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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Sábado, 14.04.12

Contos Breves - Tobias - XXX

Tobias gaiato, fora conhecido no povo pela sua invulgar e constante traquinice. Desde sempre que se habituara a conviver com os homens mais velhos de quem aprendera todo o género de malandrices e calão. Filho de um lavrador e de uma doméstica, era o mais novo de onze irmãos. O varão tinha já herdeiros mais velhos que ele, mas ainda assim impunha muitas vezes a sua vontade indomável de tio.
Sempre que algo de estranho acontecia, a aldeia logo clamava por Tobias, quantas vezes inocente. Depois após explicações e mais explicações, quando finalmente inocentado, logo surgia nova aventura. E começava tudo de novo. Porém diversas vezes o rapaz não conseguia esconder a verdadeira culpa e lá tinha de ouvir os ralhos duma mãe feérica e sofrer as sovas intempestivas de um pai incapaz de conversar com um filho.
Porém, diante dos outros rapazes da sua juventude, Tobias era um herói. Os jovens adoravam ouvi-lo a falar das aventuras que vivera e quantas vezes conheciam de antemão os próximos desafios. Fazer parte da equipa de Tobias era privilégio de poucos. Era frequente a miudagem armar zaragata para que pudessem mostrar quão valentes eles eram. Finalmente chamados à presença do chefe, sujeitavam-se a algumas provas a fim de serem aceites.
Mas os anos mantiveram a sua infinita marcha e fizeram de Tobias um homem. Crescera, abandonara as brincadeiras de rapazola e passou então a preocupar os pais das raparigas jovens e esbeltas. Nos bailes das festas, era sempre o primeiro a escolher par. E cachopa que com ele dançasse nessa noite, não dançaria com mais nenhum rapaz. Todavia alguns forasteiros que não conheciam a regra do jovem rapaz, acabavam por criar desacatos, a maioria das vezes só resolvidos com a intervenção das autoridades.
Entretanto Tobias transformara-se num pacato lavrador. Ajudava a família velha e doente a carecer de muitos cuidados. Pastoreava quando o tempo o permitia um enorme rebanho de gordas ovelhas e de irrequietas e indomáveis cabras castanhas. Trilhavas carreiros e veredas sem fim numa monotonia natural e própria de quem vive um momento de cada vez. Mudara muito o rapaz. Ficara na história própria da aldeia, as malandrices e as confusões que Tobias arquitectara enquanto miúdo. Hoje quando lhe evocam esses episódios, ri-se e pede humildemente perdão.
- Desculpem lá o mau jeito. Há coisas que fazia sem pensar...
- Deixa lá que também nos divertimos... – sossegavam os outros.
Certo dia, numa das suas deambulações pelos terrenos baldios onde o gado se entretinha a ratar a erva viçosa, subiu sem dar por isso ao cume da serra que abraçava a aldeia. Do cimo Tobias podia abarcar as longas charnecas e caminhos que rasgavam a paisagem em traços brancos e intermináveis. Na encosta que se alongava para o lado contrário da aldeia, um olival espalhava-se pelo declive íngreme. As árvores frondosas, carregavam azeitona em cachos vinícolas. Um gosto! Um primor! O esmero e orgulho perfeitos de um homem. O pastor encostou a mão à fronte como uma pala e observou com interesse e saber aquele olival. No pensamento tentou perceber quem era o felizardo proprietário da terra. Diversos nomes foram surgindo na sua ideia e a cada um deles foi respondendo, conforme se lembrava, em voz alta:
- Não o ti’ António Braga, esse não! A fazenda dele é mais para baixo! O Teixeira ainda menos! Nem sabe limpar uma oliveira como deve ser! Só se for do ti’ João Borras... Mas esse também não tem para aqui nada... – desabafava.
Subitamente, como de uma visão se tratasse, veio à ideia um nome: Chico Fole. Esse realmente tinha naquela zona alguns talhos de terra. E era costume nas feiras das redondezas gabarolar-se das suas oliveiras. Fanfarrão e egoísta, fora de certa vez vítima de uma partida bem velhaca. Alguém abrira as cancelas do redil onde pernoitavam algumas cabras. Estas, na sua costumada irreverência, invadiram um campo de milho, devastando parte da seara, já quase prestes a colher.
Enfurecido, irrompeu pela aldeia de forma violenta e logo procurou o jovem Tobias. Ali na rua sem mais provas acusou sem apelo o miúdo de ter aberto a cerca do gado. E nem valeram as insistentes negações do cachopo pois o povo, agreste e sedento de vingança, logo o condenou:
- É uma praga que cá vive...
- Ninguém pode andar descansado com uma prenda destas...
- É um perigo...
- Devia de estar num colégio, fechado...
