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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Terça-feira, 10.04.12

Contos Breves - O Lagarto - XXVIII

A tarde abrasava. Após uma alvorada em que a maresia amansara a fazenda, um sol a pino tisnava enfim o ar tal qual a boca de um forno antes de cozer broa. A simples brisa avolumava ainda mais o calor. Nos campos o feno doirado gemia ao brilho do astro-rei. Até a passarada buscava as beiras das pias, meadas de água verde e salobra, para refrescar a penugem. Impossível alguém sair de casa para trabalhar.
No amontoado de casas brancas e rasteiras, solenemente perfiladas como um exército em parada, que era a aldeia, a populaça dividia-se entre a sombra de uma soleira, na maioria mulheres, que teciam intermináveis tagarelices sobre tudo e nada, e a taberna do tio Faúlha, onde os homens enterravam nas cervejas e nos copos de vinho as forças do dia. Também aqui se desfiavam rosários de conversas onde a caça e o amanho cresciam como assuntos únicos e obrigatórios.
Na pacatez da sombra benfazeja de um velho e enorme sobreiro, Mário atenta no moio de favas por debulhar que dorme na laje cinzenta e escaldante, esperando pela aventura de um trilho intenso. Duas vacas cor de mel repousam no chão ao lado. Ruminam feno com a calma de quem sabe que a tarde está ganha. Pura ilusão! O homem, indeciso, busca no seu âmago o desejo imenso de ir trabalhar, mas a indolência daquela tarde abafada, empurra-o para o sossego e deleite.
De súbito e como de uma mola se tratasse, salta do seu banco de granito, ergue-se com rapidez e dirigi-se às vacas. Segura na arreata que envolve o cachaço do gado e arrasta este para a alfaia. Carrega a canga nas bestas, ajusta com vigor a cilha, atrela o trilho e num instante conduz o par para cima do cereal. O vento tentando adivinhar a vontade de Mário, sopra então com mais força, elevando no ar uma nuvem de pó branco que não passa indiferente ao pacato povo da aldeia. Na terraço da taberna os homens beberricam em copos mal lavados e repletos, vinho ou cerveja. Perscrutam o horizonte e comentam:
- Anda alguém a lavrar!
- Com este tempo tão seco? Não creio. Não há bico de arado que entre nesta terra ressequida.
- Para mim aquilo é para os lados do Algar. E assim só pode ser o Mário a debulhar as favas.
- Deve ser, deve! Agora me lembro! Ontem passei encostadinho à eira dele e reparei que estava cheia. Mas agora trabalhar com este calor! Só de doidos.
Mas o doido continuava a puxar pelas vacas. Em círculos perfeitos:
- Iaa Faneca! Bora Florida – animava o agricultor.
De quando em vez lançava para o chão um olhar entendido. O bafo de calor prosseguia ajudado pelo suão quente, que descia serra abaixo e envolvia o povoado como um manto. Uma ligeira sombra duma velha oliveira começava a alastrar no recinto da eira. Parou então para dar algum repouso e água aos animais e aproveitou para virar a palha com uma forquilha de bicos quase gastos.
- Mais umas voltas e fica pronto! – observou.
A eira, um círculo quase perfeito de pedras lisas e gastas de tanta labuta, era circundada por um muro atarracado, não autorizando que as sementes escapassem ao controlo do homem. Uma entrada estreita era todavia suficiente para passar um carro puxado pelas vacas.
Nas tardes de estio rigoroso, um enorme lagarto verde, aproveitava a palha para repousar e alimentar-se de pequenos insectos que por ali proliferavam. Desta vez jazia imóvel no cimo do muro cinza, indiferente ao homem e às bestas. Mário conhecia-o há muito e até lhe dera um nome: Baltazar.
- Ora viva. Já há muito que não te via por estas paragens meu mariola!
O réptil habituado àquele aldeão pacato e trabalhador, deixou-se ficar em silêncio, como era seu hábito, quiçá desatento aos epítetos do lavrador.
Desatreladas as vacas, no fim da jorna, aquelas procuraram a enorme pia onde enfiaram as cabeças encabrestadas e donde sorveram com natural ruído a água que as saciou.
Palha puxada para um lado, logo o rodo ajuntou num monte as sementes esverdeadas. Com a ajuda da aragem do fim de tarde, ia limpando o pó das favas enrijecidas. O vasculho dançava na mão, qual bailarina ao som duma valsa vianense. Crescia o monte. E a grande seara, resumia-se agora a palha trilhada e ao volume menor de bagos. A medida quadrada de madeira de castanho feita, vai-se enchendo pelas mãos ásperas e grossas e despejadas nas sacas de serapilheira, contando:
- ... 59, 60, 61... alqueires. Não foi mau!...
A tarde cai em ondas de fogo. A noite fica já ali, por detrás do Cabeço da Abelha. Atrela as vacas ao carro, carrega as sacas repletas e bem atadas e salta para cima, também. Com o aguilhão comprido, toca os animais e ordena:
- Bora lá! Vamos!
As vacas sabem o caminho de regresso a casa. No seu passo sereno e compassado arribam finalmente. A noite envolve o lugar numa modorra própria de Estio. E quente, tal como o dia. Mário desatrela o gado e deixa que este procure a escuridão e a frescura do estábulo. Na manjedoura cai agora palha em molhos unidos como enxames.
O homem repara na carga e decide que o corpo já pede ripanço:
- Amanhã descarrego!
Finalmente entra na cozinha pela porta da alpendorada, senta-se à mesa e espera. A lua penetra na divisão por uma janela e é naquele instante a única luz da casa. A lareira está fria. Na parede um espaldar exibe tachos, panelas, pratos e tigelas devidamente enfileiradas. As pias do azeite e das chouriças sossegam na despensa escura.
Ninguém surge. Nenhuma voz se ouve. É então que Mário se recorda com amargura e tristeza: havia três semanas que ficara viúvo! A sua Dores partira definitivamente, deixando-o só e desalentado. Ainda não se habituara à negra solidão. Todas as tardes quando regressava ao lar onde vivera perto de quarenta anos com a mulher, sentia aquele vazio, aquela dor.
Os filhos haviam partido há muito para as suas casas e afazeres, logo após o funeral da mãe. Pretenderam levá-lo mas ele preferira ficar ali, carpindo uma ausência infinita.
Almoçando onde calhava mas geralmente em casa dos irmãos, regressa no fim do dia ao lar. Porém quando a noite o aperta e envolve ... ai a noite!
Suspira fundo e entre dentes desabafa:
- Se ao menos aqui estivesse o Baltazar!

