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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Sábado, 21.04.12

Em passo de dança

Tamborilava os dedos no volante ao som de Sultans of  Swing, dos Dire Straits. Uma música que ele simplesmente adorava e que estava a tocar na Rádio Nostalgia. O trânsito naquela manhã desenhava-se caótico. Filipe experiente e conhecedor logo se lembrou:  “Deve ser algum acidente”. E como costumava dizer para si e para os outros, o que não tem solução está solucionado por si, não se preocupou.

À sua volta as pessoas dentro dos carros reagiam de forma diversa. Atrás uma senhora que já passara o meio século acabava a sua maquilhagem, aproveitando o espelho do pára-sol. Na sua frente uma carrinha fechada, impedia de ver o quer que fosse para a frente. À esquerda evoluía um passeio e finalmente à direita, uma jovem mulher olhava para ele de forma espantada. E sorria. Assim que a viu, juntou a música aos seus dedos e percebeu que ela reparava naquela sua postura alegre e descontraída, tendo em conta a manhã.

O trânsito palmilhou cinco curtíssimos metros. Devagar. Ele voltou a olhar para a jovem, no veículo ao seu lado, que continuava a olhá-lo com o mesmo sorriso. De repente o vidro da janela dela baixou e ele fez o mesmo ao seu:

- Bom dia, desculpe incomodá-lo. Não é fácil alguém com este trânsito estar tão feliz assim…

- Bom dia, pois tem razão mas que posso eu fazer? Não melhoro o trânsito por estar aborrecido e assim sempre vou gozando com a música.

- O que estava a ouvir?

- Dire Straits.

- Também gosto. Muito bom dia.

E fechou o vidro.

Filipe nem pôde responder. Fechou também a janela e ficou a ouvir a música. Agora escutava Creedence Clearwater Revival em Bad moon rising.

Um atropelamento fora a origem de tamanho engarrafamento. Passado o local do sinistro, o trânsito fluiu com normalidade. Chegou ligeiramente atrasado ao trabalho e à reunião.

Curiosamente, não se esquecera da jovem que se admirara com o seu tamborilar de dedos. Recordou-lhe as feições: Olhos claros (não conseguira ver a cor!), lábios finos bem pintados, rosto magro sem ser esquelético. Bonita, enfim! Jamais a veria, mas fora curioso aquele encontro matinal.

Decorreram duas semanas e Filipe esquecera-se por completo da jovem.

Numa sexta feira decidiu ir ao cinema, sozinho. O abandono a que fora votado por Carla deixara-o livre de sentimentos, mas também de companhia. Mas antes do cinema havia que comprar algumas coisas para casa. Optou então pelo El Corte Inglês onde tinha o cinema e supermercado. Aqui carregou o carro com compras e dirigiu-se à caixa. À sua frente uma pessoa do sexo feminino, aguardava também a sua vez.  Filipe observou-a por detrás. Trazia vestido um casaco comprido de cor cinza, calçava sapatos de salto muito alto e os cabelos caíam-lhe nas costas de forma uniforme.

De repente a pessoa voltou-se para trás e Filipe reconheceu a jovem que se metera consigo, naquela manhã. Todavia receoso que estivesse a fazer alguma confusão não disse nada. Ela olhou-o. Teve a mesma sensação. A mesma reacção. Todavia ficaram ambos em silêncio.

Mas Filipe depressa magicou um plano. Pegou no telemóvel e simulou que estivesse a receber uma chamada:

- Olá companheiro…

- …

- Estou no ElCI, ando às compras e depois vou ao cinema. Queres vir ter comigo?

- …

- Jantamos depois do cinema e vamos para minha casa ouvir umas músicas. O que é que achas?

- …

- Sei, lá… Dire Straits, diz-te alguma coisa?

Nesse momento a jovem virou-se e olhando-o nos olhos percebeu que Filipe era o homem da outra manhã. Aproximou-se serenamente do homem e sem qualquer inibição beijou-o calorosamente, à frente de toda a gente.

A menina da caixa atrapalhada, disse:

- Podiam-se chegar à frente, se fizerem favor.

Mas eles não chegaram.

Deixaram ali mesmo as compras e partiram apressados para casa dele, para ouvirem “Romeo and Juliet”.

 

José da Xã

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por José da Xã às 13:06

Sábado, 21.04.12

Contos Breves - João Grande - XXXVII


Morreu o João Grande. Assim era conhecido João Ambrósio Cachopo. Finou-se sozinho numa valeta perto de uma regueira que guiava a água desviada da ribeira para um lameiro distante. O corpo já morto foi avistado por dois caçadores que casualmente por ali passavam em busca de alguma lebre.

A seu lado, imóvel e silenciosa, jazia uma bicicleta velha, última companheira de um desgraçado. João era o filho mais novo de uma ninhada de quinze, dos quais três haviam já perecido, ainda antes de ele nascer: dois rapazes gémeos, ambos deficientes que morreriam três dias após terem vindo ao mundo, mas com direito a nome e a baptismo. O outro fora Herlander, o mais velho da irmandade que falecera na ponta de uma naifa assassina, numa rixa estúpida por questões de amores idiotas por uma mesma mulher.

O benjamim foi naturalmente criado e educado pelas irmãs mais velhas, já que a mãe que o parira com despeito e raiva, jamais quisera saber do filho recém-nascido.

A fome naquela família era uma constante e desde muito cedo o rapaz habitou-se a enganar a barriga vazia com goles de aguardente. A princípio morna com açúcar, mais tarde já fria pura e áspera. Foi por isso que aos seis anos, quando entrou pela primeira vez na escola, já surgisse em elevado estado de embriaguês, de tal jeito que nem conseguiu dizer o seu próprio nome à professora Eleutéria. O seu rendimento apresentava-se assim claramente muito abaixo aos restantes companheiros da classe. Porém no que respeitava a matreirice João era o melhor com imenso expediente para as patifarias e brincadeiras.

O jovem ganhou a alcunha quando, já com quinze anos, os amigos perceberam que ele era o mais alto e entroncado de todos. Passou então a ser conhecido pelo povo da aldeia pelo João Grande distinguindo-se dos outros com o mesmo nome e este era um aspecto que o alegrava sobremaneira. Os anos foram correndo céleres para os mais velhos, calma e pachorrentamente para os mais novos. Aos vinte anos, vestiu pela primeira vez uma farda verde que lhe assentava na perfeição. Já alcoólico empedernido, havia quem previsse que os rigores da vida militar lhe dariam algum tino e cuidado. Mas a vivência de soldado ainda acentuou com maior rigor a tendência para beber. Durante o Serviço Militar Obrigatório, aproveitou para tirar a carta de pesados e logo nesse momento demonstrou grande habilidade em conduzir máquinas de trabalho. E o seu prestígio cresceu tanto que quando alguém tinha algum problema com uma retro escavadora, chamavam logo pelo João Grande. E ele lá surgia naquele seu andar gingão e num ápice, com gestos quase circenses resolvia a situação.

Com tamanha perícia foi fácil arranjar trabalho, logo que abandonou o exército. Mas o álcool era o seu maior inimigo. Sábados e Domingos eram fatais. Nunca acabavam sem uma tremenda bebedeira. No dia seguinte um peso enorme toldava-lhe a cabeça inibindo-o de ir trabalhar. Alguns patrões ainda lhe davam algum crédito tendo em conta a forma rápida e expedita como trabalhava com a máquina, mas havia outros que rapidamente o despediam. Correu assim um oceano de trabalhos nunca se fixando em nenhum.

Certa noite, na romaria em honra de Nossa Senhora dos Remédios, João avistou ao longe, no meio da multidão, uma jovem bonita e airosa. Trajava um fresco vestido de chita e os cabelos apanhados num rabo-de-cavalo volumoso. Nela se prenderam os olhos e o coração. Uma abordagem singela e envergonhada e num momento rodopiava no estrado de madeira ao som da concertina, carregando a doce donzela nos seus braços longos e fortes. Quando o baile terminou João jurou a si mesmo que aquela haveria de ser sua mulher. Confessou então este seu amor a Acácio, um amigo de longa data e companheiro de muitas farras que logo o avisou:

-         Escuta João! Toda a gente do povo sabe que és um bêbado. Nenhuma mulher quererá casar contigo se teimares em beber dessa maneira. Agora a escolha é tua…

O outro nem deixou Acácio acabar o seu raciocínio devolvendo:

-         Se achas que é assim, deixo já de beber!

-         Claro que é! Pergunta a outro qualquer e verás o que te dizem!

-         Não pergunto nada. Sei que és meu amigo e acredito nas tuas palavras. E a partir de hoje verás, não toco em nada.

A sentença estava dada. Faltava saber se João era homem para a cumprir. Ao longe nascia o dia e o apaixonado deitou-se na cama pela primeira vez em muitos anos sem estar alcoolizado. Adormeceu já o sol raiava por cima do monte dos Frades, iluminando a quietude de um povo.

Quando acordou, sentiu fome. Na casa vazia de vida e mal arrumada procurou de comer. Encontrou somente pão duro e um naco de queijo seco. Devorou com apetite e, gesto maquinal, foi buscar o garrafão. De súbito lembrou-se da jura e poisou o vasilhame. Levantou-se foi ao poço e trouxe de lá uma velha caneca repleta de água fresca. Bebeu calmamente, arrumou as sobras, compôs a roupa surrada e mal limpa e saiu.

Cruzando as ruas da aldeia baloiçavam fitas de mil cores. De quando em vez sibilava um foguete que estoirava pelo vale com vigar. Quando chegou ao arraial, já muita gente por ali se atropelava. Falavam quase aos gritos tentando sobrepor-se à música roufenha e monocórdica que exalava dos velhos altifalantes. Aproximou-se do grupo dos costumados amigos e embrenhou-se na conversa que versava caça e outras mentiras.

Porém os seus olhos tentavam perceber a figura esbelta e frágil da amada por entre a multidão feliz. No meio da tagarelice alguém convidou:

-         Vamos beber um copo que pago eu!

Os outros agradeceram e encaminharam-se para a banca. De súbito perceberam que João não ia com eles. Voltou o mesmo:

-         Anda daí João beber um copo…

Respondeu o outro serenamente:

-         Vão vocês. Eu não bebo!

Todos se viraram para o rapaz. Nunca aquela alma recusara um copito e agora aquela súbita abstemia. Perguntaram então:

-         Tas doente, João?

-         Não, porquê?

-         Para recusares um copo, só doente!

A voz tremeu, tossiu um pouco e despachou como pode os amigos:

-         Estou à espera de uma pessoa. Não posso sair daqui…

Estranharam os outros, mas partiram para o balcão onde um festeiro servia vinho e cerveja a rodos. Finalmente um comentou ainda incrédulo:

-         Que terá o João Grande para não vir com a gente. Não me recordo de alguma vez ter recusado beber…

Todos lançaram então para o ar razões para tal estranha e bizarra atitude. Acácio ria à socapa, sabia do que se tratava, mas nada disse. Escondia-se na sua pacata postura e deixou que os outros tentassem adivinhar.

No lado contrário decorria com alegria a festa onde João aguardava ansiosamente a cachopa. Os seus olhos atentos e perspicazes corriam o largo de lés a lés sem contudo antever a figura da amada. Foi a noite que a trouxe, enfim. Sempre alegre e simples, exibia um outro vestido ainda mais bonito que o anterior. No cabelo, novamente apanhado, sobressaía um malmequer de enfeite.

O amargurado coração de João Grande bateu mais depressa quando a avistou ao longe, caminhando numa formosura quase poética. O rapaz finalmente ganhou coragem e aproximando-se da jovem convidou-a a dançar. Ela ainda recusou uma vez mas perante a insistência do par acabou por aceitar. Voltearam uma vez mais quais mariposas. Falaram, riram e quase choraram. Delirante o aldeão chegou a casa tarde mas adormeceu em paz.

Mas a ideia de que João bebia em demasia mantinha-se gravada como lume nos pensamentos rústicos do povo. Assim quando um ano depois se aproximou dos pais de Adelaide para lhes solicitar autorização para casar, logo a voz austera e abrupta do pai atacou:

-         Nem penses nisso. Não quero a minha filha casada com um bêbado!

O namorado da filha já calculava o ataque mas retorquiu a preceito, sem qualquer azedume nas palavras:

-         Terá o senhor muita razão, mas vai para mais de um ano que não bebo. Minto! No dia do baptizado da minha afilhada, beberriquei um anel de ginja. Nada mais.

-         Pois… pois… - duvidou o outro.

Mas João continuou:

-         Não nego que bebi muitoem tempos. Masisso já passou e a sua filha tem sido um anjo e um remédio para esse mal. Tenho trabalho, ando limpo e asseado, não fumo nem bebo…

Vencidos mas mal convencidos o pai e mãe da rapariga acabaram por aceitar o namoro e logo ali marcaram data para a boda. Casaram finalmente em Maio num dia de forte trovoada.

-         Boda molhada, boda abençoada! – Ouviu-se.

Infelizmente o adágio popular não se confirmou no enlace de João Grande. Dois anos após o casamento Adelaide, grávida do primeiro filho iniciou os trabalhos de parto antes do tempo devido. Chamadas à pressa as velhas parteiras e mais tarde o médico da vila, não foram capazes de travar a hemorragia da jovem mãe. Morreria horas depois sem pinga de sangue, assim como a criança, uma menina.

