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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Domingo, 08.04.12

Contos Breves - A Plantação - XXIV

Seis da manhã. Ramiro acorda bem disposto como é seu hábito. Levanta-se devagar para não acordar a Rosa que dorme ainda. Olha-a de relance e lembra-se de como ela era, havia mais de trinta anos: a mulher mais bonita das redondezas. Na época não havia rapaz que a não quisesse namorar. E ele que nunca lhe ligara grande coisa... Enquanto os amigos morriam de amores por um breve olhar. Até ao dia em que ela tombou do cimo de um muro que dividia o serrado do caminho. Andava aos figos. O verão, como sempre, era quente e seco. E a brisa que bulia parecia carregar ainda mais canícula. Descuidada e aventureira, Rosa subiu para o topo de uma parede mal feita. As pedras cinzentas e pouco harmoniosas, dançavam debaixo das sandálias. Mas ela preferia o equilíbrio circense à segurança de uma escada. Mal apoiada, ao tentar colher aquele figo mais maduro que baloiçava um pouco acima da sua cabeça, um pé acabou por escapar, depois fugiu o outro e num ápice aterrava desamparada no chão atapetado de rosmaninho e orégãos que cresciam sem destino.

Ramiro guardava um pequeno rebanho de cabras por ali perto, quando ouviu o grito da rapariga ao cair. Assustado, logo procurou a vítima, achando-a prostrada na terra sem dar acordo de si. Içou-a com cuidado nos seus braços fortes de homem do campo e carregou-a docemente até à aldeia. Entregou-a em casa dos pais da jovem, que vendo-a assim chegar inanimada, logo temeram o pior.

O homem ri sozinho. Havia quanto tempo? E ela continuava tão bonita. Veste-se e sai para o seu imenso quintal. Ao seu encontro corre logo o Fugas, um velho rafeiro, companheiro inseparável de tantas aventuras. Ao fundo a capoeira acorda. Os galináceos já conhecem o dono e sabem que está na hora da comida e assim a algazarra surge maior.

-       Então pessoal, bom dia – cumprimenta Ramiro como se os animais percebessem o seu linguajar.

-       Rica vida, hem! Eu a trabalhar e vocês a comer! Quem me dera... – continua.

A bicharada parecendo que o entende, cala-se e espera pelo velho balde com o repasto matinal. Couves migadas na véspera, pão amolecido pela água, sêmeas e algum milho, dão ao repasto um aspecto humanamente apetitoso.

-       Estes bicos dão mais trabalho e despesa, que lucro - desabafava o homem.

Franqueia a porta de rede e deixa que as aves se espalhem pelo quintal. Depois encontra num velho caixote meia dúzia de ovos. Alguns ainda estão quentes. Recolhe-os e coloca-os em lugar seguro, não vá alguém sem querer quebrá-los. Depois limpa a capoeira, recolhendo o estrume ainda fresco e lavando as malgas de barro para a água.

Regressa por fim a casa a tempo de ver a mulher a ultimar o mata bicho.

-       Bom dia! – um beijo repenicado sela o cumprimento.

-       Bom dia! A bicharada já está tratada?

-       Aqueles bicos dão mais trabalho... – comenta ele em jeito de resposta, repetindo um pensamento já havido..

-       E a seguir para onde vais?

-       Não sei, talvez vá cortar um pouco de feno na Bica Seca. Há lá tanta erva que qualquer dia não dou conta daquilo.

-       E vens almoçar?

-       Claro – e evoca uma vez mais a primeira refeição feita pela mulher. Ela nervosa. Ele descrente. Mas comeram tudo com apetite. Depois fizeram amor.

Hoje Rosa mantêm a mesa sempre repleta de bons acepipes. E ele não come mais porque cuida-se, sente que a juventude que tudo autoriza e recicla há muito que havia desaparecido.

Sai em busca da gadanha e duma enxada. Num velho casarão onde repousam uns bezerros encontra as alfaias e encaminha-se para a leira. Pelo caminho escarda duas oliveiras num pequeno talho que herdou do seu pai.

-       Estas estavam mesmo a precisar!

A erva alta e viçosa tomba agora aos golpes decididos e firmes da gadanha previamente afiada. A propriedade estende-se em ligeiro declive até ao horizonte. É ladeada à direita por uma parede alta e bem assente. À esquerda vinca-se o caminho de terra, por onde passam vacas puxando o carro de fueiros, repleto de feno e homens tocando as bestas até a casa.

Ramiro vai cortando o alimento para o gado quando sem querer se aproxima do muro que divide as duas fazendas. Para lá fica terra centieira igual à sua. Vermelha, áspera mas sã. Mas o dono daquela nesga de terreno nem sabe o que tem. Espreita para lá da parede e repara no chão desprezado. As silvas e os carrascos dominam agora aquele espaço sem amanho. Um desperdício. De súbito nota que uma pequena oliveira medra encostada à parede. Alguns metros adiante há outra e mais abaixo outra ainda. Intrigado larga a alfaia e calcorreia o terreno até ao fim sempre encostado à parede enquanto conta os pés de oliveiras. No fim totaliza para cima de cinquenta plantas que vão crescendo à sombra da parede. Sem dar realmente demasiada importância, regressa ao seu trabalho ceifando o resto da erva.

O sol do meio-dia aperta e na aldeia soam as badaladas no relógio da velha igreja. Gadanha ao ombro, assobio ligeiro, Ramiro regressa a casa para almoçar:

-       Então o que temos hoje para enganar o estômago? – pergunta com aquele sorriso matreiro.

-       Favas! Com chouriço, claro!

-       Óptimo. Estou cá com uma destas fomes!

