha sido das melhores quecas daquele mês!" Cogitava. "Uma noite memorável entre copos, sexo escaldante e alguma droga. Uma mulher assim, ficava a anos luz das "pitas" novas. Sabia o que queria. Deu e...Teve!" Riu trocista. Voltou a mirar-lhe o corpo nu, ainda adormecido e exclamou: Um mimo! Unindo os dedos e beijando-os. "Gaita! Tinha de perder aquele tique..." Nu, também, ligara a Célia reprimindo ao máximo a vontade de virar o ecrã para a cama. Ilustrar, abundantemente a sua noite, exibindo o seu "irrefutável" álibi! E uma vez que ainda era cedo, porque não? Voltou a deitar-se. Começou a beijá-la, lentamente. A acariciá-la primeiro ao de leve, aqui, ali e depois... Mais intimamente. Ela gemeu. Virou-se para o encarar a sorrir.

- Que horas, são?

- Cedo! Tão cedo... querida. Temos muito tempo até ires buscar o teu marido ao aeroporto. Aproveita cada minuto, princesa!

E sem perder tempo afastou-lhe as pernas e introduziu-se nela.   

 

Verniz Negro

 

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por José da Xã às 15:38

Terça-feira, 29.05.12

Trilhos privados - XXI Ceia

O velho Fiat Uno cinzento e muito mal estimado, estava parado a algumas dezenas de metros da moradia de Célia. Discretamente, Francisco José Torres mais conhecido por Zeca pelos amigos e família, aguardava um sinal no seu telemóvel da irmã Genoveva, governanta daquela casa em Sintra. De vez em quando, conseguia ver a única pessoa que era realmente da sua família.

Zeca tinha 52 anos e trabalhava na polícia Judiciária para mais de 25 anos. De estatura mediana, o agente era muito competente sendo responsável pela solução de alguns dos maiores crimes. Principalmente o caso do “Assassino Nu” que matara o chefe Arcílio, havia vários anos.

Mas Francisco debaixo de aquele seu ar bonacheirão e quase redondo sabia também ser simpático e alegre. Tinha um tique que herdara do tempo de tropa mas no fundo era um pândego e homem sempre muito bem disposto. Para tudo tinha uma piada ou pelo menos uma história. Confidenciava muitas vezes que tomara esta postura desde que lera o livro “O Valente Soldado Cheivk”. Um exímio personagem em escapar a casos mais problemáticos. Todavia Zeca não tinha ainda assim essa sorte e à sua porta batiam sempre as piores coisas. Por isso ria sempre que podia. Adorava comer mas bebia pouco. Às vezes em dias de muito calor lá beberricava uma cerveja.

Mas o polícia tinha um grande senão. Chamava-se Deolinda Veiga, jornalista de profissão e tinha com Francisco uma amizade demasiado colorida.

O aparelho vibrou. E Zeca leu no visor: mana!

Saiu do carro, fechou a porta sem a trancar e encaminhou-se para o portão que ficava por detrás da casa. Aqui escapuliu-se para dentro do terreno da casa e entrando pela porta do jardim chegou à cozinha onde em cima da mesa já fumegava uma enorme caneca de chá. Em frente, num prato raso uma quantidade larga de biscoitos que Francisco foi então comendo e saboreando com prazer. A irmã chegou entretanto vindo de dentro da casa com um tabuleiro vazio.

- Boa noite Zeca.

O irmão levantou-se e deu a face para a mana beijar. Após os cumprimentos voltou a sentar-se e continuou a comer. As bolachas derretiam debaixo de um som seco, quase parecia um cabra a comer favas. Genoveva não aprecia aquela forma pouco civilizada de comer do irmão e chamou-o à atenção:

- Olha lá, não sabes comer de outra maneira? Pareces um animal…

Zeca parou mas em vez de ficar ofendido, riu-se:

- Mas eu sou um animal… racional.

- Pois, pois deixa-te de brincadeiras e porta-te como deve ser, se fazes favor – repreendeu a irmã.

Zeca soubera dos últimos trágicos acontecimentos e foi assim adiantando:

- O velho lá morreu…

- Não era velho, estava muito doente…

- Oh… velhos somos quase todos…

- Isso dizes tu. Mas eu não estou!

O agente nem deu seguimento à última frase da irmã. Explorou outras ideias.

- Ontem estava aí um chinês com um ar estranho…

- Tu estiveste cá… no funeral?

- Sim mas à distância…

- Mas porquê?

- Eu não gosto de misturas…. Mas estava a dizer-te que estava aí um chinês, no funeral…

- Ah sim lembro-me… Acho que é um professor da Célia…

- Hum… Cheira-me… – e mexeu no nariz.

- Mas cheira-te a quê?

- Não sei… Havia no tipo algo que não me agradou.

- Tu e as tuas teorias da conspiração…

- Chama-lhe teorias, chama! E como está a viúva?

- Mal muito mal, parece uma boneca. Não tem vontade própria, uma miséria…

- Agora têm de tratar da papelada: Finanças, notário, bancos…

- Isso tem de ser a menina a fazer ou andar para a frente com as coisas…

- Se elas precisarem de alguma ajuda avisa… Tenho por aí amigos…

- Eu sei Zeca, eu sei! Ma deixa lá passar uns dias…

A conversa continuou por muito tempo. Francisco nunca tinha pressa, quando começava a conversar e foi Genoveva que o incitou a ir embora. Já na rua quando ia a caminho do carro passou por ele uma viatura com um tipo ao volante. Zeca não ligou e nem se preocupou a pensar quem seria.