Para João foi desespero, a ira contra tudo e todos, a revolta que não souber conter. Nesse momento em que os olhares se trocavam em inquirições permanentes só a cabeça da sogra soube abanar numa negativa cruel.

Um grito lancinante e medonho ecoou pelo vale. Nem entrouem casa. Fugiurua abaixo com as irmãs atrás clamando:

-         João, João, onde vais João?

-         Larguem-me, deixem-me – gritou rouco de amargura.

Nem no velório que se seguiu, nem no cortejo fúnebre o viúvo apareceu. Ao longe no cimo de um cabeço de pedras cinzentas e tristes alguém percebeu a figura esguia e alta de João Grande. Mas nada lhe disseram. Todos compreendiam a amargura e tristeza que tolhia o coração daquele homem. Todavia no derradeiro instante antes da urna descer às profundezas da terra negra, o triste marido surgiu por entre a multidão de negro vestida e ajoelhando-se junto à urna, anunciou nova sentença:

-         Em breve virei ter contigo e com a nossa menina.

Todos temeram o pior. Um irmão ergueu-o enquanto o caixão descia finalmente à cova funda. Por cima ficou uma urna branca e pequena da criança recém-nascida. A terra atirada pelos coveiros cobriu os caixões mas não a dor profunda.

Nessa noite o Grande entrou na taberna pela primeira vez desde que casara com Adelaide. Sentou-se a um canto da tasca e pediu uma cerveja. Seguiram-se muitas outras. Todos os dias. Abandonou o trabalho e a casa. Vivia agora num pardieiro onde nem o gado lá ficava. Chovia no interior como se fosse na rua. O frio e o vento penetravam no recinto com à-vontade sacudindo as teias de aranha que guardavam a barraca. Entretanto pai e mãe haviam falecido e a bicicleta foi o único haver que o filho pretendeu herdar. Uma pasteleira velha e pesada com a qual ele passou a calcorrear estradas e veredas. Guardava agora gado tendo por troca um mero naco de pão muitas vezes duro e uma garrafa de vinho. E fora este que finalmente o desequilibrara e o tombara da ginga abaixo, acabando por bater com violência numa pedra do caminho. Rolou encosta abaixo até parar junto à levada.

Quando tocou a rebate, o Acácio exclamou triste em jeito de adivinho:

-         Morreu o João Grande!

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por José da Xã às 00:22

Sexta-feira, 20.04.12

Contos Breves - O avô, o pai e o neto - XXXVI


Não gostava de todo da alcunha com que o povo o tinha brindado. De todo. Mas ela correspondia justamente à sua forma de estar na vida. Ernesto de nome, todos o conheciam como o "Despachado". Desde criança, sempre que alguém lhe pedia alguma coisa, ele não parava enquanto não fizesse o que lhe tinha pedido. Já homem, quando os outros começavam a azeitona, já ele colhera a dele. Casou já tarde, mas em pouco mais de dois anos a Zélia pariu três filhos.

- Estou despachado! - Concluía com ar triunfal.

Mais uma razão para o epíteto.

Certa madrugada fria e ventosa de inverno o aldeão aparelhou a burra com albarda, apertou-lhe a cilha, subiu para o lombo do animal e partiu para a feira de S. Sebastião, a três léguas de distância. Havia muitos anos que Ernesto não fazia aquele percurso a pé ou mesmo a cavalo. Geralmente encomendava pelo Tó Pisco as sementes ou alguma alfaia que pretendia. Mas aquele falecera entretanto e ele não confiava em mais ninguém. Assim, era a sua vez de partir em busca das sementes desejadas. Até à estrada velha era fácil, o pior seria depois. Uma quantidade de veredas podiam levá-lo para longe do seu destino. Mas fiou-se na sorte e pôs-se a caminho.

Ao longe o dia parecia querer nascer. A Lua ia aos poucos desaparecendo. Ouvia-se apenas os sons dos cascos do animal a resvalar nas pedras soltas. Um par de horas mais tarde, já a madrugada dera lugar a um sol arrepiado e tímido, quando Ernesto chegou ao fim da estrada velha. A vereda subia agora, até ao cimo da colina. O aldeão duvidou que aquele fosse o caminho certo mas como tinha pressa optou em escalar a serra. No topo deu com uma bifurcação:

- E agora?

O dilema invadia o seu pensamento. Finalmente optou por um dos trilhos e abandonou-se à sorte. A estrada parecia agora descer quando de repente deparou com um ancião, de longa barba branca, vestes rasgadas, chapéu roto e que chorava. As lágrimas caiam-lhe pelo pouco espaço da face e perdiam-se nos tufos de pelos brancos e cinzentos. Sentado numa pedra que dividia a estrada. Ernesto apenas observou:

- Estranho!

Porém nem sabia se a estranheza era de ver ali o homem ou de ele estar a chorar como se fosse uma criança. Aproximou-se devagar e perguntou:

-.Posso ajudá-lo?

O outro olhou-o através dos olhos rasos de lágrimas e exclamou em tom calmo:

- Não obrigado, isto já passa.

Ernesto duvidava e queria saber mais:

- Mas o que lhe aconteceu para estar assim a chorar?

O velho sem pestanejar, respondeu:

- Foi o meu pai que me bateu...

Aquela era a última resposta que Ernesto esperava ouvir. Primeiro engoliu em seco mas por fim lançou nova questão:

- Mas que idade é que o senhor tem?

- Eu? Tenho praí 100 anos!

Aquela resposta era no mínimo imprevisível.

"Está maluco - pensou - ainda por cima estou aqui a dar-lhe conversa e acabo por chegar tarde à feira". Mas a curiosidade mordia-lhe o pensamento:

- E onde está o seu pai?

- Ali ao cimo desse carreiro - e apontou para um caminho entre carrascos e giestas.

Sem dizer mais nada o viajante tocou a burra na direcção do caminho apontado e subiu o estreito trilho até que encontrou outro ancião aparentemente ainda mais velho que o primeiro que sentado no que restava de um pinheiro traçava no chão riscos e mais riscos, com a ponta de um cajado negro e puído.

Quando notou no homem puxando uma burra pela arreata, levantou os olhos e perguntou-lhe:

- Quem é vossemecê?

O camponês nem lhe respondeu lançando-lhe pelo contrário uma questão:

- Você é o pai daquele idoso que encontrei lá em baixo?

- Idoso sou eu... – respondeu de mau modo – Mas sou o pai dele, porquê?

- Porque encontrei-o a chorar...

- Hum! Então não querem lá ver o fedelho? O cachopo foi mal-educado para o avô e ainda por cima chora como se fosse um bebé.

Ernesto nem queria acreditar. Avô? Ainda havia um avô. Então que idade teria este homem? Perguntou-lhe então:

- Mas que idade tem?

- Eu tenho 200 anos.

Impossível haver alguém com aquela idade. Não podia ser. E ainda alguém mais velho. Era claramente impossível. Todavia a tal curiosidade que dera início a tudo, acicatava-o uma vez mais. E aceitando o desafio voltou-se para o ancião e afirmou como adivinhasse:

- E o seu pai está por ali - e apontou um caminho estreito entre moitas.

- Está sim, ao fim desse carreiro está uma casa velha. É dele...

- Então vou até lá.

- Vá, vá... - e continuou a fazer riscos no chão com o velho cajado.

O caminho descia agora por entre a folhagem verde. No chão podiam-se notar tufos de giz-barbeiro com as bagas vermelhas. Num instantes desceu o caminho até à casa. Esta era velha e encontrava-se em muito mau estado. De um lado o telhado desaparecera por completo, do outro havia cobertura mas o frio entrava na mesma.

A porta quase tão velha cornos os anciãos estava escancarada, mas mesmo assim bateu:

- Posso?

De dentro ouviu uma voz trémula que convidou o estranho:

- Entre!

Ernesto foi penetrando na casa pobre. Miserável descreveria melhor o que via. No canto numa lareira rústica ardia um pequeno borralho que mal dava para aquecer as mãos. Ao meio uma mesa e duas cadeiras tão velhas quanto o dono. Não se vislumbrava quaisquer pratos ou talheres que usassem para se alimentarem. Finalmente dirigiu-se ao idoso:

- O senhor é que é o pai daquele ancião que encontrei lá cima?

O homem respirou fundo e respondeu:

- Sou sim senhor. Porquê?

O viajante nem sabia o que dizer ou pensar. Primeiro fora o neto, depois o pai e agora o avô, todos eles muito idosos e duma pobreza imensa.

- O seu neto mandou-lhe um recado - inventou de repente.

- Esse ingrato!

- Ingrato?

O idoso finalmente olhou-o de baixo para cima e devolveu:

- Sabe como é a rapaziada nova, não respeita ninguém! Nem a um velho como eu...

O tema da conversa desviava-se no sentido que Ernesto desejava. Aproveitando a deixa, continuou:

- Que idade tem?

- Eu já nem sei. Pr’aí uns trezentos anos.

O coração do camponês quase que parou. Respirou fundo ganhou coragem e abordou-o com mais questões?

- Como é que chegou a essa idade?

- Foi fácil, nunca me ralei com nada.

- Como assim?

- De Inverno fico deste lado, no verão do lado de lá. E os rapazes sempre vão arranjado algo irmos comendo...

- E assim chegou a essa idade?

- Pois é! Sem nunca me preocupar com nada...

"O despachado" abria a boca num espanto que não sabia medir. Olhava o ancião de cabelo ralo mas longuissíma barba branca. Magro, quase esquelético com a única preocupação de viver o momento. Nada mais contrário à sua propria vida vivida num ápice e sem chama.

Ernesto desculpou-se:

- Tenho de ir...

- Então e o recado do meu neto?

- Ele apenas disse que estava arrependido - mentiu.

- O costume! Fazem o mal e depois arrependem-se...

- Tenho de ir. Até outro dia...

- Até outro dia. E viva devagar o seu dia...

O aldeão partiu finalmente a caminho da feira. Os anciãos haviam desaparecido e a estrada já se encontrava repleta de viajantes. No silêncio dos carreiros palmilhados "Despachado" revia com invulgar emoçãoe estranheza os últimos acontecimentos e meditava... meditava e caminhava... caminhava... devagar... devagar.

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por José da Xã às 23:38

Quinta-feira, 19.04.12

Contos Breves - O Banho - XXXV

 

Amílcar lançou a pedra rente à água. Aquela saltitou uma, duas, três vezes sendo definitivamente engolida pelo charco. Pequenas ondas em círculos perfeitos cresceram e alargaram-se para as margens até desaparecerem na praia de barro escarlate. Um assobio agudo e estridente trouxe-lhe o seu inseparável companheiro. Surgiu do meio do mato de rabo alçado, orelhas espetadas, feliz por rever o jovem. Uma carícia humana desceu ao pêlo sujo e revolto. Devolveu o gesto com uma lambidela terna.

-          Onde estavas Festas? Hum... tás com ar de quem já bifou algum coelho, não?

O animal ladrou, como se entendesse o que o rapaz perguntara. Seguiu-o com a natural alegria como que fosse manjar um suculento repasto. Cão de muitas raças mas de um só dono. Amigo fiel.

O catraio acabara de sair da escola. Passou pelo charco e correu a casa, onde devorou um prato de feijões frios e mal cozinhados e saiu rapidamente em busca de outras aventuras. Calcorreava carreiros e trilhos que ninguém mais trilhava, algares profundos onde jamais alguém penetrara, buracos que só ele descobrira e explorara.

Regressou noite cerrada. Na mesa nada havia para comer. Nem pão nem toucinho. Apenas o garrafão do vinho jazia ainda meio cheio. E ele que não gostava de álcool. Desceu as escadas de madeira quase podre até à loja em busca de algo com que enganasse a fome. Na arca talvez achasse esquecido um resto de pão duro. Mas... nem isso.

Fechou a porta da arrecadação atrás de si, chamou o cão e abandonou o lar. Dirigiu-se a casa da avó, onde finalmente ludibriou o rato que lhe trilhava as entranhas. A velha mulher não deixou de comentar em costumado tom áspero, como era seu timbre:

-          Estupor de mãe! Nem para o filho é boa... – e abanava a cabeça numa negativa permanente – Só pensa no vinho. Que desgraça!

No pensamento de Amílcar germinava cada vez mais a ideia de não mais voltar a sua casa. Havia três dias que não via a mãe. Esta, dormia tentando inutilmente curar-se do sono etílico ou vadiava pelo povo em busca de uns cobres para alimentar o malfadado vício. O miúdo preferia um reles pardieiro, a assistir ao definhar duma mãe alcoólica.

Pensou primeiro em ficar ali com a avó. Seria uma óptima ideia se a velha senhora não abusasse do varapau para impor as suas vontades. Rezingona, intrometida e coscuvilheira, a idosa ficou fora de uma boa opção.

Entretanto lembrou-se dos livros escolares que largara no seu quarto pequeno e malcheiroso e como temia que aqueles sumissem por troca de um copo de vinho, correu a recolhe-los. O silêncio envolvia a casa suja e desarrumada. Pegou na pequena sacola onde guardava os compêndios velhos e rasgados de tanto uso e retornou à rua em busca de dormida. A noite parecia um abafo. Quente, branda. Deambulou sem destino pelo povoado até que lhe ocorreu a existência duma velha casa abandonada. Fora pertença do Vicente, que morrera havia umas semanas. Sem família, ali estava um lar que servia na perfeição os seus desejos. Correu para lá com emoção. O Festas acompanhava-o a seu lado tal qual a brincadeira.

