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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 18.04.12

Contos Breves - Pensão Esperança - XXXIII


Tresandava a lagar. Em meados de Novembro vivia-se o apogeu da colheita. As oliveiras vergadas pelo peso dos lutos obrigavam à azáfama da apanha. Ranchos de homens e mulheres, vindos de partes incertas espalhavam-se pelas fazendas, emaranhando-se pelas árvores ou venerando-as numa religiosidade invulgar. Os lagares laboravam desde cedo até noite profunda tentando dar vazão aos carregos amontoados debaixo de velhos telheiros em paciente espera. No interior as possantes galgas rodavam em infinita perseguição, esmagando impiedosamente à sua passagem, a azeitona madura por um estio quente e seco. Ao centro do lagar, erguia-se a prensa que docemente ia apertando as ceiras num abraço irreversível e violento. Estas carpiam então lágrimas viscosas e brilhantes que escorriam em torrentes de mágoas e de dor, até à tarefa.

Antes do último aperto, homens sujos de gordura viscosa e seminus escaldavam as ceiras com água a ferver, saída da caldeira, centro de atenções e calores exigidos pelos dias frios de Outono. Após o derradeiro apenas restava o bagaço castanho e seco.

Na tarefa larga repousava então horas a fio, o choro silencioso das ceiras. No fundo a almofeira ia por fim assentando, até o lagareiro, com saber e perícia, abrir a boca e deixar a água russa escapar até à rua, onde uma pequena vala servia de guia até à fazenda.

Domingo, único dia de repouso para os ranchos de gente estranha que invadiram a aldeia em busca de trabalho. Os mais valentes levantavam-se cedo e percorriam os olivais colhidos em busca de algum rabisco. Outros preferiam o ripanço de uma esteira malcheirosa. Algumas mulheres aproveitavam o dia para lavar roupa suja. À tarde um jovem tocador soprava na harmónica e mesmo ali se desembainhava um bailarico. Os pares volteavam acertadamente, como de uma perfeita coreografia se tratasse.

Joaquim Coxo já entrara na casa dos trinta. Mecânico de motas e bicicletas, fazia gala do seu estatuto de solteirão. Órfão de pai e mãe, nem a irmã Maria, nem os irmãos mais velhos José e António o demoviam a casar. Curiosamente pretendentes não lhe faltavam, mas ele teimava que assim é que estava bem, que não tinha paciência para aturar uma mulher, que gostava de estar sozinho.

Mas naquele fim de tarde de Outono frio e penetrante, Joaquim perdeu enfim a sua compostura e vaidade. Andava a experimentar a motorizada do cunhado, acabada de consertar, quando passou encostado à casa que os apanhadores usavam como lar. De súbito surge uma moçoila bonita e formosa. O mecânico ao vê-la, encadeado quiçá com a beleza, por pouco se despistava. Houve quem se apercebesse do zig-zag que o motociclista desenhou na estrada a fim de se equilibrar e logo comentasse em surdina:

-          O Coxo quase trambolhou hoje à tarde por causa de uma cachopa do rancho. Aquilo é que foi dançar com a mota da estrada!

A partir daquele dia Joaquim deixou de viver em paz e sossego. Só conseguia lembrar-se da rapariga esbelta. Não a conhecia mas logo tentou chegar-lhe à fala. Nunca tivera dotes de galã e muito menos gestos marialvas e a escola abandonada cedo demais havia perto de vinte anos, também não o ajudara com as palavras. Mas ainda assim isso não seria motivo que impedisse de falar à moçoila.

Rondou pacientemente dias a fio, o albergue do rancho. Até que certa véspera a descobriu descendo sozinha uma das ruas do povoado. Carregava à cabeça um cesto de verga assente numa rodilha de pano onde transportava alguns víveres para o jantar.

-          Muito boa tarde menina! – cumprimentou o rapaz.

Abordada assim de supetão, logo ela lhe devolveu com singular azedume:

-          Boa tarde, senhor! Que me quer?

Percebendo nas palavras atiradas como pedras a cão vadio, o desdém da rapariga, desculpou-se:

-          Nada menina, nada, perdão!