Quando entrou no carro, tocou novamente o telefone. Era do serviço:

- Boa noite Zeca!

- Olá Patrocínio, diz.

- Tens de ir para o Estoril…

- Ao casino? – e riu-se.

 - Não ao Hotel Palace… Um chinês apareceu morto.

Por seria que ele não se sentia espantado?

 

José da Xã

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por José da Xã às 11:15

Segunda-feira, 28.05.12

Trilhos Privados XX - Medo

O dia fora extenuante. Os acontecimentos na sua vida precipitavam-se a uma velocidade supersónica. Sempre sonhara em ter uma vida cheia, mas aquilo fora demais… A sua beleza natural sempre atraíra muitos rapazes, como a luz atrai os insectos. Mas a maior partes deles eram uns idiotas convencidos, aramados ao “pingarelho”, com a mania que sabiam tudo sobre as mulheres. Mas Célia, mais por defeito do que por feitio, ligava pouco aos imberbes dos seus colegas, sentindo-se claramente mais à-vontade com jovens mais velhos. A doença prematura do pai, bloqueara-lhe todas as possibilidades de sair do País em viagens de férias. Mas por outro lado odiava parecer que não conhecia nada. Assim Célia desde muito nova, fazia apontamentos sobre viagens de sonho que nunca realizou. Se muitas das suas colegas lhe invejavam a beleza e a formosura, Célia, em silêncio, invejava-lhes a liberdade. E para que nunca duvidassem dela, assumia sempre uma postura arrogante e maior parte das vezes um olhar distante, como quisesse dizer que não era falsa… O problema é que de vez em quando, Célia acabava por entrar em contradição entre o que contara tempos antes. Nessa altura assumia aquele seu ar de menina empertigada e acusava em tom alto:

- Estás, a chamar-me mentirosa’?

As outras encolhiam-se  e acabam por aceitar a versão de Célia. Ou como dissera certa altura uma das suas poucas amigas: vencida mas não convencida! Mas a vida em poucas horas dera-lhe alguns ensinamentos, que muita gente demora a receber e a entender. Célia percebeu que não era dona da sua vida. Estava presa a um tipo, que sem dó nem piedade a queria em esquemas esquisitos, que ela jamais imaginara que houvessem, quanto mais ser ela uma referência naquele momento. Pensou então em Ricardo e na forma como ele a defendera. Mas primeiro como a recebera no carro: distante e quase mudo. Mas parecia ser um rapaz às direitas. Trabalhador e estudante, era (devia ser) um exemplo para ela. Mas faltava qualquer coisa. Não era charme, que isso tinha com fartura e beleza, também não, pois Ricardo era muito bem-parecido. E se começava a gostar dele... Célia, no seu quarto repleto de figuras de artistas de qualidade duvidosa, olhava o firmamento negro salpicado por pontos brancos. Depois uma série de questões vieram-lhe à cabeça de forma pateta:

- e se Ricardo não fosse quem era?

- e se ele estivesse conluiado com Gui

- e se…? E se… ?

Nem sabia o que pensar e pior, muito pior, em quem confiar… A sua ganância em tentar ser alguém, que não era, trouxera-lhe um sem número de dissabores. E o medo? Aquele sentimento que lhe fazia gelar as mãos em segundos… A jovem órfã, deitada na sua cama, desviou o olhar do céu e optou por um quadro que se encontrava na parede ao fundo da sua cama e onde podia ler:

- Carpe diem

Em voz alta traduziu:

- Goza o dia…

De súbito ouviu dois toques na porta do seu quarto:

- Quem, é?

- Sou eu, a Genoveva. Venho trazer-te um copinho de leite quente. Hoje quase nem jantaste…

Encaminhou-se para a porta e escancarou-a:

- Entra, minha amiga…

A governanta abriu a boca num sorriso. Em tantos anos, fora a primeira vez que Célia a tratara com tanta familiaridade e afecto. Uma evolução que pareceu positiva. Podia ser que o choque da morte do pai tivesse acordado Célia para a realidade do mundo. Colocou o pequeno tabuleiro em cima da mesa  e despediu-se:

- Até amanhã, riqueza…

- Até amanhã, Genoveva. Dorme bem.

Genoveva saiu e fechou a porta atrás de si. Célia levantou-se da cama e agarrou a caneca de leite morno. Foi beberricando e pensando em como poderia mudar a sua vida e a dos que a rodeavam. De repente o telemóvel tocou. Pensando que fosse Ricardo correu para o aparelho. Mas não conheceu o número. Por isso deixou tocar até que desistissem. Aquilo também não era hora para telefonar a ninguém. Só se…

No momento seguinte um sinal sonoro diferente no telemóvel, do toque de chamada, avisou-a de mais uma mensagem recebida. O número parecia ser o mesmo da chamada. Mas ao ler o texto, ficou sem pinga de sangue. As suas mãos gelaram ao mesmo tempo que um ligeiro fio de suor lhe escorria da têmpora. Leu em surdina como se não acreditasse:

- Amanhã muito cedo terás uma surpresa. Bico calado, se fores abordada! Ou então as fotos na “net” e nos jornais serão uma realidade. A decisão é tua! Gui

 

José da xã

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por José da Xã às 00:13

Domingo, 27.05.12

Trilhos Privados XIX - Apanhado!

