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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.


Sexta-feira, 01.09.17

Contos Tontos - 27

Sentado na areia macia, perscrutava o horizonte. Naquela linha dois tons quase negros tocavam-se: o do firmamento de nuvens plúmbeas que ameaçavam borrasca e do mar sem o sol para o pratear.

No extenso areal não havia ninguém. Talvez a um quilómetro alguém corresse ou passeasse os seus cães. Tirando isso... ninguém.

O vento soprava frio naquele fim de tarde. Puxou para cima o casaco e com os dedos foi riscando a areia húmida. Os sulcos ficavam visíveis e provavelmente só na próxima maré desapareceriam de todo. Ou quiçá a chuva...

Voltou a olhar o mar... As ondas cresciam em altura e volume, para depois se transformarem em espuma e virem morrer mansamente no areal liso.

Continuou a riscar o chão sem perceber bem o que estava a escrever. Sem levantar os olhos percebia a força das ondas a bater na areia do fundo. Uma atrás da outra.

Esboçou um sorriso. O seu passado parecia o mar: por vezes ruidoso, duro, assassino, para no dia seguinte se tornar silencioso, manso e dócil.

Sentiu um arrepio atravessar o seu corpo. Seria frio?

Entretanto os dedos não paravam na areia de fazer sulcos.

De súbito soou um trovão. E como se tivesse acordado de um sonho, levantou-se de um salto. Já de pé olhou o que escrevera. Leu em voz alta:

- "O amor não é um bem, é uma conquista"

Escrevera mesmo aquilo?

A chuva principiou a cair e depressa as palavras desapareceram..

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por José da Xã às 00:02

Quinta-feira, 10.08.17

Crónicas de Lisboa I - Aeroporto (versão 2017)

Aeroporto. De Lisboa. Centro preferencial de chegadas e partidas de um país carregado de história e de estórias. Um país pequeno, de mentes pequenas e espíritos ainda mais ínfimos. Só a hospitalidade parece ser realmente grande. É o que dizem!

Naquela ampla sala de espera há um oceano de cabeças atentas aos que chegam. Da porta larga não param de sair passageiros. Pequenos serviços são oferecidos a quem está à espera, minimizando o tempo passado. No centro um quadro electrónico vai mostrando os voos que vão aterrando. Uns a horas, outros com atraso.

Quem espera não imagina de onde vem tanto viajante. Eles são altos e louros, escuros ou claros gordos ou magros. Carregam às costas as mochilas de uma vida. Por sua vez os regressados conseguem descobrir no meio daquela multidão alguém conhecido e vão acenando de sorriso alargado. Por fim juntam-se aos familiares e amigos distribuindo abraços, lágrimas, beijos repenicados, as saudades tanto tempo sentidas e naquele preciso instante explodidas em torrentes de emoções.

Na enorme nave nem se percebe o movimento cá fora na pista. Constantemente há aviões a aterrar e a descolar num movimento quase louco e onde os carros de apoio, que se movimentam quais formigas incansáveis, atravessam o alcatrão negro a grande velocidade, tentando chegar a todo o lado.

A porta continua a expelir gente. Alguns não parecem turistas. São meros utilizadores de avião como usassem outro transporte qualquer. Puxam uma pequena mala, atravessam o mar de gente e saem sem que ninguém os receba.

Entretanto no piso superior há quem espreite, através da varanda, para aquele espécie de mar humano… São os passageiros das partidas que gastam os últimos momentos na cidade que Wim Wenders idolatra. Partem repletos de memórias e recordações. Abalam, quiçá, para nunca mais voltarem. Se vão uns, outros vêm em busca de sol, praia, alegria e de um país que sabe receber.

O corrupio das partidas espalha-se pelos inúmeros guichets. Pequenos quiosques vão fornecendo últimos serviços aos que partem. Há quem carregue malas e sacos, há quem só se carregue a si mesmo.

Se uns partem outros ficam presos, naquele preciso instante, às saudades. As crianças traquinas e quase sempre menos agarradas às emoções que os adultos, aproveitam os enormes tapetes rolantes e escadarias para irem brincando. Os que têm bagagem aproximam-se dos balcões depositando as malas e os sacos. Os outros passam naturalmente pela rigorosa segurança, após fiscalização competente.

Num país com tantos imigrantes as partidas têm sempre aquele sabor amargo da tristeza ao invés das chegadas que são verdadeiro mel.

- Diz alguma coisa quando chegares… Tem juízo por lá… Dá lá saudades à família, diz que os queremos ver cá…

Consente-se, aceita-se para nunca mais se lembrar dos recados.

