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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Sexta-feira, 30.03.12

Contos Breves - Amor Tropical - XLI

O corpo esbelto e bem torneado de Regina era o tema de todas as conversas no povo. Chegara havia semanas acompanhada do pai Bernardo, um filho da terra que partira para terras de Vera Cruz havia mais de trinta anos e durante todo esse tempo jamais comunicara com a aldeia que o vira nascer. Regressara finalmente acompanhada pela filha de pele morena, queimada pelo sol tropical e longos cabelos loiros, tal qual a seara de trigo, que tantas vezes em gaiato ajudara a ceifar.

A jovem, era agora alvo de falatório aguçado e viperino. As mulheres quase todas viúvas, mal casadas ou mal amadas, respingavam com azedume palavras ásperas com o intuito de magoar pai e filha:

- Uma desavergonhada! Uma tentação do Diabo!

- Doidivanas é o que é! Que descaramento! Vir para aqui assim… naqueles propósitos…

E o assim correspondia a saias muito curtas, evidenciando um par de pernas bem desenhadas e acobreadas. A jovem, porém, não temia os ditos. Sorria, apenas. Havia muito tempo que se habituara a ser o centro perfeito dos homens e o imperfeito das mulheres.

Regina adorava passear pelos campos, repletos de flores silvestres. Só. Saía de casa manhã cedo e explorava com natural emoção locais e referências doa quais o pai sempre lhe falara. Não temia ninguém e muito menos o povo sereno da aldeia, não obstante as venenosas observações de que era alvo.

Os jovens rapazes sonhavam romances arrebatadores e paixões quentes e impossíveis com a jovem estrangeira. Todos lhe queriam conquistar o coração. Havia mesmo quem já imaginasse coisas…

 Ora certa tarde de uma primavera luminosa o Alfredo entrou na taberna do Bilhas e anunciou com ar triunfante:

- Aquela já cá mora no "papo" do menino! - e batia com as mãos no peito inchado.

Os outros desconhecendo a quem se referia o galã, perguntaram:

- Aquela quem?

- A brasileira…

- A brasileira? Mas que é que lhe fizeste?

- Ainda nada! Mas não tarda nada ides ver…

No pensamento dos amigos passou a imagem quase proibida da jovem nua e ao alcance da mão.

- Não acredito! – Afirmou com relutância Jorge.

- Então não acredites! Isso é contigo.

- Mas conta lá o que é que aconteceu.

Uma dúzia de olhos, ávidos de relatos mais coloridos, convergiu a atenção para o que Alfredo iria dizer.

Apanhado na sua própria arrogância e mentira, o jovem rapaz começou por coçar a nuca numa preocupação evidente. Pigarreou e finalmente avançou:

- Uma destas tardes andava eu à caça, lá para os lados da Pia Estreita…

- … mas agora estamos no defeso, se a Venatória te apanha… - cortou o Felisberto.

- Eh pá cala-te, deixa lá o rapaz falar – zangaram-se os outros.

- Pronto, pronto, não digo mais nada. Continua Alfredo…

- Ora com estava a dizer eu andava lá para os lados da Pia, quando vi ao longe uma figura toda jeitosa - e desenhou no ar com as mãos as curvas de um corpo.

Um coro de assobios soou na tasca. Continuou:

- Aproximei-me devagar e encontrei a brasileira envolta em silvas, picando-se e rasgando as mãos, pernas e braços. Então cheguei ao pé dela e perguntei-lhe calmamente: quer que eu a desamarre desse enredo?

Todos o miravam em silêncio, aguardando a resposta que a jovem teria dado:

- … tremia como varas verdes, parecia que lhe metia medo…

Estas últimas palavras haviam sido proferidas pela própria Regina que entrara na taberna com à-vontade e escutara as últimas fanfarronices de Alfredo. Este, num estalo de dedos, transformou-se na cor da cal. O ar zombeteiro e marialva fora substituído por um agitar demasiado nervoso.

O suor escorria testa abaixo deixando antever a agitação que o invadia. Os amigos que o rodeavam perceberam rapidamente o estado de espírito do outro e inclementes atacaram:

- Olha lá Alfredo foi mesmo assim como diz a Regina? Tremias que nem um pudim em dia de boda?

- Nem pensar! Ela é que está a exagerar!

- Mas tu disseste que ela estava no “papo”! Ou fui eu que ouvi mal?

A atrapalhação da última pergunta fez com que Alfredo abandonasse o café bufando e praguejando. Os restantes mantiveram-se na loja, riram do jovem gabiru e aproveitaram para conversar com a brasileira, que no seu linguajar doce ia deitando algumas achas nos corações daqueles jovens repletos de ideias e paixões apenas sonhadas.

- Vocês são uma gracinha! Mas aquele pobre partiu triste…

- Deixe lá Regina. Ele é um gabarola muito conhecido na aldeia e arredores. Já ninguém vai na conversa dele! Mas conta histórias engraçadas e nós gostamos de o ouvir…

A jovem ficou com os homens na taberna, tornando-se um deles. Ria alto, contava piadas, ouvia com atenção as dos outros e bebia cerveja naturalmente.

Devagar a aldeia foi-se habituando à presença da brasileira. A simpatia que irradiava acabou por ser contagiante e finalmente o povo aceitou a jovem tal como era. Visitava os idosos fossem ou não da família, ajudando-os em algumas tarefas caseiras, apaziguando alguns corações mais revoltosos.

Desde os acontecimentos na taberna que Alfredo fugia da bonita brasileira. Temia que esta o envergonhasse uma vez mais. Assim que chegava do trabalho recolhia-se a casa, ajeitava a horta que crescia nas traseiras, dedilhava um velho banjo que herdara de um avô, suspirava… De manhã pegava na velha motorizada e partia bem cedo para a fábrica. Porém foi a jovem Regina que o apanhou desprevenido um sábado à saída de casa, quando aperaltado se dirigia não sabia bem aonde, só sabia que estava farto de estar em casa fechado:.

- Oi como está você?

O rapaz deu um salto, pensou voltar para trás mas ganhou coragem e respondeu ao cumprimento:

- Estou bem! E a menina?

- Tudo numa boa. Me diga uma coisa, porque me evita?

Ele merecia aquele castigo.

- Eu peço imensa desculpa. Sou um parvo…

- Não é nada. Você não me fez mal algum. Foi só a si…

- É, sim… claro! – Alfredo tremia. Sentia-se desfazer-se na frente daquela bonita mulher. Parecia a do calendário que o Fernando expunha no velho barracão. Aqueles olhos verdes, o cabelo longo, o corpo perfeito…

A jovem sorriu. Tinha perfeita consciência das sensações que causava. Mas aquele rapaz era ainda muito ingénuo, não obstante a gabarolice das suas palavras. Por isso pegou-lhe na mão, puxou-o para si e beijou-o ternamente. Alfredo nem queria acreditar. Um sonho tornado realidade. Uma paixão tanto tempo alimentada de sonhos e desejos… E respondeu como pode e sabia ao ósculo feminino.

- Gostou?

- Eu… eu … - gaguejou – não sei o que dizer. Desculpe.

Regina riu. Pegou-lhe na mão e puxou-o para si.

- Eu gosto de você! Me quer?

Alfredo derretia-se. Tremia, tremia como estivesse perante uma fera e não duma mulher. As palavras nem saíam. A garganta travava a fala. A emoção do momento era demasiada para o jovem coração. Finalmente recompôs-se e perguntou:

- Isso é a sério? Não está a mancar comigo?

Regina voltou a sorrir e respondeu:

- Pateta, claro que não. Eu não brinco com os sentimentos dos outros…

- Quero sim menina e muito…

- Não me trate por menina. O meu nome é Regina Novais.

Meses depois casavam na velha capela da aldeia com a pompa e circunstância que a cerimónia obrigava. Ao sair de braço dado com a noiva, Alfredo piscou o olho matreiro aos amigos que o aguardavam na rua.

- Afinal ele sempre a caçou… um sortudo! - comentou com os companheiros, quase em surdina, o Jorge.

Nesse instante alguém ouviu e respondeu também em surdina:

- Hum! Creio mais que foi ela que o caçou…

Os jovens olharam para trás e deram de caras com Bernardo, que sorria… feliz.

 

 

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por José da Xã às 23:11

Sexta-feira, 30.03.12

Contos Breves - A estória de Zézita - XIX

No quarto atarracado e humilde, duas mulheres rodeavam Maria da Glória, que sofria atrozmente para parir. Uma, a Josefina era a parteira, mulher forte e experiente naqueles trabalhos de pôr no mundo nova gente, a outra era a Almerinda, mãe da parturiente. Ao lado, na sala rústica que servia também de cozinha João, marido da parturiente, guardava ao lume a panela de ferro com água. Sempre que ouvia a mulher gritar tragava de uma penada um cálice de aguardente como se ele apagasse os gritos e acalmasse o sofrimento.

Quando uma das mulheres saía do quarto em busca de água quente, o patrão perguntava:

-          Então, ainda falta muito?

-          Está quase, João, está quase! – Respondia invariavelmente.

E voltava a entrar no quarto. Novo grito e mais um cálice. Ao fim de um bom bocado a velha Josefina aflorou à porta para comunicar o nascimento da criança e encontrou o homem completamente bêbado ressonando em cima da velha mesa de madeira.

-          João acorda! – tentou a parteira sacudindo o novo pai. – Acorda João!

Estremunhado o bêbado levanta a cabeça e pergunta com a voz turvada de tanto alcool:

-          Então já nasceu?

-          Sim, é uma menina!

João ergueu-se de um salto mas a bebedeira era tamanha que caiu redondo no meio da sala. A outra regressou então ao quarto barafustando:

-          Raio de marido. Nem no nascimento da filha!

O dia seguinte amanheceu chuvoso. Uma chuva miudinha que entranhava na roupa até à pele. O homem levantou-se do chão frio e procurou logo a garrafa de aguardente. Mas esta encontrava-se vazia. Abriu a porta da rua e notando a chuva logo ralhou:

-          Que porcaria de tempo! Mais um dia sem fazer nenhum.

De súbito ouviu um choro de uma criança e logo se lembrou da filha que nascera na noite anterior. Dirigiu-se ao quarto e abriu a porta com cuidado. A mulher amamentava a filha num gesto pictórico que João jamais observara. Aproximou-se com delicadeza e perguntou baixinho:

-          É bonita a nossa menina, não é?

A mulher olhou-o com tristeza, mas respondeu:

-          É linda!

-          Que nome lhe vamos dar?

-          Pensei em Maria José como a tua falecida mãe.

-          Acho bem. Será Maria José.

João deixou a mulher de volta da criança e saiu, cruzando-se na rua com a sogra. Almerinda mal o cumprimentou, ainda aborrecida com a noite anterior em que ele bebera demais. O homem levava o sentido da taberna onde se preparava para comemorar o nascimento da filha, mas lembrou-se do olhar severo da velha mãe e arrepiou caminho e optou por ir para a horta onde ajeitou com perícia a terra molhada à volta das couves ainda tenras.

Os meses vieram trazer à realidade que Maria José não era normal. Desde logo se percebeu algum atraso no desenvolvimento. As idas com a criança ao hospital eram frequentes devido a um número anormal de ataques indefinidos. Após alguns exames os médicos concluíram que a menina tinham um desenvolvimento intelectual realmente abaixo do que seria normal e desejável. E assim seria para o resto da vida. Mas a mãe, desgostosa e inconformada com a sina, perguntou certa vez ao médico, por entre lágrimas e soluços:

-          Porque é que a minha filha é assim, senhor doutor?

O homem sentiu o olhar sincero e resignado daquela mulher e em vez de responder perguntou:

-          Diga-me lá uma coisa. O seu marido bebe muito?

-          Bebe sim, senhor doutor – respondeu.

-          E a senhora? Também bebe?

-          Eu senhor doutor? Eu não! Não gosto, nem de vinho, nem de aguardente. Pelo S. Martinho lá beberrico um dedito de jeropiga, mas é coisa pouca.

O homem passou a mão pela barba mesclada e finalmente confessou:

-          Pois creio que o problema seja mesmo do seu homem. O álcool em exagero cria situações destas. Não é caso único por estas bandas.

A mulher lembrava-se ainda daquela noite em que o marido chegara a casa perdido de bêbado na véspera do casamento de um sobrinho. Semanas depois descobria que estava grávida.

No regresso a casa, Maria da Glória fez uma promessa: enquanto a filha vivesse o marido jamais lhe tocaria, nem com um dedo.

Já era noite quando finalmente transpôs a porta de casa. Como de costume o João não estava. Sem se preocupar em demasia com a ausência, tratou de preparar a menina e adormeceu-a ao colo enquanto mamava no peito volumoso da mãe o leite já quente e temperado.

Deitou-se, por fim. Dormia já, quando sentiu o corpo pesado do homem. Trazia consigo o costumado e repelente bafo a vinho. O marido ajeitou-se na cama tentando chegar-se à esposa. Mas esta, duma forma brusca e determinada, repudiou-o com veemência. João estranhou a reacção pouco usual da mulher e aguardou por outra noite.