Ricardo tentara dormir, mas em vão. Depois de falar com Célia e ter-lhe dito que se Gui a contactasse o avisasse, que iria logo, não havia muito mais a fazer. Genoveva não entenderia. A mãe muito menos autorizaria, que ele se deslocasse até lá e com uma desculpa esfarrapada qualquer, pudesse pernoitar. Contudo andar às voltas e beber consecutivos copos de água levantando-se amiúde, desligando e ligando a televisão não adiantavam. Devido a isso voltou a vestir-se. Apanhou as chaves do carro e dirigiu até Sintra. A casa ficava logo a seguir a uma curva entre as árvores, pouco distante da vila, tendo na frente um pequeno parque de terra batida. Se desligasse o motor e estacionasse nas proximidades suficientemente perto para acudir se houvesse novidade, mas de modo a ficar oculto, poderia protegê-la sem ser notado. Foi o que fez. Para se manter alerta acendeu um cigarro e recostou-se. Passou uma hora e nada de novo. Sentindo-se entorpecer pela inactividade, resolveu sair do carro e fumar mais um. A noite estava fria. Soprava um vento não convidativo a grandes incursões fora. Na casa tudo estava em paz. Célia devia dormir, ignorando totalmente a sua presença ali, tal como as duas mulheres. Era estúpido numa casa tão grande e num lugar quase isolado não terem um guarda. Alguém que zelasse pela sua segurança. Existia uma, ou duas casas uns metros adiante. Mesmo assim... E foi enquanto Ricardo fumava e se entretinha a pensar como era complicado nos dias de hoje morar num sítio e casa daquelas, que ouviu o restolhar de passos atrás de si. Virou-se não muito esperançoso que não fossem problemas. Ele sozinho não chegaria para Gui e os seus homens, por isso como quem leva a mão a uma pistola, sacou do telemóvel e estava já pronto a digitar o número da polícia, quando viu na frente um homem alto, com aspecto austero, extremamente apresentável. Nada semelhante a um marginal. Antes um... "fidalgo". Mais! Vinha acompanhado de outro mais baixo, que o seguia com uma lanterna, quase em passo de corrida. Obedecendo visivelmente às ordens do primeiro. O jovem recolheu o telefone e cogitou como se livraria das perguntas que o podiam aguardar.

- Boa, noite meu caro! Chamo-me Jorge Simas. Eu e aqui o Xavier, meu mordomo, já nos interrogámos uma centena de vezes o que leva alguém a estar por aqui a estas horas, numa noite destas... E de vigia à casa do meu falecido amigo Ludovico? Não vemos motivo fiável ou honroso para o facto. Portanto quer ter a amabilidade de elucidar-me o que faz aqui, quando na casa só habitam três mulheres indefesas?

Ricardo sorriu com a entoação da voz. A pose! Não desatou a rir à gargalhada por educação. Se fosse um delinquente com uma arma a sério e maus instintos, os dois já estavam há que tempo no chão. O tal "lord" vinha de mãos a abanar, o outro só trazia a lanterna. E... Um monte conversa! Quem lhes dizia que estava só? Ele poderia ser um chamariz. Exactamente alguém que estivesse ali, a indagar, dando pormenores se a casa estava vigiada. Para identificar o local de onde vinha "ajuda" e surpreender com outros lá atrás escondidos, neutralizá-la e avançarem sem problemas. Foi isso que omitiu, enquanto elucidava o quase provecto cavalheiro, mais ou menos, quem era.

- Estou em paz, creia-me. Sou amigo e colega da Célia. Pelo mesmo motivo que o senhor me aponta... Preocupação! Resolvi dar um pulo até aqui a ver se estava tudo bem. Se quiser confirmar pode perguntar inclusive a qualquer das senhoras da casa, acordando-as. Estive cá ainda esta tarde.

- Muito bem, meu jovem. Se é como diz... - Mediu-o de pés, à cabeça. - Que tal fazê-lo num lugar mais confortável?

O rapaz não entendeu patavina do que ele pretendia com aquilo. Embora fosse já de uma certa idade, receou um pouco a amabilidade e a "oferta." Contudo o homem apontou um pequeno barracão, claro, que se destacava na noite entre o arvoredo mais acima. Logo ao lado, erguia-se uma mansão senhorial espectacular. Seria por certo a casa dele? Ricardo não reparara em ambas, focado na sua missão e na casa da rapariga.

- Sabe que as pessoas da minha idade têm diferentes hábitos de sono. Por esta altura costumo beber o meu chá, ficar um pouco a ler, ou confortavelmente a apreciar a noite e o silêncio. E...Estou ali há uma hora e tanto, por detrás do cortinado da varanda, a vê-lo acender cigarro atrás de cigarro... Parado aqui. Já esgotado de resolver este puzzle, pensei descer. Vir, ver o que quer. Mas já que me afirma serem legítimas as suas intenções, se lhe parece bem, ali de cima tem uma óptima vista vista, para o seu "alvo." - Fez uma incisão irónica na voz e continuou -  Chega-se aqui num instante, sem se fazer grande aparato, como já percebeu. Além de que está mais quente. Há um café forte, se não apreciar tisanas. Também... Uma conversa a ser travada, que me parece não poder ser adiada.

