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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quinta-feira, 10.05.12

Trilhos Privados - III Acordar para a vida

 

Ele entrou no quarto, quando Célia se pusera de pé de costas para ele. No pequeno espaço de tempo que a viu despida, de novo sóbria e na vertical, o rapaz sorriu. Não foi um sorriso de satisfação ou carinho, pela noite que tinham passado...Não! No seu rosto não havia uma réstia de ternura, condescendência ou até emoção. A emoção que um homem sente, minimamente, quando tem uma mulher pela primeira vez. Sabe que ela se entregou a ele de corpo e alma, como Célia o fizera, dizendo mil baboseiras de entremeio, a que ele aquiesceu para chegar onde queria. Isso fê-lo fungar desdenhoso. Exactamente no segundo em que ela apercebendo-se de não estar só, se tapava com o lençol de cima, depois de se olhar por inteiro e comprovar que necessitava de um banho. Foi aí que lhe viu o rosto, com mais exactidão, nervosa e comprometida. O olhar que ele lhe dirigia situava-se entre o maquiavélico e o calculista. Como se estivesse a ver uma peça de carne e avaliar o seu preço no mercado...Negro! As feição duras e sérias. E...Estava nu. Completamente.

A rapariga alvo embaraçada remeteu o olhar para o chão, não sabendo como conseguiu articular as palavras seguintes.

- Não estava à espera que estivesses aí. E...Assim.

- Não?! Talvez... Estou na minha casa, posso circular como quiser. Tomei um banho enquanto dormias. E...pela noite de ontem, diria que estás a gozar comigo, não?

Célia sentiu como se ele lhe tivesse dado uma bofetada na cara, mas encheu-se de força e encarou-o.

- Não sei ao que te referes. Só que não devia ter ficado aqui e também não convêm aparecer em casa assim. Posso tomar um banho e depois levas-me? Por favor? Nem que seja até ao carro... Nem sei onde ficou.

Ele deu uma gargalhada estridente divertidíssimo. Tinha nas nãos a "galinha dos ovos de ouro." Com que então a lindinha era além de virgem uma tonta qualquer, que não medira as consequencias de uma noite de copos. Hum... Por um lado era óptimo ser uma novata! Por um outro...Ele tinha planos para ela. Iria com calma. Se agisse com esperteza, ela faria o que ele queria. Já sabia que era uma tipa abastada, de boa família. Mas ele também era, só que... Tinha outros negócios e ela? Estava mesmo no perfil que os seus "sócios" necessitavam, para servir de entretêm a turistas de leste e do oriente. Mas, não! Nada de abusos e familiaridades, por isso foi curto e incisivo.

- Lamento! Terás de tomar banho em tua casa. Tenho compromissos e já estou atrasado.

- Mas...Mas... Eu não demoro nada. Eu...

- Já te disse. Veste-te e baza. Não tenho tempo a perder.

Célia nem queria acreditar no que lhe estava a acontecer. Vestiu-se, enquanto o via fazer o mesmo num ápice, tirar o lençol debaixo da cama e atirá-lo para um canto do quarto, acompanhado do outro, onde ela se enrolara.

- Estragaste-mos! Devia fazer-te, pagar-me outros. São caros... Sabes?

A jovem percebeu ao que se referia. Os lençóis estavam manchados, com o que tinha sido a prova do seu recato. Nem acreditava que a estivesse a tratar assim depois de tudo. Como é que ia sozinha, encontrar o carro? A que horas chegaria a casa? E o que iria inventar para... Descontrolada começou a chorar, o que lhe fez ter um novo acesso de fúria.

- Pára! Ouviste?! Que merda vem a ser esta, és algum bebé! Não sabias o que estavas a fazer... "Costumo beber sempre dois ou três..." Gozou-a maneando-se e fazendo uma voz de falsete.

- Não tens o direito eu... - Ela recuou com o braço e abriu a mão, para o esbofetear, mas só conseguiu ser atirada para cima da cama com um violento empurrão. Fazê-lo rir imenso. Em seguida, tirar uma nota de 20 euros da carteira e atirar-lha para cima. Finalmente, antes de sair dizer:

- O teu carro está no Bairro Alto, não vai ser difícil encontrá-lo. Ou pergunta, a alguém, estou-me nas tintas. Quando saíres bate bem a porta. Ah... E a partir de hoje passas a chamar-te Gin... "Gin tonic"! Caso queiras saber... Chamo-me Guilherme. O apelido não te diz respeito. Só que os amigos me chamam Gui. Mais tarde... Conto passar na tua casa.

- Hã - disse a rapariga confusa.

A porta fechara-se atrás dele, deixando-a lá a sentir-se, um monte da mais fétida porcaria. Olhou para a nota de 20 euros e ia recusá-la, mas... Acabou por agarrá-la, quando ao abrir a bolsa, se certificou que lhe tinham roubado a carteira! Com todos os cartões de identificação. E mais precisamente... O cartão de crédito do pai.

Absolutamente fora de si encontrou o telemóvel no fundo do bolso das calças. Felizmente que ainda o tinha. Com os dedos trémulos e as mãos geladas pensou a quem podia recorrer. Marta? Nunca! Talvez Vanessa... E só rezava para que a mãe e Genoveva acreditassem no que as duas cogitassem como "diversão".

- Estou! Sim, sou eu. Por favor não me perguntes nada agora. Só necessito saber se me podes ajudar?

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 16:49



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