Porém há também quem parta para férias, para aquele país único, longínquo que ninguém sabia que existia mas que tem aquela praia… Há quem abale à aventura de uma profissão nova ou de um sonho bizarro. Somos todos tão sonhadores…

Chegam finalmente na semana seguinte, de cores acobreadas pelo sol, à enorme sala onde tanta gente espera outra tanta gente. Ou regressam no ano seguinte. Ou dez, vinte anos passados. Há os que nunca mais retornam.

- Ai homem que estás tão magro… Ricas cores… isso é que foi apanhar sol… Já nem te conhecia… há quantos anos saíste de Portugal?

As respostas perdem-se no ar pois ninguém ouve e ninguém responde. É sempre assim.

Curioso é que naquele estranho mar de cabeças atentas e oriundas sabe-se lá de onde, há gente de todas as classes e credos. Que local tão profundamente estranho para o povo se misturar com quem não se sente… povo. Sinceramente, por vezes é difícil perceber quem é quem.

Mas isso que importa, o Aeroporto é e será sempre um Mundo em ponto pequeno.

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por José da Xã às 08:11

Sábado, 10.06.17

Contos Tontos - 26

Do outro lado da secretária o médico abriu o sobrescrito, desdobrou o papel e percorreu todos os items. A mão esquerda foi à cabeça instintivamente, dando azo a que o entregador desconfiasse de algo.

Por fim disse:

- Bom está tudo... mais ou menos bom. Só há aqui um pormenor que pretendo esclarecido.

O doente recostado na cadeira, de perna traçada e mãos no joelho, avançou calmamente:

- Oiça Doutor... deixe-se de rodeios e diga o que se passa. Já percebi que há aí algo que não será bom. Vá diga lá o que tenho.

O médico continuava a observar o papel. A bola estava agora do seu lado. Dizer ou não a verdade pareceu ser a questão principal.

- Então Doutor diga o que lhe parece! Não tenho medo de nada. E não o culpo daquilo que tiver...

- Oiça... - respondeu finalmente - já percebi que é um homem pragmático. Assim digo-lhe tudo o que tem e qual vai ser o seu futuro.

- Vá desembuche...

- Bom o meu caro tem... um cancro em estado avançado... Mas tem tratamento.

O silêncio reinou na sala por uns curtos minutos. Até que:

- Quanto tempo terei de vida a partir de agora?

O médico não esperava aquela questão. Assim respirou antes de dar a resposta. Depois:

- Não imagino... Com tratamentos pode ainda durar muitos anos.

- Bom... digo-lhe já que não vou fazer qualquer tratamento. Nem direi à minha família o que tenho.

- Mas isso é um absurdo...

- Pode ser que sim. Mas a partir de agora se disser à minha família todos irão sofrer até eu morrer. Se morrer em breve só sofrerão com a minha morte e não com o meu sofrimento.

- Desculpe lá, mas se morrer em breve as pessoas sofrerão mais depressa com a sua morte. Ao invés, se tomar medicamentação vai poder viver mais anos e a sua família só sentirá a sua perda daqui a muito tempo.

O doente levantou-se da cadeira e contrapôs:

- Já viu com toda a certeza gente a definhar com os tratamentos, certo?

- Claro que sim, mas...

O outro interrompeu:

- Alguma vez deu conta do que sofre a família ao assistir ao lento murchar do familiar?

- Provavelmente não... mas... calculo...

- Então doutor... deixe-me morrer em paz. É só o que lhe peço!

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por José da Xã às 22:47

Sexta-feira, 19.05.17

Contos Tontos – 25

Olhou o pai naquela cama de hospital e lembrou-se da noite em que o progenitor ficara sentado na beira da sua cama a afagar-lhe os longos caracóis. Depois alternou com o seu irmão mais novo, José, a quem também afagou os cabelos.

Ela, Maria, fingira dormir nessa noite porque gostara daquele afago. Estava muito longe de perceber o porquê daquela invulgar ternura do pai. Seria somente no dia seguinte que saberia, sem realmente perceber o que acontecera.

Tinha cinco anos, mas aparentava ser mais crescida. Aprendera a ler sozinha com a ajuda de uns livros que encontrou por casa. Daí até ler as notícias no jornal diário foi um ápice e um choque.

O pai, entretanto, mexera-se no leito e foi a vez dela de acariciar o idoso e moribundo. Passou a mão pelos cabelos alvos como neve e assumiu que a vida naquele corpo estava condenada.