O jovem ia agradecer e aceitar. Seria indelicado, não o fazer. Daria imenso trabalho explicar o motivo, levando o outro a desconfiar se falava verdade, ou não, quando as últimas palavras de Jorge Simas o intrigaram.

- Uma conversa? Entre o senhor e eu? Que nos acabámos de conhecer... E que não pode ser adiada. Não estou a ver o que... Mas, agradeço e...

Não chegou a acabar o raciocínio porque o que ouviu de seguida, deixou-o ainda mais frio, que o próprio vento cortante que cortava.

- Diga-me, para já, meu jovem? Em que meandros ou complicações a filha do meu melhor amigo está envolvida?

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 19:07

Sexta-feira, 25.05.12

Trilhos privados - XVIII - Aflição

 

Ricardo despedira-se já tarde de Célia e de Genoveva. Chegou a ver a mãe da rapariga, como sonâmbula, descendo os degraus da quase imponente escada, que saída do átrio da entrada para o andar de cima. Provavelmente aí seriam quartos e outras divisões da casa, uma vez que em baixo tinha reparado, devido a uma rápida visita guiada da jovem, ficar a enorme sala de jantar, um espaçoso escritório servido por uma biblioteca que faria inveja a muitos e ao lado, uma sala de música. Depois mais desviados ficavam a cozinha, com o quarto de Genoveva na lateral e a cave, onde Célia dizia que já não ia, fazia tempo. A governanta rira-se por ter de lá ir constantemente buscar provisões. Dizia que quando ela era miúda andava sempre atrás dela, mas agora... Segundo parecia o quarto de Célia ficaria, tipo perto do sótão ou águas furtadas, para onde manifestara se escapava, sempre que queria estar mesmo no seu espaço.

A senhora acenou-lhe e sorriu-lhe vagamente e foi refugiar-se nos braços da filha. Em seguida acabou por o cumprimentar de fugida e agradecer-lhe a companhia que lhe fazia, acrescentando que voltasse sempre. Por vontade dele, nem ela sabia, não se iria embora mas tinha deveres a cumprir que não lhe agradavam especialmente. Por exemplo servir mais uma vez de "chauffeur" mal acabasse as aulas por volta das vinte e três. E assim foi. Mal terminou deu um pulo a casa comeu qualquer coisa rápido, trocou de roupa com excepção do chapéu, que levava na mochila com umas calças de ganga e um pólo para quando acabasse e já de fato, e aprumado, pulou de novo para o seu "chanato". Guiou direito ao local onde costumava ir buscar a limusina. Raios partam! Detestava aquela vida, mas tinha de se sustentar. Ganhar mais algum também, para as propinas e ali ganhava-se bem e não havia muitas perguntas. Era fazer o trabalhinho limpo e pouco mais havia a saber. Os pais de Ricardo tinham morrido num acidente aparatoso de comboio, quando ele era ainda miúdo. Portanto aos doze anos e sem mais ninguém para o amparar que um tio algo boémio, teve de trabalhar. E começou logo num bar. O tio conhecia o dono, ele não refilou. Mais tarde chatearam-se. Deixou a casa dele e arranjou uma pequenita para si. Estava farto de sair do bar, aturar bêbados e gente ociosa e ainda ter de ir ouvir o carpir do tio, após um dia de jogatina e tantas vezes, sarilhos. Não precisava daquilo! Portanto era comer e calar. O que não esperava é que mal chegasse a notícia fosse aquela. Não! Não tinha sido Gui, como por vezes lhe aparecia, com o seu ar superior lhe atirava as chaves como o dono atira o pau a um cão e virava costas, ouvindo-lhe somente o local aonde se dirigir. Desta vez eram dois dos capangas dele, que o informaram bastante convincentemente, que os serviços dele passavam a não ser necessários. "Merda!" Pensou, mas não deu o braço a torcer. Voltou para casa e mais tarde pensaria onde buscar uma nova colocação. Afinal também havia no meio mais gente conhecida.

Como o seu pensamento não andava muito longe de Célia resolveu telefonar-lhe. Estranhou-lhe a voz pesada, nervosa e então soube o motivo. Quando sairia por volta das três de casa dela, fora à sua vida. Ela teria nesse dia duas aulas de recuperação de matéria, a que não lhe apetecia nada ir, mas era importante não faltar, por isso fora. Saíra às quatro e chegara à escola por volta do quarto para a cinco, hora a que começaria a primeira até às seis. A seguinte seria até às sete, motivo pelo qual, ainda tivera esperança de vê-lo naquele dia. Porém nem chegara a ficar. Mal entrara na escola e já no corredor dos cacifos viu um aglomerado de alunos concentrado em grande animosidade. Pensou haver alguma bulha entre alguns, por namoricos ou desencontros, mas assim que se aproximou viu o motivo da agitação. Era o seu cacifo que além de completamente metido dentro com algum pontapé delinquente, exibia a vermelho a toda a largura as palavras: "Prepara-te, mula! Ainda não terminámos." Marta e Vanessa rodearam-na. Levaram-na dali para fora sob o olhar de montes de colegas. Outros nem conhecia. No dia seguinte teria de ir à Direcção explicar-se. Incomodada, resolvera refugiar-se em casa. Ainda não parara de temer por si, a mãe e Genoveva naquela noite! 

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 17:48

Quinta-feira, 24.05.12

Trilhos Privados – XVII Vingança

Quando chegou a casa, encontrou a sua última conquista toda nua deitada na sua cama. Guilherme não gostou de a ver ainda em casa e correu com a jovem de um loiro espampanante e pouco atraente.