-          Então deixe-me em paz que quero ir descansar –atirou novamente a cachopa.

-          Claro, com certeza – desculpou-se.

Mas após uma ligeira hesitação, encheu-se de brios e ousou galantear:

-          Sabe, há muito tempo que não via por aqui uma jovem tão formosa como a menina...

Pronto estava dito. Agora era aguardar a reacção. E esta, claro está, veio tão depressa que Joaquim quase se assustou:

-          Oh, isso são dos seus olhos. Há por aqui raparigas bem mais bonitas.

Ao invés do que seria de supor a resposta veio claramente doce e serena. Joaquim tremia e não sabia se de excitação ou de nervosismo. “E agora que dizer mais?” Pensou. Num breve momento ocorreu-lhe:

-          Vai cá estar muito tempo?

-          Ainda não sei. Depende!

Um silêncio cavo tomou de novo Joaquim Coxo. Atrapalhado, nervoso e sem mais tema de conversa, despediu-se:

-          Então boa-noite e até um dia destes...

-          Boa-noite – respondeu a apanhadeira sem emoção.

O mecânico regressou a casa em passo acelerado. Lavou-se das gorduras e óleos e sentou-se à mesa, esperando o jantar que não chegou. Mas um repasto naquele momento não era importante. O seu pensamento saltitava entre a beleza quase perfeita da rapariga e as recordações das palavras proferidas. Deitou-se sem ceia. De olhos fixos no tecto e mãos entrelaçadas a substituírem a almofada negra de camisas de maçaroca, adormeceu por fim.

Nos dias seguintes, Joaquim via-a de vez em quando ao longe e timidamente acenava-lhe com a mão negra de óleo, ao qual ela nunca respondeu. Soube mais tarde que a jovem viera somente acompanhada do pai. Alguém a quem ela respeitava e temia mais do que amava. Mas Joaquim não era homem para recear quem quer que fosse e muito menos alguém estranho à aldeia.

Era costume os homens do rancho conviverem com os da terra, no lagar à volta da caldeira quente e acolhedora, beberricando copos de vinho ou simplesmente conversando. Foi num destes serões que Joaquim encontrou o pai da cachopa e conversa puxa conversa lá foi dizendo:

-       O senhor tem uma filha muito bonita.

Subitamente contrariado pela franqueza do homem, logo o outro lhe devolveu de forma abrupta e roçando a violência:

-          O que é que vossemecê tem a ver com isso? Nem pense em arrastar-lhe a asa, pois tem que se haver comigo.

O temperamento do Joaquim era normalmente dócil e apaziguador, mas naquele instante ferveu-lhe o sangue e revoltando-se e atacou do mesmo modo:

-          Mas quem é que você julga que eu sou?

-          Um pelintra qualquer… - respondeu entre dentes o pai.

Joaquim ouviu e não se acobardando, replicou com veemência:

-          Pelintra? Posso ser sim senhor! Mas não preciso de ir para longe para ganhar a vida. Ganho-a aqui mesmo com estas mãos sujas mas honradas – e virando a palma das mãos para o adversário, continuou - e ainda não me faltou trabalho... Graças a Deus.

O antagonista não apreciou a afronta e levantou-se num rápido da cadeira, ameaçando.

-          Queres levar um par de tabefes? Olha que ainda sou homem para ti!

E avançou decidido contra o aldeão. Este, comparando a sua figura e a idade com a o do outro, logo percebeu que levaria grande vantagem num eventual confronto. Por isso foi respondendo, num tom de voz que denunciava ao mesmo tempo calma mas também algum nervosismo:

-          Para mim sei que é homem, mas para a sua filha é que não é pai. Não me diga que a quer para freira?

Os acontecimentos precipitaram-se em tormentas de acusações. Os homens no lagar seguraram cada elemento evitando assim males menores quando surgiu a jovem, que passando por perto, ouviu os brados arrogantes do pai e logo entrou, tentando acalmar os ânimos:

-          Mas o que se passa aqui? Que gritaria vem a ser esta, meu pai? – Questionou a rapariga fulminando o antecessor com o olhar.