Durante mais de 20 anos a família fora unicamente de três quando deveria ser de quatro e não obstante algumas tentativas falhadas por parte de algumas ditas amigas da mãe, o pai mantivera-se sem qualquer companhia feminina.

Agora repousava ali, sem dar acordo, preso a uma parafernália que substituía alguns órgãos. Apenas respirava por si.

Maria sentiu as lágrimas deambularem pela face. Aproximou-se do pai e bem junto ao ouvido e ciente que este jamais a escutaria, disse:

- Obrigado meu pai!

O corpo inerte agitou-se de forma invulgar, numa réstia de coragem de quem vai dar o seu último suspiro. Maria escutou então em surdina para seu imenso espanto:

- Obrigado eu!

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por José da Xã às 23:16

Terça-feira, 21.03.17

Dia Mundial da poesia

Hoje dia da poesia

daquela que se escreve

ou aquela que se sente?

 

Hoje dia da poesia

daquela que se lê

ou aquela que se mostra?

 

Hoje dia da poesia

daquela que eu gosto

ou aquela que se detesta?

 

Hoje dia de poesia 

é dia de olhar as palavras

escritas na concha do vento!

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por José da Xã às 21:59

Sábado, 24.12.16

O relógio

Devagar, muito devagar entrou no escritório que era acima de tudo a sua biblioteca, o seu refúgio, tal era quantidade de livros espalhados pela pequena divisão.

Tricotou por entre as resmas de livros e sentou-se finalmente à secretária, também ela repleta de publicações. Ao centro destacava-se, contudo, uma velha máquina de escrever.

Da janela entrava um sol acolhedor que parecia aquecer a pequena sala. Numa parede de lado dormia um velho relógio, herança do pai e que já fora do avô. Olhou-o e percebeu que estava parado… havia muitos anos! Desabafou:

- Então companheiro… há quanto tempo que ninguém te dá corda, hem!

Depois virou-se para a sua “Hermes 2000” e devagar foi carregando o carro com uma nova folha de papel. Rodou o rolo lentamente e acertou a folha, como sempre o fizera. Ao contrário de todos os outros escritores que conhecia, ainda não se adaptara às novas tecnologias. Daí a sua velha companheira.

Na verdade a sua editora através de carta solicitara que escrevesse algo para a época do Natal desse ano.

- Um conto de Natal? Mas eles estarão mais senis que eu? – questionou na altura.

Voltou a pegar na missiva que recebera, releu e suspirou. Um suspiro profundo que saiu naturalmente, tal parecia vir a ser o frete.

Não obstante a sua já provecta idade ainda assim mantinha a escrita como modo de vida. O sucesso das suas obras residia num passado já longínquo, mas aquele ainda lhe trazia alguns proveitos pecuniários. O suficiente para ir sobrevivendo.

Agora estranhamente surgira este invulgar pedido. Escrever um conto de Natal…

Ele que havia trinta anos não comemorava a quadra. Desde que os seus filhos haviam partido de casa sem nunca mais darem sinal de vida. Depois seguira-se a Laurinda…
Desta jamais fizera luto. Achara que não seria necessário. O amor pela mulher morava ainda no seu coração e não nas vestes negras…

- Mas vou escrever sobre o quê?

Olhou novamente o relógio de parede e perguntou-lhe:

- Companheiro silencioso… que me dizes? Tens alguma ideia?

Afastou-se da secretária de forma a poder abrir e vasculhar a gaveta. Após alguns minutos encontrou o que pretendia. Ergueu-se devagar e procurou um banco no meio de tanto livro, atirou alguns ao chão, até o encontrar. Finalmente subiu para ele e abrindo a portinhola de vidro enfiou a chave no buraco respectivo e rodou. Um som característico fez-se ouvir e ele deu 12 meias voltas até que a chave não rodou mais. Seguiu-se o outro buraco e repetiu as voltas e os gestos. Finalmente pegou no pêndulo e fê-lo balancear.

Escutou um tic-tac compassado e nivelado. Desceu do banco e sorriu…

Voltou à sua secretária e começou a bater as teclas. Puxou o rolo para cima para reler o que acabara de escrever e repetiu em voz alta:

- Um conto de Natal, o relógio…

De súbito uma voz grave, mas calma disse atrás dele:

- Como podes gostar tanto de relógios se nunca os pões a trabalhar?