A porta estava apenas no trinco. Nada havia lá para roubar. Só mesmo pobreza. Penetrou na escuridão que a lua mal conseguia dissipar. Em cima duma mesa repousava um candeeiro meio repleto de petróleo rosado. Após algumas apalpadelas em busca duma caixa de fósforos lá a encontrou numa gaveta. Acendeu assim o luzeiro de vidro. Uma luz amarela e doentia iluminou sofrivelmente o recinto. Cheirava a bafio. A sala estava quase vazia. Uma mesa e uma cadeira eram a única mobília. A lareira negra e fria havia muito que não via lume. No tecto viam-se as telhas que carregavam um velho emadeiramento.

Após reconhecimento da casa Amílcar buscou um lugar onde dormir. Achou uma velha cama num minúsculo quarto. Sacudiu a roupa e recostou-se. Bastaram cinco minutos para adormecer.

No dia seguinte o jovem acordou cedo. Levantou-se num instante e ordenou ao Festas:

-    Hoje ficas por tua conta que eu vou se arranjo trabalho na Quinta.

O canito entendeu o dono, ladrou duas vezes e deitou-se com o focinho entre as patas da frente enquanto via o rapaz partir em busca de melhor sorte. Amílcar saiu então em passo rápido. Era sábado sem escola e chegou a casa do José Alva no momento que este escolhia o pessoal. Os homens perfilavam-se no enorme largo que servia de eira em tempo de debulha.

-          Tó Maneta, Chico da Horta, Manuel Pornas, ti’ João Mono – e conforme soletrava o nome, apontava o homem, para que não restassem dúvidas.

Quando deu conta do gaiato ao lado dos homens, exclamou:

-          Que fazes aqui, rapazola?

-          Procuro trabalho... senhor Zé.

-          Trabalho? Mas ainda cheiras a cueiros. Vai-te embora que ainda te falta muito para estares aqui.

Mas o rapaz era tenaz. E ali ficou especado, desobedecendo à ordem. O patrão tinha dado dois passos em frente, mas recuou.

-          Escuta lá! Tu és surdo?

-          Não senhor – respondeu com humildade.

-          Então eu não te mandei embora?

-          Mandou sim senhor. Mas preciso trabalhar... – acrescentou.

-          Ainda és muito gaiato. Devias de estar na escola.

-          Hoje ao sábado? Também era melhor. – Devolveu desenvolto e despachado - Mas eu faço qualquer coisa. Recados, vou buscar água, guardo o gado...

O homem estava espantado com a estaleca do miúdo. Acabou por lhe achar graça e perguntou-lhe:

-          Nunca contratei ninguém sem saber o seu nome.

-          Chamo-me Amílcar e sou filho do falecido Borras e da Bêbada.

Um sorriso aflorou aos lábios do Alva. Recordou-se dos seus tempos de juventude. Tinha também aquela força e empenho. E fora essa tenacidade que havia feito dele um homem abastado e respeitado. Uma palmada no ombro do gaiato e estava contratado.

-          Apresenta-te à minha mulher. Diz-lhe que vais da minha parte que ela dá-te com certeza que fazer.

Amílcar não cabia em si de contente. Num ápice galgou o caminho até chegar à beira da patroa. Esta era forte e enorme, quase parecia um gigante para a sua altura, mas tinha um ar afável e simpático. Após as primeiras explicações aquela recebeu o miúdo com um sorriso franco.

-          Então vens para o meu serviço?

-          Sim senhora – respondeu prontamente.

Augusta Alva mirou o cachopo ao pormenor, de alto a baixo e finalmente sentenciou:

-          Pois muito bem, ficas cá! Mas em primeiro lugar, vais-te lavar.

-          Lavar?

-          Sim, claro!

Não era de todo a melhor das ideias. A água era algo que ele evitava a todo o custo. E agora ali, naquele momento, sem mais nem menos ter de se lavar? Preferia ir embora.

-          Vou-me embora – decidiu.

-          Vais-te já. Mas porquê?

-          Eu não quero água em cima de mim. Não gosto pronto!

A patroa deu uma sonora gargalhada. Depois reparando na cara de espanto do miúdo, enveredou:

-          Diz-me uma coisa. Tu és capaz de levar aquele boi que ali vês no lameiro, a qualquer lado, se eu te pedisse?

-          Claro!

-          E não tens medo?

-          Eu não.

-          Explica-me lá como é que uma pessoa tem medo da água e não receia um animal como um boi?

Amílcar ficou sem resposta. A vivacidade e a esperteza que sempre o caracterizaram dando origem a rápidas e felizes respostas, tornavam-se agora insuficientes para a questão da patroa. Atrapalhado como jamais se vira, virou as costas à senhora, evitando que ela visse mais do que ele pretendia.

A mulher percebendo o embaraço do rapaz, aproximou-se e carinhosamente afagou-lhe a cabeça.

-          Pronto, não chores. Vamos conversar com calma.

Com um gesto brusco e repentino o miúdo libertou-se de mãos femininas. Com a voz ainda embargada, respondeu com aspereza:

-          Mas eu não estou a chorar!

-          Acredito! – devolveu a patroa com um sorriso - Mas vamos lá falar.

Sem que o jovem respondesse a senhora iniciou uma retórica serena à qual o rapaz não prestou qualquer atenção. O seu olhar vagueava pelos diversos relógios da sala ou pelos quadros e loiças pendurada nas paredes. Preferia ver-se no meio da palha ou da terra; antes o cheiro a bedum dos carneiros ou do estrume das vacas, melhor o cabo da enxada ou da forquilha, tudo era óptimo a ter que se lavar.

A boa senhora apercebeu-se que o catraio estava longe, muito longe, com o olhar vago e dependurado num relógio de madeira. Então ergueu-se e encaminhou-se para a cozinha. Antes ordenou:

-          Pronto, não te queres lavar, isso é lá contigo. Não insisto. Mas espera aqui um pouco que eu venho já.

Regressou pouco depois carregando um tabuleiro repleto. Pousou-o em cima da mesa da sala e dele foi retirando pratos e chávenas, bolos e compotas, colheres e facas. Depois virando-se para o rapaz, perguntou:

-          És servido?

O miúdo nem queria crer. Nunca na sua pouco vivência observara tamanha fartura. Indeciso e desconfiado porém faminto, atirou:

-          Posso comer disso? – e apontou para o prato com pão fresco.

-          Claro, até podes comer tudo se te apetecer – respondeu a senhora.

Amílcar levantou-se devagar e dirigiu-se à mesa. Estendeu a mão quando a patroa o chamou à atenção:

-          Já reparaste na cor das tuas mãos? Achas que o pão tão branco e fresco, merece ser mexido assim?

O moço olhou para as mãos negras onde nem as unhas se distinguiam dos dedos. Perante o reparo, recuou assumindo uma sentença:

-          Não me lavo!

-          Sim senhor, então vou levar tudo para dentro. Se quiseres ficas cá a trabalhar, mas enquanto tiveres assim as mãos não comes aqui nada. De acordo?

Os acepipes em cima da mesa, a fome incontrolável, a água fria, a teimosia, tudo baralhado colocava o jovem perfeitamenteem pânico. Umconflito profundo que Amílcar não conseguia gerir dentro de si mesmo. Sim à comida, não à água, talvez a tudo... Um suspiro longo ecoou pela sala. Por fim, rendeu-se:

-          E onde é que me lavo?

-          Anda comigo – ordenou autoritariamente a patroa sem demora, como se adivinhasse a reacção do pequeno.

O rapazola seguiu a senhora como a uma mãe. Percorreu diversos corredores e salas até chegar ao quintal. Cruzou-se com alguns criados que o olharam desconfiados. Na quintal apenas encontrou um tanque cheio de água. Este elevava-se apenas a um palmo do chão. Era usado muitas vezes para dar de beber ao gado, especialmente vacas e bezerros. Naquele momento, porém a água era limpa e cristalina.

-          Lavas-te nessa água que eu vou buscar uma toalha – disse a senhora.

Amílcar baixou-se devagar e olhou à sua volta como se alguém notasse a vergonha que sentia na alma. Não viu ninguém. Lentamente foi tentando enterrar as mãos na água fria. Ao primeiro toque, arrepiou-se e retirou instantaneamente as mãos. Tentou outra vez agora mais fundo. Voltou a encolher os membros e descobriu que a água que escorria pelos dedos pequenos era negra. Mais afoito introduziu-as outra vez e deixou-as mergulhadas um pouco. Distraído com a quase brincadeira, não reparou num criado que se aproximou à socapa. Este a mando da patroa, chegou-se junto do miúdo e quase sem querer deu-lhe um ligeiro toque nas costas.

Catrapuz! Amílcar mergulhou redondo na água do tanque. Aflito logo tentou agarrar-se a algo que o sustivesse á tona. Esbracejava, tentava gritar, engolia água a rodos quando uma mão lhe surgiu na frente e à qual ele se agarrou com força. Puxado para fora, o miúdo nem falava. Olhou em redor e apenas reparou no criado que o fizera cair e que o retirara do tanque.

-          Desculpa Amílcar! Vinha tão distraído que nem reparei em ti.

-          Sacana! Grunho! – arremessava com ardor. Havia fúria e ódio nos olhos do catraio.

Nesse preciso momento reapareceu a dona da casa que notando o rapaz todo encharcado, logo foi confessando:

-          Eu pedi-te para lavares as mãos, não para tomares banho.

Sentindo que era mote de chacota o rapaz acusou:

-          Aquele animal atirou-me lá para dentro! – e apontou para o criado que tentava a todo o custo não rir.

-          Quem? O Costes? É incapaz de brincar com alguém. Se isso aconteceu foi de certeza sem querer.

-          Sem querer o tanas!

-          Vamos lá a ver essa linguagem – repreendeu a dona.

-          Desculpe!

-          Bem e agora?

-          Agora espero que esta roupa seque – devolveu despreocupado.

O problema parecia não estar resolvido. Havia que utilizar outro estratagema.

-          Eu tenho ali roupa seca, que foi do meu filho. Deve-te servir! Queres?

Roupa nova era algo que o jovem nunca conhecera. Vestia o que alguém por caridade lhe oferecia e pouco mais. Aceitou então, humildemente:

-          Eu agradecia...

-          Então anda cá para dentro – e num tom de voz autoritário, que ainda não colocara, comunicou – e deixa-te de fanfarronices. Vais ali para dentro e tomas banho ou então vou lá contigo.

O jovem calado, frio, não obstante o dia quente e triste apenas balbuciou:

-          Como quiser!

Amílcar entrouem casa. Numpequeno quarto baloiçava do tecto um balde branco afunilado num crivo. A água foi devidamente aquecida e posta no chuveiro. Um alguidar de barro, largo e em tempos quebrado e remendado com fortes gatos, servia de banheira. Uma toalha alva para se limpar e a roupa nova e seca dormiam em cima duma cadeira. O sabão também lá repousava. O miúdo olhou-os com desprezo.

Por fim introduziu-se no quarto devagar, fechou a porta por dentro, despiu-se, puxou a corrente ao lado do chuveiro. E pela primeira vez tomou banho. Sozinho.

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por José da Xã às 23:49

Quarta-feira, 18.04.12

Contos Breves - O Primo Alcides - XXXIV


O meu primo, Alcides da Costa Botelho, nasceu tal como eu, numa aldeia longínqua que se ergue no sopé duma serra onde ninguém vai e raramente de lá vem alguém. Vim eu por força do Serviço Militar Obrigatório, e como não apreciava as manhãs encieiradas do Inverno rigoroso, que descia encosta abaixo, nem as madrugadas demasiado tépidas do Verão escaldante, por cá fiquei e veio recentemente o meu primo. Este parente próximo em relações familiares e em amizade – quantas horas havíamos passado, debaixo do velho sobreiro, tentando prever o futuro ainda distante – já ultrapassara a idade dos quarenta. Dizia-me com graça, sempre que nos víamos:

-          Isto é uma porra! Assim que os anos entram pelo “cu”… estamos entregues!

E ria-se ruidosamente com gosto mostrando parte da boca onde já faltavam alguns dentes.

Apesar dos anos, permanecia puro e ingénuo que nem uma criança. Solteiro, nele não havia maldade, mentira ou rancor. Tudo era simples e sóbrio. Sério como poucos negociava as suas colheitas, arrancadas à leira com suor e esforço, mas também com carinho e ternura, numa terra que nada pede e tudo oferece, sem lamento ou queixume. A sua imensa força era conhecida e admirada nas aldeias vizinhas. Alto e corpulento, metia respeito a quem se lhe afoitasse em alguma afronta. Certa tarde assisti espantado a uma boa lição que Alcides pregou em três homenzarrões de aldeias vizinhas e que na nossa pretendiam armar zaragata.

Naquele início de tarde, o meu primo arribou à estação vindo da vila mais próxima da aldeia, servida pelo comboio. Uma irmã ajudara-o a escolher a roupa a preceito para visitar a grande cidade. Preparara-lhe também um farnel para a jornada que se sabia longa. Quando abandonou a carruagem olhou para a traseira da composição e exclamou, antes que pudesse cumprimentá-lo:

-          Ena que bicho tão grande…

Sorri simplesmente. Após um abraço sincero, peguei na pequena mala e arrastei-o para fora da gare. Tal qual uma criança, o Alcides mirava tudo com a avidez natural da curiosidade humana. E perguntava aqui, questionava ali:

-          Qu’é ‘quilo? – e apontava com o dedo o objecto alvo.

