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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Terça-feira, 17.04.12

Contos Breves - Duas lágrimas - XXXII


A madrugada gelada é rendida por uma manhã muito fria e límpida. A erva rasteira, encrespada pela friagem pinta o chão da cor da neve. Paira na atmosfera um forte odor a lenha queimada das lareiras ainda acesas. A isso obrigou a noite teiró.

Celestino abre a porta, observa o firmamento anil e reentra. Sai logo a seguir envergando um casacão pesado mas quente, única herança dos tempos de marinha e das auroras num convés irrequieto. E ele que sempre preferira a terra debaixo das botas quase rotas, ao mar, sentira no âmago, naquele tempo de tropa forçada, o abrupto balançar de um navio abandonado à sabedoria do comandante e aos inconstantes humores de Neptuno. Entretanto escancara a porta de madeira da arrecadação donde retira o serrote mal travado e o podão pouco cortante. Desta vez dá ripanço à fria enxada, sempre pronta a esventrar a terra negra e fértil.

O sol desponta timidamente ao longe, carregando luz, cor e algum afago. Uma brisa sacode docemente as árvores num vaivém sereno. Estas livram-se dos restos do gelo que num ápice se transforma em água. Esta escorre pelas concavidades das folhas ainda verdes, saltitando até aterrarem no chão húmido. Ladeando o carreiro, singelos fios quase gelados torneiam pedras e tufos de erva. Juntam-se mais abaixo, criando uma ligeira corrente que perto de um singelo e tímido ribeiro se mistura a outra, até desaparecerem ambas, criando um curso de água pujante e quase indomável..

Do cimo da encosta, Celestino olha o trilho que serpenteia à sua frente até terminar na ponte centenária. Do outro lado estendem-se lameiros inundados mas fecundos. O caminho continua após a travessia da ribeira e embrenha-se por entre paredes que abraçam as leiras. De súbito, sem saber porquê o seu pensamento recua quase trinta anos, até ao dia em que palmilhou aquele mesmo trajecto, fugindo a um passado sem saudades e a um futuro que não sonhara. Saíra na madrugada seguinte ao dia de Natal. Ainda se lembrava, como se fosse hoje, dos cheiros dessa fim de noite. Partira para França com mais dois homens da terra. Empenhara-se em doze contos de réis para poder pagar ao guia que o levaria até ao outro lado das fronteiras de Portugal e Espanha. Na época era uma fortuna. Mas se tudo corresse bem, em pouco tempo devolveria o dinheiro.

Naquele fim de escuridão fria, a aldeia acordara mais triste. Em casa, ficara a mulher com dois catraios, uma vida por resolver e muitas lágrimas por secar. Partiram os três homens a pé por veredas e atalhos até ao local de encontro, no cimo duma serra, junto ao marco de pedra, conhecido pelo Penedo da Lebre. Foram os primeiros a chegar. Para leste, para lá do que a vista podia abarcar era já pertença dos espanhóis. Conquanto o dia foi crescendo outros foram arribando. Vinham de diversos lados e alguns de muito, muito longe. Algarve, Alentejo, Minho. Todos, eram agora mais de quarenta. Homens sós, aventureiros, entregues à própria sorte, quais navegantes henriquinos.

Esperaram horas até que da penumbra da noite seguinte surgiu, por fim, o guia espanhol. Contou os foragidos e reclamou da falta de alguns. Finalmente estipulou as regras que todos aceitaram sem reservas: só caminhavam de noite e descansavam de dia. Assim que passassem a fronteira de Espanha com a França, cada um ficaria entregue ao seu destino.

Partiram então, atravessando sem sobressaltos a fronteira portuguesa. Caminharam em silêncio, fugindo aos itinerários principais, optando por caminhos sinuosos e de mau piso. Quando a primeira manhã acordou esconderam-se nas matas que ladeavam as velhas estradas e pacientemente aguardaram que a noite de breu os voltasse a envolver. Ao segundo dia principiou a chover. Uma chuva miudinha que se embrenhava na roupa e nos corpos mal agasalhados. E foram dias, semanas com chuva pelas costas e a roupa encharcada. Quando paravam faziam uma fogueira sempre insuficiente para secar vestes e corpos. Atravessaram montes e vales, rios e ribeiras de correntes sempre diversas. Ao aproximarem-se duma aldeia, contornavam-na, evitando encontros desagradáveis com a Guarda Civil espanhola.

Alguns caminhos, rasgavam-se pelas beiras das montanhas, denunciando então precipícios profundos e mortais. Quem caísse jamais regressaria. Morria ali naquele silêncio por entre serras inóspitas e vales perdidos. Era assim o contrato. Naquele momento cada um velava por si.