Joaquim parecia ser o mais sereno e por isso respondeu calmamente:

-          É o seu pai que está um pouco amofinado comigo, só por lhe ter dito que a menina é muito graciosa.

A jovem olhou para o pai rezingão e em silêncio aguardou uma resposta. Mas o caprichoso homem nada disse. Percebera que olvidara as boas maneiras e com isso perdera a compostura e a razão. O mecânico dando conta de algum mal-estar entre pai e filha, desculpou-se então:

-          Perdoe-me mas tenho de ir fechar a oficina. A si senhor – e apontou para o homem mais velho – peço-lhe sinceramente desculpas pela maneira como o abordei. É capaz de ter razão, eu sou mesmo um pelintra. Boa noite.

E abandonou o lagar. Atrás de si cresceu então um burburinho que ele não pretendeu entender. Mas a turbulência que invadia o seu espírito e coração chocava contra a pacatez e a sensibilidade da rapariga. Quase sem dar por isso crescera entre ambos uma curiosa relação. E com tão poucas palavras trocadas. Todavia suficientes para entenderem que algo os unia.

O retorno a casa foi transposto a remoer palavras não proferidas e tão absorto estava nos seus pensamentos que nem passou na oficina como era seu uso. Jantou calmamente e deitou-se, sempre com o pensamento na jovem. Bonita sem dúvida e formosa, parecia arcar uma força e uma coragem invulgares, de quem sabe o que quer. Após muito matutar Joaquim decidiu enfrentar uma vez mais o pai. Ele tinha de o ouvir uma vez mais!

Na manhã seguinte, levantou-se muito cedo e esperou que a moça e o pai abandonassem a casa do rancho a caminho do olival. Finalmente a porta abriu-se e todos saíram menos o pai e a filha. Preocupado logo abordou um dos apanhadores.

-          Que é feito daquela jovem moça que aqui vivia com o pai?

-          Quem? A Aurora?

Então era este o seu nome, pensou o Joaquim.

-          Sim a Aurora!

-          Voltou ontem à noite mais o velho para a terra. Vá lá saber-se porquê! É um bruto qualquer…

A notícia foi colhida como um tiro. Jamais a veria. A tristeza invadiu-lhe a manhã numa melancolia impenetrável. Por culpa própria deitara tudo a perder. Precipitara-se no encontro com o pai de Aurora. Tinha a obrigação de ter sido paciente e acima de tudo prudente.

Regressou à oficina e pegou nalguns casos mais complicados que lá tinha e que obrigavam a muita atenção e perícia. Entreteve-se então a resolve-los tentando esquecer por momentos a tristeza que corroía o seu coração.

Quando à noite entrou em casa, cresceu a dor e a raiva. Na cabeça rodopiavam inúmeras ideias, vontades e ensejos. Não sabia como, mas amava aquela cachopa. Com ela queria finalmente uma vida, ter filhos, construir um lar ou amá-la simplesmente.

O rancho continuava o seu afã de ripar a azeitona num corrupio permanente. No lagar as ceiras repletas de massa passavam martírios para brindarem o homem com o líquido verde e gorduroso com que regariam as batatas e as couves. O cheiro acre e característico pairava ainda e sempre no ar como uma praga.

Entretanto e após muito matutar Joaquim assumiu finalmente um desejo: ir em busca da amada. Mas para concretizar o que magicara, necessitava de dinheiro e tempo. O primeiro, foi fácil, retirou-o duma velha mala que escondeu no cimo de um guarda-fatos. Um pé de meia guardado, havia alguns anos. Quanto ao tempo teria de optar por um fim-de-semana. Desvendou depois, sem grande dificuldade, o nome da aldeia da jovem e do pai austero. Bastou-lhe unicamente uma rodada geral e mais uns copos estrategicamente oferecidos. O lugarejo dormia no meio das fragas beirãs a muitas léguas de distância. Uma jornada que se avizinhava longa e dura.