-          Aquilo é um barco! Daqueles que levam pessoas a passear.

-          A passear?

-          Sim, a passear pelo mar. Param em diversas cidades…

-          E aquilo? – e nem deixava terminar a explicação.

-          Uma camioneta da carreira, como aquela que te trouxe à vila. Só que tem dois andares.

Um pouco mais à frente, perante um singular aglomerado de pessoas, exclamou:

-          Eia! C’um catrino, tanto pessoal! Assim tanta gente só vi no funeral do Doutor Sabino já lá vão perto de uma dúzia de anos.

Naturalmente, na viagem que fiz entre a estação ferroviária e a pensão onde residia havia alguns anos, o meu primou brindou-me com uma quantidade quase infinita de perguntas. Pago o táxi, entrámos no edifício velho mas razoavelmente bem conservado. Logo calculei que surgiriam novas questões, pois o prédio era servido por elevador. Carreguei no botão ao que uma luz branca me respondeu que aguardasse. Chegou devagar. Abri então as portas e indiquei ao Alcides que entrasse. Este, pouco acostumado a tamanho reboliço e invenções, perguntou:

-          Olha lá esta caixa de fofres é o quê?

-          Isto é apenas um elevador. Vai-nos levar ao andar que pretendemos sem necessidade de subir as escadas.

Céptico, devolveu ainda:

-          E isso aguenta c’o a gente?

-          Claro rapaz! Julgas que te enfio numa coisa destas sem saber que é seguro? Isto aguentava com mais dois se fosse preciso.

-          Não sei, mas olha que peso mais de sete arrobas…

-          Entra e não tenhas receio.

Finalmente decidiu-se e lá chegámos ao patamar. Abri a porta do andar e comuniquei a Alcides:

-          Entra, é aqui que moro. Verás como as pessoas são simpáticas e acolhedoras.

Optara desde alguns anos, por residir numa pensão modesta mas asseada, a conselho de um companheiro de trabalho, que também ali morara antes de casar. A proprietária era uma senhora viúva, atarracada e forte, óptima cozinheira e de uma simpatia contagiante. Raramente havia quartos vazios, mas para o meu primo ela esmerara-se e dispensara-lhe por alguns dias um pequeno, permanentemente alugado por um cavalheiro rico e que o utilizava para os encontros secretos com as suas jovens e esbeltas amantes. A Florinda apareceu para nos receber. Vinha a limpar as mãos rechonchudas ao avental, mas carregava na face um sorriso trasbordante de alegria.

-          Desculpe-me senhor Fausto mas ando às voltas com umas empadas para o nosso jantar... Ah, mas que belo rapaz é este seu primo! – e aproximando-se espetou dois beijos molhados e sonoros na face morena de Alcides.

O homem apanhado de surpresa olhou para mim com espanto e eu apenas lhe respondi com um encolher de ombros. Porém o camponês sem perceber muito bem que cumprimento fora aquele estendeu a mão volumosa na direcção de estalajadeira. Esta rindo aceitou:

-          Olha, então queres que te dê um aperto de mão. Então toma lá.

E estendeu a redonda mão. Alcides recebeu-a e apertou-a como era seu hábito. A pobre da mulher logo soltou um grito retirando o membro.

-          Safa! O homem é valente. Será assim tão pujante em tudo? Ou isto, são só mãos…

Piscou-me o olho comprometendo-me na brincadeira, ao que respondi com um sorriso e uma desculpa mal alinhavada:

-          Não sei, talvez!

Instalado o primo, logo se combinou a hora de jantar:

-          Às oito se fizerem favor! – Solicitou a patroa.

-          Cá estaremos.

Saímos em busca da cidade pululante de vida. A tarde parecia chamar por nós, tal era a brandura da véspera. Alcides, não parava. Tudo era novidade, alegria, dúvida.

-          Então tu queres-me fazer crer que aquela cachopa é um homem?

-          Pois é! E como aquele há muito por aí. É preciso de estar de olho bem atento, senão és enganado.

-          Esta vida da cidade é muito complicada... Lá na nossa terra um homem é um homem. Uma mulher é uma mulher. Agora homens vestirem-se de catraias. Onde é que se já viu isto?

-          Pois é... – tentava eu desculpar as opções de cada um – O mundo nestes locais vê as coisas de forma diferente dos nossos lados.

Na aldeia tudo surgia realmente muito desigual. Os automóveis – poucos – andavam devagar, sempre sujeitos a que de qualquer lado, surgisse uma besta desencabrestada, um rebanho paciente ou simplesmente um rafeiro em perseguição de algum felino. A única vez que se corria era por altura das festas, nos jogos tradicionais. De outro modo todos levavam a vida numa calmaria quase perfeita.

Palmilhámos quilómetros na cidade. O rio, no entanto, foi o momento alto.

-          Ena tanta água! Donde é que ela apareceu?

Mais perguntas que eu respondia como podia e sabia. Falava-lhe de um estuário, do mar, das marés. Alcides escutava atentamente mas bastava um dito ou outra questão para eu perder o fio à meada. Tagarela incurável, em tudo via algo com graça:

-          Já visto o boné daquele? Parece de palha de milho... e fica-lhe mal!

Mais à frente:

-          Eia que mulher tão gorda! Caberá nas portas?

Outra vez:

-          Olha-me a pinta daquele rafeiro...

E eu remendava:

-          Aquilo não é um rafeiro. É um cão de raça pura. E dos caros!

Alcides teimava:

-          Aqui não há mulas, nem vacas. Só casas, pessoas e carros...

Curioso foi a bizarra atitude do meu primo aldeão, quando achou uma nota de cem no chão. Olhou-a, certificou-se que era dinheiro, mas ao contrário do que calculava, deu-lhe um pontapé e exclamou:

-          Para que é que eu quero isto. Vou achar muito mais.

Eu, por minha vez recolhi o numerário do chão e perguntei-lhe:

-          Mas tu não queres a nota?

-          Não, podes ficar com ela. Hei-de encontrar mais!

-          Mas que ideia é essa?

-          Foi assim que me disseram lá na aldeia. Quando cá chegasse acharia dinheiro aos pontapés na rua!

-          Mas não acredites em tudo o que te dizem lá na terra. A maioria deles só vão à vila e é quando há feira. Como podem elas afirmar essas patranhas?

-          Eu não sei! Só digo o que me disseram.

Durante um par de dias, o Alcides visitou o que havia de importante para ver. Admirou-se no Zoológico com a bicharada, encantou-se na Ajuda, adorou o Museu de Marinha. Todavia quase ao fim de uma semana, Alcides observou:

-          Em breve regresso à terra.

-          Já? Ainda há tanto para ver...

-          Que haja! Mas quero ir embora breve.

Não teimei. Casmurro, era homem para partir sem nada dizer. A pé ou cavalo ele lá chegaria. Finalmente desejou partir. Conduzi-o pela cidade até á estação, onde me presenteou com um abraço fraterno e sincero, confessando:

-          Se a D. Florinda fosse mais nova... – e virou-se repentinamente, talvez para que eu não percebesse como uma lágrima, lhe regava a face queimada.

Abri a boca num pasmo total. Jamais me passaria pela cabeça uma história entre os dois. De súbito um silvo ecoou na gare. O comboio partiu por fim. À janela, o meu primo acenava-me efusivamente. Vi a composição extinguir-se no horizonte de linhas paralelas até não ser mais que um ponto e mais tarde uma lembrança.

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por José da Xã às 22:44

Quarta-feira, 18.04.12

Contos Breves - Pensão Esperança - XXXIII


Tresandava a lagar. Em meados de Novembro vivia-se o apogeu da colheita. As oliveiras vergadas pelo peso dos lutos obrigavam à azáfama da apanha. Ranchos de homens e mulheres, vindos de partes incertas espalhavam-se pelas fazendas, emaranhando-se pelas árvores ou venerando-as numa religiosidade invulgar. Os lagares laboravam desde cedo até noite profunda tentando dar vazão aos carregos amontoados debaixo de velhos telheiros em paciente espera. No interior as possantes galgas rodavam em infinita perseguição, esmagando impiedosamente à sua passagem, a azeitona madura por um estio quente e seco. Ao centro do lagar, erguia-se a prensa que docemente ia apertando as ceiras num abraço irreversível e violento. Estas carpiam então lágrimas viscosas e brilhantes que escorriam em torrentes de mágoas e de dor, até à tarefa.

Antes do último aperto, homens sujos de gordura viscosa e seminus escaldavam as ceiras com água a ferver, saída da caldeira, centro de atenções e calores exigidos pelos dias frios de Outono. Após o derradeiro apenas restava o bagaço castanho e seco.

Na tarefa larga repousava então horas a fio, o choro silencioso das ceiras. No fundo a almofeira ia por fim assentando, até o lagareiro, com saber e perícia, abrir a boca e deixar a água russa escapar até à rua, onde uma pequena vala servia de guia até à fazenda.

Domingo, único dia de repouso para os ranchos de gente estranha que invadiram a aldeia em busca de trabalho. Os mais valentes levantavam-se cedo e percorriam os olivais colhidos em busca de algum rabisco. Outros preferiam o ripanço de uma esteira malcheirosa. Algumas mulheres aproveitavam o dia para lavar roupa suja. À tarde um jovem tocador soprava na harmónica e mesmo ali se desembainhava um bailarico. Os pares volteavam acertadamente, como de uma perfeita coreografia se tratasse.

Joaquim Coxo já entrara na casa dos trinta. Mecânico de motas e bicicletas, fazia gala do seu estatuto de solteirão. Órfão de pai e mãe, nem a irmã Maria, nem os irmãos mais velhos José e António o demoviam a casar. Curiosamente pretendentes não lhe faltavam, mas ele teimava que assim é que estava bem, que não tinha paciência para aturar uma mulher, que gostava de estar sozinho.

Mas naquele fim de tarde de Outono frio e penetrante, Joaquim perdeu enfim a sua compostura e vaidade. Andava a experimentar a motorizada do cunhado, acabada de consertar, quando passou encostado à casa que os apanhadores usavam como lar. De súbito surge uma moçoila bonita e formosa. O mecânico ao vê-la, encadeado quiçá com a beleza, por pouco se despistava. Houve quem se apercebesse do zig-zag que o motociclista desenhou na estrada a fim de se equilibrar e logo comentasse em surdina:

-          O Coxo quase trambolhou hoje à tarde por causa de uma cachopa do rancho. Aquilo é que foi dançar com a mota da estrada!

A partir daquele dia Joaquim deixou de viver em paz e sossego. Só conseguia lembrar-se da rapariga esbelta. Não a conhecia mas logo tentou chegar-lhe à fala. Nunca tivera dotes de galã e muito menos gestos marialvas e a escola abandonada cedo demais havia perto de vinte anos, também não o ajudara com as palavras. Mas ainda assim isso não seria motivo que impedisse de falar à moçoila.

Rondou pacientemente dias a fio, o albergue do rancho. Até que certa véspera a descobriu descendo sozinha uma das ruas do povoado. Carregava à cabeça um cesto de verga assente numa rodilha de pano onde transportava alguns víveres para o jantar.

-          Muito boa tarde menina! – cumprimentou o rapaz.

Abordada assim de supetão, logo ela lhe devolveu com singular azedume:

-          Boa tarde, senhor! Que me quer?

Percebendo nas palavras atiradas como pedras a cão vadio, o desdém da rapariga, desculpou-se:

-          Nada menina, nada, perdão!

-          Então deixe-me em paz que quero ir descansar –atirou novamente a cachopa.

-          Claro, com certeza – desculpou-se.

Mas após uma ligeira hesitação, encheu-se de brios e ousou galantear:

-          Sabe, há muito tempo que não via por aqui uma jovem tão formosa como a menina...

Pronto estava dito. Agora era aguardar a reacção. E esta, claro está, veio tão depressa que Joaquim quase se assustou:

-          Oh, isso são dos seus olhos. Há por aqui raparigas bem mais bonitas.

Ao invés do que seria de supor a resposta veio claramente doce e serena. Joaquim tremia e não sabia se de excitação ou de nervosismo. “E agora que dizer mais?” Pensou. Num breve momento ocorreu-lhe:

-          Vai cá estar muito tempo?

-          Ainda não sei. Depende!

Um silêncio cavo tomou de novo Joaquim Coxo. Atrapalhado, nervoso e sem mais tema de conversa, despediu-se:

-          Então boa-noite e até um dia destes...

-          Boa-noite – respondeu a apanhadeira sem emoção.

O mecânico regressou a casa em passo acelerado. Lavou-se das gorduras e óleos e sentou-se à mesa, esperando o jantar que não chegou. Mas um repasto naquele momento não era importante. O seu pensamento saltitava entre a beleza quase perfeita da rapariga e as recordações das palavras proferidas. Deitou-se sem ceia. De olhos fixos no tecto e mãos entrelaçadas a substituírem a almofada negra de camisas de maçaroca, adormeceu por fim.

Nos dias seguintes, Joaquim via-a de vez em quando ao longe e timidamente acenava-lhe com a mão negra de óleo, ao qual ela nunca respondeu. Soube mais tarde que a jovem viera somente acompanhada do pai. Alguém a quem ela respeitava e temia mais do que amava. Mas Joaquim não era homem para recear quem quer que fosse e muito menos alguém estranho à aldeia.