Ele reconheceu a voz. Uma lágrima correu pela face mas não se voltou. Continuou a bater nas teclas da sua máquina de escrever, todavia desta vez ia repetindo em voz alta o que escrevia:

- Fizeste-me falta meu filho. Sabes do teu irmão?

Outra voz soou:

- Estou aqui meu pai!

O escritor continuou a escrever:

- Este ano o espírito de Natal tem a voz dos meus filhos.

O relógio bateu finalmente as horas, pela primeira vez em trinta anos.

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por José da Xã às 17:53

Sábado, 19.11.16

Contos Tontos - 24

Olhava o envelope com desconfiança. Sabia que dentro daquele subscrito estaria certamente notícias sobre o seu futuro.

Mas tardava em abrir. Tinha medo, insegurança, desconfiança, um ror de dúvidas.

Caminhava pela enorme sala quase vazia de parede a parede. Sempre que passava pelo rectangulo branco olhava-o de soslaio como se ele fosse um envelope-bomba.

Sentiu o telemóvel a tremer no bolso. Retirou-o e percebeu que era a mulher. Achou melhor não atender mas conhecia-lhe a teimosia e assim:

- Estou...

- Dário, que diz a carta?

- Ainda não abri...

- Porquê?

- Porque não. Receio o que ela tenha para me dizer.

- Mas tu não sabes sem a abrir. Não vale a pena fugires.

Ele tinha consciência da razão dela, todavia receava. Com todos os poros da sua pele.

- Dário! - insistiu ela.

Ele numa voz quase sumida respondeu:

- Estou aqui...

- Abre a porra da carta... - gritou ela.

Dário aproximou-se do envelope, abriu-o, desdobrou o papel e leu. A mulher do outro lado da linha aguardava, impaciente. Finalmente respondeu:

 - Está em branco... Não diz nada!

 

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por José da Xã às 20:11

Quinta-feira, 20.10.16

Contos Tontos - 23

Caía uma chuva miúda, quase pó! A luz mortiça dos candeeiros deixava antever traços finos e oblíquos de água fria. Alcina refugiou-se debaixo do toldo de uma velha loja de ferragens, fechada havia muitos anos. A noite não estava convidativa mas havia sempre quem estivesse disposto a comprar felicidade e prazer.

Tal como o antigo patrão que a iniciara naquela vida… Uma vida perdida ou talvez não. Doutra forma estaria, aos 36 anos, rodeada de um rancho de filhos que tinha de sustentar, um marido bêbado para aturar, o gado para tratar e as terras para amanhar.

Parou um carro. Saiu da cobertura, aproximou-se da janela que desceu lentamente. Entre sorrisos, disparou um costumado cumprimento:

- Boa noite, sortudo…

- Sortudo?

- Sim! Vejo que queres companhia. E estou aqui para te ajudar…

As frases eram invariavelmente as mesmas, proferidas naquele tom meloso de provocação libidinosa. Afastou-se do carro um pouco para que a apreciasse. O condutor não gostou do que viu e sem nada dizer, arrancou.

Mais à frente duas jovens tiveram mais sorte e entraram na viatura.

Alcina nem pestanejou. Já sabia que era assim. A sua idade trazia-lhe profundos sulcos na face, que nem as camadas de base conseguiam disfarçar.

Todavia o corpo parecia menos mau, assim julgava. Vestia nessa noite uma minisaia curta que mais parecia um cinto. Um top cotado e meias de renda. Por cima, um casaco comprido de um vermelho berrante mas atractivo.

Regressou ao toldo e sentou-se no degrau frio e molhado. Encostou a cabeça à parede e adormeceu. Nesse sono acabou por viajar ao seu passado, umas vezes fantástico, outras nem tanto. Parecia sentir ainda o cheiro do pão acabado de cozer e outrossim do corpo gordo e mal-cheiroso do velho que a possuíra pela primeira vez. Aquele sono levou-a de regresso à sua antiga escola, onde as letras e os números a animavam. E à mãe que desejava colocar a filha a estudar, mas o pai, austero e avaro, só pretendia dinheiro.

Sentiu um toque muito ao de leve no ombro. Acordou sobressaltada e deu de caras com um jovem rapaz que a mirava. Perguntou:

- Não achas que és muito novo para andares às meninas?

O jovem voluntário olhou para os colegas ao lado e sorriu. Insistiu:

- Posso ajudá-la nalguma coisa?

Alcina percebendo finalmente o equívoco, respondeu:

- Hum, só gostava de voltar a ser feliz!

