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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Terça-feira, 08.05.12

Trilhos Privados - I Célia

- Célia!

No quarto, ao ouvir a mãe a rapariga praguejou entre dentes. “Merda! É preciso tanto alarido. Já sei que acordei tarde e já perdi duas aulas…”

- Já vou! Estou a descer.

Qual, quê! Estava a entrar para o banho, ainda a tempo de ouvir Genoveva a bater na porta. “Outra que vou ter de aturar…Seca!”

- Menina está aqui a bandeja, com o pequeno-almoço. A estas horas até parece mal. Soa mais a lanche antecipado…

- Olha! Poupa-me Genoveva. Estou atrasada, já sei. Sê porreira e tira-me aí do armário a porcaria do uniforme. Assim engulo essa tralha, enquanto me visto e não tenho que levar com a minha mãe, em mais um grito esganiçado. Parece uma arara!

A serviçal abanou a cabeça e obedeceu. Genoveva trabalhava na casa dos Cabral ia para desanove anos. Fora contratada quando Célia nascera, para cuidar dela também, além de um motorista e uma cozinheira que entretanto tinham sido dispensados, era hoje o braço esquerdo e direito da casa, acumulando tudo a seu cargo. Até os “golpes” daquela miúda que adorava, mas via cada vez mais enveredar por um caminho estranho. Célia era linda! Não. Lindíssima. E uma boa menina quando queria. Só que filha já tardia do casal Ludovico Borges Cabral, de cinquenta anos na altura e Guiomar Ferreira de Lacerda Cabral, de quarenta, quando a teve, ambos das melhores famílias de Sintra, fora criada com tanto mimo e regalo que não dava valor a nada. Provavelmente aqueles dois pensariam já não ter herdeiros… “Havia de ser sua filha!” Cogitava a criada.

Nunca se podia, contrariar-lhe a vontade. E não era com gritos de chamamento, ou sorrisos tolerantes e abanares de cabeça, como fazia a mãe, que a jovem entraria nos eixos. Acabara de completar vinte anos recentemente em Maio e na altura, quando Guiomar pediu a Genoveva que a acompanhasse nas compras, a conversa das duas fora no sentido disso mesmo. Célia estava a ficar “desgarrada”. A tornar-se mal-educada e intolerante. Começara mal o pai ficara doente, com Alzheimer. Já não a conhecia. Definhava de dia para dia e Guiomar dedicava-lhe mais do seu tempo que faltaria para Célia. Pobre senhor Ludovico, ainda era novo para a doença quando ela o atacou, mas o risco é mais alto em pessoas que têm história familiar e nos antepassados do patrão abundavam casos. Hoje com setenta anos estava à beira de… Enfim! Nem queria pensar no que seria de mãe e filha depois. Dinheiro, propriedades. Não eram riquíssimos, mas abastados… E não lhes valia de nada! A família mais próxima era toda formada de tios e outros já tão “antigos” que Célia se sentia um “bibelot” no meio de tanto “bafio”. Coitada, da miúda. Não fosse Genoveva com os seus quarenta e cinco, mais mãe que a própria e a rapariga daria em louca. Não havia muito da sua época que se falasse. Era tudo muito comedido. Vivido no passado aureo… Por isso Genoveva, sentia-se consciência e na obrigação de ajudar a patroa e a sua “menina”. O que não impedia de umas boas reprimendas. Por isso mais tarde nesse dia quando a rapariga telefonou à mãe a pedir permissão para chegar mais tarde e ir com uns amigos celebrar, nem sabia o quê, Genoveva encolheu os ombros quando Guiomar permitiu. Não era isto dar educação.

Célia frequentava uma escola das melhores da localidade. Onde como em todas há o óptimo, bom, e assim, assim. Detestava que a mãe a tivesse matriculado nela, mas entre esta e o regime de internato… Genoveva por vezes levava-a de carro. Outra ia buscá-la, quando a patroa não podia, por ter de ficar com o pai. Sinceramente se lhe perguntassem não era sítio onde pusesse uma filha sua a estudar. Demasiada petulância, maus exemplos, que não se coadunavam com o período de crise que o país atravessava. Uma mensalidade exorbitante e poucas regras. Muitos “betinhos” de carro próprio, motas “artilhadas"… Miúdas com cabeças vazias, ideias muito “desenvolvidas” para o seu gosto. Os novos-ricos, que vão ser donos do mundo…E arredores! Portanto numa qualquer escola pública talvez Célia encontrasse menos “aparências” e mais genuinidade, bem como bom ensino, ainda que também houvesse maus exemplos. É assim que se aprende a estar na vida. Só que quando o dinheiro rareia, tem forçosamente que se ter os pés assentes na terra.

Por isso quando exausta, Guiomar adormecera nessa noite deitada e ainda vestida ao lado do marido, quem ficou acordada e ralada, até que visse Célia aparecer, foi Genoveva. Aquela luz do seu humilde mas confortável quarto não se apagou em toda a noite. E quando o dia raiou, a mulher andava agoniada para justificar à mãe já com tantos problemas, a noite passada fora pela filha. E desta vez era ela que praguejava enfurecida:

Que falta de consideração pelos pais tem aquela miúda! O que é que ela pensa e quer da vida? Raios pelem a garota que se eu pudesse, mal chegar atestava-lhe três ou quatro bofetões naquela cara que…Com quem terá ficado? Onde andará ela? Não tinha uma mensagem um telefonema. Ai, magana!” 

Conquanto Genoveva só queria que ela chegasse. Só que aparecesse. Basicamente conhecia a miúda como a palma das suas mãos. Era uma tonta! Pensava-se muito esperta, mas não sabia nada da vida. Por isso acendeu uma vela e rezou…Para que Guiomar dormisse, pelo menos mais um ou duas horas, lá em cima.

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 17:31



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