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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Segunda-feira, 09.04.12

Contos Breves - Maria do Céu . XXV

 

Um manto azul forte e inconstante acariciava com doce melancolia a pequena rampa por onde subiam barcas e frágeis traineiras, arrancadas ao mar pelos pescadores. Fugiam aos inesperados e revoltosos temperamentos de um oceano sempre indomável. O dique de rocha negra e áspera embrenhava-se nas águas, criando uma defesa natural aos avanços violentas do Atlântico.

Logo que a tarde soava no relógio da Matriz, Guilherme Bento descia, apoiado na sua bengala e curvado não se sabe se ao peso dos anos ou das incontáveis fainas marítimas, a pequena ruela empedrada de blocos negros e rectilíneos. Cruzava os homens de pele morena e secos de carnes que por ali deambulavam e atirava:

-       ‘Tarde, pessoal!

-       ‘Tarde ti Mito... – respondiam os outros.

Ficavam depois a vê-lo desaparecer por detrás do muro do velho cais, só surgindo quase na ponta. Passo pequeno e lento, cachimbo de cana apagado ao canto da boca, boina em tempos branca cravada na cabeça, pele tisnada por muitas horas de sol e sal, olhos pequenos mas vivaços.

No extremo de um pontão de cimento, paralelo ao dique de rocha, repousava uma pequena pedra. Havia quem dissesse que fora o próprio mar que ali a colocara para que o velho Guilherme gozasse o resto dos seus dias, contemplando o horizonte onde os azuis distintos se juntavam. Vivia só, numa singela casa de um piso, caiada de branco e que adquirira no auge da sua vida de pescador. O que comia ninguém sabia, mas exalava frequentemente de sua casa o aroma característico a peixe frito.

A tarde mantinha-se serena, sem vento. No céu, o anil alternava com o plúmbeo das nuvens. Mas sem qualquer ameaça de chuva. Na enseada entrou uma traineira de casco vermelho forte. Trazia atuns e cavalas. Assim que a embarcação encostou ao pontão os homens saíram apressados. Na ponta repararam na figura mirrada do mestre Guilherme. Alguém tentou gracejar:

-       Será que ele ainda a espera?

Os outros conhecedores e respeitadores da história antiga e mal dissolvida pela amargura dos anos, miraram com desdém o autor da graçola.

Mestre Guilherme sempre vivera agarrado àquele imenso mar. As suas primeiras memórias, colocam-no com apenas cinco anos no barco do avô. Num dia de pesca. E que dia... Gorazes, chernes, corvinas e sabe-se lá mais o quê... Um carrego daqueles era uma vez na vida de um homem do mar. Quando a traineira arribou ladeira acima puxado pelos homens, logo surgiu a mãe em pranto:

-       Ai desgraçado! Tão pequeno e já nestas vidas. E eu aqui tão apoquentada que já prometi uma vela à Nossa Senhora da Saúde.

O mar viria naturalmente a ser o seu futuro. Primeiro com o avô, mais tarde o pai e finalmente ele como Mestre da velha traineira. Um fado cruel e injusto que ele preferiu, aos bancos desconfortáveis da escola. Um ofício tão implacável que tantas vezes pensouem desistir. Masquando olhava aquele azul tão negro e escutava aquele som tão claro contra as rochas, tudo se esvanecia e depressa regressava ao remendo das redes para nova campanha.

Anos a fio sulcou ondas e vagas numa vontade intrépida contra o mar. O sol, a chuva e o vento haviam sido os seus companheiros permanentes. Quantas vezes sentira que o seu dia tinha chegado, tal era a tormenta, a engolir de um trago a frágil traineira. Mas Deus ou fosse lá quem fosse, retirava no último instante à imensidão quase infinita do oceano o pequeno pesqueiro e colocava-o novamente no cimo das cristas brancas e bravias.

Já homem feito enamorou-se certo dia de Ana, também ela filha e neta de pescadores. Todavia a jovem tinha outras ideias para o seu futuro e logo que a oportunidade surgiu, embarcou para a América. Um desaire na vida de Guilherme. Uma ferida que nunca soube sarar.

Naquele singelo banco, Mestre Mito – era assim que os mais novos o conheciam – perscrutava o horizonte,em silêncio. Auma milha, pouco mais, um pequeno ilhéu erguia-se do mar como de uma fortaleza se tratasse. Uma milha entre dois destinos. E o mar azul, mar de azeite por agora, entre eles. E uma história ou um mistério por desvendar.

Naquela madrugada, Guilherme aprontou tudo para partir para nova faina. O sol ainda nem despontara quando largou a caminho de um oceano permanentementeem mutação. Ovento de norte crispava as primeiras vagas, que rodeavam a embarcação como um novelo. Fugindo às correntes a traineira lutava contra um malagueiro feroz e impetuoso. À direita permanecia imóvel o velho ilhéu.