- A aprender boas maneiras...
O pai, bruto e violento, nessa noite, arreou-lhe forte e feio com uma cilha, após algumas horas de busca, pois o rapaz prevendo o que viria a acontecer escondera-se num furdão vazio. Os vermelhões no corpo vincaram-se por várias semanas. Injustamente acusado Tobias jurou então vingar-se do Chico.
Perante esta amarga lembrança, renasceu no seu mundo a ideia de se fazer pagar pelo que acontecera, alguns anos antes.
- Mas como? – Perguntou a si mesmo.
Fazer entrar as cabras na fazenda era demasiado evidente. Repetia-se a história. Quebrar algumas das pernadas mais vergadas pelo peso da azeitona não lhe pareceu suficiente. Até que notou, junto a um marouço de pedras, a elevação silenciosa e cinzenta de uma grande pedra. Aproximou-se, mediu-lhe o tamanho com os olhos e tentou perceber se aquela se enterrava no chão castanho de terra fértil. A sorte trilhava desta vez, do seu lado e após alguns repelões, tornou-se evidente que o penedo estava solto. No dia seguinte logo pela manhã moveu o pedregulho com a ajuda de um alferce que trouxera de casa.
Empurrando daquele lado, levantando do outro, puxando deste aqui, foi Tobias levando sozinho a pedra para a beira da encosta. Depois aguardou que o gado pastasse bem longe e que a penumbra da tarde o envolvesse. Finalmente num gesto firme e resoluto fez rolar a pedra, encosta abaixo. Aquela começou devagar mas foi ganhando velocidade e força. E por onde passava tudo destruía. Oliveiras, sobreiros, pinheiros e eucaliptos. Parecia o fim do mundo. O chão tremia à passagem de tamanho calhau. Quando por fim parou, num evidente socalco, aquele havia deixado atrás de si um rasto de destruição.
Tobias, assim que lançou o enorme pedregulho, correu o mais que pôde até junto do seu gado e quando, quase à noite, entrou na aldeia surgiu do lado da charneca, sentido oposto da serra. Aguardou então serenamente o desenrolar dos acontecimentos. Tinha a perfeita consciência que o que fizera não era de louvar mas jamais esquecera a enorme, marcante e injusta surra com que fora brindado por um pai demasiado rigoroso.
Dois dias mais tarde, lançava Tobias a malha num chinquilho acirrado por cervejas e copos de vinho, quando surgiu o Chico Fole. Havia algum tempo que ele não se deixava ver. Mudara de terra devido exclusivamente ao seu mau feitio e surgia agora mais velho e acabado. Carregava uma cara de poucos amigos o que nele era normal e entrou em riste:
- Quem foi o sacana que fez aquele trabalho?
Os homens olharam uns para os outros em expressões de espanto e encolheram os ombros, num desconhecimento quase real.
- Mas o que é que aconteceu? – perguntou finalmente um dos mais velhos.
- Largaram uma pedra do cima da serra. Ela entrou para aquilo que é meu e deu-me cabo das oliveiras e não só. De tudo o que lá tinha. Quero saber quem foi?
- Mas a pedra não terá rolado sozinha? – questionou o outro crente nalgum fenómeno natural.
- Eu bem vi o rastro de que lá andou a empurrá-la. A mim não me enganam!
De entre todos houve quem olhasse para Tobias e manifestasse um ligeiro sorriso ao qual o rapaz nem se dignou responder. Alguns descartaram-se:
- Eu cá não fui e nem sei quem foi…
- Eu também não…
Mas as dúvidas e as desconfianças recaíram naturalmente em cima de Tobias. Este, tranquilo fingia que não percebia. E lançou a malha de ferro que aterrou com estrondo e perícia em cima do estrado derrubando o pino de madeira. Chico aproximou-se e olhando-o de frente questionou-o:
- Foste tu, não foste? – questionou a vítima, segurando com força as mãos pujantes de Tobias.
O outro não era mais um catraio. Os braços fortes fugiram do poder do mais velho, enquanto respondia:
- Não, não fui eu. Mas agora lhe digo que tenho pena de não ter sido. Sempre me vingava dalgumas coisas...
- Pulha! Vagabundo… - acusou Fole.
Mas Tobias nem ligou aos epítetos. Com tranquilidade continuou a jogar. O homem, desprezado pelos outros largou os jogadores, amaldiçoando a sua sorte.
Na manhã seguinte o pai velho e doente, aproximou-se do filho enquanto este ordenhava uma cabra e perguntou:
- Onde é que andaste com o gado, por estes dias?
Calculando onde o pai queria chegar, respondeu-lhe sem lhe mostrar a face:
- Tenho andado na charneca dos Gaitinhos. Tem lá bom pasto. Mas porque pergunta?
- Oh, porque… Por nada! Foi só para saber! – devolveu o pai sem azedume.

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por José da Xã às 00:24



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