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por José da Xã às 23:31


2 comentários

De Fátima Soares a 11.04.2012 às 11:32

Outro precioso. Para já e ainda não lhe disse muitos dos termos usados me fazem lembrar as minhas férias em miúda no Minho. As infusas, a broa, as eiras, as desfolhadas de milho e o milho rei . Os bois e o indolente passo, com o barulho das carroças, os filhos dos caseiros meus amigos com quem eu corria pé descalço por aqueles campos cheio de milho e couves, árvores de fruto nos pomares á água fresca das fontes e da rega que fazíamos com recurso à enxada para direccionar os regos. Era uma festa para mim, miúda da cidade! O leite bebido e acabado de tirar da vaca, as feiras e mercados ...Que SAUDADE José! Tempos que se foram e tanta coisa boa com eles. Hoje em dia os miúdos são uns tristes detrás de um computador e outros artefactos. Não sabem como se "faz" um vitelo o que comem as galinhas, como os porcos chiam no dia da matança... Só vêem supermercados e carne pronta a consumir não sabem o que é a natureza e o brio e labor de quem trabalha ainda hoje com afinco e sacrifício Adorei completamente o conto. Porque se diz sempre "Guarda que comer, não guardes que fazer" assim era o Mário...Pena que a Dores o "deixasse" porque é uma dor que jamais passa. Beijinho e um resto de boa semana

De José da Xã a 11.04.2012 às 17:39

Curiosamente nasci em Lisboa. Mas durante muitos anos vivi na aldeia. Ali trabalhei. namorei, aprendi a andar de bicicleta, sujei-me e limpei-me das agruras dos dias citadinos. Lá na aldeia aprendi a sachar, a lavrar, a pegar numa forquilha. Semeei batatas e favas, debulhei trigo e cevada. Apanhei azeitona e milho e tanta, tanta coisa...
O meu futuro passará obviamente por um regresso ao campo. Quando? Não sei... Um dia.
Gosto de ler o que escreve e digo-o com a humildade de quem jamais conseguiria escrever assim.

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