A fome surgiu então. Porém Celestino, preparara-se para uma longa jornada e dentro do bornal escondia toucinho e broa já endurecida pelos dias, com os quais ia comedidamente aligeirando a fome. Emagrecera alguns quilos mas mantinha a mesma força e pujança, às quais juntava a tenacidade e o sonho de um futuro diferente para si e para os seus.

Ao fim de quase um mês de caminhos tortuosos e de permanente e arreliante chuva fria, reapareceu uma manhã, o sol. Muitos haviam já desistido voltando para trás ou entregando-se às autoridades espanholas que os devolviam a Portugal. Mas os que restaram despiram-se e espalharam pela mata pouco densa, o vestuário molhado por dias seguidos de intempérie.

Espectáculo bizarro. Homens semi nus ao redor de uma fogueira. Havia bom sol mas também muito frio que descia do cimo das montanhas castelhanas. Ao fim do dia já com as vestes secas reiniciaram a marcha na mesma cadência. Míngua de semanas, nem coelho nem lebre surgiram no caminho. De quando em vez surgia um castanheiro ou uma laranjeira que serviam de reabastecimento.

Certa manhã já no final da caminhada dessa noite, aproximaram-se de uma casa isolada que se elevava no meio da serra inóspita. Logo questionaram o guia se era ali que ficariam durante o dia. O espanhol acenou afirmativamente com a cabeça, mas solicitou silêncio. Aproximou-se então à cautela. Pela janela suja, espreitou para dentro do barraco. Abriu por fim a porta sem receio. Depois todos correram até à habitação, não fosse alguém descobri-los. Surpresa das surpresas era a quantidade de nomes e datas gravadas na parede de madeira. Identificações de quem, tal como eles, também abandonara a sua terra e o seu país em busca de melhor futuro.

Pela primeira vez, desde que haviam partido de Portugal, iam dormir debaixo de telha. O espaço era exíguo, mas couberam todos. Esgotados, de sonos trocados, fomes permanentes e quilómetros palmilhados, os homens depressa adormeceram.

Porém quando a tarde principiara a dar lugar uma vez mais à escuridão da noite, uma infeliz surpresa estava reservada. Ao acordarem os viajantes logo notaram a falta do guia. Este recebera entretanto todo o dinheiro para a tarefa de colocar os lusos no outro lado da fronteira francesa e assim aproveitando a hora do sono dos caminhantes, partiu sorrateiramente. Aguardaram que caísse totalmente a noite para partirem uma vez mais. Todavia Celestino inconformado com a situação exclamou então:

-       Fomos enganados. Eu aqui não fico, vou-me embora. Quem quiser pode vir comigo. Sempre havemos de encontrar quem nos ajude.

Um reboliço de vozes percorreu a barraca. Mas quando o homem saiu a maior parte seguiu-o. Desceram então a íngreme encosta em busca de uma povoação. As luzes das aldeias surgiam muito ao longe como minúsculos pontos brancos, quais estrelas terrestres. Desconhecendo o caminho e tendo apenas a Lua como companhia iluminante, os homens palmilharam quilómetros até que a alvorada surgiu no horizonte. Escondidos uma vez mais na mata alguém percebeu uma ligeira coluna de fumo que se elevava no céu. Haviam encontrado nova habitação. Receosos com quem iriam encontrar, combinaram que só um se aproximaria. Assim se algo corresse mal, apenas esse seria prejudicado. Sortearam o felizardo e por ironia do destino, calhou a Celestino a missão de desvendar o mistério.

Em silêncio, chegou-se sorrateiro à casa. Percebeu perfeitamente que alguém lá dentro assobiava uma música desconhecida. Corajosamente bateu então à porta. Esta abriu-se deixando antever um homem forte, baixo, mas de feições simpáticas e olhar sincero.

Numa estranha algaraviada, Celestino tentou fazer-se entender ao espanhol. Este percebeu perfeitamente tudo o que o português dissera e ao contrário do que o aldeão temia, disponibilizou-se para ajudá-lo mais aos seus companheiros.

Instalados na pequena casa, aproveitando um lume forte, os homens perguntaram se havia algo de comer. Entendendo o desespero dos famintos o anfitrião foi buscar um saco de maçãs que distribuiu por todos. Depois partiu. Regressou duas horas mais tarde carregando um saco com pão escuro e alguns chouriços.

Finalmente, retirou do canto mais escuro, escondidas por sacos velhos e cestas vazias, algumas garrafas de vinho, que ofereceu aos viajantes. Um manjar e um festim! A alegria surgia finalmente estampada nos rostos cobertos por longas barbas em desalinho.