A refeição decorre com a calma dos justos. A mulher fala desta e daquela, mas o homem, já habituado, nem ouve. Lembra-se então das pequenas oliveiras encostadas à parede e pergunta à mulher interrompendo o quase monólogo:

-       Sabes que o nosso vizinho da Bica Seca plantou um olival encostado à parede que dá para aquilo que é nosso. Contei os pés e são para cima de dois quarteirões. Não achas estranho?

A mulher mantêm-se em silêncio durante uns segundos. Depois opina:

-       Esse freguês do Peixoto nunca foi grande rez! A seguir àquela vossa zaragata ele nunca mais nos olhou de frente...

-       Tu estás tonta! Mas isso foi há imensos anos! Já tudo passou.

Nova evocação. Estava-se na época das festas em honra de Santo António. Os foguetes acordavam a aldeia em estrondos sonoros e sucessivos. Ramiro fora nomeado mordomo para esse ano e naturalmente chegava cedo ao arraial. Algumas vezes sem por o pé da cama. O bailarico durara até muito tarde e ele apenas tinha tempo de vestir a velha roupa de trabalho e correr ao palheiro, onde naquele tempo as vacas dormiam, para a ordenha.

No centro da festa havia sempre que fazer: cadeiras para arrumar, mesas para limpar, as coberturas de eucalipto para ajeitar após uma noite ventosa, a fogueira para assar as carnes, enfim, um ror de pequenas coisas.

O Peixoto fora também nomeado festeiro para esse ano. Todavia a sua única preocupação passava por tentar namoriscar as raparigas da aldeia. E raramente colaborava com o trabalho no arraial. Foi numa dessas noites, quando a música da concertina fazia voltear os pares em cima do estrado, que Ramiro notou que o outro mordomo preocupava-se unicamente em galantear a sua prometida Rosa. Ferveu então o sangue nas veias do jovem e após breves segundos, Peixoto sacudia com vigor, da jaqueta antes imaculada, o pó branco do chão para onde fora lançado, por braços pujantes e destemidos. E valeram-lhe ainda assim alguns companheiros, senão...

O homem ri-se agora dessa mera disputa. Havia passado tanto tempo que não acredita na mulher.

-       Tu estás tonta! – repete o marido.

-       Individuo para isso, é ele! E para muito mais. Não me admirava nada que ele tivesse plantado lá as oliveiras para elas virem comer ao que é nosso!

O homem abana a cabeçaem discordância. Porém, no seu imo começa a germinar a ideia que a Rosa é capaz de ter alguma razão. De outra forma como pode ele entender a intenção daquela cultura.

No dia seguinte o lavrador encontra o Fialho, um velho amigo. Para ambos uma saudação simples basta:

-       Bom dia Fialho! Faz tempo que não te vejo. Passa-se alguma coisa.

Responde o outro:

-       Bom dia Ramiro! Tu não me tens visto porque fui ter com a minha filha a Lisboa. Ela baptizou este sábado o meu neto mais novo...

-       Ai sim? – interrompe Ramiro – Então parabéns. Quantos netos já tens?

-       Seis. Com este seis...

E desfia o nome de cada um dos descendentes com idades e níveis de carinhos. Mas Ramiro pretende apenas saber a opinião de um homem experiente acerca da nova plantação olivícola do seu vizinho. Após breves desencontros de conversas, lá consegue que Fialho o ouça. Um ar de pasmo e de incredulidade invade a face do velho. Depois:

-        Que coisa estranha. É certo que ele não morre de amores por ti, mas isso é um tanto idiota. Não ganha nada e quando as árvores crescerem vai ser o cabo dos trabalhos para colher a azeitona, se tu não autorizares a por os panais. Realmente há cada um!

-       Mas achas que ele fez aquilo para me aborrecer?

-       Não tenho dúvida! Eu se fosse a ti plantava do teu lado outros tantos pés. Assim as tuas também comem do que é dele.

-       Depois fico eu também com o problema da azeitona.

-       Tem calma homem! Até lá muita coisa pode acontecer. Sabes que ele não gosta muito de trabalhar. Qualquer dia vende aquilo por tuta e meia e ficas com o problema resolvido.

Seguindo finalmente os conselhos do velho Fialho, o aldeão procura na feira os melhores pés e assim que o tempo e a Lua se mostram de feição, Ramiro cava diversos buracos onde enterra a estaca com a jovem oliveira. Depois mira o seu trabalho e com o olhar crítico ainda assim gosta do que vê.

Quis o destino ou a providência que Peixoto e Ramiro morressem com a diferença de semanas, sem deixar descendência. As viúvas enegrecidas pelo desgosto acabam por vender as propriedades. E quem compra aqueles bocados vizinhos apenas com a parede a separá-las, depressa desmancha a divisão deixando antever uma curiosa fila de árvores numa disposição acima de tudo curiosa. Já crescidas tocando-se pelas copas quase fazem um pequeno túnel.

Olhando de cima da fazenda bem lavrada e deixando que o olhar escorregue pelo pequeno declive o novo proprietário sorri e jamais imagina a razão daquela fileira de oliveiras sãs e prontas a entregar ao dono os viúvos bagos de azeitona.

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por José da Xã às 18:25


2 comentários

De Fátima Soares a 08.04.2012 às 22:00

Este também está muito bem escrito, gostei mais do que do outro. Mas realmente para quê tanta má vontade. Morre-se e cá fica tudo oliveiras e outros que lhes colham as azeitonas. Beijinho José.

De José da Xã a 08.04.2012 às 22:12

Acredito. Mas esta é uma história verdadeira... ou quase como calcula! Todavia a propriedade existe, as oliveiras também e pertencem à família. Boa semana de trabalho, estudo, escrita eu sei lá!
A Patrícia Reis escreveu um belíssimo poema sobre a Páscoa em http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/

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