Só que essa noite jamais chegou. A esposa evitava o marido e arranjava todas as desculpas para a fuga. Certa vez, já varado com tanta abstinência, João virou-se para a companheira e perguntou-lhe:

-          Olha lá, que mal é que eu te fiz para já não me quereres?

-          Que mal me fizeste? Olha para a tua filha e descobre!

-          Descubro o quê?

A mulher suspirou um pouco, fechou os olhos e respondeu de forma repentina e brutal:

-          O senhor doutor disse-me que a Zézita ficou assim porque bebes demais. E como gostas mais do vinho do que de mim, ficas-te com ele. Em mim não tocas mais enquanto beberes.

O João ficou atónito e nem sabia o que dizer. Nessa noite o homem foi dormir para a barraca que erguera no chão da horta. A ideia de largar o vinho repugnava-o. Mas o pensamento de não passar uma noite com a mulher ainda se afigurava pior. Entretanto preferia aguardar até que passasse aquele desígnio infeliz da mulher.

Mas o gosto pelo vinho mandou mais na sua vida que o desejo da carne da esosa e passaram-se tempos sem que João tocasse nela. Por outro lado Zézita crescia e notava-se cada vez mais o evidente retardamento da menina. Se fisicamente parecia estar dentro do normal, intelectualmente era visível o seu atraso. Não conseguia acompanhar a escola e assim nem aprendeu a ler nem a escrever. Porém com a ajuda de uma mãe cada vez mais carinhosa foi aprendendo a lida da casa. Fazia devagar mas conseguia dar conta do recado. O pai olhava por vezes para a cachopa e começava a odiá-la. O sentimento de revolta fora substituído por uma vontade imensa de fazer desaparecer a rapariga.

Os anos passaram e os cabelos castanhos deram lugar a cãs e as mãos pujantes e enormes transformaram-se num conjunto de ossos, carregados de dores reumáticas. A barriga crescera com o álcool, assim como o peso que quase chegava à centena de quilos. Enfim João estava velho e doente. Zézita era há muito uma mulher feita. Falava pouco, mas fazia sempre sem azedume o que lhe pediam. A mãe envelhecera também e estava muito mais mirrada que o marido. As preocupações da filha e o permanente estado alcoólico do companheiro fizeram da mulher um palco perfeito de maleitas. Se não fosse o pequeno pé-de-meia que juntara aquando da venda de um pinhal provavelmente que a conta da loja seria muito maior. Aproximava-se a viajem final e o seu temor era a rapariga deficiente.

Quando morreu, nem pai nem filha carpiram a sua partida. Ela, porque só mais tarde percebeu, o pai porque havia muito que não conhecia a mulher. Quantos anos sem tocar na companheira… mas muito vinho bebido. Antes assim…

Os dias sucederam-se. Sentado à soleira da porta, João após várias achaques, mal falava. Deixara finalmente de beber, mas agora já era tarde. Maria da Glória havia muito tempo que partira. E a quem o saudava, respondia com algo imperceptível.

Certo dia, quando o primeiro sol de Primavera tendia a aquecer, João sentou-se como habitualmente no seu lugar preferido. A filha andava por casa, a arrumar tal como a falecida lhe ensinara. A rapariga saiu entretanto e trazia vestido uma velha bata, que fora da mãe. O pai olhou-a contra o sol e conseguiu vislumbrar as formas femininas da filha. E nesse mesmo instante, assaltou-lhe uma ideia.

Num passo lento e pesado recolheu a casa. De súbito Zézita viu-se sozinha na rua. Entrou apressada em casa onde encontrou o pai deitado na cama mal feita. Preocupada no seu pobre pensamento dirigiu-se ao antecessor:

-          Que tem pai?

Com evidente dificuldade João respondeu:

-          Nada. Senta-te aqui ao pé de mim!

A filha obedeceu com submissão. João pegou na mão da Zézita e ao fim de mais de 40 anos conseguiu finalmente vingar-se da mulher.

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por José da Xã às 22:07

Quinta-feira, 29.03.12

Contos Breves - Ana Descalça - XL

Viviam-se tempos incertos. As terras mal amanhadas exigiam braços para lavrar e deitar ao solo as sementes para nova colheita. O Francisco Xavier olhava a fazenda coberta de erva e mato, subia a pala da boina até ao topo da testa e lamentava-se:

- Quando é que vou ter este chão lavrado?

E respondia logo de seguida:

- Nunca!

A leira estendia-se da baixa da Ribeira das Mós até ao cimo onde iniciava a tapada do ti’Brito. A brisa daquele fim de tarde carregava frescura e parecia anunciar chuva:

- E se chove ainda por cima…

A chuva seria bem vinda, mas só depois da sementeira. Até lá haveria de arranjar braços.

- Mas onde?...

Nessa noite na taberna enquanto dormitava entre dois copos de três, encostado à mão calejada, ouviu o Joaquim Goivo a falar sobre umas mulheres que trabalhavam a terra, tal qual um homem. O preço era mais barato e no despacho era semelhante ao que dava um homem. Ouvido atento Chico deixou que o outro fosse soltando a língua. Para isso pagou mais um copo:

- … Traçadinho, se fizeres favor ó Januária.

E lá ia destravando a conversa. Nessa noite Chico deitou-se mais descansado. Já soubera onde encontrar pessoal para a sua lavra. Logo pela manhã, ainda o sol não despontara por detrás da serra de Santa Teresa e já o homem aparelhava a burra. Légua e meia separava-o da terra onde as mulheres trabalhavam que nem homens.

Muito caminho para palmilhar com a esperança no coração. Não fosse o Tó Telhas ter vendido o gado para emigrar e nada disto seria necessário, porque a junta de vacas que o Tó costumava passear pela aldeia com orgulho servia na perfeição para amanhar o chão. Enfim o que precisava agora era de gente para tratar a terra.

Soava o meio-dia quando chegou à terreola. A manhã mantivera-se fresca ameaçando chuva, que não chegou a cair. Ao longe conseguiu finalmente ver o relógio da velha igreja que sobressaía dos restantes telhados. Antes de entrar no povo, desmontou-se da burra e continuou o caminho a pé até encontrar uma tasca onde pudesse enganar a barriga esfomeada.

As ruas eram estreitas e o chão pedra cinza. O som das ferraduras do animal ecoavam e de quando em vez viúvas curiosas assomavam à porta ou à janela dando fé de quem passava. Chico, quando as via, saudava com simpatia, recebendo normalmente também um cumprimento:

- Bom dia!

- Bom dia, senhor!

A rua principal desembocou no largo da igreja. Ao lado, uma velha porta aberta deixava antever o interior de uma taberna. Chico entrou e saudou:

- Bom dia.

Nas entranhas da loja fervilhava um odor profundo a vinho azedo misturado com o fumo de tabaco barato. Uma lâmpada caía do tecto, negra das moscas. Nas mesas toalhas de plástico de quadrados vermelhos, semi-rasgadas cobriam os tampos velhos e sujos. Um pano seboso retirou os vincos redondos dos copos de vinho. Foi o que fez o taberneiro quando o aldeão se sentou:

- Então viajante o que o trás por cá?

- Boa tarde, primeiro preciso de comer alguma coisa! O que é que tem?

- Chouriço para assar, couratos…

- Pode ser o chouriço! E um jarro de vinho.

- É para já…

Aguardou pacientemente que o petisco chegasse. Entretanto foi reparando no pouco movimento da casa. Ou fosse do espaço sombrio e triste, ou fosse da hora, ainda relativamente cedo, a verdade é que poucos eram os clientes. O taberneiro surgiu finalmente com o prato ainda fumegante, um naco de pão e o respectivo jarro de barro repleto de vinho sangue e espumoso. O patrão era um homem atarracado, redondo de barriga e pernas, cara tal qual uma abóbora como as que cresciam nas terras fecundas, calva plena. Caminhava com passos curtos e apressados e trajava à volta da cintura um pano que já vivera outras brancuras.

Chico Xavier era pobre mas sempre se habituara à limpeza e aquele não era o esmero do asseio. No entanto o chouriço era excelente, assim como o pão e o vinho. Após ter pago a despesa passou para a parte que o obrigara a sair da sua aldeia.

- Sabe-me dizer onde mora a Ana Descalça?

- Oh se sei! Segue aqui ao lado da capela até encontrar uma enorme amoreira. Esse é o quintal dela. Tem de dar a volta ao cerrado que a casa é do outro lado – e gesticulava com as mãos sapudas e gordurosas tentando ajudar o forasteiro.

- Obrigado – agradeceu Xavier enquanto se apercebia de um sotaque característico no taberneiro.

Pagou, agradeceu uma vez mais e partiu em busca da Ana. O nome soubera-o na noite anterior quando o Joaquim soltou as amarras da língua e despejou o que queria e não queria, pois o homem era pouco dado a conversas da sua vida e aquele momento fora obviamente um achado a roçar a denúncia.

A amoreira surgiu enorme na sua frente. Um muro de pedra não evitava que se visse o naco de terra que ali se espraiava. Bem tratado, a horta parecia um jardim. Esguias canas surgiam do chão segurando os feijoeiros verdes e viçosos. Mais ao lado tomateiros, pimenteiros, cebolas, alhos, batatas tudo crescia como se tivesse sido ali posto com régua e esquadro. Chico aprovou o que via e procurou a porta. Para a estrada de terra batida apenas reparou nas janelas. A porta surgia ao lado, mas um portão de ferro impedia-lhe a passagem. Bateu no portão com vigor e chamou:

- Ana! Ó Ana!

Silêncio. Apenas se ouviam os pardais no cimo da amoreira numa chilreada infernal. Logo percebeu que Ana não se encontrava em casa. Havia que aguardar pacientemente. Deixou que a burra procurasse de comer num baldio defronte da casa enquanto Chico rebolou uma pedra para debaixo de uma oliveira e a esta se encostou aproveitando para colocar algum sono em dia. Acordou quando ouviu o portão da casa a bater com força. Levantou-se lesto e acorreu em busca de Ana. Bateu suavemente e desta vez ouviu alguém responder:

- Quem tá aí?

- Ana?

A mulher apareceu. Trazia nas mãos uma galinha que se debatia para fugir. Trajava uma roupa de trabalho muito suja e amarrotada. Ana era magra, cabelo preso na nuca, andar despachado e face rasgada por anos de trabalhos. Chico mirou-a de alto a baixo e não obstante a sujidade, gostou da forma simples como se apresentou. Calçava uns sapatos velhos e sujos, mas foi perguntando:

- Quem é o senhor?

- Sou o Chico Xavier. Venho daquela aldeia por detrás da serra em busca de gente para vir trabalhar para mim.

- Ai sim?

- Pois eu sei que trabalha bem a terra. O Joaquim Goivo é que me disse – avançou antes que ela o mandasse embora.

Ao ouvir o nome do Joaquim, Ana pareceu outra. Deixou aquele ar agitado e falou com mais calma.

- Foi ele que falou de mim?

- Foi…

- E o que disse?

- Que era boa trabalhadora, tal qual um homem. E pelo que vi na sua horta, ele tem razão…

Os lábios da camponesa abriram-se num sorriso franco. A horta de Ana era a sua única vaidade. A mulher estremeceu ao ouvir falar da sua terra.

- Gosta?

- Gosto sim senhora. Bem tratada aquela terra. Foi você que fez aquilo?

- Sozinha… - Ana estava feliz, deslumbrada.

- Belo trabalho, sem sinhora…

Mas Chico temia que aquela forma de abordagem não fosse suficiente para convencer a mulher a trabalhar para ele. Passou então ao que interessava:

- Está disposta a vir tratar do meu chão?

- Ainda não sei… - após breve silêncio devolveu -  e quanto paga?

- Pago-lhe mais que pagou o Joaquim.

- Assim gosto mais da conversa.

- E dou-lhe de comer e onde dormir. Se arranjar mais alguém, também pode levar. Há lá muito trabalho para fazer…

A necessidade obrigava-o a abrir os cordões à bolsa.

- Isso é que é falar…

Chico percebera no diálogo avinhado do seu conterrâneo que a mulher pelava-se por dinheiro. E pagar mais seria a única maneira de a levar até à aldeia.

- Posso então contar consigo?

- Não sei. E é para fazer o quê?

- Tenho um grande pedaço de chão a pedir enxada, já que quem me lavrava a terra antes, emigrou para a América.

- Hum, e quanta gente precisa?

- Duas ou três… mulheres - ele não sabia bem que número avançar.

- E para quando?

- Logo que pudessem. Estou apertado com o tempo. Daqui a pouco chove e eu preciso do chão cavado para deitar sementes à terra.

Ana coçou a cabeça por cima do lenço que lhe tapava o cabelo sujo e após alguns segundos de silêncio concordou:

- Depois de amanhã estamos lá. Eu e mais duas mulheres.

- De acordo, espero por vocês lá. Eu vivo perto da fonte de Santo António. Pergunte por mim que toda a gente sabe onde moro.

Chico partiu feliz. Finalmente conseguira alguém para trabalhar a sua terra. O chão era bom mas urgia trato. Quando entrou em casa já noite profunda, carregava um ar mais aliviado. Dois dias depois, manhã cedo ouviu bater à porta. Admirou-se que alguém viesse a sua casa tão cedo, mas respondeu:

 - Já vou!