- Olha lá, mas tu julgas que isto é algum hotel? Vá, vamos a despachar que tenho mais que fazer.

A jovem levantou-se da cama e toda despida dirigiu-se à casa de banho onde tomou um duche rápido, mas que a Gui pareceu uma eternidade.

Finalmente despachou-se e saiu quase a correr. Um táxi esperava-a à porta. Gui fechou-lhe a porta e viu desaparecer o carro no fundo da rua. Entrou em casa e mais calmo rememorou a sua manhã.

Ricardo, o seu selecto motorista embeiçado com uma cróia. E depois os chineses…  Que estariam ali a fazer? Por uma vez sentira-se impotente… Mas jurou vingança. Bastar-lhe-ia um telefonema e o chinês e os seus amigos passariam um mau bocado.

Foi  à garagem e retirou o belo Porsche, colocando lá dentro a moto.  A manhã estava a querer-se virar para chuva. Nuvens plúmbeas e pesadas começavam a invadir o firmamento. O frio amenizara mas adivinha-se com facilidade chuva. Gui abriu o portão eléctrico de fora da vivenda. Por fim retirou o carro e fechou o portão. Seguiu então para Lisboa onde o esperavam para ultimar um negócio. Tocou o telemóvel. No visor estava escrito Sérgio. Não lhe apetecia falar, mas os negócios…

- Bom dia Sérgio.

- Olá Gui, então que tal?

- Que tal o quê?

- A miúda? Saiu-se bem…

- Eh pá nem me digas nada…

- Mas olha que eu cobrei o serviço. E não foi tão pouco quanto isso.

- Eu sei! Mas o chinês passou-se com a gaja…

- Passou-se como?

- Não sei como é que foi… mas deve ter-lhe dado a volta.

- Ena que cena! Mas ela não foi…

- Foi, foi, que eu própria a levei ao gajo no restaurante. Jantou connosco e subiu com ele, que eu disse-lhe o que tinha a fazer.

- Ah então tudo bem…

- Tudo bem o tanas… A gaja anda enrolada com o motorista que tenho para estes casos e nem sei como, o chinês estava também hoje no funeral do velho.

- Do pai?

- Sim, do pai dela!

- Explica-me lá isso outra vez… A gaja anda com o teu motorista?

- Parece que sim… Mas eu nem sabia disso. E hoje de manhã fui ao funeral do velho dela, apenas para controlar a gaja e dou de caras com o “nosso” amigo chinês e ela aos beijos ao outro sacana… Ainda andámos ali com coisas mas depois vieram os guardas costas do outro e tive de cavar. E agora não sei que fazer a esse filho da mãe do Ricardo…

Sérgio Gouveia conhecia bem Guilherme e achou por bem por alguma água naquela fervura.

- Gui, tem calma…

- Calma, eu! Eu dou cabo dele…

Sérgio já nem percebia de quem se estava a falar. Tentou esclarecer:

- Mas dás cabo de quem?

Gui perdeu as estribeiras.

- Dou cabo de todos, do chinês, do Ricardo, da gaja… Fod…

- Gui , tem calma.

- Tenho calma, o caraças… Aquela desgraçada saiu-me melhor que a encomenda. O único gozo é que fui o primeiro… Isso, ninguém me tira.

Um silêncio entre ambos. Sérgio não estava nada preocupado com os problemas de Gui, por isso voltou ao ataque, duma forma serena :

- Mas eu preciso de saber se posso contar com ela.

Gui riu-se e respondeu:

- Claro que podes… Eu tenho umas fotos dela em posições pouco recomendáveis e que posso publicá-las num instantinho. E até me davam dinheiro por elas….

- Toma cuidado… Isso da chantagem pode dar mau resultado.

- O que dá mau resultado é não ganhar nenhum… E eu anda a precisar de um carro novo…

- Ainda tens esse vício… dos carros?

- Meu amigo, eu não tenho um vício, tenho um gosto…

 

