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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Sábado, 21.04.12

Em passo de dança

Tamborilava os dedos no volante ao som de Sultans of  Swing, dos Dire Straits. Uma música que ele simplesmente adorava e que estava a tocar na Rádio Nostalgia. O trânsito naquela manhã desenhava-se caótico. Filipe experiente e conhecedor logo se lembrou:  “Deve ser algum acidente”. E como costumava dizer para si e para os outros, o que não tem solução está solucionado por si, não se preocupou.

À sua volta as pessoas dentro dos carros reagiam de forma diversa. Atrás uma senhora que já passara o meio século acabava a sua maquilhagem, aproveitando o espelho do pára-sol. Na sua frente uma carrinha fechada, impedia de ver o quer que fosse para a frente. À esquerda evoluía um passeio e finalmente à direita, uma jovem mulher olhava para ele de forma espantada. E sorria. Assim que a viu, juntou a música aos seus dedos e percebeu que ela reparava naquela sua postura alegre e descontraída, tendo em conta a manhã.

O trânsito palmilhou cinco curtíssimos metros. Devagar. Ele voltou a olhar para a jovem, no veículo ao seu lado, que continuava a olhá-lo com o mesmo sorriso. De repente o vidro da janela dela baixou e ele fez o mesmo ao seu:

- Bom dia, desculpe incomodá-lo. Não é fácil alguém com este trânsito estar tão feliz assim…

- Bom dia, pois tem razão mas que posso eu fazer? Não melhoro o trânsito por estar aborrecido e assim sempre vou gozando com a música.

- O que estava a ouvir?

- Dire Straits.

- Também gosto. Muito bom dia.

E fechou o vidro.

Filipe nem pôde responder. Fechou também a janela e ficou a ouvir a música. Agora escutava Creedence Clearwater Revival em Bad moon rising.

Um atropelamento fora a origem de tamanho engarrafamento. Passado o local do sinistro, o trânsito fluiu com normalidade. Chegou ligeiramente atrasado ao trabalho e à reunião.

Curiosamente, não se esquecera da jovem que se admirara com o seu tamborilar de dedos. Recordou-lhe as feições: Olhos claros (não conseguira ver a cor!), lábios finos bem pintados, rosto magro sem ser esquelético. Bonita, enfim! Jamais a veria, mas fora curioso aquele encontro matinal.

Decorreram duas semanas e Filipe esquecera-se por completo da jovem.

Numa sexta feira decidiu ir ao cinema, sozinho. O abandono a que fora votado por Carla deixara-o livre de sentimentos, mas também de companhia. Mas antes do cinema havia que comprar algumas coisas para casa. Optou então pelo El Corte Inglês onde tinha o cinema e supermercado. Aqui carregou o carro com compras e dirigiu-se à caixa. À sua frente uma pessoa do sexo feminino, aguardava também a sua vez.  Filipe observou-a por detrás. Trazia vestido um casaco comprido de cor cinza, calçava sapatos de salto muito alto e os cabelos caíam-lhe nas costas de forma uniforme.

De repente a pessoa voltou-se para trás e Filipe reconheceu a jovem que se metera consigo, naquela manhã. Todavia receoso que estivesse a fazer alguma confusão não disse nada. Ela olhou-o. Teve a mesma sensação. A mesma reacção. Todavia ficaram ambos em silêncio.

Mas Filipe depressa magicou um plano. Pegou no telemóvel e simulou que estivesse a receber uma chamada:

- Olá companheiro…

- …

- Estou no ElCI, ando às compras e depois vou ao cinema. Queres vir ter comigo?

- …

- Jantamos depois do cinema e vamos para minha casa ouvir umas músicas. O que é que achas?

- …

- Sei, lá… Dire Straits, diz-te alguma coisa?

Nesse momento a jovem virou-se e olhando-o nos olhos percebeu que Filipe era o homem da outra manhã. Aproximou-se serenamente do homem e sem qualquer inibição beijou-o calorosamente, à frente de toda a gente.

A menina da caixa atrapalhada, disse:

- Podiam-se chegar à frente, se fizerem favor.

Mas eles não chegaram.

Deixaram ali mesmo as compras e partiram apressados para casa dele, para ouvirem “Romeo and Juliet”.