Quando escancarou a entrada deu de caras com Ana, acompanhada por mais duas mulheres.

- Cá estamos, conforme combinado.

- Bom dia. Não vos esperava tão cedo.

- Acredito, mas saímos ainda de madrugada.

- Muito bem, vou-vos levar à casa onde vão ficar estes dias.

- Isso é que é falar!

Chico regressou ao interior da sua casa, rapou das chaves de um velho casacão e partiu com as mulheres. Pelo caminho foi-lhe indicando alguns locais mas as trabalhadoras não se mostraram muito interessadas. No casarão, que em tempos fora uma habitação quase nobre, abriu a porta e acendeu um coto de vela. Uma luz parda e mole iluminou mal a entrada.

- É aqui que ficam. Isto está um bocado sujo, mas vocês podem limpar de forma que fique em condições para vocês viverem.

- Está bom. Nós tratamos do resto. Sempre é melhor que o palheiro do “Jaquim”.

Aquela maneira engraçada de falar é que o espantou mais o Xavier.

- Bom então quando podem começar?

- Logo a seguir ao almoço, pode ser?

- Pode, pode… Eu já vos trago alguma coisa para comer.

- Hoje não, amanhã!

- Como queiram. Então à uma estou cá...

À hora aprazada quando chegou junto à casa, já as três mulheres o aguardavam.

- Boa tarde, meninas! Vamos lá?

- ‘Bora! – Responderam em uníssono.

A terra a amanhar surgia quase imponente. Chico apontou as estremas e exclamou:

- Eis aqui o chão para tratar. Daqui até ao fundo, junto daquele velho carvalho.

- Podemos começar?

- Claro, quando quiserem.

As mulheres pegaram nas enxadas previamente trazidas pelo Chico e sem mais nada descalçaram-se e entraram na terra. O patrão olhou-as com espanto mas nada disse. Ana e as companheiras cravavam na terra o aço da alfaia, com vigor ombreando com o mais forte aldeão.

No dia seguinte bem cedo as cavadoras recomeçaram o trabalho com o mesmo vigor. Na tarde anterior haviam cavado um bom pedaço. Falavam na sua forma engraçada por vezes quase imperceptível. A terra revirada, ferida pelas enxadas frias estava agora quase pronta para a sementeira de Xavier. Ana e as companheiras continuavam a descalçar-se sempre que entravam para terra. Chico espantado perdeu a vergonha e perguntou:

- Porque te descalças, rapariga? Tu e as tuas amigas?

Ana olhou-o de frente e em vez de responder, questionou o patrão, naquele seu sotaque tão invulgar:

- Vossemecê vinha para aqui calçado?

- Eu? Claro! Porque não?

- Porque eu não gosto de estragar os sapatos. Eu não sou rica para comprar outros.

Chio abanou a cabeça em total desacordo, mas não disse mais nada. Dava gosto ver aquelas mulheres trabalhar, fosse calçadas ou descalças.

- Esta terra fica um mimo. Tem pouco pedra, desfaz-se bem – exclamou uma das companheiras de Ana.

A tarde corria para o fim. O sol escondia-se por detrás da colina. A brisa da tarde levantava pó como uma nuvem sempre que a enxada fendia a terra. Chico olhou o relógio de bolso e exclamou:

- Meninas! Por hoje chega!

Mas Ana logo retorquiu:

- Pelo menos deixe-me chegar até aquela estrema. Fica mal um bocado por cavar.

O patrão aceitou.

- Seja como vocês quiserem.

Uma enxada silvou no ar e subitamente bateu numa das poucas pedras escondida pelo mato, soando um som metálico do choque. Logo de seguida um grito estridente veio das mulheres. Fora Ana a vítima. A folha da guincha resvalara na pedra e acertou no pé descalço cortando-o numa ferida profunda. A mulher gritava, tentando em vão estancar o sangue que jorrava abundantemente:

- Ai, ai, ai o meu sapatinho…

Xavier abismado ainda olhou para o pé, mas não viu nenhum sapato, nem perto. Mas Ana continuava a lamúria:

- Ai, ai, ai o meu sapatinho… Se tenho o meu sapatinho calçado estava agora todo cortado… Ai o meu rico sapatinho…

 

 

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por José da Xã às 23:50

Quinta-feira, 29.03.12

Contos Breves - As Pias da Ladeira - XVIII

Do fundo do vale profundo não se vislumbra na serra um pequeno declive, a que se dá o nome de Pias da Ladeira. É um local sereno de terra centieira e onde o horizonte parece ficar para lá do infinito.

Em tempos idos, viveu neste lugar uma família, constituída por um casal já idoso e três filhos: dois varões fortes e esbeltos e uma rapariga jovem e atraente. A casa, de pedras cinzentas e frias, unidas com barro, era acanhada mas resistente. Nos invernos mais rigorosos o vento conseguia fazer-se ouvir por entre as velhas telhas cobertas de musgo, enquanto a chuva batia com violência nas vidraças. Porém, o calor de uma lareira de labaredas sempre crepitantes e desiguais mantinham o lar quente e acolhedor.

Ladeando a casa ficavam quatro generosas pias, que davam o nome ao lugar e que a mãe natureza ali deixara como exemplo do seu poder de esculpir na rocha. Cobertas com largas lajes de pedra, ali colocadas por mão humana, só se abriam com esforço e em época das chuvas. Enchiam-se então até transbordar, permanecendo o resto do ano tapadas, mostrando apenas uma pequena abertura donde todos se serviam. Lá dentro marulhavam pequenos peixes que limpavam a água de forma que esta nunca se estragava. O clã vivia do que a terra bem amanhada lhes proporcionava. De sol a sol era vê-los, pai, mãe e filhos labutando o chão com saber e empenho numa alegria constante.

Por vezes, enquanto o sol escarlate da tarde solarenga descia placidamente no horizonte, aquela gente parava um pouco e olhando o vale verde e imenso, onde as oliveiras surgiam como singelos pontos, sentiam-se felizes.

No sopé da serra verdejante estendia-se uma pequena aldeia. Mas aquele pequeno grupo, de quem ninguém sabia o nome, raramente descia ao povoado. E, sempre que o fazia, era apenas para trocar algum gado por vestes ou melhores sementes. Quando pai e filhos circulavam pelas ruas pequenas, a multidão aldeã olhava-os sempre curiosa e desconfiada.

Certa altura a aldeia foi invadida por uma mortífera febre que dizimou muitos aldeãos. Nas Pias da Ladeira desconheciam por completo a doença e os perigos de contágio. Quando, mais uma vez, os três homens desceram à aldeia para o seu costumado negócio logo notaram que algo havia transtornado o povo naturalmente humilde e pacífico. Em quase todas as portas havia uma cruz de vermelho pintado como sinal de morte pungente. O silêncio predominava para além do que era normal. Nem cão ladrava, nem gato miava, nem qualquer outro animal parecia ali habitar. E até mesmo as chaminés outrora fumegantes renunciaram à sua fogosidade.

Entretanto o pouco tempo que haviam passado na povoação em busca de sementes, não lhes pareceu suficiente para contraírem qualquer doença. Todavia o medo brando de que também tivessem contraído a maldita atormentava-lhes a alma. E tinham razão para os temores pois um dia, o velho chefe da famí­lia caiu à cama com um febrão daqueles. Os arrepios de frio fora de época sucediam-se. Tanto a mulher como a filha revezavam-se agora nos cuidados permanentes ao pobre homem. Nem purgantes quase milagrosos, ensinados por uma tia que viveu até perto dos cem anos, nem caldos da galinha mais sã da capoeira reanimaram o chefe da família. Já moribundo, o velho patriarca conseguiu ainda pro­ferir entre os poucos dentes que lhe restavam:

-          Se alguém mais adoecer, ides à aldeia buscar a cura.

Horas depois morria com um simples suspiro. Em paz.

As semanas passaram então serenamente. O trigo e o milho cresciam com natural beleza convertendo as searas em invulgares mantos doirados, aqui e ali soprados com ternura pela mãe Natureza e, nas oliveiras, a prometedora candeia transformara-se em evi­dentes bagos de azeitona ainda verde mas prontaem enlutar-se. Masa febre continuou a sua missão dizimadora. A mãe, já corcunda e surda, foi a segunda vítima. Após noites de febres altíssimas e delirantes sucumbiu tal qual o marido como se de uma vela de cera sem pavio se tratasse. Poucos dias depois, antes de terem tempo para procurarem cura, morreu o irmão mais velho. Restavam unicamente, o rapaz mais novo e a rapariga. Ambos com afinco e a tenacidade da juventude dedicaram-se à ceifa e à debulha do milho e do trigo.

Certo dia, estava a rapariga sozinha, cuidando do gado, quando surgiu um velho, de cajado na mão e ao ombro uma pequena sacola, feita de pele de cabra. O pastor caminhava devagar, aparando-se como podia à vara, seu fiel apoio dos muitos anos que conseguira atravessar. Calmamente, o velho dirigiu-se à rapa­riga, numa voz serena e quase inaudível:

-          Vossemecê tem porventura algum irmão que anda acompanhado de dois burros albardados com uns quantos sacos?

Admirada com a pergunta, a moça demorou em responder:

-          Sim, tenho. O meu irmão partiu há três dias para o moinho. Levava dois burros carregados com milho e trigo para moer.

-          Pois venho aqui dizer-lhe que ele encontra-se a menos de uma légua daqui e está muito doente.

A moça bonita, sentiu aflorar aos olhos ver­des duas grossas lágrimas que dificilmente conteve. Entrou de supetão em casa e, quando saiu, estava preparada para uma longa jornada. Olhou para o pastor, agradecendo-lhe com os olhos. Preparava-se para partir quando, novamente, o pastor a chamou:

-          Menina, não vá.

-          Porquê?

A maçã-de-adão do pastor moveu-se na garganta tisnada e mal barbeada, sinal de que engoliraem seco. Enfim, ganhou coragem e respondeu:

-          Porque ele já está enterrado há dois dias. Não vale a pena lá ir. Lamento mas não tive coragem de lhe contar logo.

Os joelhos da rapariga vergaram-se ao peso do desgosto. Ajoelhada, benzeu-se e orou em silêncio com as suas finas mãos entrelaçadas. Estava agora só no mundo mas a coragem era mais forte e manteve-se em casa cuidando dos animais, arando a fazenda, amando a terra fecunda que criara.

Quando no lugarejo se soube que nas Pias da Ladeira apenas vivia uma moça, alguém comentou que seria melhor convencê-la a ir para a aldeia onde qualquer um lhe daria guarida por algum tempo. Escolheu-se então, entre todos os homens, um dos rapazes mais novos, mas talvez o mais vigoroso, para le­var a mensagem. Aceite a missão, o jovem logo preparou a jornada. No dia seguinte, o céu apresentava-se plúmbeo, prometendo forte trovoada. Mas o rapaz não se atemorizou e pôs-se a caminho, manhã cedo, ainda o sol não despontara por detrás do cabeço. A distância não era grande, mas a subida era difícil. Ao fim de três horas, molhado e com fome chegou ao início do declive. Mirou com olhar crítico aquele naco de terra bem amanhada e em silêncio aproximou-se da velha casa rodeada de pias. Encostou o ouvido à porta e ouviu do outro lado uma bonita voz cantarolando. Resolveu finalmente bater.

-          Quem é?

-          Menina, venho da aldeia aqui próxima, de propósito para saber se necessita de alguma coisa?

A rapariga abriu a porta, espantada e temerosa.

-          Quem sois?

-          Como já lhe disse cheguei agora do vale. Sabemos que está aqui sozinha. Lá em baixo a doença já desapareceu há muito e gostaríamos que fosse viver para perto de nós. Aqui pode tornar-se realmente perigoso. Há por aí muitos saltimbancos desertos para a atacar na melhor oportunidade.

As palavras saíam de uma forma atabalhoada. A moça olhou-o desconfiada. Que pensar de um rapaz que jamais conhecera que ali vinha bater num dia tão chuvoso? De súbito, teve uma ideia, e num ápice respondeu:

-          Obrigada pela sua preocupação. Espere então aqui que vou ali à pia grande buscar água para a sopa.

E com a gamela nas mãos passou pela frente do rapaz, baixando os olhos num gesto de vergonha e algum receio. Quando saiu, fechou a porta de madeira com cuidado, não fosse o rapaz desconfiar. Já na rua começou a correr tanto quanto as pernas e o vestido o permitiam. Atravessou a terra ainda com restos da última ceifa espalhada pelo chão e desceu serra abaixo em direcção à aldeia. Corria por entre pedras e mato, chegando a cair mas logo se levantava olhando sempre para trás, não fosse o rapaz persegui-la. A chuva tornava o caminho escorregadio e muito perigoso. Quando por fim entrou na pequena aldeia, estava completamente extenuada, molhada, suja e rota. Procurou então a primeira casa e bateu com alguma violência numa velha porta de madeira, que foi franqueada por um homem de meia-idade. Este, ficou espantado a olhar para aquela jovem completamente desconhecida. Finalmente perguntou:

-          Que deseja, menina?