Era costume os homens do rancho conviverem com os da terra, no lagar à volta da caldeira quente e acolhedora, beberricando copos de vinho ou simplesmente conversando. Foi num destes serões que Joaquim encontrou o pai da cachopa e conversa puxa conversa lá foi dizendo:

-       O senhor tem uma filha muito bonita.

Subitamente contrariado pela franqueza do homem, logo o outro lhe devolveu de forma abrupta e roçando a violência:

-          O que é que vossemecê tem a ver com isso? Nem pense em arrastar-lhe a asa, pois tem que se haver comigo.

O temperamento do Joaquim era normalmente dócil e apaziguador, mas naquele instante ferveu-lhe o sangue e revoltando-se e atacou do mesmo modo:

-          Mas quem é que você julga que eu sou?

-          Um pelintra qualquer… - respondeu entre dentes o pai.

Joaquim ouviu e não se acobardando, replicou com veemência:

-          Pelintra? Posso ser sim senhor! Mas não preciso de ir para longe para ganhar a vida. Ganho-a aqui mesmo com estas mãos sujas mas honradas – e virando a palma das mãos para o adversário, continuou - e ainda não me faltou trabalho... Graças a Deus.

O antagonista não apreciou a afronta e levantou-se num rápido da cadeira, ameaçando.

-          Queres levar um par de tabefes? Olha que ainda sou homem para ti!

E avançou decidido contra o aldeão. Este, comparando a sua figura e a idade com a o do outro, logo percebeu que levaria grande vantagem num eventual confronto. Por isso foi respondendo, num tom de voz que denunciava ao mesmo tempo calma mas também algum nervosismo:

-          Para mim sei que é homem, mas para a sua filha é que não é pai. Não me diga que a quer para freira?

Os acontecimentos precipitaram-se em tormentas de acusações. Os homens no lagar seguraram cada elemento evitando assim males menores quando surgiu a jovem, que passando por perto, ouviu os brados arrogantes do pai e logo entrou, tentando acalmar os ânimos:

-          Mas o que se passa aqui? Que gritaria vem a ser esta, meu pai? – Questionou a rapariga fulminando o antecessor com o olhar.

Joaquim parecia ser o mais sereno e por isso respondeu calmamente:

-          É o seu pai que está um pouco amofinado comigo, só por lhe ter dito que a menina é muito graciosa.

A jovem olhou para o pai rezingão e em silêncio aguardou uma resposta. Mas o caprichoso homem nada disse. Percebera que olvidara as boas maneiras e com isso perdera a compostura e a razão. O mecânico dando conta de algum mal-estar entre pai e filha, desculpou-se então:

-          Perdoe-me mas tenho de ir fechar a oficina. A si senhor – e apontou para o homem mais velho – peço-lhe sinceramente desculpas pela maneira como o abordei. É capaz de ter razão, eu sou mesmo um pelintra. Boa noite.

E abandonou o lagar. Atrás de si cresceu então um burburinho que ele não pretendeu entender. Mas a turbulência que invadia o seu espírito e coração chocava contra a pacatez e a sensibilidade da rapariga. Quase sem dar por isso crescera entre ambos uma curiosa relação. E com tão poucas palavras trocadas. Todavia suficientes para entenderem que algo os unia.

O retorno a casa foi transposto a remoer palavras não proferidas e tão absorto estava nos seus pensamentos que nem passou na oficina como era seu uso. Jantou calmamente e deitou-se, sempre com o pensamento na jovem. Bonita sem dúvida e formosa, parecia arcar uma força e uma coragem invulgares, de quem sabe o que quer. Após muito matutar Joaquim decidiu enfrentar uma vez mais o pai. Ele tinha de o ouvir uma vez mais!

Na manhã seguinte, levantou-se muito cedo e esperou que a moça e o pai abandonassem a casa do rancho a caminho do olival. Finalmente a porta abriu-se e todos saíram menos o pai e a filha. Preocupado logo abordou um dos apanhadores.

-          Que é feito daquela jovem moça que aqui vivia com o pai?

-          Quem? A Aurora?

Então era este o seu nome, pensou o Joaquim.

-          Sim a Aurora!

-          Voltou ontem à noite mais o velho para a terra. Vá lá saber-se porquê! É um bruto qualquer…

A notícia foi colhida como um tiro. Jamais a veria. A tristeza invadiu-lhe a manhã numa melancolia impenetrável. Por culpa própria deitara tudo a perder. Precipitara-se no encontro com o pai de Aurora. Tinha a obrigação de ter sido paciente e acima de tudo prudente.

Regressou à oficina e pegou nalguns casos mais complicados que lá tinha e que obrigavam a muita atenção e perícia. Entreteve-se então a resolve-los tentando esquecer por momentos a tristeza que corroía o seu coração.

Quando à noite entrou em casa, cresceu a dor e a raiva. Na cabeça rodopiavam inúmeras ideias, vontades e ensejos. Não sabia como, mas amava aquela cachopa. Com ela queria finalmente uma vida, ter filhos, construir um lar ou amá-la simplesmente.

O rancho continuava o seu afã de ripar a azeitona num corrupio permanente. No lagar as ceiras repletas de massa passavam martírios para brindarem o homem com o líquido verde e gorduroso com que regariam as batatas e as couves. O cheiro acre e característico pairava ainda e sempre no ar como uma praga.

Entretanto e após muito matutar Joaquim assumiu finalmente um desejo: ir em busca da amada. Mas para concretizar o que magicara, necessitava de dinheiro e tempo. O primeiro, foi fácil, retirou-o duma velha mala que escondeu no cimo de um guarda-fatos. Um pé de meia guardado, havia alguns anos. Quanto ao tempo teria de optar por um fim-de-semana. Desvendou depois, sem grande dificuldade, o nome da aldeia da jovem e do pai austero. Bastou-lhe unicamente uma rodada geral e mais uns copos estrategicamente oferecidos. O lugarejo dormia no meio das fragas beirãs a muitas léguas de distância. Uma jornada que se avizinhava longa e dura.

Numa sexta-feira, ao fim da tarde, Joaquim encerrou a oficina mais cedo e meteu-se à estrada. Montado na sua velha mas fiel motorizada, conduziu toda a noite. A estrada sinuosa e em mau estado não era todavia impeditiva da viagem. Já bocejava a manhã quando entrou na vila. Parou em frente de uma casa de pasto onde matou o bicho enquanto questionou a diversos pelo melhor caminho para a aldeia. Escutou algumas versões contraditórias, agradeceu e optou por partir confiando na sorte. Perdido após algumas voltas pela simpática vila lá encontrou o que supôs ser a estrada para a povoação. O acesso feito de terra batida e repleto de largos e profundos buracos, obrigava Joaquim a andar bem devagar numa quase procissão. Emparedando a estrada enormes pinheiros erguiam-se até ao céu. Nos intervalos cresciam frondosos eucaliptos, dando ao trilho um aspecto sombrio e quase tenebroso. A brisa da manhã era fria e soprava com vigor pela folhagem do pinhal. O caminho apresentava-se umas tortuoso e íngreme, outras plano e sem curvas. A motorizada embrenhava-se na paisagem quase fantasmagórico sem medo. Negociava as curvas devagar, não fosse o Diabo tece-las e ficar ali empanado naquela terra de ninguém. Por entre as árvores, Joaquim conseguia descortinar um pequeno ribeiro que serpenteava ao seu lado no vinco profundo do vale. Após longos quilómetros de mau piso e de velocidade reduzida, surgiu finalmente no horizonte um aglomerado de habitações cinzentas e tristes. Cravadas na serra as casas construídas na encosta soalheira, assemelhavam-se a um Presépio em ponto grande. Uma ribeira de água cristalina atravessava a aldeia por entre as pedras roliças. A torre da igreja, branca e centenária, destacava-se ao longe, encimada por um sino e um relógio. Este marcava meio dia e soaram pelo vale as doze badaladas. Foi nesse preciso momento que Joaquim chegou por fim à aldeia. Subiu a rua até à praça principal e parou. Apeou-se da motorizada, retirou o capacete e mirou com curiosidade o singelo largo. O chão de paralelepípedos graníticos faziam soar com mais profundidade os cascos dos animais que atravessavam o povoado. Ao centro da praça erguia-se uma cruz de pedra, já quase vestida de musgo negro, salpicado de tons doirados. Na esquina de uma rua que desembocava no adro havia uma taberna escura. O viajante entrou devagar. Dentro da loja podiam-se contar três mesas de madeira, pequenas e mal limpas, donde sobressaíam rodelas de vinho do fundo dos copos usados. A lâmpada que emanava uma luz ténue estava envolta por uma camada negra de pontos negros ali depositados pelas moscas que volteavam ao redor da luz. A um canto, dois idosos jogavam às cartas. Ao balcão o taberneiro quase dormia encostado a uma velha telefonia de madeira que tocava um som roufenho e imperceptível. Joaquim aproximou-se e baixinho saudou:

-          Boa tarde, senhores!

O patrão como que acordado da sua letargia, respondeu:

-          Boa tarde! Que deseja?

-          Uma cerveja, se fizer favor.

Do fundo do balcão surgiu a garrafa que o tasqueiro abriu.

-          Aqui tem!

-          Obrigado! – e levando a garrafa à boca sorveu um bom bocado. Depois suspirou com prazer.

Necessitava agora de abordar o assunto que ali o trouxera: Aurora. De súbito veio-lhe à ideia uma boa desculpa para estar ali e tentar descobrir o paradeiro da jovem.

-          Diga-me se conhece uma rapariga de nome Aurora?

O outro olhou-o duma forma áspera e logo respondeu abruptamente:

-          Conheço sim senhor. É minha sobrinha. O que lhe quer?

-          A ela nada – mentiu – queria era falar com o pai, mas como não sei o nome dele…

-          Mas o que é que esse traste fez desta vez?

-          Não fez nada, que eu saiba! Só que andou a trabalhar naquilo que é meu e um belo dia desapareceu com a filha sem que lhe pudesse pagar os dias.

Num gesto repentino o taberneiro barafustou em forma de desabafo:

-          Isso é mesmo coisa do meu cunhado. Alguém lhe disse alguma por lá e ele não vai de modas, vem-se embora sem receber o que lhe é devido. Uma besta! Um cretino! Ainda estou para saber o que é que a minha falecida irmã viu naquele camafeu

-          Pois… mas eu apenas pretendo saber onde ele mora… Quero pagar-lhe e ir embora. Estou muito longe da minha aldeia.

-          Tem razão freguês, desculpe o desabafo.

Crendo nas boas razões do cliente, o comerciante informou com detalhe o caminho para casa do cunhado. Joaquim pagou, agradeceu e saudou novamente ao sair:

-          Boa tarde senhores!

Na rua orientou-se pelas indicações dados e lá foi em busca de lenha para alimentar o lume da sua paixão. Em breve encontrou uma casa térrea, humilde e mal estimada, onde algumas telhas se seguravam apenas com o peso de pedras. Uma janela aberta dava alguma luz para o interior. Sem saber como abordar a jovem Aurora e muito menos como enfrentar um pai violento na sua própria terra, encostou-se à parede no outro lado da rua e aguardou, simplesmente.

A tarde foi-se arrastando penosamente até que a penumbra da noite envolveu a aldeia. O frio embrenhava-se nas roupas pouco quentes e gelava os corpos mínguos que apenas pediam calor e pão. Alguns camponeses subiram e desceram a rua, lançando uma breve saudação a que Joaquim respondeu sempre. Mãos nos bolsos, boina puxada para a frente, beata acesa ao canto da boca e assobio desafinado, olhavam-no com curiosidade, mas também com desdém. Para aqueles lados os estranhos eram mal vindos.

O sino tocou de repente. Pouco conhecedor do significado daquele toque depressa percebeu que não era mais do que um chamamento, provavelmente para a missa. Uma porta abriu-se de súbito deixando antever uma figura feminina de negro vestida. Envolvia-lhe a cabeça um xaile de rendas que a tornava ainda mais formosa. Saiu tão apressada que nem deu pela presença de um estranho do outro lado da rua.

Joaquim seguiu-a em passo apressado e antes que ela entrasse na capela, abordou-a:

-          Aurora, desculpa! Sou eu o Joaquim.

Pouco impressionada pela presença do rapaz, demanda:

-          O que faz aqui?

-          Vim vê-la!

-          Ver-me?

-          Sim vê-la e se quiser, levá-la comigo.

-          Como? O que é que disse?

-          Eu quero casar consigo. Se o seu pai não quiser eu levo-a para a minha aldeia e casamos lá.

A proposta apresentada assim de supetão era tentadora. Havia que pensar. Mas o rapaz não pretendia dar-lhe muitas opções. A repetição do chamamento para a capela ajudou-a a ganhar tempo.

-          Deixe-me ir à missa. No fim dou-lhe uma resposta.

-          Está bem, eu espero.

Aurora entrou na capela, enquanto Joaquim esperou, impacientemente no adro da igreja que a missa terminasse. Caminhava para trás e para a frente numa ansiedade crescente. Aquela hora levedava em séculos, uma eternidade. Dentro da capela ouviam-se cânticos e orações. O rapaz acreditava no Divino, mas naquele preciso instante a sua preocupação estava realmente virada para a cachopa que rezava devotadamente.