Numa sexta-feira, ao fim da tarde, Joaquim encerrou a oficina mais cedo e meteu-se à estrada. Montado na sua velha mas fiel motorizada, conduziu toda a noite. A estrada sinuosa e em mau estado não era todavia impeditiva da viagem. Já bocejava a manhã quando entrou na vila. Parou em frente de uma casa de pasto onde matou o bicho enquanto questionou a diversos pelo melhor caminho para a aldeia. Escutou algumas versões contraditórias, agradeceu e optou por partir confiando na sorte. Perdido após algumas voltas pela simpática vila lá encontrou o que supôs ser a estrada para a povoação. O acesso feito de terra batida e repleto de largos e profundos buracos, obrigava Joaquim a andar bem devagar numa quase procissão. Emparedando a estrada enormes pinheiros erguiam-se até ao céu. Nos intervalos cresciam frondosos eucaliptos, dando ao trilho um aspecto sombrio e quase tenebroso. A brisa da manhã era fria e soprava com vigor pela folhagem do pinhal. O caminho apresentava-se umas tortuoso e íngreme, outras plano e sem curvas. A motorizada embrenhava-se na paisagem quase fantasmagórico sem medo. Negociava as curvas devagar, não fosse o Diabo tece-las e ficar ali empanado naquela terra de ninguém. Por entre as árvores, Joaquim conseguia descortinar um pequeno ribeiro que serpenteava ao seu lado no vinco profundo do vale. Após longos quilómetros de mau piso e de velocidade reduzida, surgiu finalmente no horizonte um aglomerado de habitações cinzentas e tristes. Cravadas na serra as casas construídas na encosta soalheira, assemelhavam-se a um Presépio em ponto grande. Uma ribeira de água cristalina atravessava a aldeia por entre as pedras roliças. A torre da igreja, branca e centenária, destacava-se ao longe, encimada por um sino e um relógio. Este marcava meio dia e soaram pelo vale as doze badaladas. Foi nesse preciso momento que Joaquim chegou por fim à aldeia. Subiu a rua até à praça principal e parou. Apeou-se da motorizada, retirou o capacete e mirou com curiosidade o singelo largo. O chão de paralelepípedos graníticos faziam soar com mais profundidade os cascos dos animais que atravessavam o povoado. Ao centro da praça erguia-se uma cruz de pedra, já quase vestida de musgo negro, salpicado de tons doirados. Na esquina de uma rua que desembocava no adro havia uma taberna escura. O viajante entrou devagar. Dentro da loja podiam-se contar três mesas de madeira, pequenas e mal limpas, donde sobressaíam rodelas de vinho do fundo dos copos usados. A lâmpada que emanava uma luz ténue estava envolta por uma camada negra de pontos negros ali depositados pelas moscas que volteavam ao redor da luz. A um canto, dois idosos jogavam às cartas. Ao balcão o taberneiro quase dormia encostado a uma velha telefonia de madeira que tocava um som roufenho e imperceptível. Joaquim aproximou-se e baixinho saudou:

-          Boa tarde, senhores!

O patrão como que acordado da sua letargia, respondeu:

-          Boa tarde! Que deseja?

-          Uma cerveja, se fizer favor.

Do fundo do balcão surgiu a garrafa que o tasqueiro abriu.

-          Aqui tem!

-          Obrigado! – e levando a garrafa à boca sorveu um bom bocado. Depois suspirou com prazer.

Necessitava agora de abordar o assunto que ali o trouxera: Aurora. De súbito veio-lhe à ideia uma boa desculpa para estar ali e tentar descobrir o paradeiro da jovem.

-          Diga-me se conhece uma rapariga de nome Aurora?

O outro olhou-o duma forma áspera e logo respondeu abruptamente:

-          Conheço sim senhor. É minha sobrinha. O que lhe quer?

-          A ela nada – mentiu – queria era falar com o pai, mas como não sei o nome dele…

-          Mas o que é que esse traste fez desta vez?

-          Não fez nada, que eu saiba! Só que andou a trabalhar naquilo que é meu e um belo dia desapareceu com a filha sem que lhe pudesse pagar os dias.