José da Xã

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por José da Xã às 17:21

Quarta-feira, 23.05.12

Trilhos Privados - XVI - O Convite

Pelo caminho Ricardo ouviu pacientemente Célia. Se lhe dissesse que gostava do que ouvia, mentia. Se confessasse que no fundo, estava tão desiludido e magoado, que só lhe apetecia largar-lhe a mão e desaparecer, perdê-la-ia de novo. Não que ela quisesse talvez, mas as circunstâncias em volta dela, com a chantagem… Ricardo sabia que ela sozinha não podia fazer muito mais. Ou se submetia, ou era o escândalo. Mal o pai acabara de morrer, seria tudo o que não convinha àquela família. Nem com ele vivo… Por isso engoliu em seco. Se gostava dela, a queria para si, não seria a merda de um porco qualquer, que numa noite de copos a tinha seduzido e emporcalhado, no mais íntimo que uma mulher pode ter, o orgulho da reputação, que os separava. Que raios! Ela também provocara, mas quantas vezes, ele já não tinha bebido demais. Uma ou duas, acabado a acordar ao pé de alguém que nem sabia quem era, de onde aparecera. Bem, de onde aparecera…se calhar do interior de uma limusina preta, onde choravam sozinhas quando as levava a casa à noite. O que lhe fazia ter um cuidado e rigor imensos. Algum dia ainda se dava mal e não queria aproveitar-se. Mas também eram poucas as que andavam naquilo por sujeição. Havia imensas, que sustentavam vícios. Anos passados, estavam tão agarradas àquilo que não saberiam viver de outro modo. Não se deixarem encantar com uma pipa de massa, hotéis de luxo, aviões particulares, desfiles de moda, promessas variadas e mais. Eram jóias, guarda-roupa, casas. Cartões e passes, livres. Tanto, que a maior parte das pessoas nem sonhava. Muitas eram mantidas por gente importante. Se viessem a saber… Políticos com vidas estabilizadas e filhos. Banqueiros e outros. Enfim…Uma miséria. Depois havia as outras, que já mais entradotas deixavam de ter interesse. Acabavam a levar pancada. A fazer o que eles queriam de pior. Entre a sarjeta e elas, pouca diferença havia. Uma autêntica podridão. Era dessas que Ricardo tinha mais pena. Infelizes, não amealhavam quando bonitas e novas, gastavam tudo em luxo, bebida e drogas. Acabavam uns farrapos humanos. Ele jamais gostaria, ou queria imaginar Célia metida naquilo. Perto da casa dela Genoveva esperava-os assomando à janela. Abriu-lhes a porta e reconheceu o rapaz da outra vez que lá estivera. Sorriu-lhe! Engraçava com o moço. Parecia ser boa gente. Fazer bem à sua “menina”. Ela precisava de companhias assim. Depois de informar a rapariga que a mãe tomara vários comprimidos e aterrara num sono de pedra, Genoveva convidou Ricardo para almoçar. O rapaz aceitou. Todo o tempo que estivesse perto de Célia não só a protegia como lhe sabia bem. Especialmente quando ela apareceu em fato de treino e rabo-de-cavalo, pronta para se esmerar na cozinha. A governanta tinha outras coisas à espera e agradeceu sobremaneira. Toda a sala ainda estava desarrumada. Ou pelo menos não ao seu gosto. Havia marcas de copos nos móveis, cinzeiros por despejar… Enquanto esperara que Célia aparecesse, tinha feito muito, mas faltava ficar tudo impecável. Por isso deixou-a a tratar do bacalhau com natas e foi para a sala e resto da casa arrumar. Célia gostava de cozinhar. Fazia-o bem, depois de tantas vezes observar Genoveva, enquanto fazia trabalhos da escola, ou a desenhava por prazer. O que não contava foi que Ricardo se juntasse a ela a colaborar. Num, todo iam-se completando nas tarefas, exactamente fazendo-as como equipa. O que a levou por momentos a sorrir feliz, em todas aquelas horas tristes, metendo-se com ele.

- Quem veja parece que fizémos sempre isto juntos. – Disse, ao pôr o tabuleiro no forno.

- E isso é mau? – Respondeu ele voltando-se, enquanto acabava de pôr a mesa para três.

- Não! Muito bom. Não estou acostumada a ter gente da minha idade aqui. Assim, então…

Ricardo reparou no semblante dela, melancólico. Não condizia com o sorriso algo descontraído. Por momentos sentiu uma infinita vontade e abraçá-la. Percebeu como devia ser difícil ser filha única de pais já “idosos”, numa família tradicional daquelas. Mas conteve-se. Foi no preciso momento, que ela reparou ter-se esquecido de pôr o pão ralado, por cima no bacalhau e se queimou ao fazê-lo, que ele se precipitou para a ajudar a pôr a mão debaixo de água corrente, que tudo se alterou.

- Que desastrada! Eu… Distrai-me contigo. Estava tão feliz que…Esqueci-me de tudo.

- Hum… Distraiste-te…Comigo?

- Sim. Também podíamos comê-lo sem o pão ralado e…Mas…

As cabeças estavam tão juntas, olhos nos olhos. As mãos de ambos debaixo da água corrente. A respiração batia na cara do outro, quente! E quando ele lhe afastou o cabelo da cara, deixando um rasto molhado na pele, roçando-lhe o dedo nos lábios, o beijo aconteceu. Desta vez ainda mais intenso. As mãos dele, molhadas entraram-lhe por baixo da camisola, sentindo-lhe o tremor do corpo. As dela aterraram-lhe no peito percebendo-lhe o desenfreado do coração. Ele estreitou-a tanto, como se a quisesse fazer parte de si. Ela não se afastou e deixou-se ir. Num momento a porta da cozinha trancou-se com a corrente de ar. Eles nem se aperceberam. Ricardo beijava-a, saboreava-lhe os lábios, a orelha. Suspirava-lhe nervosamente no pescoço. Queria-a! Ela correspondia, arquejante. No minuto seguinte, quase se amavam completamente. Célia não via qualquer semelhança entre o que lhe acontecia e Gui… Mais! Começava a capacitar-se que apaixonara seriamente. Mas foi Ricardo que, tenho a força necessária para parar e onde estava, se afastou, fazendo-a criar também noção do que estavam prestes a fazer. Mal tiveram tempo de se recompor, Genoveva assomava e batia à porta apressada.

- Então! Tudo bem aí dentro?

-Tudo bem, por aqui e a senhora? – Respondeu Ricardo com uma naturalidade invejável a abrir-lhe a passagem.

- Desculpem! Abri uma janela lá dentro para arejar e deve ter feito correspondência. - Afirmou Genoveva a espiar Célia com olhos de lince.