 

José da Xã

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por José da Xã às 13:06


9 comentários

De Fátima Soares a 21.04.2012 às 15:06

Logicamente que isto nunca se passaria com a senhora de 50 anos que retocava a maquilhagem. Hum... O que me deixa na minha. Infelizmente são muito "sugestionáveis". Será que ele não pensou que se ela o fez com ele, com quantos já não o fizera. Mas isto é a realidade e aqui é apenas um conto, não é? E devo admitir...Todas elas boas músicas. Um gosto excelente e uma forma ardilosa de agir. Ou direi inteligente, ou nem tanto assim...Uma vez que a jovem estava "disposta" a dançar. Pobre Carla, ou não...Não, sei! Os homens são simplesmente muito rápidos e frios na substituição de "peças" no tabuleiro do jogo. Talvez enquanto a Carla ponderava no se comportamento já não houvesse muito a preocupar-se. Mas fora as minhas palermices gostei está o que é a rotina. O desgaste de relações ou o recurso à aventura fácil pela adrenalina Uma boa tarde de sábado José. Tudo a correr muito bem.

De José da Xã a 21.04.2012 às 15:52

Também sei que a uma jovem de meio século não surgiria do nada um impulso tão frontal. Mas acredite que por vezes já nem sei...
Este conto escrevi-o esta manhã. Andava com ele na cabeça vai para vários dias. Sabia como começar, mas não como acabar. Depois aquela coisa (a que muitos chamam imaginação) de acabar assim com eles a fugir.
O que eu tentei dizer foi que no relacionamento entre pessoas é nas coisas mais singelas que temos de encontrar a outra parte de nós. Provavelmente a Carla não gostava de Dire Straits, preferia Tony Carreira, sei lá!
Mas eu não acredito que os homens sejam vistos assim pelas mulheres: voláteis.

De Fátima Soares a 21.04.2012 às 17:20

Oh, José esse remate do Tony Carreira é uma preciosidade. Eu se fosse homem fugiria de uma fã dessas. Logo o Filipe fez muito bem em optar pela "miúda". Seja. Quanto à jovem de 50 olhe que não as "menospreze" nessa idade sabe-se muito bem o que se quer e sabe-se muito melhor o que é a vida do que uma jovem com sangue na guelra. Há mulheres de 50 que deitam duas de 20 ou uma só para o lixo. Mas pronto! Isto já sou eu a puxar dos galhardetes da faxa etária...Beijinho José. Obrigada pelo conto deu-me muito prazer a ler como todos até aqui. E claro que nem todos os homens são são voltáteis e isso não vem também ao caso estou a ser um pouco absurda. Isto é um conto! Que ilustra a vida real, mas isto é normalissimo. Quem de "nós" já não sonhou com uma fuga destas ao som de uma banda de elite como os Dire ou os Creedence. Tudo de bom meu amigo

De José da Xã a 21.04.2012 às 17:54

Sabe uma coisa? A saga vai continuar!
É só o que digo... Depois me dirá.
Quanto às mulheres de 50, são como as de 40 ou de 30. No que respeita ao amor, vale tudo! E ainda bem que assim é.
Eu conheço algumas de 50 anos que se comportam como tivessem 20. Em tudo.
Mas ainda bem que temos visões diferentes. Eu gosto do debate e de ouvir (ler) opiniões diferentes. Bem haja por ter lido e comentado. Assim vale a pena escrever... Sabe bem ao ego sabermos que alguém se incomodou a ler o que escrevemos.
Vamo-nos vendo por aí...

De Kikas a 05.02.2016 às 21:35

O Filipe tem bom gosto musical, a jovem tem boa memória, mas o que eu concluo deste conto é que o José tem imenso jeito para contos, histórias e estórias

De José da Xã a 05.02.2016 às 23:44

Histórias e estórias da vida...
Mas a música é sempre importante na vida de todos nós!
Bom fim de semana.

De Kikas a 06.02.2016 às 10:49

A música move a minha vida ;) Bom fim de semana, beijinhos :)

De José da Xã a 07.02.2016 às 19:49

A música faz parte de todos nós.
Por vezes nem damos por isso!

De Kikas a 07.02.2016 às 21:24

Eu dou porque não consigo passar um dia ou horas sem ouvir música

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