A moça explicou-lhe tudo. Enquanto falava, o homem ria, ao imaginar a situação do jovem; vendo-se de repente sozinho à procura duma rapariga no meio da serra. Após o relato pormenorizado da fugitiva, foi a vez de ele explicar o que havia acontecido e que o rapaz fora com a verdadeira intenção de a ir buscar.

Desfeitos todos os medos e os equívocos, a rapariga foi finalmente pedir desculpa ao rapaz acabado de chegar. Es­te, embaraçado, disse que sim a todos os pedidos de desculpa que a jovem rogava, até na igreja alguns meses mais tarde.

Hoje as Pias da Ladeira ainda existem envoltas por carrascos e silvas e poucos são os que sabem que em tempos idos ali viveu feliz uma família.

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por José da Xã às 23:25

Quarta-feira, 28.03.12

Contos Breves - Um dilema - XVII

No sopé de serras profundas, rodeada de escarpas íngremes e encostas inacessíveis eleva-se um pequeno povoado. O granito áspero e frio forra as casas gémeas de dois pisos. Em baixo repousam os animais e guarda-se o vinho e o azeite. No andar superior vive a família em ínfimos quartos, onde mal cabe a ferrugenta cama de ferro e uma sala onde a lareira é o centro do lar.

O chão das ruas estreitas, onde um carro de bois passa à justa, alterna entre a lama viscosa no Inverno rigoroso e o pó seco no Verão tórrido, que penetra nos lares depositando-se com suavidade nos velhos móveis carunchosos, formando uma fina camada, que as mulheres tentam em vão dissipar.

Atravessa a aldeia, uma pequena ribeira que nos seus momentos de maior fervor, trazido pelas chuvas ou pela neve serrana, transborda e alaga os lameiros cincundantes. Contudo pelo Estio como que adormece e somente um pequeno fio de água vai serpenteando por entre pedras redondas e brancas.

Os homens pela manhã, transportam ao ombro velhas enxadas a caminho das suas hortas. Carregam nas botas de coiro ressequido o passo já cansado de uma manhã madrugadora e laboriosa. O sol cai a pique. A gaiatada grita feliz atrás duma bola de trapos. As mulheres procuram a velha loja do Américo, onde desenferrujam a língua. Comentam paixões desalinhadas de juventude, querelas perdidas, futuros fantásticos, anseios luminosos e assim num ápice, põem a conversa em dia.Naquele Verão a ribeira não é mais do que um pequeno refúgio do gado sedento. Entre todos da aldeia, o acordo prevalece como lei, de ninguém retirar água para rega. Só os animais ali podem beber. Alguns poços há muito que secaram. E apenas na fonte se enchem os cântaros de barro. Havia já quem se queixasse das couves, das nabiças, do feijão-verde ou dos tomateiros que não medravam e tudo por falta do precioso líquido.A aldeia parecia esmorecer ao vigor do Estio austero.

Assim certo domingo, após a missa, o velho Sousa, homem decidido e de ideias precisas dirigiu-se à sacristia e bateu:

-          Dá-me licença, senhor Prior? – perguntou, espreitando pela porta entreaberta.

-          Entre – responderam de dentro.

Ao entrar o aldeão pode ainda reparar que o padre despia os paramentos mostrando um fato escuro e que lhe assentava na perfeição. Este notou então no seu interlocutor e admirou-se com a invulgar presença do camponês.

-          A que devo esta visita?

-          Queria-lhe pedir um favor, não sei se posso?

-          Meu amigo pedir não custa. Diga lá então a que vem!

-          Como o senhor Prior já sabe, há muitas semanas que não chove. Pedia-lhe então, que nas suas rezas, rogasse a Nosso Senhor Jesus Cristo para que se compadeça de nós e nos mande umas pinguinhas de água.

-          Mas isso não está na minha mão. A mãe Natureza é soberana. Nada posso fazer, – respondeu sem demora o pároco.

O lavrador coçava a cabeça e insistia com ar humilde:

-          Ó Senhor Prior, fale lá com os seus anjinhos se fizer favor.

O Padre Cruz não sabia que responder e o Sousa continuava a teimar ajuda do Altíssimo. Mas, após tanta súplica lá acabou por aceder:

-          Está bem, vou ver o que posso fazer – acabou por prometer o eclesiástico, sem muita convicção.

-          Muito obrigado, senhor Prior, muito obrigado – agradeceu o outro de forma sincera – e agora me vou.

No adro da igreja o Sousa contou aos amigos que o esperavam, a conversa que tivera com o clérigo e deixou que a esperança fosse repousar nos corações dos homens.

A semana correu célere e no domingo seguinte, quando o Padre Cruz quis entrar na igreja, encontrou-a, para seu espanto, barricada com troncos de oliveiras que mais parecia o madeiro do Natal antecipado. Procurou enfim a porta lateral, mas também esta se encontrava vedada por grossas raízes.

Admirado com o invulgar episódio logo buscou na taberna a resposta àquele ajuntamento de lenha. Entrou na loja velha e escura e dirigiu-se ao balcão. O taberneiro, admirado com a presença incomum do padre, logo questionou:

-          Então, a que vem? Esta, que eu saiba, não é a sua casa?

-          Bom dia – cumprimentou - e para sua informação todas as casas são casas de Deus. Mas fique desde já a saber que venho aqui por uma razão bem pouco simpática.

-          E qual é? – voltou o outro.

-          Gostava de saber quem foi o brincalhão que colocou toda aquela lenha no adro da capela, de tal forma que não consigo entrar?

-          Qual lenha? – perguntou o tasqueiro, a fazer-se de novas, não evitando contudo um ligeiro sorriso irónico, que não passou despercebido ao padre.

O clérigo nem se dignou responder e olhou em redor em busca da resposta à sua pergunta, nos homens que se encontravam sentados. Numa mesa forrada a plástico de quadrados azuis e brancos, dois idosos jogavam damas indiferentes ao que os rodeava. Noutra, um jovem dormitava encostado ao braço. Por fim, na mesa do fundo, três homens beberricavam pequenos copos de aguardente enquanto olhavam o padre com azedume. E deste último ramalhete saiu Horácio, que sentindo a acusação na questão do clérigo, levantou-se do seu lugar e de dedo em riste, barafustou:

-          Vossemecê prometeu chuva, mas até agora nada! Por isso acabou-se, não o queremos cá mais. Vá pregar para outra freguesia. Vá, xô!

Parecia que estava a espantar um rebanho. O velho padre respirou fundo maneou a cabeça e saiu da taberna. Regressou ao convento onde relatou os acontecimentos ao seu superior que logo ordenou a sua substituição.

Na semana seguinte o novo padre encontrou a igreja desimpedida e realizou a eucaristia com fervor e devoção. A capela, centenária e humilde, estava repleta. No final da missa outro homem introduziu-se na sacristia e rogou ao vigário para que este orasse por alguma chuva. O padre respondeu que não tinha poderes para fazer chover, que só Deus e outras desculpas. Todavia o homem teimava em não se calar com o pedido, até que o prior respondeu:

-          Vou orar muito para que chova... mas não prometo nada.

Mas o tempo não estava de feição e nos dias seguintes continuaram de céu azul e canícula. Ora no domingo seguinte o novo padre encontrou as portas da capela trancadas com grossas tábuas, pregadas de forma a não permitir qualquer acesso. Já conhecedor do que acontecera ao seu antecessor regressou sem dizer missa.

No dia seguinte alguns padres encontraram-se no velho convento e trocavam impressões. E os dois eclesiásticos, vítimas dos aldeões, comentavam:

-          ... Também eu não pude rezar missa. Estavam trancadas as portas. Era de todo impossível lá entrar.

-          Mas já viste o trabalho que eles tiveram em pôr lá toda aquela madeira? Só de tolos!

Ao lado outro companheiro da palavra de Deus ouvia a conversa e curioso perguntou:

-          Mas o que é que se passou?

Os dois relataram os acontecimentos e decidiram em total acordo que não voltariam à aldeia.

-          Então eles puseram-vos fora, foi? Deixem comigo, que eu resolvo o problema! – atirou entretanto o outro prior.

E assim o padre Fernando pegou na sua bíblia e no domingo seguinte apareceu na aldeia. Aqui chegado, encontrou um grupo de homens, sentados no pequeno muro da capela em amena cavaqueira.

-          Bom dia, meus senhores. Deus esteja convosco! – saudou o pároco.

-          Bom dia senhor padre – responderam quase em uníssono os homens.

A igreja estava aberta e o padre entrou. Ainda mal penetrara na velha e bafienta sacristia para se preparar para a missa, quando ouviu bater à porta.

-          Faça o favor de entrar – disse o prior.

Um aldeão entrou na pequena sala e repetiu os pedidos feitos aos anteriores eclesiásticos com o mesmo fervor e teimosia. O padre escutou-o com a atenção devida e finalmente acedeu:

-          Ouvi tudo o que tinha para me dizer, mas acho que este assunto deve ser tratado no final da missa, com todos presentes. Pode ser?

O outro respondeu afirmativamente com agrado e despediu-se com uma sentença:

-          Já percebi que vossemecê não é como os outros. Creio que desta vez ficamos com o problema resolvido!

-          Pode crer, meu amigo, pode crer – disse entre dentes o padre.

O camponês saiu com a esperança renovada e não reparou no sorriso matreiro do padre.

À hora sagrada a pequena orada estava repleta. A notícia de que o prior ia aceder aos intentos dos homens, correu o povo que encheu por completo a casa de Deus. Todos os rituais foram cumpridos e decorreram com a maior solenidade que a ocasião obrigava. Chegado ao fim, o padre sentiu a assistência um tanto nervosa e logo acalmou:

-          Meus irmãos, fui abordado, logo que cheguei, por um de vós que rogou para que eu fizesse chover. Ora eu não sou Deus, mas podia eventualmente nas minhas orações pedir essa intenção. Contudo há algo que pretendo saber antes de fazer qualquer coisa. Necessito apenas saber se estão todos de acordo quanto à chuva? Isto é, se não há ninguém que esteja em desacordo em que eu faça chover?

Um inesperado burburinho percorreu então a sala e quando o padre estava prestes a dizer o sim às pretensões do povo, eis que surge do fundo uma voz que gritou:

-          Mas eu não quero que chova agora. Já tenho o milho na eira para debulhar e a palha para arrumar e se chove estraga-se tudo. Chuva nesta altura nem pensar. Eu não quero!

Novo burburinho. De súbito levantou-se um dos interessados em que chovesse e disse:

-          Então por causa de um estraga-se as coisas dos outros?

Nova barafunda. A determinada altura o padre, do alto do seu púlpito, chamou:

-          Bem meus irmãos, temo que tenhamos aqui um problema que só vocês podem resolver. Então é assim – continuou o padre sem esperar pela resposta – quando todos estiverem de acordo eu faço o que prometi. Até lá deixo tudo nas vossas mãos e claro nas mãos sábias de Deus. E por hoje é tudo. Podem sair.

A igreja esvaziou-se em silêncio.

Quando saiu, o padre Fernando notou nos olhares estranhos que lhe deitavam alguns aldeões, alguma raiva incontida, pela maneira feliz como saíra da situação, deixando na aldeia a resolução do problema.

A decisão acabou por nunca chegar ao conhecimento do padre. Nem este jamais fez qualquer referência ao caso, nas missas seguintes. Deixou que o tempo se encarregasse de resolver o dilema.

Entretanto choveu.

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por José da Xã às 23:40

Terça-feira, 27.03.12

Contos Breves - O Filho do patrão - XVI

Bateram na velha porta de madeira duas vezes.

-          Entre! – Ordenaram de dentro.

-          Posso pai? – Solicitou o jovem, humildemente.

Os olhos do homem ergueram-se dos papéis e dirigiram-se no sentido do filho. Olhava-o agora por cima dos óculos graduados que o ajudavam a conferir as contas.

-          Tu? Por aqui? – Perguntou - Entra vá! – Concordou o pai sem esperar que o varão respondesse às duas perguntas.

O jovem carregava um tabuleiro, onde um bule fumegante acompanhava a respectiva chávena e dois pequenos bolos de leite. Era a costumada merenda. Chá sem açúcar e bolo.

-          Não te conhecia esse teu jeito para criado... – ironizou o pai.

-          Pois... – devolveu atrapalhado o filho - ... a Custódia estava para entrar e eu ajudei-a apenas a entregar a sua merenda.

-          Poisa aí em cima dessa mesa o tabuleiro e podes sair.

O rapaz largou a bandeja mas não saíu. O pai mirou-o uma vez mais e percebendo a imobilidade do filho Jorge, recostou-se no velho cadeirão, retirou os óculos pousou-os em cima da secretária repleta de papéis e de grandes livros de folhas amarelas e finalmente acedeu.

-          Bom, já entendi que queres falar comigo. Conta lá o que se passa.

O jovem sentiu o olhar pesado e austero do pai, cravado na sua face e reteve um leve estremecimento. Havia que dizer a verdade mesmo que isso custasse alguns amargos dissabores.

-          Pai... – respirou fundo para ganhar coragem e continuou – tenho de voltar para Coimbra.

-          Para Coimbra? Fazer o quê?