A rapariga estava um pouco corada, mas respondeu.

- Estava-nos a saber bem o vento. Aqui está um calor… Do forno! Mas, deve estar quase pronto.

- Pois! Cheira muito bem. – Concluiu Genoveva a sorrir.

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 22:12

Terça-feira, 22.05.12

Trilhos Privados – XV Negociações

O Mercedes negociava as curvas a alta velocidade logo seguido por um outro. Heng olhou o relógio e viu um só ponteiro. Por isso sentia fome… Então dirigiu-se a um restaurante que conhecia havia muitos anos. Esperou que ainda estivesse aberto. Conforme se aproximava do Estoril, maior era o trânsito. De tal forma que os seus companheiros acabaram por perdê-lo. Não obstante estar sol o dia exibia de um frio glaciar acompanhado de uma brisa que ajudava a arrefecer ainda mais os corpos. O restaurante ainda se encontrava aberto, mas foi com dificuldade que conseguiu um lugar de estacionamento. Assim que penetrou na enorme sala Heng foi logo reconhecido por alguém que o cumprimentou na língua materna. Um abraço efusivo e uma mesa especial. Heng sentia-se agora bem, após uma manhã demasiado atribulada. Já sentado ligou aos seus companheiros que o atenderam e com quem falou em Mandarim. Deu-lhes a morada e em breve, estavam também sentados à mesa.

O restaurante de comida chinesa era espaçoso, contendo um grande número de mesas. Mas naquele instante apenas os três chineses estavam presentes.

Heng pegou novamente no telefone e ligou. Do outro lado atenderam:

- Ora viva… Então tens alguma coisa para mim?

- Augusto, pareces aborrecido…

- O que é que tu achas? Deixas-me aqui pendurado toda a manhã…

- Pois, tens razão. Mas só agora obtive respostas – mentiu.

- E…

- Vamos continuar as negociações. Há alguns detalhes que necessitam ser limados. Podemos reunir hoje?

- Claro – respondeu Augusto ansioso – e a que horas?

Heng olhou novamente o seu Patek Phillipe de ouro, onde já se viam os dois ponteiros e avançou:

- Duas e meia no meu hotel, achas bem?

- Perfeito… - depois avançou – e vê lá se não me deixas outra vez pendurado como esta manhã. Tenho urgência em resolver isto…

- Obviamente. É do interesse de todos acabar com isto o mais breve possível. Então às duas.

- Combinado.

Na mesa apareciam já acepipes que Heng iniciou a comer. Os seus companheiros, todavia, não pareciam estar muto felizes. E fizeram questão de o demonstrar. Heng Yong não esperava aquela reacção e atacou-os também. E num momento para o outro a conversa pareceu azedar-se. Mas pararam antes que alguém do restaurante desse por isso. Finalmente comeram com calma, beberam chá de jasmim, pagaram a conta e após as despedidas saíram calmos. De regresso à estrada Heng lembrou-se da cena quase canalha dos seus companheiros. Mas reconheceu que eles tinham razão. Perdera-se de amores por uma ocidental que não o queria…

As mãos crisparam-se no volante quando se lembrou do beijo entre Célia e Ricardo. Aquela mulher era… Sacudiu então a cabeça de forma a afastar as recordações. Chegou ao hotel num instante, deixando que o rapaz arrumasse o carro. Subiu ao seu quarto onde pegou na pasta e dirigiu-se ao lobby do hotel onde aguardou Augusto Nunes. Este surgiu às duas e meia pontualmente. Cumprimentaram-se e seguiram para uma sala previamente reservada por Heng, onde reiniciaram as conversações.

Eram dez da noite quando encontraram uma plataforma de entendimento. Porém o acordo só seria válido quando as estruturas superiores de ambos os lados o validassem. Augusto recostou-se na cadeira visivelmente satisfeito. A gravata já se encontrava desabotoada, assim como a camisa. Por seu lado Heng mantinha a compostura e o profissionalismo. Assim que deram por encerradas as negociações cada um pegou no seu telemóvel dando conta das últimas evoluções. O chinês não obstante a sua postura fria e austera, mostrava-se realmente muito cansado. De tal forma que comunicou aos seus companheiros que regressava ao quarto para descansar. E quando lhe perguntaram se não jantava, Heng apenas respondeu que não tinha fome.

Dirigiu-se ao elevador e carregou no número 5. As portas fecharam com um som e arrancou. Chegado ao seu corredor dirigiu-se ao quarto. Passou o cartão magnético pela ranhura e um estalido avisou-o que a porta estava destrancada. Entrou e as luzes acenderam automaticamente. Era uma suite enorme com casa de banho, sala de estar e um quarto. Heng olhou todo aquele luxo e sentiu-se mal. Lembrou-se de que tanta gente morria à fome e ele… mirava aquela riqueza sem entusiasmo. Foi até à varanda donde podia ver o mar. A noite estava fria, muito fria. Sentiu a brisa do mar entrar pelas narinas e respirou com prazer o ar húmido da noite. A cabeça latejava com violência. Apeteceu-lhe chorar. Tanta coisa que podia ter e não tinha o que queria. Bateram-lhe à porta. Calmamente Heng abriu-a. E foi com total surpresa que o asiático viu uma pistola ser-lhe apontada. E por quem…

 

José da Xã

 