Num gesto repentino o taberneiro barafustou em forma de desabafo:

-          Isso é mesmo coisa do meu cunhado. Alguém lhe disse alguma por lá e ele não vai de modas, vem-se embora sem receber o que lhe é devido. Uma besta! Um cretino! Ainda estou para saber o que é que a minha falecida irmã viu naquele camafeu

-          Pois… mas eu apenas pretendo saber onde ele mora… Quero pagar-lhe e ir embora. Estou muito longe da minha aldeia.

-          Tem razão freguês, desculpe o desabafo.

Crendo nas boas razões do cliente, o comerciante informou com detalhe o caminho para casa do cunhado. Joaquim pagou, agradeceu e saudou novamente ao sair:

-          Boa tarde senhores!

Na rua orientou-se pelas indicações dados e lá foi em busca de lenha para alimentar o lume da sua paixão. Em breve encontrou uma casa térrea, humilde e mal estimada, onde algumas telhas se seguravam apenas com o peso de pedras. Uma janela aberta dava alguma luz para o interior. Sem saber como abordar a jovem Aurora e muito menos como enfrentar um pai violento na sua própria terra, encostou-se à parede no outro lado da rua e aguardou, simplesmente.

A tarde foi-se arrastando penosamente até que a penumbra da noite envolveu a aldeia. O frio embrenhava-se nas roupas pouco quentes e gelava os corpos mínguos que apenas pediam calor e pão. Alguns camponeses subiram e desceram a rua, lançando uma breve saudação a que Joaquim respondeu sempre. Mãos nos bolsos, boina puxada para a frente, beata acesa ao canto da boca e assobio desafinado, olhavam-no com curiosidade, mas também com desdém. Para aqueles lados os estranhos eram mal vindos.

O sino tocou de repente. Pouco conhecedor do significado daquele toque depressa percebeu que não era mais do que um chamamento, provavelmente para a missa. Uma porta abriu-se de súbito deixando antever uma figura feminina de negro vestida. Envolvia-lhe a cabeça um xaile de rendas que a tornava ainda mais formosa. Saiu tão apressada que nem deu pela presença de um estranho do outro lado da rua.

Joaquim seguiu-a em passo apressado e antes que ela entrasse na capela, abordou-a:

-          Aurora, desculpa! Sou eu o Joaquim.

Pouco impressionada pela presença do rapaz, demanda:

-          O que faz aqui?

-          Vim vê-la!

-          Ver-me?

-          Sim vê-la e se quiser, levá-la comigo.

-          Como? O que é que disse?

-          Eu quero casar consigo. Se o seu pai não quiser eu levo-a para a minha aldeia e casamos lá.

A proposta apresentada assim de supetão era tentadora. Havia que pensar. Mas o rapaz não pretendia dar-lhe muitas opções. A repetição do chamamento para a capela ajudou-a a ganhar tempo.

-          Deixe-me ir à missa. No fim dou-lhe uma resposta.

-          Está bem, eu espero.

Aurora entrou na capela, enquanto Joaquim esperou, impacientemente no adro da igreja que a missa terminasse. Caminhava para trás e para a frente numa ansiedade crescente. Aquela hora levedava em séculos, uma eternidade. Dentro da capela ouviam-se cânticos e orações. O rapaz acreditava no Divino, mas naquele preciso instante a sua preocupação estava realmente virada para a cachopa que rezava devotadamente.

Por fim a missa acabou e as beatas e as crentes mais devotas abandonaram o local de culto quais formigas. Joaquim aguardou que a sua paixão saísse após o maior tumulto, para que ninguém se apercebesse. Porém a rapariga tardava em surgir. Já levemente irritado pela demora aproximou-se da entrada da capela. Espreitou para dentro a medo, quando ouviu.

-          Pode entrar sem medo, irmão. A casa de Deus está aberta para todos quantos nela queiram entrar!

À sua frente um padre ainda de paramentos trajados, saudou-o com emoção. A sua voz era calma e serena, cultivando a paz nos corações dos homens mais empenhados.

-          Como vai meu rapaz? Espero que a viagem o não tenha maçado muito.

O mecânico de motorizadas e bicicletas nem sabia o que dizer. Todavia foi sorrindo e penetrando na sala escura, onde o odor a incenso pairava ainda no ar. Ao fundo no altar as velas iluminavam o ambiente. Dos lados algumas imagens de santos pareciam querer abençoar o viajante. A medo lá foi apreciando a orada e acabou por comentar:

-          Bonita igreja, sim senhor!