-          Tenho de acabar uma cadeira... – o suor escorria-lhe pelo vale das costas num sentimento de culpa.

-          Mas tu não acabaste o curso?

-          Assim pensei meu pai... Mas houve um professor que me disse uma nota mas depois reprovou-me... – desculpou-se sem convicção.

A verdade do curso inacabado estava em parte comunicada, faltava explicar as razões e a quantidade de cadeiras por terminar. E essas eram sem dúvida muito mais complicadas de esclarecer. Muitas tertúlias, noites mal dormidas e ausências às aulas seriam razões pouco aceitáveis para um pai duro e rigoroso.

-          Não percebi? – repisou o antecessor – Então tu não acabaste o curso?

A voz do pai era agora severa, seca, raiando a violência sonora. O estudante gaguejou mas respondeu:

-          Calculava que sim. Mas ainda não foi desta...

A face do pai enrubesceu e num acesso de mau génio, comum na pessoa, berrou a plenos pulmões:

-          Acabou-se, não pago nem mais um tostão. A partir de agora estás por tua conta. Vai trabalhar que eu também faço o mesmo. Sete anos em Coimbra e ainda não acabou... Sai daqui, malandro, sai!

O rapaz abandonou humilhado o escritório, vergado pelos gritos do pai. Certamente toda a casa havia escutado a reprimenda. O velho por sua vez, deu um murro violento na secretária enquanto exclamava para si:

-          Burro, parvo... Eu aqui a trabalhar e ele a mancar comigo. Mas já te mostro como se verga uma vara deste calibre...

Dirigiu-se à porta do enorme escritório e clamou com o seu potente vozeirão:

-          Custódia! Custódia!

Ao longe alguém respondeu:

-          Cá vou senhor Madeira, cá vou!

A empregada surgiu afogueada, após subir as escadas carregando em cima das pernas torneadas de varizes, as quase seis arrobas do seu corpo. Tentava apressadamente limpar as mãos num velho pano.

-          Faça favor de dizer...

-          Vai á fabrica e diz ao Correia para cá chegar. E depressa!

-          Sim senhor, vou já – acedeu a criada.

Meia hora depois o encarregado batia à porta do escritório. De dentro ouviu a autorização para entrar.

-          Boa tarde patrão! – cumprimentou -  Então que há?

O patrão foi directo ao assunto.

-          Recebi um pedido de um amigo de longa data. Este tem um filho mandrião e pouco dado aos estudos. Então perguntou-me se lhe dava emprego na nossa fábrica. Eu respondi-lhe logo que sim e portanto amanhã temos lá uma cara nova.

-          Com certeza patrão. E o que é que mando fazer?

-          Por onde começam os aprendizes?

O encarregado coçou a testa com ar preocupado mas respondeu:

-          Pela vassoura. Varrem a fábrica várias vezes ao dia.

-          Então é por aí que ele começa e nada de ser meigo. Aperta com ele como apertas com os outros. E quanto à féria, ele que venha aqui ao meu gabinete receber no final da semana,.

-          Sim senhor Madeira, assim farei – respondeu por fim o Correia.

-          Agora podes ir – ordenou secamente o velho.

Foi ao jantar que o viúvo decidiu surpreender o filho Jorge. Sentado ao lado da irmã mais nova, o jovem estava longe de imaginar o que o pai lhe reservara. Tentava em vão esboçar singelos sorrisos às palavras engraçadas da mana. Contudo notou que o antecessor jamais retirara os olhos de cima dele, durante a refeição. Por fim, o patriarca, tossiu e puxou do vozeirão para comunicar:

-          Jorge tenho algo para te dizer.

-          Sim meu pai! Faça o favor... – disse humildemente.

-          A partir de amanhã apresentas-te na fábrica, sem falta às oito horas. Durante este Verão vais ser mais um operário. Mas fica desde já aqui entendido uma coisa. Não dizes a ninguém que és meu filho. Livra-te...

Jorge abriu a boca numa expressão de espanto e medo. Após os primeiros momentos de choque conseguiu apenas balbuciar:

-          Mas... e o meu curso?

Ao contrário do que seria de supor o pai respondeu calmamente:

-          Estiveste um ror de anos em Coimbra e não conseguiste aproveitamento. A partir de agora estás por tua conta. Se faltares, desconto-te no salário como a qualquer outro. Não admito calões nesta casa.

Madalena olhava o irmão com os olhos rasos de lágrimas. Encheu-se de coragem e questionou o pai:

-          Mas paizinho o mano nunca trabalhou!

-          Isso sei eu... – e levantando-se de supetão da mesa, saiu da sala de jantar.

Nessa noite o Jorge deitou-se mais cedo do que era costume abandonando os amigos que o aguardavam para mais uma noite de farra e olhando o céu estrelado através da janela, aberta de par em par, deixou cair uma lágrima na almofada branca.

A manhã seguinte surgiu solarenga mas fresca. Levantou-se muito cedo. Dormira muito pouco. A noite fora de vigília involuntária, onde se recordou dos tempos de faculdade, da falecida mãe… O orgulho ferido deixara marcas profundas. Vestiu-se e foi então à cozinha onde Gertrudes, a cozinheira, lhe preparou o pequeno almoço. Comeu-o ali mesmo, não dando ouvidos aos diversos apelos da mulher:

-          Oh menino não coma aqui que pode parecer mal ao seu paizinho.

O jovem devorava em silêncio a refeição absorto nos seus pensamentos, porém a empregada da cozinha continuava:

-          Tenha paciência com o seu pai. A morte da sua mãe de quem ele tanto gostava ainda lhe dá volta ao miolo. Mas um destes dias, vai ver, tudo voltará ao que era dantes.

O moço revivia tal como durante a noite alguns momentos que passara com a mãe. Lembrava-se dela deitada na cama solicitando os seus beijos doces. E aquelas palavras ternas sempre ditas como de um sopro se tratasse. Olhou o relógio e dirigiu-se para a fábrica. Em toda a sua vida apenas entrara na empresa uma única vez.

Chegou ao portão onde vários homens de sacos a tiracolo falavam e riam sonoramente. Até que um reparou no moço.

-          Olha uma peça nova! Já tinha ouvido falar!...

Jorge tremeu por breves instantes mas aceitou as palavras com um sorriso. Os outros operários aproximaram-se e cumprimentaram-no:

-          Olá rapaz, como te chamas? – perguntou um.

-          Jorge.

-          Eu sou o Tonho, este aqui é o Jacinto e aquele o Fuças – e ía apontando cada um com o dedo sujo.

O portão abriu-se e os homens entraram. Jorge foi o último. Deu de caras com um homem alto, de compleição herculeana mas com um sorriso acolhedor.

-          És tu o novo empregado? – e mirou-o de cima a baixo. O corpo quase franzino do jovem dava poucas esperanças que viesse a tornar um bom operário e assim torceu o nariz duma forma simulada.

-          Sim... sim!

-          Sabes varrer o chão?

-          Talvez.

-          Então pega naquela ali e vem comigo!

Começou por varrer a oficina. Depois ajudou a descarregar algumas caixas e a carregar outras, foi dando uma mão aqui, outra ali. Tudo sem um queixume. Ao almoço foi a casa e sentou-se uma vez mais na cozinha. A Gertrudes retornou com a mesma lenga-lenga da manhã:

-          O menino não deve comer aqui.

-          Mas é aqui que comem os empregados desta casa!

-          E se o senhor seu pai aparece aqui à sua procura?

-          Não te preocupes que eu resolvo o problema.

Regressou ao trabalho da parte da tarde. O encarregado apertava com o jovem mas este continuava serenamente a responder como podia às solicitações. Jamais se negava a fazer algo. E tudo num silêncio quase religioso.

À tarde, quando tocou para sair, sentiu um enorme alívio. Doíam-lhe as costas e as mãos  do esforço pouco habitual, mas acima de tudo tinha a alma atormentada pela revolta.

À noite ao jantar, o pai não fez qualquer referência ao primeiro dia de trabalho do filho e este também não aflorou o assunto.

Durante as férias de Verão, o filho do Madeira trabalhou na fábrica como qualquer outro operário. No fim da primeira semana doía-lhe o corpo todo, mas conquanto passava o tempo aquele habituava-se ao esforço e as dores acabaram por desaparecer.

Entretanto Jorge escrevera para alguns colegas de faculdade a quem contou as suas desventuras e estes inscreveram-no para novos exames. Sem que o pai soubesse o rapaz foi estudando e na véspera da prova chegou-se ao Correia e duma forma humilde comunicou-lhe:

-          Amanhã não venho!

-          Então porquê – quis saber o encarregado.

-          Tenho uns assuntos para tratar e tem de ser amanhã.

-          Mas eu desconto-te na féria.

-          Não faz mal!

E assim, Jorge partiu para Coimbra durante a noite onde pernoitou num quarto de um amigo. No dia seguinte apresentou-se a exame que decorreu duma forma soberba. Durante os anos que permanecera na cidade jamais fizera um exame como aquele.

Após a prova regressou a casa a tempo de jantar com o pai. No dia seguinte lá estava ele à entrada da fábrica pontualmente às oito horas.

As férias de Verão aproximavam-se do fim e o velho Madeira nada dizia ao filho sobre o futuro próximo. Este invariavelmente entrava na fábrica com todos os outros e trabalhava ao mesmo ritmo dos outros trabalhadores.

Uma noite, ao jantar, entrou a Custódia com um ar atrapalhado e dirigiu-se ao rapaz.

-          Mandaram-me entregar isto com urgência.

O jovem recebeu a missiva e abriu-a ali mesmo sem pedir a autorização devida. Leu-a em silêncio e um quase imperceptível sorriso aflorou aos lábios. Depois guardou a carta e agradeceu:

-          Obrigado Custódia, está entregue.

-          Boas novas? – perguntou a governanta curiosa.

-          Sim, são boas notícias! – e nada mais disse.

O pai ergueu os olhos para o filho e calculando adivinhar o que a carta dissera, questionou o descendente à laia de confirmação:

-          Então já fizeste a cadeira que faltava?

O filho estremeceu. Após a conversa no escritório jamais fizera qualquer observação em relação ao curso. Admirava-se pois que agora o pai manifestasse algum interesse. Por isso mentiu:

-          Não. Apenas me informam que posso ir este ano fazer a cadeira que me falta sem ir às aulas – respondeu secamente.

Desta vez foi o pai que tremeu. A informação que recebera  era de que o filho fizera o último exame com distinção, estava então errada. Orgulhoso o velho patriarca nunca mais perguntou  pela faculdade ao filho e este utilizava o mesmo estratagema. Era uma guerra inútil de personalidades.

Ao contrário daquilo que o patrão Madeira supunha e acima de tudo queria, o filho afeiçoara-se à fábrica de tal forma, que já operava com qualquer ferramenta e com o jeito inato que tinha para a mecânica, sempre que alguma máquina parava por avaria lá estava o rapaz a tentar consertar com invulgar sucesso. De tal forma que certo dia o Correia em conversa com o patrão frisou:

-          O Jorge, filho do seu amigo, é um operário de mão cheia. Interessa-se por tudo e nunca diz que não. Já o mudei de funções e em qualquer lugar faz óptimo trabalho.

-          Ainda bem para ele... – respondeu o patrão sem emoção.

Caíam as primeiras chuvas de Outubro quando o velho patrão entrou na cozinha. Só lá aparecia na véspera de Natal para dar as boas festas aos empregados, mas naquele dia quebrou a tradição. À mesa estava o Jorge que comia uma sopa. Trajava uma roupa velha e suja de operário fabril. Jamais vira o filho naquela figura e sentiu a voz da falecida mulher a falar:

-          És capaz de me explicar porque comes aqui?

-          Porque é aqui que comem os empregados desta casa.

-          Mas tu és meu filho – e o tom de voz começou a subir.

-          Só à noite... só à noite – e continuou a sorver a sopa com grande apetite.

O orgulho que ambos sentiam parecia agora querer morrer. Curiosamente era o pai que mais lutava para que isso acontecesse.

-          Mas posso falar contigo?

-          Claro, meu pai. Desde que não me atrase.

O pai respirou e perguntou então:

-          Não queres voltar a Coimbra?

O filho parou de comer, olhou o pai de frente e sem qualquer temor respondeu calmamente:

-          Foi o pai que me disse que eu estava agora por minha conta. Para que saiba eu já acabei o curso e consegui um estágio num escritório. Vou para Coimbra quando me chamarem.

-          Mas porque é que não me disseste nada?

-          Não valia a pena. Nunca me ouviria...

Interiormente o velho Manuel, esteio firma da família sabia que o filho falava verdade. Mas este também provara que tinha o seu sangue a correr nas veias, tal fora a tenacidade com que enfrentara os desafios apresentados na empresa.

-          Sei que tens feito um bom trabalho na fábrica – comentou o pai com doçura.

-          Faço o que posso. É para isso que me paga – respondeu secamente.

O industrial virou as costas ao filho duma forma humilde e abandonou a cozinha. Para Jorge este era um pai que ele nunca conhecera. Mais humano, mais triste ou talvez mesmo resignado.