Todavia sempre que mestre Mito circundava tal rochedo, invadia-o uma sensação de que alguém ali o mirava de um jeito diabólico. Assim o pescador e os seus homens fugiam daquele destino. Porém nessa manhã a corrente parecia mais forte, tentando indomar-se à força dos velhos motores da traineira. De súbito alguém avisou:

-       Mestre, não se consegue passar as correntes. Estamos a ser levados para o ilhéu.

-       Vira tudo a bombordo e regressamos a terra – ordenou o comandante.

Só que o mar não estava pelos ajustes e mesmo após a manobra, aquele continuava a empurrar a embarcação para o enorme rochedo. Experiente e conhecedor, o velho pescador solicitou via rádio ajuda a outros barcos.

Num instante surgiram diversas traineiras muito maiores e que lidavam bem com aquele mar. Mas o mestre apenas solicitou que levassem os homens para terra. A barca era com ele. Nem quis qualquer ajuda para rebocar a sua velha embarcação, herança de pai e avô.

Respeitando a vontade férrea de Guilherme, os homens passaram a custo para os outros barcos e regressaram a terra firme.

Do cimo da enseada os homens viram a luta que o seu Mestre mantinha com as vagas, as correntes e o ilhéu. Alguém conhecedor daquelas fainas, previu com um agoiro:

-       Aquele dali já não se safa. A corrente de norte é muito mais forte que o barco. Ainda vamos ter para aí uma desgraça. E aquele homem é tão teimoso!

Conhecia-o bem doutras fainas. Casmurrice era coisa que não faltava a Guilherme Bento. Mas fora essa mesma tenacidade e perseverança que tantas vezes lhe salvara a vida e a demais companheiros.

Os olhares viviam aqueles instantes cravados no horizonte, ansiosos e descrentes. A chuva que entretanto começara a cair não fez ninguém arredar pé do velho ancoradouro. Todos admiravam a força de um homem contra a natureza. Mas esta jamais se deixaria domar, mesmo por um velho lobo do mar.

As vagas encapelavam-se e rebentavam quase em cima da frágil traineira. Lá dentro o homem só tentava tudo. O ilhéu crescia, crescia. E o mestre tentava, tentava.

Uma forte onda caiu por fim com violência no convés do barco, quebrando-o por completo. Estava irremediavelmente perdida a guerra. O mestre tentou ainda uma última manobra mas a água entrada já nem saía. Afundava-se finalmente a velha traineira, enxada de tantos cavadores de mar.

Num assomo de força e perseverança, mestre Guilherme só com a água como companhia tentou chegar ao rochedo negro e silencioso. Uma nova vaga arrastou-o contra as pedras, mas ainda assim a sorte protegeu-o, deixando apenas alguns arranhões nos braços e nas pernas.

Já em terra, naquele naco de rocha que ele nunca visitara e que temia, sem nunca saber realmente a razão de tal temor, tentou resguardar-se do temporal. Na aldeia piscatória, quando o mar tragou duma vez só a embarcação todos julgaram que o mestre havia também desaparecido. Os sinos tocaram a rebate naquela tarde, mesmo contra a vontade de alguns amigos de mestre Bento.

Dois dias mais tarde, um velho pescador lançou a sua barca e foi procurar peixe para o ilhéu como era seu hábito. O mar estava sereno desta vez e foi com um enorme susto que encontrou o Mito, deitado em cima uma rocha, dormitando. Sem perguntas de ambas as partes regressaram nesse momento à aldeia. Quando chegaram muitos se dirigiram, questionando  e congratulando-se com a vida poupada pelo mar.

No dia seguinte, Guilherme Bento aproximou-se do pontão de betão e aí encontrou a pedra. Sentou-se, carregou o fornilho do cachimbo, acendeu-o e mirou o mar com tristeza.

Um dos seus velhos companheiros, ganhou coragem e perguntou-lhe nessa célebre tarde:

-       Que procuras aqui, homem de Deus?

-       O que perdi! – Voltou secamente.

-       E o que é que perdeste?

A minha traineira, a Maria do Céu. Aguardo aqui, pacientemente, que o mar ma devolva ou então que me leve para junto dela...

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por José da Xã às 21:14


2 comentários

De Fátima Soares a 09.04.2012 às 21:27

Lindo! Adorei. Gosto muito de contos que envolvam gente do mar e o mar em si. Boa semana José. Tudo de bom para si e todos os seus.

De José da Xã a 09.04.2012 às 23:17

Este conto escrevi-o na minha cabeça, quando do alto da Nossa Senhora da Paz vi Vila Franca do Campo e o ilhéu. Uma paisagem deslumbrante em plena ilha de S. Miguel

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