Por fim a missa acabou e as beatas e as crentes mais devotas abandonaram o local de culto quais formigas. Joaquim aguardou que a sua paixão saísse após o maior tumulto, para que ninguém se apercebesse. Porém a rapariga tardava em surgir. Já levemente irritado pela demora aproximou-se da entrada da capela. Espreitou para dentro a medo, quando ouviu.

-          Pode entrar sem medo, irmão. A casa de Deus está aberta para todos quantos nela queiram entrar!

À sua frente um padre ainda de paramentos trajados, saudou-o com emoção. A sua voz era calma e serena, cultivando a paz nos corações dos homens mais empenhados.

-          Como vai meu rapaz? Espero que a viagem o não tenha maçado muito.

O mecânico de motorizadas e bicicletas nem sabia o que dizer. Todavia foi sorrindo e penetrando na sala escura, onde o odor a incenso pairava ainda no ar. Ao fundo no altar as velas iluminavam o ambiente. Dos lados algumas imagens de santos pareciam querer abençoar o viajante. A medo lá foi apreciando a orada e acabou por comentar:

-          Bonita igreja, sim senhor!

Já perto do centro da capela reparou então que diversas mulheres ainda por ali estavam, rezando em silêncio numa prostração e devoção que jamais observara. Entre elas descobriu a menina dos seus pesadelos mais simples e bonitos. Olhou-a com admiração e respeito mas nada disse. Foi o pároco que apercebendo-se da furtiva troca de olhares, avançou:

-          Que faz aqui nesta terra, perdida entre as pedras frias e cinzentas da serra e os pinheiros esguios e irrequietos?

Joaquim quase nem entendeu a pergunta, mas ainda assim percebeu onde o pároco pretendia chegar. Então respondeu célere e convictamente:

-          Vim buscar Aurora!

-          E para onde a leva?

-          Para a minha aldeia. Lá tenho casa, terras, gado, tudo do bom e do melhor…

-          E tu achas que ela quer ir contigo? – Interrompeu o padre.

-          Não sei! Mas espero bem que sim. Eu gosto dela… - esta última frase foi dita quase em surdina temendo que a moça o escutasse.

Entretanto a rapariga levantou-se do seu lugar e aproximou-se de Joaquim. Deu-lhe a mão esquerda, olhou-o nos olhos e confessou:

-          Vou Joaquim, vou contigo!

Era a primeira vez que ela tratava o rapaz na segunda pessoa. Uma alegria imensa inundou-lhe o coração. De súbito antes que alguém dissesse mais alguma coisa, o padre chegou-se junto do casal e aconselhou:

-          Aurora, o teu pai é um homem duro e austero, mas temente a Deus como poucos. Assim casai-vos já aqui e agora na minha presença e perante o facto consumado, o teu pai já nada poderá fazer.

Joaquim nem queria acreditar que estivesse a minutos de passar a ser um homem casado. Ainda não se habituara à ideia de compartilhar o seu futuro com outra pessoa.

-          Então meu amigo, que vamos fazer? – questionou o cura.

-          Bem… sim… mas as alianças? Os papéis? Os padrinhos? – gaguejou.

-          Perante Deus nada disso é importante. Basta o amor que têm um pelo outro…

A noite há muito que abraçara o amontoado de casas, quando Joaquim pegou na mulher e chegado à porta do agora sogro, bateu.

-          Quem é? – demandaram de dentro.

-          Gente de paz que lhe quer falar! – respondeu Joaquim.

A porta de madeira mais podre que sã, rodou e deixou antever um homem mal arranjado, barba de dias por rapar, de cor cinza e os poucos cabelos desgrenhados. Carregava um ar triste e macilento. Todavia ao dar de caras com Joaquim logo o seu espírito se alterou numa reacção violenta:

-          Tu? Outra vez? Que estás aqui a fazer?

Joaquim limitou-se a sorrir e afastando-se um pouco, deixou que Aurora, agora casada, surgisse detrás.

-          Meu pai…

-          Larga esse homem! Já!

-          Agora não posso, meu pai. Casei-me com ele.

-          Ah, velhaco que me roubaste o meu único tesouro!

-          Não creio. Pelo contrário você é que ficou a ganhar.

-          A ganhar eu? Com quê?

-          Agora passou a ter mais um filho.

Furibundo o homem fechou com violência a porta na cara do casal.

Os noivos partiram nessa mesma noite para a vila onde dormiram a primeira vez juntos na Pensão Esperança.

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por José da Xã às 00:18

Terça-feira, 17.04.12

Contos Breves - Duas lágrimas - XXXII


A madrugada gelada é rendida por uma manhã muito fria e límpida. A erva rasteira, encrespada pela friagem pinta o chão da cor da neve. Paira na atmosfera um forte odor a lenha queimada das lareiras ainda acesas. A isso obrigou a noite teiró.

Celestino abre a porta, observa o firmamento anil e reentra. Sai logo a seguir envergando um casacão pesado mas quente, única herança dos tempos de marinha e das auroras num convés irrequieto. E ele que sempre preferira a terra debaixo das botas quase rotas, ao mar, sentira no âmago, naquele tempo de tropa forçada, o abrupto balançar de um navio abandonado à sabedoria do comandante e aos inconstantes humores de Neptuno. Entretanto escancara a porta de madeira da arrecadação donde retira o serrote mal travado e o podão pouco cortante. Desta vez dá ripanço à fria enxada, sempre pronta a esventrar a terra negra e fértil.

O sol desponta timidamente ao longe, carregando luz, cor e algum afago. Uma brisa sacode docemente as árvores num vaivém sereno. Estas livram-se dos restos do gelo que num ápice se transforma em água. Esta escorre pelas concavidades das folhas ainda verdes, saltitando até aterrarem no chão húmido. Ladeando o carreiro, singelos fios quase gelados torneiam pedras e tufos de erva. Juntam-se mais abaixo, criando uma ligeira corrente que perto de um singelo e tímido ribeiro se mistura a outra, até desaparecerem ambas, criando um curso de água pujante e quase indomável..

Do cimo da encosta, Celestino olha o trilho que serpenteia à sua frente até terminar na ponte centenária. Do outro lado estendem-se lameiros inundados mas fecundos. O caminho continua após a travessia da ribeira e embrenha-se por entre paredes que abraçam as leiras. De súbito, sem saber porquê o seu pensamento recua quase trinta anos, até ao dia em que palmilhou aquele mesmo trajecto, fugindo a um passado sem saudades e a um futuro que não sonhara. Saíra na madrugada seguinte ao dia de Natal. Ainda se lembrava, como se fosse hoje, dos cheiros dessa fim de noite. Partira para França com mais dois homens da terra. Empenhara-se em doze contos de réis para poder pagar ao guia que o levaria até ao outro lado das fronteiras de Portugal e Espanha. Na época era uma fortuna. Mas se tudo corresse bem, em pouco tempo devolveria o dinheiro.

Naquele fim de escuridão fria, a aldeia acordara mais triste. Em casa, ficara a mulher com dois catraios, uma vida por resolver e muitas lágrimas por secar. Partiram os três homens a pé por veredas e atalhos até ao local de encontro, no cimo duma serra, junto ao marco de pedra, conhecido pelo Penedo da Lebre. Foram os primeiros a chegar. Para leste, para lá do que a vista podia abarcar era já pertença dos espanhóis. Conquanto o dia foi crescendo outros foram arribando. Vinham de diversos lados e alguns de muito, muito longe. Algarve, Alentejo, Minho. Todos, eram agora mais de quarenta. Homens sós, aventureiros, entregues à própria sorte, quais navegantes henriquinos.

Esperaram horas até que da penumbra da noite seguinte surgiu, por fim, o guia espanhol. Contou os foragidos e reclamou da falta de alguns. Finalmente estipulou as regras que todos aceitaram sem reservas: só caminhavam de noite e descansavam de dia. Assim que passassem a fronteira de Espanha com a França, cada um ficaria entregue ao seu destino.

Partiram então, atravessando sem sobressaltos a fronteira portuguesa. Caminharam em silêncio, fugindo aos itinerários principais, optando por caminhos sinuosos e de mau piso. Quando a primeira manhã acordou esconderam-se nas matas que ladeavam as velhas estradas e pacientemente aguardaram que a noite de breu os voltasse a envolver. Ao segundo dia principiou a chover. Uma chuva miudinha que se embrenhava na roupa e nos corpos mal agasalhados. E foram dias, semanas com chuva pelas costas e a roupa encharcada. Quando paravam faziam uma fogueira sempre insuficiente para secar vestes e corpos. Atravessaram montes e vales, rios e ribeiras de correntes sempre diversas. Ao aproximarem-se duma aldeia, contornavam-na, evitando encontros desagradáveis com a Guarda Civil espanhola.

Alguns caminhos, rasgavam-se pelas beiras das montanhas, denunciando então precipícios profundos e mortais. Quem caísse jamais regressaria. Morria ali naquele silêncio por entre serras inóspitas e vales perdidos. Era assim o contrato. Naquele momento cada um velava por si.

A fome surgiu então. Porém Celestino, preparara-se para uma longa jornada e dentro do bornal escondia toucinho e broa já endurecida pelos dias, com os quais ia comedidamente aligeirando a fome. Emagrecera alguns quilos mas mantinha a mesma força e pujança, às quais juntava a tenacidade e o sonho de um futuro diferente para si e para os seus.

Ao fim de quase um mês de caminhos tortuosos e de permanente e arreliante chuva fria, reapareceu uma manhã, o sol. Muitos haviam já desistido voltando para trás ou entregando-se às autoridades espanholas que os devolviam a Portugal. Mas os que restaram despiram-se e espalharam pela mata pouco densa, o vestuário molhado por dias seguidos de intempérie.

Espectáculo bizarro. Homens semi nus ao redor de uma fogueira. Havia bom sol mas também muito frio que descia do cimo das montanhas castelhanas. Ao fim do dia já com as vestes secas reiniciaram a marcha na mesma cadência. Míngua de semanas, nem coelho nem lebre surgiram no caminho. De quando em vez surgia um castanheiro ou uma laranjeira que serviam de reabastecimento.

Certa manhã já no final da caminhada dessa noite, aproximaram-se de uma casa isolada que se elevava no meio da serra inóspita. Logo questionaram o guia se era ali que ficariam durante o dia. O espanhol acenou afirmativamente com a cabeça, mas solicitou silêncio. Aproximou-se então à cautela. Pela janela suja, espreitou para dentro do barraco. Abriu por fim a porta sem receio. Depois todos correram até à habitação, não fosse alguém descobri-los. Surpresa das surpresas era a quantidade de nomes e datas gravadas na parede de madeira. Identificações de quem, tal como eles, também abandonara a sua terra e o seu país em busca de melhor futuro.

Pela primeira vez, desde que haviam partido de Portugal, iam dormir debaixo de telha. O espaço era exíguo, mas couberam todos. Esgotados, de sonos trocados, fomes permanentes e quilómetros palmilhados, os homens depressa adormeceram.

Porém quando a tarde principiara a dar lugar uma vez mais à escuridão da noite, uma infeliz surpresa estava reservada. Ao acordarem os viajantes logo notaram a falta do guia. Este recebera entretanto todo o dinheiro para a tarefa de colocar os lusos no outro lado da fronteira francesa e assim aproveitando a hora do sono dos caminhantes, partiu sorrateiramente. Aguardaram que caísse totalmente a noite para partirem uma vez mais. Todavia Celestino inconformado com a situação exclamou então:

-       Fomos enganados. Eu aqui não fico, vou-me embora. Quem quiser pode vir comigo. Sempre havemos de encontrar quem nos ajude.

Um reboliço de vozes percorreu a barraca. Mas quando o homem saiu a maior parte seguiu-o. Desceram então a íngreme encosta em busca de uma povoação. As luzes das aldeias surgiam muito ao longe como minúsculos pontos brancos, quais estrelas terrestres. Desconhecendo o caminho e tendo apenas a Lua como companhia iluminante, os homens palmilharam quilómetros até que a alvorada surgiu no horizonte. Escondidos uma vez mais na mata alguém percebeu uma ligeira coluna de fumo que se elevava no céu. Haviam encontrado nova habitação. Receosos com quem iriam encontrar, combinaram que só um se aproximaria. Assim se algo corresse mal, apenas esse seria prejudicado. Sortearam o felizardo e por ironia do destino, calhou a Celestino a missão de desvendar o mistério.

Em silêncio, chegou-se sorrateiro à casa. Percebeu perfeitamente que alguém lá dentro assobiava uma música desconhecida. Corajosamente bateu então à porta. Esta abriu-se deixando antever um homem forte, baixo, mas de feições simpáticas e olhar sincero.

Numa estranha algaraviada, Celestino tentou fazer-se entender ao espanhol. Este percebeu perfeitamente tudo o que o português dissera e ao contrário do que o aldeão temia, disponibilizou-se para ajudá-lo mais aos seus companheiros.

Instalados na pequena casa, aproveitando um lume forte, os homens perguntaram se havia algo de comer. Entendendo o desespero dos famintos o anfitrião foi buscar um saco de maçãs que distribuiu por todos. Depois partiu. Regressou duas horas mais tarde carregando um saco com pão escuro e alguns chouriços.

Finalmente, retirou do canto mais escuro, escondidas por sacos velhos e cestas vazias, algumas garrafas de vinho, que ofereceu aos viajantes. Um manjar e um festim! A alegria surgia finalmente estampada nos rostos cobertos por longas barbas em desalinho.