Já perto do centro da capela reparou então que diversas mulheres ainda por ali estavam, rezando em silêncio numa prostração e devoção que jamais observara. Entre elas descobriu a menina dos seus pesadelos mais simples e bonitos. Olhou-a com admiração e respeito mas nada disse. Foi o pároco que apercebendo-se da furtiva troca de olhares, avançou:

-          Que faz aqui nesta terra, perdida entre as pedras frias e cinzentas da serra e os pinheiros esguios e irrequietos?

Joaquim quase nem entendeu a pergunta, mas ainda assim percebeu onde o pároco pretendia chegar. Então respondeu célere e convictamente:

-          Vim buscar Aurora!

-          E para onde a leva?

-          Para a minha aldeia. Lá tenho casa, terras, gado, tudo do bom e do melhor…

-          E tu achas que ela quer ir contigo? – Interrompeu o padre.

-          Não sei! Mas espero bem que sim. Eu gosto dela… - esta última frase foi dita quase em surdina temendo que a moça o escutasse.

Entretanto a rapariga levantou-se do seu lugar e aproximou-se de Joaquim. Deu-lhe a mão esquerda, olhou-o nos olhos e confessou:

-          Vou Joaquim, vou contigo!

Era a primeira vez que ela tratava o rapaz na segunda pessoa. Uma alegria imensa inundou-lhe o coração. De súbito antes que alguém dissesse mais alguma coisa, o padre chegou-se junto do casal e aconselhou:

-          Aurora, o teu pai é um homem duro e austero, mas temente a Deus como poucos. Assim casai-vos já aqui e agora na minha presença e perante o facto consumado, o teu pai já nada poderá fazer.

Joaquim nem queria acreditar que estivesse a minutos de passar a ser um homem casado. Ainda não se habituara à ideia de compartilhar o seu futuro com outra pessoa.

-          Então meu amigo, que vamos fazer? – questionou o cura.

-          Bem… sim… mas as alianças? Os papéis? Os padrinhos? – gaguejou.

-          Perante Deus nada disso é importante. Basta o amor que têm um pelo outro…

A noite há muito que abraçara o amontoado de casas, quando Joaquim pegou na mulher e chegado à porta do agora sogro, bateu.

-          Quem é? – demandaram de dentro.

-          Gente de paz que lhe quer falar! – respondeu Joaquim.

A porta de madeira mais podre que sã, rodou e deixou antever um homem mal arranjado, barba de dias por rapar, de cor cinza e os poucos cabelos desgrenhados. Carregava um ar triste e macilento. Todavia ao dar de caras com Joaquim logo o seu espírito se alterou numa reacção violenta:

-          Tu? Outra vez? Que estás aqui a fazer?

Joaquim limitou-se a sorrir e afastando-se um pouco, deixou que Aurora, agora casada, surgisse detrás.

-          Meu pai…

-          Larga esse homem! Já!

-          Agora não posso, meu pai. Casei-me com ele.

-          Ah, velhaco que me roubaste o meu único tesouro!

-          Não creio. Pelo contrário você é que ficou a ganhar.

-          A ganhar eu? Com quê?

-          Agora passou a ter mais um filho.

Furibundo o homem fechou com violência a porta na cara do casal.

Os noivos partiram nessa mesma noite para a vila onde dormiram a primeira vez juntos na Pensão Esperança.

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por José da Xã às 00:18


1 comentário

De Fátima Soares a 18.04.2012 às 18:27

Bonito conto. Pensei a certa altura que ainda desse para o torto mas gostei. A meu ver só penso que a Aurora ao deixar o pai assim, sem mais nem menos talvez não pensasse bem, mas quem ama não pensa. Embora não se conhecessem bem lá viria o tempo, quantos não se casaram por combinações e foram felizes. Quiçá o pai caísse nele e ainda fossem todos amigos. Gosto muito das descrições pormenorizadas e dos costumes e modas das terras, tal qual as faz. Um resto de uma boa tarde José.

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