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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 09.05.12

Trilhos Privados - II A Noite de todos os males

A noite estava convidativa para a borga. Célia estreara a roupa nova que comprara no dia anterior, numa loja da moda sem a mãe saber, com o cartão de crédito do pai que surripiara. Consigo haviam ido duas amigas também colegas de curso: Marta e Vanessa. Após terem revolvido durante horas toda a loja, acabaram por decidir por mini saias muito curtas, sapatos de salto e blusas justas a condizer. A noite previa-se de arromba. A primeira saída após o início das aulas era especial!

Célia era sempre o centro das atenções onde estivesse. Herdara do pai a altura e da mãe a restante beleza. As suas feições eram quase perfeitas. Nela nada existia a mais ou a menos, tudo estava na conta e tamanho. Os olhos muito azuis, contrastavam com o cabelo negro e longo, que ela deixava cair sobre as costas. Lábios finos e nariz perfeito faziam dela quase uma boneca de porcelana.

Saíra de casa com as coisas dobradas na mala, pois sabia de antemão que Genoveva, mais que a própria mãe, a criticaria pela forma pouco normal com ia vestida, se a visse naquele preparo. Sabia o que iria provocar nos rapazes com aquela roupa. Mas não se importava. Todas as suas amigas vestiam assim e ela além de nunca ir a lado nenhum de jeito, em que houvesse gente da sua idade, andava sempre como se fosse uma velha...Saia pelo joelho. Camisas largas... Ao menos ali, desforrava-se. E ria-se para si mesma!

Acabara também de tirar a carta há pouco e nesse dia tinham-lhe entregue o carro em que normalmente era conduzida! O que queria mais? Portanto, Estacionou o carro, deu uma moeda ao arrumador. Mais tarde, depois das aulas e já vestida, na companhia das amigas voltaram todas ao carro deixando o arrumador a mirá-las de forma gulosa. Entraram todas na viatura e seguiram para a discoteca. Não tinha jantado. Como as outras limitara-se a comer umas sandes à pressa. Uma vez chegadas, o ambiente já estava ao rubro. Para não ficar atrás, foi aceitando algumas bebidas que Marta, mais habituada a beber, passava de mão em mão. A música era espectacular. A maioria da malta muito fixe. Montes de tipos giros... Ela não podia resistir, embora percebesse que já bebera um pouco mais que a conta. Dançava, falava, ria... Excitada. Tudo era novo... Por isso estar assim, bem disposta, talvez até demais era bom! Por ideia de já nem sabia dizer quem, daquela discoteca resolveram ir a outra!

O magote de gente à porta quase as fez recuar.

- Tanta gente para entrar… Não há outra onde possamos ir? - Inquiriu Vanessa.

"Havia. Muitas outras … Mas aquela é a que estava na moda. Era A mais “in”. E toda gente queria entrar," afirmou Marta. Logo! Tinham de conseguir. Ao fim de longos minutos de espera e algumas insinuações ao tipo da porta, as três amigas entraram finalmente no estabelecimento. A música ia subindo de tom. Quase lhes parecia rebentar com os tímpanos. Lá dentro, procuraram naquele amontoado de gente, malta conhecida. Dezenas de jovens dançavam ao ritmo estridente da música. As luzes ajudavam ao efeito psicadélico. Finalmente as três amigas conseguiram sentar-se muito perto de alguns colegas da faculdade. Mais uns copos e após deixarem os casacos, correram para a pista de dança. Célia começou a dançar. A sua forma de estar, já relaxada pela bebida, era diferente. Exibia-se com uma delicadeza e sensualidade que chamou a atenção de quase todos os rapazes nas proximidades.

Ricardo estava presente mas nada disse. A sua paixão por aquela rapariga tão bonita, nascera no primeiro dia que a vira. Tinham-se encontrado na biblioteca da Faculdade. Ele era estudante trabalhador, no horário nocturno. Naquele dia fora requisitar um livro que não achava em parte alguma e viu-a. Sorri-lhe e tentou falar-lhe, mas ela não lhe ligara. Nem nesse, nem noutras, poucas alturas que se tinham cruzado de novo. Um cumprimento muito superficial e bastava. Célia começava a desenvolver inclinação por tudo o que era proibido e perigoso. Aceitara andar de mota com um dos amigos do colégio que a rondava. Quando ele a beijou um bocado à força, como "pagamento" da boleia, deixou-se levar. Para Célia o infinito era o limite. Apercebia-se ultimamente, que os homens a devoravam com o olhar, e sabendo disso mais afoita se apresentava. Evidenciava os decotes, encurtava as saias... E as calças eram cada vez mais justas, sempre que se podia escapulir á atenção da mãe ou de Genoveva!

Por fim, já cansada, perdida das amigas sentou-se num cadeirão perto do bar. O barman aproximou-se. Ela pediu-lhe uma bebida. Deram-lhe a escolher, ela respondeu:

- Um gin. - Ouvia tantas vezes a mãe e os amigos finos dela, gabar aquilo...

Sem dar conta, alguém se aproximou e sussurrou-lhe ao ouvido:

- Isso não será forte demais para uma... menina?

Célia virou-se para quem lhe fizera a afirmação. Meia tonta e ébria deu de caras com um jovem claramente mais velho que ela, mas muito, muito atraente. A universitária riu e disse:

- Geralmente bebo sempre três ou mais…

Porém Célia jamais provara gin. Seria naquela noite a primeira vez. No entanto levou o copo com a bebida à boca, provou um pouco e fez-se forte. Deu um pequeno estalo com a língua, dizendo:

- Já bebi melhor…

O amargo da bebida dera-lhe náuseas, mas jamais daria parte de fraca. O antagonista encostado agora a uma coluna, ao lado, não tirou os olhos de cima de Célia. Esta sentiu que era o centro, uma vez mais das atenções, embora o álcool lhe começasse a entorpecer mais a mente. Atacar-lhe as pernas. As suas amigas numa mesa ao fundo, acenaram-lhe. Bebiam cervejas. Ela continuou com o gin. Sem ir ao encontro delas. Após ter bebido o primeiro pediu outro. Mais tarde outro ainda. E a determinada altura ria tanto e tão alto, que a tiveram que a levar para a rua. A noite arrefecera mas Célia não tinha frio. A voz taramelada pelo álcool quase não se deixava perceber. As colegas, aproximaram-se. Pretendiam coloca-la num táxi e levá-la para casa, mas Célia recusou peremptoriamente. Tinha o seu carro! Mas após uma breve conversa, aceitou a boleia do desconhecido. Este passara o resto da noite a falar e dançar com ela. A jovem acabava a ver nele o seu príncipe encantado. Quiçá o homem da sua vida! O sonho tornado realidade.

Célia acabava de acordar! E de repente sentiu frio. Abriu um olho. Depois o outro e percebeu que aquela não era a sua cama. Muito menos a sua casa. Finalmente ergueu-se meio aflita e entendeu porque tinha frio: Estava nua.

 

José da Xã e Verniz Negro

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por José da Xã às 17:30



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