Após alguma troca de palavras mal traduzidas, Celestino entendeu que já estava muito perto de França. Mas o pior estava para chegar. É que a fronteira parecia ser bem guardada por soldados da severa Guarda Civil. Um desafio à astúcia e coragem dos portugueses. Havia, contudo, uma solução menos arriscada mas com a desvantagem do frio. Para tanto bastava que subissem a corrente do rio a pé pois este nascia em terras gaulesas, escapando assim os lusos aventureiros, à polícia e aos rigorosos controlos da fronteira. Após algumas indecisões optaram pelo caminho do ribeiro. Despediram-se do caloroso amigo espanhol, a quem entregaram algum dinheiro como paga e partiram enfim na calada da noite, de estômago repleto e espírito vadio.

Os pés doridos e ensanguentados tinham de resistir ao que restava da viagem. Em silêncio desceram para a ribeira logo que puderam. A aldeia dormia coberta por uma chuva miudinha. As luzes da povoação espraiavam-se em reflexos irregulares nas águas gélidas da ribeira. O fundo irregular e impreciso obrigava-os a caminhar mais devagar. O esforço era agora imenso, lutando contra a corrente que não sendo forte quebrava o ímpeto dos clandestinos. Mas a perspectiva de se saberem presos e devolvidos ao país de origem dava aquele grupo de valorosos viajantes uma firmeza invulgares.

Um ruído estranho vindo das margens obrigava-os algumas vezes a parar dentro de água. Depois, quando tudo se desvanecia e os receios não passavam disso mesmo continuavam, enregelados mas sempreem silêncio. Achuva parou quando o dia despontou por detrás das colinas.

Abandonaram então o rio tentando repousar da noite gelada e molhada numa pequena encosta. Foram subindo até ao topo até descobrirem do outro lado do declive uma pequena aldeia. O movimento era já realmente notável, àquela hora da manhã. Descobriram então pelos carros que já estavam em França.

Desceram à povoação sem receios e constataram que realmente já se encontravam em solo gaulês. Foi o delírio. Cumprimentaram-se numa alegria imensa, quase desmedida. Abraços e mais abraços selavam o fim da aventura clandestina.

Agora cada um seguia o seu caminho. Havia quem partisse para Paris ou para Lyon. Outros nem sabiam para onde iam. E houve até quem ficasse logo ali.

Na hora da despedida olharam-se num silêncio profundo agradecendo a todos e cada um a coragem e o empenho para ali chegarem. Dos mais de quarenta homens que haviam partido do cimo da serra portuguesa, pouco mais de vinte haviam chegado a terras de Napoleão.

Celestino olhou o carreiro naquela manhã gelada e lembrou-se novamente daquela madrugada. Duas lágrimas desceram então lentamente pela face curtida e rasgada por anos de trabalhos e sofrimento.

As lágrimas rolaram pelo chão, juntaram-se à pequena corrente que ladeava o caminho e foram encher a fiel ribeira.

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por José da Xã às 00:02

Segunda-feira, 16.04.12

Contos Breves - A Viúva - XXXI


-       Ai o meu homem… ai o meu homem… - clamou Natália numa estridente gritaria e alvoroço.

Os gritos lancinantes alastraram-se pelo vale de gente sã e pacata, preocupada unicamente com o azeite do lagar e o milho na eira.

A mulher calcorreava em passo apressado o pequeno declive que nascia na frente branca e florida da sua casa e morria na estrada principal poeirenta e irregular. Os tamancos batiam no chão e soavam a castanholas. Os braços envolviam a cabeça como um novelo e as lágrimas caíam a rodos, cara abaixo.

Ao pranto desesperado da Natália acorreram diversas vizinhas, vindas sabe-se lá de onde e alarmadas com tamanha carpideira: a Idalina, a Irene, a Maria Chica

-       Que se passa mulher de Deus? – perguntou assustada a Idalina com quem a Natália não falava para mais de quinze anos por causa de uma parvoíce.

-       O meu homem… ai o meu homem… - e o alarido quase que a sufocava. A respiração ofegante e o fervor de um coração abalado quase a não deixavam falar.

-       Diz-me mulher, o que foi?

A outra apenas balbuciou:

-       No palheiro… no palheiro…

As mulheres logo subiram a vereda, entraram pelo portão que deixava antever um quintal bem arranjado e viraram à direita penetrando no estábulo escuro e cheirando a estrume.

O espectáculo que depararam não era de todo agradável. Da viga mestra descia uma corda que abraçava o pescoço de um homem, que ainda baloiçava, qual pêndulo de relógio, marcando a hora da sua própria morte. As bocas abriram-se num espanto desusado e imprevisto. Persignaram-se e ali mesmo rezaram a primeira oração. Ainda não haviam terminado quando chegou o Tó Zé, irmão da viúva e que aos gritos da mana, logo correu em seu auxílio. Perspicaz e desenvolto procurou rapidamente o banco que servira de apoio mortal ao defunto cunhado. Aquele, tombado sobre a palha de milho aguardava em silêncio que o endireitassem. Ao fundo, um jumento castanho ruminava calmamente a palha, admirado com tamanha agitação. O homem endireitou o banco subiu-lhe para cima, segurou no corpo quase imóvel e cortou, com a navalha que sempre o acompanhava, a corda involuntariamente assassina.

O vulto caiu em cima do outro que o estendeu com cuidado no chão de terra e forragem. Ainda estava quente. Desapertou por fim a espia e cerrou os olhos arregalados, para sempre.

No centro da aldeia Natália continuava num inconsolável pranto. Titubeava algumas palavras que não saíam do mesmo sentido:

-       O meu homem, o meu Lúcio… e agora o que vai ser de mim?

Quem desconhecia o destino macabro do marido, perguntava com espanto a razão de tamanho pranto:

-       O que aconteceu com o teu homem, Natália?

A justificação saia de supetão, qual faca aguçada em coração de marrã, breves momentos antes da matança:

-       O meu homem matou-se! Enforcou-se… no palheiro…

-       Ai que desgraça tão grande, mulher…

A vergonha, todavia, não era morrer, que isso é destino e fim de qualquer um. O desdouro crescia na forma como acontecera. Uma tristeza!

Natália carpia agora em silêncio e agitava a cabeça numa permanente negação. O pano que trouxera de casa servia momentaneamente de lenço, onde a mulher enxugava as lágrimas sentidas.

Durante toda a manhã e tarde a aldeia agitou-se num raro e incomum afã. Tocou a dobrar. O povo comentava que tal coisa jamais houvera acontecido. O Lúcio matar-se. E justamente enforcado. Só coisa do Diabo. As pessoas chegavam à casa para ver o defunto ainda pendurado mas este jazia por fim num caixão. O senhor Padre esteve renitente em autorizar o corpo na capela pois não admitia que o suicídio fosse obra do Demo, mas sim de um qualquer desvario. Porém Arlinda, a beata, lá fabricou qualquer desculpa e o pároco finalmente aceitou que o féretro permanecesse na igreja.

Lúcio era conhecido, bom companheiro e amigo estimado, tinha alguma família e naturalmente em pouco tempo a capela encheu-se para o velório.

A viúva, de negro vestida, agradecia maquinalmente a quem a abordava. A noite, negra e silenciosa, trouxe mais dor e mais lágrimas.

-       Ai o meu homem! Que vai ser de mim! Sem filhos, sem ninguém... – carpia de quando em vez Natália.

Uma mulher mais decidida e corajosa perguntou a meio da madrugada de vela:

-       Conta-me lá. Imaginas o que levou o teu marido a cometer tamanho disparate?

-       Eu não! Sei lá! São tentações do Demónio!

Mas a outra não se convencia e atacou de novo:

-       Notaste alguma coisa estranha, ultimamente?

-       Não claro que não!

Respondera rapidamente sem pensar. Porém Natália mentira. A outra não voltou à carga, mas a viúva ficou a matutar. No passado. Recente.

Havia mais ou menos ano e meio, talvez dois, que o marido surgia diferente. Antes, no início de cada semana Lúcio partia levando consigo o rebanho e as saudades. Quando no final da semana regressava, trazia quase sempre dinheiro, apetite e frio de companhia. O dinheiro entregava-o à Natália e esta por sua vez entusiasmava-lhe a gula. Mas à noite deitava-se tarde para que o marido a não incomodasse. Nunca gostara muitos desses temperos. Assim fora, sempre! Até nas núpcias Lúcio teve de aguardar em silêncio e abstinência, antes de saborear a carne fresca e macia da mulher, pois esta apresentou-se de panos e camisa, naquela que seria a noite das descobertas.

Ultimamente o pastor não trazia dinheiro, nem apetite, nem frio. Às questões sempre preocupadas da mulher, desculpava-se que o negócio estava mau, que os outros também se queixavam, havia de aguentar até chegarem melhores dias. Já se socorrera do pé-de-meia escondido no fundo de um baú carunchoso, amealhado durante os anos prósperos.

Natália por entre lágrimas e agradecimentos lembrou-se de como o seu homem andava triste, abatido. Alguma doença porventura. E ela que nunca ligara. Sentia agora o nó apertado na garganta do remorso de não se ter preocupado. E fora por isso que Lúcio se matara. De certeza! Sentindo no fundo a dor verdadeira da ausência do marido, a viúva carpia agora mais lágrimas, num desgosto sincero e arrependido.

Na capela as mulheres rezavam o terço. Os homens, em pequenos aglomerados na rua tagarelavam baixinho não fosse o defunto acordar, contando uns aos outros histórias do falecido em jeito de homenagem póstuma. E ali permaneceram parte deles até que a noite deu lugar ao dia.

O sol espreitou por detrás do monte. Lançou um braço de luz, depois cresceu outro e seguidamente mais outro, até uma nuvem branca esconder a claridade doirada da manhã. A igreja quase deserta, acordou em silêncio. Quando o sacristão veio tocar o sino, chamando assim o povo para a missa, já a grande sala estava repleta de povo de negro vestido.

À hora marcada o padre contrariado deu início às cerimónias fúnebres. Longa homilia, atitudes bruscas de um homem que devia naturalmente ser mais sereno. Por fim lá saiu o funeral com destino ao cemitério branco e silencioso. Quatro homens e mais quatro iam-se revezando nas alças de um pesado caixão castanho.

Natália lá ia caminhando, amparada a uma irmã e uma cunhada. De luto vestida, como seria natural, parecia ter envelhecido mais de dez anos. Junto à campa o pároco proferiu as últimas palavras e autorizou que o corpo descesse finalmente à terra.

À volta todos choravam por um homem bom, amigo da mulher e que estranhamente se suicidara sem razão aparente.

-       Ai Lúcio, que me deixaste para sempre… - exclamou Natália num último e gritante suspiro.

Mas à distancia, fora do cemitério e longe dos olhares viperinos de aldeia, uma mulher ainda nova, grávida, segurando na mão uma criança com pouco mais de um ano, ao ouvir os últimos palavras estridentes da viúva, sussurou baixinho:

-Também a nós, também a nós…

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por José da Xã às 23:31

Sábado, 14.04.12

Contos Breves - Tobias - XXX

Tobias gaiato, fora conhecido no povo pela sua invulgar e constante traquinice. Desde sempre que se habituara a conviver com os homens mais velhos de quem aprendera todo o género de malandrices e calão. Filho de um lavrador e de uma doméstica, era o mais novo de onze irmãos. O varão tinha já herdeiros mais velhos que ele, mas ainda assim impunha muitas vezes a sua vontade indomável de tio.
Sempre que algo de estranho acontecia, a aldeia logo clamava por Tobias, quantas vezes inocente. Depois após explicações e mais explicações, quando finalmente inocentado, logo surgia nova aventura. E começava tudo de novo. Porém diversas vezes o rapaz não conseguia esconder a verdadeira culpa e lá tinha de ouvir os ralhos duma mãe feérica e sofrer as sovas intempestivas de um pai incapaz de conversar com um filho.
Porém, diante dos outros rapazes da sua juventude, Tobias era um herói. Os jovens adoravam ouvi-lo a falar das aventuras que vivera e quantas vezes conheciam de antemão os próximos desafios. Fazer parte da equipa de Tobias era privilégio de poucos. Era frequente a miudagem armar zaragata para que pudessem mostrar quão valentes eles eram. Finalmente chamados à presença do chefe, sujeitavam-se a algumas provas a fim de serem aceites.
Mas os anos mantiveram a sua infinita marcha e fizeram de Tobias um homem. Crescera, abandonara as brincadeiras de rapazola e passou então a preocupar os pais das raparigas jovens e esbeltas. Nos bailes das festas, era sempre o primeiro a escolher par. E cachopa que com ele dançasse nessa noite, não dançaria com mais nenhum rapaz. Todavia alguns forasteiros que não conheciam a regra do jovem rapaz, acabavam por criar desacatos, a maioria das vezes só resolvidos com a intervenção das autoridades.
Entretanto Tobias transformara-se num pacato lavrador. Ajudava a família velha e doente a carecer de muitos cuidados. Pastoreava quando o tempo o permitia um enorme rebanho de gordas ovelhas e de irrequietas e indomáveis cabras castanhas. Trilhavas carreiros e veredas sem fim numa monotonia natural e própria de quem vive um momento de cada vez. Mudara muito o rapaz. Ficara na história própria da aldeia, as malandrices e as confusões que Tobias arquitectara enquanto miúdo. Hoje quando lhe evocam esses episódios, ri-se e pede humildemente perdão.
- Desculpem lá o mau jeito. Há coisas que fazia sem pensar...
- Deixa lá que também nos divertimos... – sossegavam os outros.
Certo dia, numa das suas deambulações pelos terrenos baldios onde o gado se entretinha a ratar a erva viçosa, subiu sem dar por isso ao cume da serra que abraçava a aldeia. Do cimo Tobias podia abarcar as longas charnecas e caminhos que rasgavam a paisagem em traços brancos e intermináveis. Na encosta que se alongava para o lado contrário da aldeia, um olival espalhava-se pelo declive íngreme. As árvores frondosas, carregavam azeitona em cachos vinícolas. Um gosto! Um primor! O esmero e orgulho perfeitos de um homem. O pastor encostou a mão à fronte como uma pala e observou com interesse e saber aquele olival. No pensamento tentou perceber quem era o felizardo proprietário da terra. Diversos nomes foram surgindo na sua ideia e a cada um deles foi respondendo, conforme se lembrava, em voz alta:
- Não o ti’ António Braga, esse não! A fazenda dele é mais para baixo! O Teixeira ainda menos! Nem sabe limpar uma oliveira como deve ser! Só se for do ti’ João Borras... Mas esse também não tem para aqui nada... – desabafava.
Subitamente, como de uma visão se tratasse, veio à ideia um nome: Chico Fole. Esse realmente tinha naquela zona alguns talhos de terra. E era costume nas feiras das redondezas gabarolar-se das suas oliveiras. Fanfarrão e egoísta, fora de certa vez vítima de uma partida bem velhaca. Alguém abrira as cancelas do redil onde pernoitavam algumas cabras. Estas, na sua costumada irreverência, invadiram um campo de milho, devastando parte da seara, já quase prestes a colher.
Enfurecido, irrompeu pela aldeia de forma violenta e logo procurou o jovem Tobias. Ali na rua sem mais provas acusou sem apelo o miúdo de ter aberto a cerca do gado. E nem valeram as insistentes negações do cachopo pois o povo, agreste e sedento de vingança, logo o condenou:
- É uma praga que cá vive...
- Ninguém pode andar descansado com uma prenda destas...
- É um perigo...
- Devia de estar num colégio, fechado...
- A aprender boas maneiras...
O pai, bruto e violento, nessa noite, arreou-lhe forte e feio com uma cilha, após algumas horas de busca, pois o rapaz prevendo o que viria a acontecer escondera-se num furdão vazio. Os vermelhões no corpo vincaram-se por várias semanas. Injustamente acusado Tobias jurou então vingar-se do Chico.
Perante esta amarga lembrança, renasceu no seu mundo a ideia de se fazer pagar pelo que acontecera, alguns anos antes.
- Mas como? – Perguntou a si mesmo.
Fazer entrar as cabras na fazenda era demasiado evidente. Repetia-se a história. Quebrar algumas das pernadas mais vergadas pelo peso da azeitona não lhe pareceu suficiente. Até que notou, junto a um marouço de pedras, a elevação silenciosa e cinzenta de uma grande pedra. Aproximou-se, mediu-lhe o tamanho com os olhos e tentou perceber se aquela se enterrava no chão castanho de terra fértil. A sorte trilhava desta vez, do seu lado e após alguns repelões, tornou-se evidente que o penedo estava solto. No dia seguinte logo pela manhã moveu o pedregulho com a ajuda de um alferce que trouxera de casa.
Empurrando daquele lado, levantando do outro, puxando deste aqui, foi Tobias levando sozinho a pedra para a beira da encosta. Depois aguardou que o gado pastasse bem longe e que a penumbra da tarde o envolvesse. Finalmente num gesto firme e resoluto fez rolar a pedra, encosta abaixo. Aquela começou devagar mas foi ganhando velocidade e força. E por onde passava tudo destruía. Oliveiras, sobreiros, pinheiros e eucaliptos. Parecia o fim do mundo. O chão tremia à passagem de tamanho calhau. Quando por fim parou, num evidente socalco, aquele havia deixado atrás de si um rasto de destruição.
Tobias, assim que lançou o enorme pedregulho, correu o mais que pôde até junto do seu gado e quando, quase à noite, entrou na aldeia surgiu do lado da charneca, sentido oposto da serra. Aguardou então serenamente o desenrolar dos acontecimentos. Tinha a perfeita consciência que o que fizera não era de louvar mas jamais esquecera a enorme, marcante e injusta surra com que fora brindado por um pai demasiado rigoroso.
Dois dias mais tarde, lançava Tobias a malha num chinquilho acirrado por cervejas e copos de vinho, quando surgiu o Chico Fole. Havia algum tempo que ele não se deixava ver. Mudara de terra devido exclusivamente ao seu mau feitio e surgia agora mais velho e acabado. Carregava uma cara de poucos amigos o que nele era normal e entrou em riste:
- Quem foi o sacana que fez aquele trabalho?
Os homens olharam uns para os outros em expressões de espanto e encolheram os ombros, num desconhecimento quase real.
- Mas o que é que aconteceu? – perguntou finalmente um dos mais velhos.
- Largaram uma pedra do cima da serra. Ela entrou para aquilo que é meu e deu-me cabo das oliveiras e não só. De tudo o que lá tinha. Quero saber quem foi?
- Mas a pedra não terá rolado sozinha? – questionou o outro crente nalgum fenómeno natural.
- Eu bem vi o rastro de que lá andou a empurrá-la. A mim não me enganam!
De entre todos houve quem olhasse para Tobias e manifestasse um ligeiro sorriso ao qual o rapaz nem se dignou responder. Alguns descartaram-se:
- Eu cá não fui e nem sei quem foi…
- Eu também não…
Mas as dúvidas e as desconfianças recaíram naturalmente em cima de Tobias. Este, tranquilo fingia que não percebia. E lançou a malha de ferro que aterrou com estrondo e perícia em cima do estrado derrubando o pino de madeira. Chico aproximou-se e olhando-o de frente questionou-o:
- Foste tu, não foste? – questionou a vítima, segurando com força as mãos pujantes de Tobias.
O outro não era mais um catraio. Os braços fortes fugiram do poder do mais velho, enquanto respondia:
- Não, não fui eu. Mas agora lhe digo que tenho pena de não ter sido. Sempre me vingava dalgumas coisas...
- Pulha! Vagabundo… - acusou Fole.
Mas Tobias nem ligou aos epítetos. Com tranquilidade continuou a jogar. O homem, desprezado pelos outros largou os jogadores, amaldiçoando a sua sorte.
Na manhã seguinte o pai velho e doente, aproximou-se do filho enquanto este ordenhava uma cabra e perguntou:
- Onde é que andaste com o gado, por estes dias?
Calculando onde o pai queria chegar, respondeu-lhe sem lhe mostrar a face:
- Tenho andado na charneca dos Gaitinhos. Tem lá bom pasto. Mas porque pergunta?
- Oh, porque… Por nada! Foi só para saber! – devolveu o pai sem azedume.

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por José da Xã às 00:24

Quinta-feira, 12.04.12

Contos Breves - A Briga - XXIX

- Canalha... gatuno...
- Gatuno eu? – e espetava o dedo indicador no seu próprio esterno, como ainda duvidasse para quem era dirigida a acusação.
- Sim, tu! Gatuno e aldrabão...
- Pensa bem o que dizes. Olha que eu vou-me a ti...
- Vem, vem. Levas tamanha cachaporrada nesse teu focinho... Dou-te cabo do canasto em menos que nada!
... Foi a gota de água. Envolveram-se os dois numa zaragata, onde tudo valia: varapaus, navalhas, socos e pontapés. Uma trupe de outros homens envolveu a disputa num círculo perfeito. Um fedelho tentou, por entre as pernas dos crescidos, chegar mais de perto do centro onde tudo acontecia.
Frequentemente os dois aldeãos ensarilhavam-se em disputa. O álcool era o grande mobilizador das animosidades. Uns canecos bem bebidos, alguém de propósito para puxar a conversa e estava montado o palco para mais uma briga. E ninguém conseguia separá-los. O Adérito Cruz na sua posição de cabo de esquadra da aldeia acorreu certo dia para apartar os dois contendores, mas mal virou costas, entendendo que tudo se apaziguara, recomeçaram tudo de novo.
E a zanga crescera de coisa comezinha. Justino herdara duma tia muito velha e solteira um pedaço de terra, não muito extenso mas bem situado e amanhado. Contíguo a este chão pegava o do Dinis. Este, sempre mostrara enorme interesse, anualmente renovado perante a dona, em adquirir o naco de fazenda. Convencido que um dia a proprietária cederia ao seu imenso desejo, ainda antes de falecer, enraiveceu-se quando certa manhã, ao toque de dobrar do sino da capela lhe foi dito que a tia do seu amigo havia perecido durante o sono. Contrariado pelo destino não esmoreceu na vontade de adquirir o leirão. Bastava agora, para tanto convencer com palavras e algum dinheiro o herdeiro.
Amigos e companheiros de escola, onde a professora Arlinda era a vítima preferida das suas diabruras, colegas de brincadeiras e outros amanhos, haviam construído uma amizade bem solidificada. Crente na fortaleza e sinceridade desta relação, Dinis aproximou-se do amigo e perguntou-lhe:
- Já vendeste a tua sorte no Chão de Fora?
- Vender? Vender porquê?
- Tu bem sabes que eu sempre quis aquela fazenda. Já viste? Ali colada à minha, tirava-lhe a parede... hum! Ficava um mimo.
A Justino já lhe haviam soprado nos ouvidos que o amigo admitira com as naturais farronfas em que era useiro e vezeiro, que o tal era seu, que pagaria uma ninharia e outras bazófias. Perante tal cenário o herdeiro decidiu que jamais venderia tal propriedade.
- Então porque não me vendes tu a tua?
- A minha? Tás tonto ou quê?
- Por que hás-de ser só tu a comprar? Eu não estou vendedor! De nada!
- Mas eu pago-ta muito bem! Diz quanto queres por ela?
- Nada! Não ta vendo e fim de conversa – observou Justino já realmente exaltado.
- Pois é! Depois admiram-se quando acontecem coisas…
- Escuta cá, Dinis. Isso é uma ameaça?
- Qual quê. Nem por sombras!
Começou assim o primeiro azedume. As duas leiras ficavam na encosta e a que originara a disputa arrumava-se a um nível ligeiramente inferior da do Dinis, todavia mais perto do caminho com melhor asseguia.
Ora certa manhã subia Justino o carreiro para um pequeno talho de terra perto do Pinhal Velho e que contornava a fazenda herdada quando notou que a parede que dividia os dois lotes estava quase toda desmanchada. Preocupado, entrou na propriedade e admirou com alguma raiva o trabalho ali realizado. As pedras atapetavam parte do chão arrasando uma parte da sementeira de aveia que ali lançara. Logo se lembrou da ameaça velada feita pelo Dinis. O sangue ferveu nas veias e logo pensou em pedir reparo do estrago ao seu vizinho. Mas rapidamente calculou que ele recusaria qualquer acusação e assim engendrou uma maneira de se fazer pagar da fajardice.
Com trabalho e coragem começou a carregar cada pedra, cada calhau e atirou-o para dentro do outro terreno. Foram horas e horas de tenacidade e teimosia. Após finalizada a empreitada, sorriu e esperou a resposta. E esta, claro, não tardou.
No dia seguinte, almoçava Justino pacatamente, quando Dinis o chamou da rua. Ao ouvir o seu nome o lavrador levantou-se, tragou uma última golada do vinho que tinha no copo e atendeu finalmente à chamada:
- Chamaste-me Dinis?
O outro entrou a matar:
- Olha lá, que brincadeira foi aquela de me atirares as pedras para dentro daquilo que é meu?
- Espera aí homem. De que estás a falar?
- Da parede?
- Qual parede? – Justino fazia-se de novas.
- A que divide as nossas fazendas.
- Mas eu não vou a esse chão para mais de uma semana. Andei na altura a fazer os terreiros às oliveiras e foi tudo.
- Pois é. A verdade é que o muro está todo desmanchado no que é meu. E só podes ter sido tu a fazer aquilo!
Os timbres de voz cresciam a cada frase e sentindo que algo de grave podia acontecer, Alda mulher de Justino veio sorrateiramente em auxílio, não do marido mas duma amizade ora quase desfeita.
- Eh lá então! Não querem lá ver! Dois homens a portarem-se que nem miúdos da escola. Parem lá com essa conversa!
Justino não estava pelos ajustes e num tom zangado e pouco habitual repreendeu a mulher de forma violenta e malcriada:
- Porra mulher! Deixa-me em paz, que este assunto ainda não mete saias. Vai para dentro à tua vida.
Mas Alda não se atemorizou e replicou na mesma ufania:
- Não mete saias nem mete calças, mete é cueiros…
E deixou-os a ambos. Justino nem sabia o que fazer; de um lado a mulher furibunda com a situação; do outro o Dinis a querer fazer pouco da sua vida. Sensatamente, optou pela companheira e com um jeito à laia de desprezo abandonou a contenda e entrou em casa.
A partir deste dia Justino tomou o outro como inimigo a abater e sempre que podiam zaragateavam. Uns murros, pontapés, de quando em vez lá malhava um cajado, mas regressavam sempre a casa pelo seu próprio pé. Magoavam-se mais na alma que no corpo, de tal forma que até o velho Almeida dizia entre duas puxadas na beata sumida:
- Aquilo é só gente de arranca botão!

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por José da Xã às 21:18

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