O novo jurista regressou por fim a Coimbra para integrar um escritório de homens de leis. Mas antes de partir visitou a fábrica onde abraçou os antigos colegas.

-          Vou mas volto! No ano que vem pelas férias cá estarei.

O rapaz caíra nas boas graças dos operários e estes nem imaginavam que o jovem era apenas e só o filho do patrão.

Quando o Verão regressou às encostas e às noites tépidas e com ele as férias, Jorge integrou, tal como prometera, a fábrica para grande admiração dos outros operários e respeito do encarregado. O jovem tinha queda para a coisa e mostrava-se cada vez mais empenhado na resolução de problemas da empresa. Jorge alternava agora com a sua profissão em Coimbra com a de operário da fábrica.

Entretanto Manuel Madeira adoecera com gravidade. Perdera o interesse pelos negócios, deixando nas mãos do encarregado toda a responsabilidade da gestão da empresa.

Uma noite o estado de saúde do patriarca piorou substancialmente de forma que foi levado para Coimbra onde o filho o internou num hospital onde trabalhavam já alguns dos seus antigos companheiros, não de curso mas de tertúlias e boémias. Regressou a casa algumas semanas mais tarde. Já no aconchego do lar o doente chamou os filhos à sua presença e comunicou:

-          Sei que com a morte da vossa mãe, nunca mais fui o mesmo. Fui severo, duro, talvez demais. Mas não o fiz por mal. Fi-lo por amor a vocês, meus filhos.

A mão fraca segurava como podia a de Madalena, mas o olhar estava preso no filho:

-          Jorge, chama-me o Correia.

-          Oh pai, deixe-se disso – respondeu o filho.

-          Maria Lúcia!

-          Sim meu pai – respondeu a filha mais velha

-          Sei que o teu irmão é tão orgulhoso quanto eu... – e tossiu.

-          Acalme-se pai – pedia a filha, enquanto olhava para o irmão em tom de reprovação.

-          Diz ao Correia que a partir de agora o responsável pela fábrica é o Jorge.

A filha mais velha emigrara para Angola com o marido, havia uns anos em busca de fortuna. E parecia que a vida lhe corria a contento. Todavia sem filhos, regressara assim que soubera da gravidade da doença do pai. Respondeu então:

-          Sim pai, farei o que me pede. Mas agora repouse.

Nessa tarde o fiel mestre da fábrica, foi chamado uma vez mais ao escritório do patrão. Bateu à porta e ouviu de dentro uma voz feminina.

-          Entre! – Autorizou Maria Lúcia.

-          Dá-me licença, menina.

-          Entra, entra!

-          Então como está o seu paizinho?

-          Oh, assim assim, obrigado.

-          E o que me deseja?

-          Bem, como calculas, o meu pai não está em condições de assegurar o bom funcionamento da fábrica. Assim, pediu-me que entregasse nas mãos do meu irmão essa responsabilidade.

-          Mas o seu irmão não entende nada do negócio… – observou admirado com a nova nomeação.

-          Talvez. Há quanto tempo não vês o meu irmão?

-          Não sei menina. Para lá de 20 anos... ou mais.

-          Tens a certeza? – e com a pergunta os lábios abriram-se num sorriso matreiro que escapou ao encarregado.

-          Olá se tenho! A sua falecida mãe é que foi lá com ele quando ainda era gaiato, veja lá ao tempo que foi.

De súbito abriu-se uma porta. Era a que dava acesso do escritório ao quarto do velho Madeira. De lá saiu alguém que Correia conhecia e estimava.

-          Maria, o pai está a repousar. Falem um pouco mais baixo – e sem notar deu finalmente de caras com o encarregado.

O mestre da fábrica quase caiu do seu metro e noventa. No pensamento do homem apenas passavam momentos ao lado daquele rapaz que mais não era que o filho do patrão. Finalmente respirou fundo e observou:

-          Mas tu... – mas logo emendou – o menino Jorge?

-          Pois! Mas trata-me como sempre o fizeste. Não sou outra pessoa.

-          Mas o senhor... o menino, é filho... – gaguejou.

O outro nem deixou terminar:

-          Já te pedi para me chamares pelo meu nome, como sempre o fizeste.

O homem nem queria acreditar. Suava por todos os poros e tremia. Nem sabia se de espanto ou de alegria.

-          E agora o pessoal? Tanto mal que disseram do seu paizinho... à sua frente

-          E tinham razão! A partir de agora vou ser eu a tomar conta da fábrica, por ordem do meu pai. Mas ao contrário dele eu vou lá estar, contigo. E os problemas, quando os houver, serão resolvidos por todos.

Um sorriso cresceu na face de Correia, que logo pediu para sair e foi em passo de corrida comunicar aos operários quem era o novo patrão.

O velho Manuel Madeira finou-se duas semanas mais tarde. Partiu descansado com o futuro da fábrica que construíra e em paz com os filhos.

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por José da Xã às 23:46

Terça-feira, 27.03.12

Contos Breves - A Maldição - XV


Ilídio entrou em casa e logo ali descarregou as seis arrobas em cima de um velho cadeirão. Este, rangeu ao peso abrupto do corpanzil mas manteve-se aparentemente incólume sem mais agrura. O homem retirou a boina surrada e suja, deixando antever pequenos tufos de cabelo suado cor de neve e que tentavam ingloriamente esconder uma evidente calva. A mulher lavava ainda a loiça do almoço e esperou que o marido dissesse algo. E não demorou:

-       Comprei a azeitona da Quinta da Trindade - disse com ar triunfante.

Um silêncio incrédulo pairou no ar antes que o homem voltasse à carga:

-       ... Pois foi... Comprei aquele olival...

Parecia uma criança a quem deram um brinquedo novo. Um sorriso sincero rasgava-lhe a face morena. Finalmente a Mércia devolveu num tom pouco apaziguador:

-       Mas tu endoideceste, homem? Deves ter pago uma fortuna! Quero saber onde vais arranjar o dinheiro para pagar ao dono.

O homem parecia que adivinhara a pergunta pois logo retorquiu:

-       Mas tu não sabes quanto é que eu paguei! E mais... Só pago quando vender o azeite.

Céptica das afirmações categóricas do marido, carregou ainda:

-       Mas tu viste o olival? Olha que às vezes a azeitona engana.

-       Esta é certinha, não falha. Basta que o tempo corra a jeito e este ano temos boas filhós pelo Natal.

-       E o pessoal para a apanha? Não sei se arranjas... – inquiriu numa permanente dúvida.

-       Hei-de arranjar. Ou não me chame Ilídio - respondeu de forma convicta.

Da lareira a meio metro do chão da cozinha, saiu uma voz que penetrou na conversa como agoiro.

-       Nem um bago lá apanhas...

O camponês apercebendo-se que era a sogra que falava, logo devolveu com arrogância:

-       Eh lá! Vire para lá essa boca. Vossemecê diz cada uma!

-       Nem um bago ... Aquela terra está amaldiçoada - insistia a velha enquanto, com a ajuda de um pequeno funil enchia as tripas secas de carne, de vermelho temperada.

O genro nem acreditava no que ouvia. Certo era que se contavam histórias acerca da Quinta da Trindade, mas ele fora ao olival e as árvores quase vinham abaixo com tanto carrego. Mesmo que caísse alguma, ainda havia que fazer por umas semanas. Ora agora nem um bago... podia lá ser? Havia azeitona até, até...

Todavia o tom sinistro com que a sogra falara, acabara por assustar o pobre homem. Entre o crente e o céptico logo pretendeu saber a coisa a fundo.

-       Então ti'Cândida, explique-me lá essa história... – enquanto um esgar velhaco lhe assomava aos lábios.

A idosa poisou o trabalho, limpou as mãos a um pano velho e retirou do bolso do avental um terço. Velho como a dona, companheiro dos bons e maus momentos, era o refúgio permanente da crente. Passando as contas pelos dedos a Cândida começou o seu relato:

-       Há muitos anos viveu na Quinta um homem bom. Fidalgo de grandes e boas famílias - havia mesmo quem afirmasse que era ainda aparentado ao Rei – ainda jovem ficou só no mundo. Só mas rico. Muito rico. Como único herdeiro de toda a fortuna da família depressa surgiram candidatas a noivas. Mas D. Bartolomeu recusou-as a todas. Haveria :finalmente por casar com a Germana, rapariga ainda do meu tempo, filha de um ferrador. Mas a tristeza haveria de povoar novamente a vida do fidalgo, pois ao fim de um ano de casado, perde a mulher e o filho na mesma hora.

-       Logo os dois, mãe - comentou a filha com amargura.

-       Pois foi. Mas D. Bartolomeu era um homem temente a Deus e resignou-se à sua sorte. Jurou nunca mais casar e dedicou-se de alma e coração à Quinta. Esta que já era enorme e fértil ainda cresceu mais. Quase todos os homens das redondezas trabalharam na propriedade. Era uma terra abençoada. Lembro-me de uma vez só se ter colhido mais de dez carros de bois de milho num pequeno leirão perto ao lameiro de baixo. O lagar de azeite já foi feito por ele! E começava a trabalhar por altura dos Santos e no Entrudo ainda fazia azeite. O fidalgo era um homem valente e determinado. Infelizmente só mostrou essas qualidades enquanto a seu lado trabalhou o velho Barbosa.

-       A mãe conheceu esse homem? - interrompeu a filha.

-       Muito bem. Para além de capataz era acima de tudo um bom e dedicado amigo. E o fidalgo nunca decidia nada sem o consultar. Mas a idade não perdoa e o mestre Barbosa, também ele partiu, numa viagem sem regresso.

A Mércia escutava a mãe com a atenção devida, sentada no banco corrido de madeira. O marido coçava a pequena calva tentando adivinhar o fim da história. Vivia assim sentimentos entra a descrença de todo um desfecho, talvez inverosímil e o receio de uma verdade absoluta.

A Cândida continuava a desfiar o terço por entre os dedos lavrados dos anos e olhando o casal voltou ao relato:

-       Para substituir o antigo caseiro, D. Bartolomeu contratou um outro homem vindo de longe e que todos vocês conhecem: é o Esménio. Porém logo se percebeu que este capataz mostrava modos bem diferentes de lidar com o pessoal. Pouco simpático, arrogante mas eficiente, depressa criou na quinta um ambiente soturno e triste. E o pior é que a D. Bartolomeu nunca chagava qualquer informação que denunciasse as actividades pouco simpáticas do seu agora braço direito.

Após uma muito breve pausa para retomar fôlego, continuou:

-       Os anos passaram com a rapidez dos velhos e a lentidão dos novos, até que foi a vez do fidalgo deixar o mundo. Na altura foi um funeral, até... até... Veio gente de todo o lado e a capela da quinta foi pequena para albergar tantas pessoas.

Para além de outros defeitos o Esménio era também muito ambicioso e com a ajuda de um homem de leis pouco escrupuloso, forjou um testamento onde ele surgia como único herdeiro, quando se sabia que era outro o desejo do fidalgo e que incluía quase todos os empregados da quinta. E é aqui que tudo começa!

-       Mas foi o Esménio que me vendeu a azeitona. Ele está velho, sim senhor, mas sempre pensei que a Quinta era mesmo dele.

-       Pois é Ilídio. Desde que ele tomou conta da Quinta esta nunca mais foi a mesma. Há quem oiça durante a noite as galgas do lagar a trabalhar e sem ninguém lá estar. Na eira quando o milho está para descamisar é frequente aparecer estragado. O vinho azeda, o trigo grela e até alguns animais morrem sem razão. A Maria Clara foi lá chamada para afugentar os maus espíritos e até o Padre Carlos já abençoou a casa e nem mesmo assim as coisas correram melhor.

-       E o que será, mãe? - Pergunta a filha.

-       Ninguém sabe. Mas acredita-se que é o espírito de D. Bartolomeu que vagueia pela Quinta e enquanto Esménio não cumprir o que o fidalgo deixou realmente escrito, nada se modificará. E é por isso que digo que não apanhas um bago. A Quinta está amaldiçoada.

Ilídio finalmente preocupava-se. Nem quer crer que fora aldrabado. E pensou logo em negar-se ao negócio. A expressão feliz com que entrara em casa fora naturalmente substituída por um sobrolho carregado.

Mas o destino é fértil em acontecimentos bizarros, pois nesse mesmo dia em que conhecera o mistério da Quinta da Trindade o velho capataz morreria aos cornos de um bonito vitelo contudo demasiado bravio para o dono. A notícia da morte do velho fuinha correu as aldeias limítrofes como de fumo se tratasse..

Dias mais tarde, o filho mais velho do defunto descobre no meio dos papéis do pai um velho testamento. Nele podia ler-se todos os desejos e vontades de D. Bartolomeu. Assim coube ao herdeiro de Esménio fazer cumprir as últimas vontades do bom fidalgo.

Ilídio colheu nesse ano a azeitona da Quinta que surgia bonita, sã, muita. E as filhós nesse Natal tiveram mais azeite e mais açúcar.