Após alguma troca de palavras mal traduzidas, Celestino entendeu que já estava muito perto de França. Mas o pior estava para chegar. É que a fronteira parecia ser bem guardada por soldados da severa Guarda Civil. Um desafio à astúcia e coragem dos portugueses. Havia, contudo, uma solução menos arriscada mas com a desvantagem do frio. Para tanto bastava que subissem a corrente do rio a pé pois este nascia em terras gaulesas, escapando assim os lusos aventureiros, à polícia e aos rigorosos controlos da fronteira. Após algumas indecisões optaram pelo caminho do ribeiro. Despediram-se do caloroso amigo espanhol, a quem entregaram algum dinheiro como paga e partiram enfim na calada da noite, de estômago repleto e espírito vadio.

Os pés doridos e ensanguentados tinham de resistir ao que restava da viagem. Em silêncio desceram para a ribeira logo que puderam. A aldeia dormia coberta por uma chuva miudinha. As luzes da povoação espraiavam-se em reflexos irregulares nas águas gélidas da ribeira. O fundo irregular e impreciso obrigava-os a caminhar mais devagar. O esforço era agora imenso, lutando contra a corrente que não sendo forte quebrava o ímpeto dos clandestinos. Mas a perspectiva de se saberem presos e devolvidos ao país de origem dava aquele grupo de valorosos viajantes uma firmeza invulgares.

Um ruído estranho vindo das margens obrigava-os algumas vezes a parar dentro de água. Depois, quando tudo se desvanecia e os receios não passavam disso mesmo continuavam, enregelados mas sempreem silêncio. Achuva parou quando o dia despontou por detrás das colinas.

Abandonaram então o rio tentando repousar da noite gelada e molhada numa pequena encosta. Foram subindo até ao topo até descobrirem do outro lado do declive uma pequena aldeia. O movimento era já realmente notável, àquela hora da manhã. Descobriram então pelos carros que já estavam em França.

Desceram à povoação sem receios e constataram que realmente já se encontravam em solo gaulês. Foi o delírio. Cumprimentaram-se numa alegria imensa, quase desmedida. Abraços e mais abraços selavam o fim da aventura clandestina.

Agora cada um seguia o seu caminho. Havia quem partisse para Paris ou para Lyon. Outros nem sabiam para onde iam. E houve até quem ficasse logo ali.

Na hora da despedida olharam-se num silêncio profundo agradecendo a todos e cada um a coragem e o empenho para ali chegarem. Dos mais de quarenta homens que haviam partido do cimo da serra portuguesa, pouco mais de vinte haviam chegado a terras de Napoleão.

Celestino olhou o carreiro naquela manhã gelada e lembrou-se novamente daquela madrugada. Duas lágrimas desceram então lentamente pela face curtida e rasgada por anos de trabalhos e sofrimento.

As lágrimas rolaram pelo chão, juntaram-se à pequena corrente que ladeava o caminho e foram encher a fiel ribeira.

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por José da Xã às 00:02


3 comentários

De Fátima Soares a 17.04.2012 às 00:12

Que trabalhos e perigos passavam os pobres portugueses para ir além fazer pela vida, muitas vezes enganados abandonados. Uns por lá ficavam , morriam, regressavam pior que iam outros lá conseguiam...Meus Deus! E o nosso país parece que regride e volta esse flagelo. Não a "salto" mas ainda que "legal" ter de abandonar a terra mãe e a família, ninguém deveria ser sujeito a isso para poder sobreviver. Adorei o conto José. Espero que esteja bem!

De José da Xã a 17.04.2012 às 09:03

Bem vinda Verniz Negro. Já sentia falta das suas sempre tão simpáticas palavras. Mas obviamente nem só por isso. Esta coisa de falarmos assim, desta forma, sem nos conhecermos em pele e osso é curioso. E fez-me falta saber que alguém lia o que escrevo. Entretanto o livro (Contos Breves) está quase no fim.
Quanto ao conto, a história da fuga para França foi-me relatada por um velho amigo que passou essa triste experiência.
Quanto á actualidade creio que o problema de Portugal chama-se excelência ou a falta dela... Quem sai da faculdade com notas muito boas geralmente tem trabalho. Quem se preocupa apenas em tirar um curso superior sem ter como meta a tal excelência das notas não pode requerer ter as mesmas hipóteses dos outros. Falo (leia-se escrevo) com experiência do meu trabalho. Todos os dias entra mais um. Sempre o melhor!

De Fátima Soares a 17.04.2012 às 14:49

Olá José! Concordo com tudo o que diz. Hoje em dia ter um canudo é apenas a aspiração "normal" de muitos quando o que devia ser era essa tal excelência, não só o "dizer-se" possuidor dele. O "hábito" não faz o "monge". Gostei muito porque também tive histórias destas na família. Que acabaram em sucesso mas antes disso, muito penaram... Boa semana!

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