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por José da Xã às 23:30

Segunda-feira, 21.05.12

Trilhos Privados - XIV - Perigo

Heng ia arrancar com o carro quando ao olhar pelo retrovisor viu Célia beijar Ricardo. O chinês estremeceu de ciúme. Mas não teve tempo sequer de se indignar, capacitar do que faria, porque a sua intervenção foi necessária logo de seguida. Ou melhor…Teria sido preferível que ignorasse, quando Guilherme deu um safanão em Ricardo e o separou de Célia violentamente, pegando-se os dois imediatamente numa cena de troca de palavras que breve levou ao pugilato. Estava a ficar feia, mal Guilherme sacou uma ponta e mola. Célia gritava aflita, mas era impedida de se aproximar por Vanessa que a segurava e Marta que tentava nervosamente ligar para a polícia do telemóvel, tendo-o já deixado cair, tremendo por todo o lado. Portanto Heng, mal percebeu os acontecimentos a precipitarem-se rapidamente para uma tragédia, interveio. Como todo o oriental capacitado saiu do carro e ao abrigo de alguma vegetação nas redondezas surgiu por detrás de Gui, quando Ricardo se esquivava de mais um golpe no ar. Perito em artes marciais, aplicou um violento golpe de rins a Gui que não só deixou que a faca lhe caísse das mãos aterrando perto de Ricardo, como caiu de joelhos sem fôlego. Célia continuava histericamente possessa. A querer correr ao encontro de Ricardo que segurava agora a faca. Insistentemente lhe pedia para não a usar, ao que ele lhe respondeu com um olhar de surpresa e confusão como se dissesse “Achas-me capaz disso?” e mal Gui se levantou e se defendia como podia de Heng, a coisa só podia complicar-se mais, quando surgiu um outro carro negro de onde saíram mais dois chineses, consequentemente da equipa de Heng, que já fartos de esperar resolveram seguir-lhe as coordenadas do GPS.

Um deles sem perceber nada imobilizou Ricardo. Mal desfeitas as dúvidas, libertou-o, já Gui estava dominado por Heng e Chiang a quem, o primeiro ordenava, que agarrasse a fim de o interrogar. Vanessa entretanto deixara Célia escapar. Esta abraçara-se a Ricardo que acabou com um sorriso leve extemporâneo, ao ver-lhe a preferência e preocupação. O outro Chinês não tirava os olhos de ambos, com ar ameaçador. Como Marta mais chorava e tremia que conseguira ligar com sucesso, acabou sem telemóvel e Vanessa a fechá-lo pondo-lho na carteira sem a amiga saber porque, raios ela agia assim, se a polícia fazia falta e bem. Agora não eram só elas e Ricardo, meio de quase nenhures sem protecção, mas ainda estavam os três chineses, com o rapaz da faca. Porém Vanessa em poucas linhas esboçou o que se passava e a rapariga acalmou.

Heng entretanto fez um sinal de desprezo na direcção de Ricardo com o queixo, instigando-o a levar Célia e ir embora dali. Ricardo não obedeceu. Quis saber o que pretendiam fazer com o outro. Heng disse-lhe não ser da conta dele. O jovem discordou. Segundo lhe parecia Heng queria levar a “peito” a sua protecção a Célia, talvez pretendendo aniquilar de raiz o “problema” que Gui constituía, isso ele não permitiria. Não só por discordar de medidas extremas, mas por os outros serem asiáticos e no todo, não terem muito a ver com as rixas de dois rapazes por uma “miúda”, sendo que Ricardo se achava muito homem para a proteger sozinho. Por isso, se o clima entre Heng e Gui, que o olhava com ódio de quem o “marcou”, já não era bom, entre Ricardo e o chinês não ficou grande coisa quando o preferido de Célia lhe deu uma ordem directa e segura.

- Deixa-o, ir!

- Não! O que você não fez, eu farei.

- E o que é que eu não fiz, pode saber-se? Se só há pouco fui informado do que realmente se passa. Isto não lhe diz respeito. Embora agradeça a sua pronta ajuda, agradeço que se retire.

Heng voltou a encarar Ricardo com ar trocista. Assumidamente julgou o outro menos altivo. Combativo. Seria outro problema que teria de ver mais tarde. Com calma. E Célia ainda de mãos dadas com o jovem, dava-lhe uma raiva inaudita, mas controlou-a. Com ela seria diferente. Por certo estava melindrada e aliava-se a quem conhecia…Mas, e o beijo dos dois? Todavia foi a própria rapariga que lhe pediu que deixasse ir Gui. Coisa que ele nunca entenderia, uma vez que a libertá-lo, ele voltaria a persegui-la e manipulá-la. Decididamente existiam coisas nos ocidentais que só lhe pareciam fraqueza. Estupidez redonda, mas acedeu. Gui cuspiu algumas palavras imperceptíveis entre dentes, na direcção de Heng. Com um olhar de ódio para Ricardo e Célia saíu dali. Passados minutos ouvia-se o motor de uma mota a desaparecer. Heng visivelmente contrariado, por ser desrespeitado e inferiorizado na frente dos seus homens, deu ordem a que o seguissem e em breve os dois carros se faziam à estrada. Célia despediu-se das duas amigas, que depois de se certificarem se ficava bem, também foram embora com Marta a dizer a Vanessa que no caminho teria de lhe explicar tudo ao pormenor. A jovem e o rapaz acabaram por fazer o caminho a pé, lado a lado de mãos dadas tendo muito que conversar.

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 16:20

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