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por José da Xã às 22:19

Terça-feira, 27.03.12

Contos Breves - Sílvio Agreste - XXXIX

Quinze anos, espigados e imberbes; cabelo curto como restolho, olhos castanhos, vivazes e atentos; boca grande denunciando dentes negros e mal tratados, tez morena. Assim era Sílvio, nascido e criado numa aldeia beirã embutida na serra pedregosa e fria nas invernias que tombavam serra abaixo e demasiado quente no Estio impossível de respirar, espraiando-se a seus pés planícies e charnecas férteis, cruzadas por ribeiros que encharcavam os lameiros sempre que a torrente vinda da encosta assim o exigia.
O rapazola, aos olhos do povo mordaz e cruel, tornara-se num gaiato bizarro. Não tinha amigos, não falava com ninguém, apenas breves e imperceptíveis saudações por quem passava, desaparecendo dias inteiros só surgindo véspera fora.
A mãe ralhava-lhe num discurso que sabia de cor e já nem ouvia. As irmãs, raladas umas, outras nem tanto, dividiam-se entre o incondicional apoio à mãe ou ao mano rebelde:
- Sílvio por onde andaste? – Perguntava Auzenda em tom azedo e ríspido como era seu timbre, sempre que a vítima era o varão, enquanto enxugava as mãos sapudas e molhadas num pano negro.
O costumado silêncio enfurecia-a:
- Estou farta deste traste. Nem escola, nem trabalho, nada… É um valdevinos…
- Oh mãe, não diga isso. Sempre que precisa dele, ele está por aí – desculpava-o a mana mais nova, enquanto afagava a barriga volumosa do fim duma gravidez indesejada e acidental.
A escola para Sílvio fora uma aventura da qual não guardara boas memórias. Nos bancos puídos de madeira de castanho sentara-se pouquíssimas vezes, preferindo o cuidado com um ninho de pintassilgo ou com a toca profunda de um coelho. Após uma breve passagem por uma escola das redondezas, não fosse a professora da terra exigente demais, acabou por desistir e apenas aprendeu a escrever o seu nome com dificuldade.
Os seus verdadeiros amigos eram por isso os animais, especialmente as cabras e os pombos, que ele criava com carinho e ralação. As gaiolas permanentemente abertas permitiam que as aves columbinas durante todo o dia voassem numa liberdade que ele jamais privara. À noite retornavam ao poleiro aguardando que Sílvio lhes trouxesse a costumada dose de farelos com milho e pão duro previamente demolhado. O tratador conhecia-os a todos e a cada um deles dedicara um nome: Farrusco, Farelo; Bico Torto… Quanto às cabras dominava-as como poucos e nem a irreverência natural dos animais lhe fazia frente. Bastava um assobio e os caprinos largavam o pasto e acorriam com ligeireza para perto do jovem pastor. Saía de casa sempre cedo, muitas das vezes nem o Sol despontara e já ordenhava as cabras sem crias ou carregava a manjedoura de feno e favas. Depois largava na cozinha, negra e suja, o tarro repleto e partia em busca do seu mundo. Seguia-o um cão, o qual tratava por Baixinho por ser minúsculo e rafeiro, de cor cinza, aqui e ali salpicado de preto. Mais um amigo incondicional e atento. E fiel…
O pai de Sílvio era carpinteiro de profissão e partia todos os anos assim que a Primavera surgia para terras de Espanha. Por lá andava aos meses, deixando na mão da Maria Auzenda a responsabilidade de tomar conta da casa e educar o descendente. Quando regressava, fugindo às intempéries castelhanas, adorava ver o seu rapaz cada vez mais crescido, quase um homem.
Juntos percorriam caminhos e carreiros ao redor do povoado durante todo o dia. O eucalipto da Ribeira Nova tombara finalmente, as oliveiras vergavam ao peso da azeitona quase madura, o chão da coxa fora vendido a alguém de fora; ou então nada diziam e caminhavam durante tempos infinitos em silêncio, gozando cada um a presença do outro. Uma simbiose quase perfeita que Auzenda não colhia mas invejava.
O Inverno chegara mais cedo. Primeiro viera o frio que penetrava na pouca roupa e arrefecia os corpos magros. Depois o vento que sacudia a aldeia com rajadas sucessivas quase sempre acompanhadas por chuva forte que tombava em revoadas diluvianas. Finalmente arribou a neve branca em flocos, que descia do céu negro como por magia.
Nascia uma dessas manhãs bravias de frio e chuva. Sílvio levantou-se madrugador e despachado. Vestiu a velha e surrada camisa, entrou nas calças de surrobeco rijo e pobre, alcançou a jaqueta e enfiou a boina na cabeça quase rapada.
Na cozinha procurou na arca costumada, um naco de pão duro e da gaveta da mesa retirou o resto de chouriço. Devorou tudo com gosto e prazer, partindo então em busca dos seus companheiros.
Abriu a gaiola dos pombos mas estes mantiveram-se imóveis. A madrugada ainda não clareara e o jovem não os brindara com a habitual refeição matutina. Alvoraçou-se a gaiola assim que o moço surgiu com os comedouros.
Depois foi a vez das cabras que se ajeitavam ao som dos passos do tratador. Manjedoura cheia, pias repletas, num ápice os animais tratavam de limpar a comida.
O dia queria despontar por detrás da serra mas as nuvens escuras encastelavam-se e teimavam em cobrir o sol arrepiado. A noite fora de temporal. Fios de água corriam pelos beirais até ao chão onde juntando-se a outros cresciam em pequenas levadas.
Libertadas da cerca, as cabras ocuparam o caminho sabendo qual a direcção a tomar. O soar metálico dos chocalhos deixava-se ouvir por todo o pópulo. Uma vara de marmeleiro e o costumado companheiro canino seguiram à distância o rebanho irrequieto. Duas corridas e chegou-se mais perto controlando as diabruras de cabras e filhos.
Sílvio afastou-se do povoado como era seu hábito. Palmilhou os carreiros com à-vontade. Sempre que uma cabra fugia do rebanho lá soava um assobio que a colocava junto às outras. Naquela manhã o jovem escolhera o Bosque das Luzes para pastar o gado. Aquele situava-se num vale pequeno, aconchegado pelas serranias. Havia mesmo quem contasse histórias mirabolantes desse local. Mas o rapaz pouco crente, nada temia e nada entendia. Ali chegado logo procurou um poiso onde pudesse sentar e descansar não olvidando a visão sobre o prado onde o gado já pastava em sossego. O Baixinho dormitava a seu lado mas de orelha sempre atenta, não fosse o dono necessitar dos seus préstimos.
O jovem sentou-se numa pedra que colocara junto ao pé de um imponente pinheiro e recostou-se ao tronco. Cerrou os olhos e deixou-se embalar pelos chocalhos das cabras. Era daqueles momentos que Sílvio gostava. Um torpor lento invadiu o corpo e em breve dormia serenamente.
Acordou ao som de um assobio. Admirado e incrédulo no que ouvira, procurou o gado e vendo-o demasiado longe ordenou ao canito:
- Vai buscá-las, anda!
O cão entendeu a ordem e correu encosta abaixo a cumprir o mando. Por seu lado o rapaz manteve-se atento aos sons da floresta. Como nunca mais ouvisse qualquer ruído estranho, pensou que tudo não tivesse passado de um sonho. Porém novo assobio soou. Desta vez o jovem teve a certeza do que ouvira. E vinha do interior do bosque. As cabras aproximavam-se em passo lento aproveitando a erva viçosa. Assim que chegaram perto Sílvio ordenou novamente ao seu companheiro.
- Não as deixes sair daqui. Eu vou ali dentro e já volto.
Como sempre o cão entendeu a ordem e deu um latido, compenetrado na sua função de guarda.
O jovem penetrou então no bosque sem receios. Conforme caminhava a mata adensava-se com as giestas a tomarem conta do espaço entre os pinheiros, sobreiros e alguns eucaliptos. Andou algumas centenas de metros até que ouviu uma vez mais o silvo. Agora muito mais próximo. Continuou a deambular pelo bosque até que lhe pareceu vislumbrar por entre uma folhagem uma pequena clareira. E foi aí que reparou na figura formosa que dançava no meio do pasto verde. Os cabelos cor de fogo, longos e fartos. Um longo vestido branco aqui e ali pintalgado de pequenas flores coloridas, davam-lhe um ar gaiato mas ao mesmo tempo selvagem.
Sílvio escondeu-se por detrás de um enorme penedo que fazia fronteira entre a clareira e o bosque. Saltitando e rodopiando a jovem iniciou uma cantiga:

Quando eu não te conhecia
De ti nada se me dava
Sem tormentos vivia
Sem cuidados acordava

Ora vira ao norte, vira ao norte,
Vira ao sul
Quando vira ao norte
Fica o céu azul

O jovem estava estarrecido. Em silêncio aproximou-se devagar da orla do prado, enfeitiçado pela voz da menina. Sentia-se tocado, como se alguém tivesse entrado na sua alma. Um arrepio atravessou-lhe a espinha e ganhando coragem deu força à curiosidade e apresentou-se à cachopa. Só que ela antecipou-se, quiçá adivinhando a intenção e cumprimentou apenas:
- Olá Sílvio.
Um tanto titubeante foi dizendo, meio a gaguejar, surpreendido pela facilidade da miúda:
- O… olá!
A seguir roído pela curiosidade que nunca tivera, perguntou de rajada:
- Quem és tu? Como sabes o meu nome?
Notando-lhe um sorriso meio trocista na face alva, continuou:
- Eu não te conheço…
A voz feminina surgiu como uma melodia:
- Conheço-te bem e aos teus pombos e às cabras que estão à entrada da floresta.
- Mas quem és tu?
- Eu sou a Cecília…
Rapidamente comentou:
- Não conheço. Quem é a tua mãe?
Na aldeia quando não se conhecia uma pessoa, pergunta-se pelo pai, mãe ou avó. Todos têm alguém que se conhece:
- A minha mãe é a Lua.
_ Hem?
- O meu pai é o Sol e sou neta do vento da tarde e da brisa matinal.
Para o jovem esta conversa criava-lhe muita confusão. Lua, Sol, vento e brisa eram coisas que ele conhecia de sobra, mas não havia ninguém com aqueles nomes na aldeia, pelo menos que ele soubesse:
- Oh, tás a mancar comigo…
E virou-se para entrar na floresta. Preocupava-o o gado. Mas numa corrida Cecília colocou-se à sua frente barrando-lhe o caminho.
- Já vais?
- Já!
- Porquê?
- Porque tás a brincar comigo…
- Sílvio, não estou a brincar. Já te disse como me chamo.
- Sim, mas o sol, Lua, brisa, vento?
- Sim é a minha família.
O rapaz olhou-a de frente como jamais fizera a alguém e viu então no seu olhar o azul do céu. Pela primeira vez Sílvio teve medo. Não sabia o que dizer e as coisas que ouvira toldavam-lhe o pensamento como uma nuvem plúmbea. Finalmente recompôs-se e voltou ao questionário:
- Mas onde vives?
- Vivo na mata, rodeada pelos coelhos, lebres, algumas cobras, sapos, rãs, corujas, melros, cucos…
A conversa agradava-lhe agora. Entrou no jogo.
- Eu também gosto de bichos. No ouriço é que não pego, pica que se farta.
- Pois pica – confirmou a miúda – E o lacrau?
- Vi um debaixo de um molho de feno e por pouco não me mordeu…
E ali ficaram os dois a conversar dos animais que conheciam e que mais gostavam. Sílvio nem deu pelo tempo passar, só reparou que o sol se escondia por detrás da Colina da Louca. Finalmente decidiu:
- Tenho de ir. Faz-se noite daqui a poucochinho. Mas gostei de falar contigo.
- Eu também.
- E amanhã estarás cá?
- Não sei, talvez…
O rapaz ia a entrar na floresta, quando de repente virou-se para a amiga e perguntou-lhe de supetão:
- Quem és tu?
- Eu? Sou uma fada…
E adivinhando a perplexidade, acrescentou:
- Não acreditas?
E perante o silêncio, concluiu:
- Sou a fada das Luzes!
Sílvio partiu por fim. Já fora da floresta regressou com as cabras e o Baixinho a casa enquanto comentava baixinho:
- Fada das Luzes? È tonta a cachopa…
Pela primeira vez o jovem pastor entrou em casa a cantarolar:

Quando eu não te conhecia...

 

 

 

 

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por José da Xã às 00:54

Segunda-feira, 26.03.12

Contos Breves - A Lua, amiga e confidente - XXXVIII

Eugénia deitou-se. Desde as 6 da manhã que andava a pé, num afã costumado e cansativo. Nem as refeições eram momentaneamente repousantes. Havia sempre alguém da casa que clamava e exigia a sua presença.
Puxou o lençol para cima e tapou-se. Não era que tivesse frio, porém fora um hábito que adquirira desde criança. Pela janela escancarada viu a Lua, sua amiga e confidente, que do alto do firmamento negro ouvia em silêncio a mulher triste desabafar, quase em surdina:
- Um dia parto... Sem destino.
E após um longo silencio continuou:
- ... Parto para longe, onde ninguém me conheça...
A confissão quase ameaça era, havia muitos anos, repetidamente a mesma. Mas ia ficando, sempre. Primeiro porque os gaiatos exigiram cueiros e cuidados permanentes. Mais tarde pretendiam batas limpas e asseadas na escola e agora crescidos nem sabia porquê, tudo servia de razão para ficar mais um dia, uma semana, um mês. E este último somado a tantos outros entornavam-se em anos e anos e anos…
A noite cálida e serena não trouxe consigo nenhuma brisa. Durante todo o dia um sol tórrido quase queimara as entranhas de um povo corajosamente sofredor, carregando aos ombros fardos de canseiras e fomes.
De súbito pareceu ouvir um leve arranhar no lado de fora da  porta do quarto. Sabia de antemão quem era, mas fez que não ouviu. Sem resposta, insistiram em bater ao de leve. Mas Eugénia manteve-se em profundo silêncio aguardando que do outro lado a julgasse já a dormir. Porém a insistência manteve-se e ela não teve outro remédio senão responder:
- Entre!
A porta abriu-se devagar rangendo nas velhas dobradiças e da penumbra surgiu um homem já de provecta idade. O cabelo branco e ralo cobria-lhe parte da fronte num desalinho, vestia um pijama surrado, de mangas puídas e muito curto. Nos braços, até onde se podia ver, a pele flácida e enrugada caia-lhe como de pedaços de carne a mais. Aproximou-se de Eugénia e sussurrou-lhe ao ouvido:
- Posso deitar-me aqui a teu lado?
A sopeira pode sentir então o odor nauseabundo que exalava do patrão. Uma estranha mistura de vinho, aguardente, alho e suor. Um pegulho que a enojava!
Mas nada disse. Deixou-se ficar, olhando a Lua, sua amiga e confidente. O homem, não obstante o silêncio da criada, teimou em invadir o leito. Mas desta vez apenas pretendia companhia:
- Desculpa, mas hoje não me apetece dormir sozinho... Não te importas que aqui fique?
E chegou o seu corpo à sopeira:
- Só assim, está bem?
Não estava bem, mas que podia ela fazer? A mulher teve pena daquele homem, sempre tivera. Desde o primeiro dia que ali entrara, havia muitos anos.
O fidalgo era descendente de uma rica família com origens no princípio da história do país. O seu avô, D. Acácio, tivera apenas três filhos: Clemência, Francisco e Amândio. A rapariga fora a mais velha dos irmãos; solteirona por convicção, gozara a vida até morrer. Imensos romances com diferentes epílogos, haviam partilhado a sua companhia contra a vontade férrea porém impotente de um pai austero, que acabou por considerar a filha como uma reles meretriz:
- Criei eu uma mulher para ser uma senhora e não uma galdéria pronta a encafuar-se em qualquer alcofa. Que pouca vergonha... Uma desgraça.
Quanto a Francisco, pai de D. Miguel, seguira as pisadas do antecessor e dedicara-se com êxito aos negócios agrícolas. Por sua vez, o mais novo perdera tempo e dinheiro em casinos e bordéis. Jamais casara e acabaria por perecer numa rixa, na feira de S. Sebastião por desavenças que envolveu saias e um marido ciumento.
Com a morte do pai Francisco, D. Miguel herdou não só o título nobiliário como a fortuna amealhada pela família. Da tia Clemência recebeu um belo palacete onde passou a viver e mais alguns nacos de terra fértil. De Amândio nada herdou. Tudo se evaporara...
Rico, solteiro e naturalmente bem parecido, num ápice o fidalgo passou a ser um candidato perfeito a marido, muito disputado pelas raparigas solteiras das redondezas. Porém só a Maria Violante conseguiria levá-lo ao altar. Conta-se que o sogro pagou uma grossa maquia para que Miguel aceitasse a jovem para sua esposa.
Realmente a noiva não era feia, bem pelo contrário. Mas exibia um estupor de um feitio que afastava qualquer candidato a marido. De ideias fixas, raramente dava o braço a torcer. Inflexível, arrogante e teimosa foi com incontida alegria que o pai viu partir a filha para a casa do genro. Confessaria um dia mais tarde numa roda restrita de velhos amigos:
- Foi o dinheiro mais bem gasto da minha vida! Desgraçado é do D. Miguel que tem de a aturar.
Todavia nos primeiros anos o casamento parecia quase perfeito. Foi o tempo de nascerem as crianças: três. Tal e qual o seu avô Acácio, dois rapazes e uma rapariga. Entretanto Maria Eugénia, ainda muito jovem, com pouco mais de doze anos, entrou ao serviço do casal, com a principal função de tomar conta dos gaiatos. Nessa altura já D. Miguel escapava sempre que podia de casa, enquanto a esposa se preocupava em caricaturar as vidas das vizinhas, em chás recheados de maledicência e coscuvilhice. A relação entre os cônjuges deteriorara-se abruptamente. O homem trocara uma postura alegre e acolhedora, pelo silêncio, rematado com uma tristeza permanente. Violante passou a usar e abusar da sua prepotência para desancar medonhas reprimendas na criadagem, como forma tristemente compensatória da sua vida medíocre.
Foi neste arruinado ambiente que Eugénia acabou por crescer. Também ela necessitava de carinho e algum consolo, principalmente após a morte recente da mãe. Mas no velho palacete teve de aprender à força a ser a mãe extremosa dos inocentes, a criada solícita da patroa, a governanta competente da casa e finalmente a amante fiel de D. Miguel...
Adormeceu por fim a mirar a Lua, sua amiga e confidente, sentindo nas costas o bafo quente e envinagrado do patrão. Quando acordou já a alvorada penetrava pela janela com se fosse uma carícia. Estranhamente sentiu ainda a seu lado o fidalgo. Estava tão sossegado que nem o ouvia respirar. Era a primeira vez em muitos anos que D. Miguel se deixava ficar na sua cama até de manhã.
Receosa do que poderia a patroa saber e pensar, resolveu então partir. A ameaça tantas vezes arremessada entre dentes transformara-se numa oportunidade única. Em silêncio, não fosse o fidalgo dar conta, amontoou os seus parcos pertences e encafuou-os numa cesta de verga comprada na feira de S.Bernardo. Arranjou-se, sempre em silêncio e saiu do quarto.
Fechou a porta devagar e desceu a frondosa escadaria. As tábuas velhas do soalho centenário rangiam à sua passagem, mas ninguém desconfiou da sua partida. Abriu a pesada porta e saiu. A manhã crescia por detrás das copas dos pinheiros que envolviam a imensa propriedade. Rodilha à cabeça lançou com perícia a cesta para o cimo, rodou-a um pouco para equilibrar e partiu. Depressa alcançou o caminho para a estação de comboios. Era ali que escolheria um novo destino para a sua vida. Nem sabia se para cima ou para baixo. Jamais saíra da aldeia. Punha o seu destino na Lua, sua amiga e confidente, que o Sol da manhã já não deixava antever mas que ela sabia que estava lá, colada ao firmamento, e ela que decidisse.
Entretanto no velho solar D. Miguel jazia naquela que fora durante muitos anos a cama de Maria Eugénia.
Em silêncio. Morto …

 

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por José da Xã às 22:17

Segunda-feira, 26.03.12

Contos Breves - Um burro... velho - XIV

A casa do Manuel da Foice ficava no cimo de uma ladeira, afastada da estrada principal de terra batida uns duzentos metros. O acesso tinha gravado no chão duas linhas paralelas, denunciando os rodados frios e frequentes da carroça. Esta era puxada por um velho jerico de cor cinza e que já denunciava a sua idade pela maior teimosia e pela dificuldade que mostrava ao subir a aceguia que terminava no palheiro retemperador.

Havia muito que o camponês se apercebera que o animal já não era o mesmo e assim convenceu-se em levá-lo à feira de St. António e vende-lo por lá. Sempre haveria alguém disposto a comprar o animal.

No dia do mercado aparelhou o burro e pôs-se a caminho. A noite perdia o fulgor e dava direito à madrugada fria. As quase três léguas ainda levavam o seu tempo a percorrer, mas ainda assim o asno andava menos mal.

Os primeiros feirantes abriam as suas tendas quando o viajante chegou. À entrada encontrou o compadre Casimiro e logo este o desencantou:

-          Eh ti’ Manel, também cá está? – como se não acreditasse no que via – Venha daí beber um copito, que pago eu...

-          Não obrigado – respondeu o outro – preciso de me despachar.

E sem mais conversa deixou o padrinho da filha a falar sozinho. Embrenhou-se calmamente no meio dos homens do gado. Ouvia negociar, via dinheiro a passar de mão para mão e foi desta forma que naturalmente se libertou do seu velho animal. O comprador, cigano de tez e de negócio ainda queria negar-se mas lá foi dizendo que o animal era bonito, estava bem estimado e outros epítetos. Contudo não queria pagar o que o Manuel pedia. Mas descendo um e subindo o outro em breve selaram o acordo com um aperto de mãos. O aldeão recebeu o dinheiro e foi então em busca de novas sementes. Entretanto o Casimiro reapareceu desta vez mais bem acompanhado e logo que descobriu o outro, dirigiu-se-lhe:

-          Ora cá estamos outra vez. Venha daí beber um copo que pago eu – insistiu.

Enfadado com a insistência do amigo e para evitar mais demoras o Manuel da Foice lá aceitou o convite:

-          Pronto vá lá. Mas é só para não fazer desfeita.

Na banca dos vinhos e petiscos bebiam outros convivas, mas a maioria tinha mais que a conta. O nosso homem bebeu um copito, pagou dois ou três e a determinada altura achou por bem regressar ao convívio da feira. Conseguiu libertar-se do compadre com a desculpa que tinha de ir comprar uns avios para a Maria e regressou à balbúrdia dos vendedores e compradores.

Em breve encheu um saco de sementes mas depressa percebeu que não podia ir para casa a pé carregado com o saco. Um olhar viperino descobriu um asno ao longe. Aproximou-se como quem não quer a coisa e gostou do aspecto do asno. Castanho, bem alimentado, bonito, era bem capaz de servir os seus intuitos. O seu proprietário, reparando no interesse de Manuel, foi-se chegando, até que observou:

-          Então chefe, que acha do jumento? Belo animal, hem!

-          Sim, sim – consentiu o outro sem querer mostrar demasiado interesse. Jogos de negociante.

Adjectivos para aqui, qualidades para ali, lá foram conversando sem nunca falarem dinheiro. Até que o Manuel não resistiu e perguntou o preço do burro. A resposta veio serena a exemplo da conversa, mas o preço estava demasiado alto para aquilo que podia pagar. O efectivo que recebera da venda do seu animal não chegava para cobrir o preço deste. Ainda teria de pôr algum do que trouxera. Mas o negócio ainda estava longe de se fazer. Como era seu hábito, quando pretendia alguma coisa, Manuel abandonava o local, deixando no ar uma desculpa:

-          É muito caro! Não tenho dinheiro para isso.

Mal virou as costas ao vendedor demonstrando desinteresse, logo este o chamou:

-          Ó chefe, não se vá embora. Ainda fazemos negócio…

Mas o eventual comprador já não o ouvia. O abandono faria provavelmente baixar o preço. Percorreu calmamente o recinto da feira, mirando as diversas barracas, repletas de objectos reluzentes e apetecíveis.

Ao longe, duma colina sobranceira à feira, olhou o redil. Por entre homens e animais lá descobriu o burro que tanto lhe caíra no goto.

A tarde principiava a escurecer ajudada por umas nuvens plúmbeas, prevendo noite chuvosa. Manuel aproximou-se novamente do vendedor do burro duma forma que parecia distraída.

-          Oh freguês. Veja o burro. Olhe que ainda lhe tiro duas notas – tentava o vendedor.

Menos duas notas era bom preço mas não o suficiente.

-          No mínimo três – contrapôs o comprador.

O outro coçou os cabelos negros como carvão e lustrosos como cera que se adivinhavam debaixo duma boina. Fez contas e mais contas e até que disse:

-          Duas e meia, está bem?

Foi a vez do comprador coçar os poucos cabelos. Mas este foi mais rápido a decidir:

-          Negócio fechado. Eu fico com o burro.

Pagou, carregou o animal com a saca em cima da albarda que retirara ao outro e fez-se ao caminho para casa.

Já era bem de noite, quando arribou à aldeia. Doíam-lhe já as costas e o próprio animal mostrava também já algum cansaço. Admirou-se para um animal jovem. Do fundo da escuridão surgiu de repente o Zé Romão, que acabara de chegar da cidade, onde fora fazer uns exames médicos. Cumprimentaram-se mesmo à beira do carreiro que levava a casa de Manuel da Foice. Este largou a arreata do burro, enquanto estendia a mão ao amigo:

-          Então Manel, ‘inda agora?

-          Oh, deixe-me lá. Fui à feira vender o meu velho burro mas acabei por comprar este…

… Mas quando olhou apercebeu-se que o bicho não estava com ele. Só viu a silhueta do animal à porta do estábulo, já lá em cima.

-          Mas com o diacho! Como sabe o asno que vivo ali… Não querem lá ver? – refilou o aldeão.

Despediu-se à pressa do Romão e subiu a pequena vereda em passo estugado. A porta do palheiro estava fechada, mas ele abriu-a. O burro entrou então serenamente como se estivesse em casa.

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por José da Xã às 21:48

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