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por José da Xã às 23:14

Quinta-feira, 25.08.16

Contos tontos - 22

A notícia penetrou-lhe na alma tal qual um murro na boca do estômago. A dor ficara ali presa dentro de si sem hipótese de sair. Um tormento!

Em toda a sua já longa vida habituara-se a lidar com o imprevisível. E acatara serenamente tudo o que o destino, ou fosse lá o que fosse, lhe reservara. Tudo… menos aquele momento.

Aceitara que a mãe abandonasse o pai, trocando este por um qualquer artista plástico de qualidade duvidosa. Aceitara com condescendência que a mulher se tornasse alcoólica por viver ociosa. Aceitara que os filhos o deixassem só, fugindo certamente a uma mãe que não os soubera educar.

A sua vida resumira-se por isso ao dinheiro que ganhara e ao que com ele conseguira adquirir. Não tinha amigos verdadeiros, nem familiares próximos que o amparassem. Estava só. Mas aquela solidão não o magoou, pensou ele.

Uma singela lágrima tremeu nos olhos, teimando em correr pela cara bem escanhoada. Passou as costas da mão pela face e limpou o sal humano.

Tanta raiva contida, quantos desejos adiados, tantas palavras silenciadas… para nada! Restava a pergunta: valera a pena?

Nem pensou em responder.

Em passo lento entrou no escritório, onde prateleiras com milhares de livros que nunca lera, forravam as paredes. Em cima da secretária uma moldura que ele pegou e virando-a para si reparou nos seus três filhos ainda pequenos. Lembrou-se daquele dia na casa da praia com os descendentes e a mulher na cama a curar mais uma das muitas e usuais bebedeiras.

Sentou-se num velho “fauteil”, herança de um avô belga, encostou a cabeça ao braço e ficou ali estático a contorcer-se com aquela dor que se embrenhara na alma.

Algures na imensa casa tocou um relógio. Deixou que o tempo passasse lentamente e tentou não pensar. Pela primeira vez em muitos anos desligara o telemóvel. Queria estar em silêncio, a carpir somente a mágoa que o consumia.

Olhou então para o pequeno móvel que ladeava a poltrona herdada, onde um candeeiro de loiça irradiava uma luz quente e amarela.

Serenamente o homem abriu a porta do pequeno armário, meteu a mão dentro como se tivesse a certeza do que ia encontrar e finalmente retirou a pistola.

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por José da Xã às 22:12

Sábado, 06.08.16

Contos tontos - 21

A noite havia sido tórrida. Entre ambos uma miríade de beijos, carícias e desejos desvendados. Finalmente cansados, foi ela a primeira a falar.

- E se ninguém conseguisse mentir? – Perguntou naquela voz melosa de mulher apaixonada.

Ele olhou-a de soslaio e percebeu que a pergunta tinha outra intenção que apenas uma mera resposta dele. Ainda assim arriscou:

- Não haveria Pai Natal. Nem Natal. Nem prendas, nem subsídios (ups… mas isso já não há!!!). Não haveria política, nem políticos. Nem votos, nem eleitores… - ele parecia momentaneamente perdido e imparável na resposta.

-… Não haveria traição, nem tristeza. Nem palavras ocas, nem promessas vãs. Nem sorrisos disfarçados, nem alegrias desmedidas.

Ela ergueu-se do seu conforto e mesmo desnudada depositou nos lábios do amante um beijo e uma nova questão:

- Acreditas que haja quem não minta?

Ele cruzou os braços por debaixo da cabeça e olhando o tecto alvo desabafou:

- Eu! Eu não minto. Posso eventualmente omitir mas não minto.

Ela insistiu:

- Mas se todos nós não conseguíssemos mentir? Apenas disséssemos a verdade?

Ele respirou fundo como estivesse a fazer um frete e devolveu:

- A vida era demasiado insossa para ser vivida. O que apimenta os dias é o risco de sermos levados a mentir.

- Mas ainda agora disseste que não mentias…

Apanhado na contradição esfarrapou uma má desculpa:

- Falava em termos da nossa sociedade, como está ora constituída…

- Sabes que mentir é feio?

- E dizer a verdade magoa…

Ela deitou-se na cama sedosa e foi a sua vez de fixar o tecto. Por fim insistiu num tom pouco amistoso:

- É preferível viver numa mentira permanente… só porque a verdade dói?

Ele calou-se. A conversa toldara-se num tema pouco simpático. A noite fora (quase) perfeita… Um jantar, uma dança breve, aqueles primeiros toques. Levantou-se então da cama, nu e dirigiu-se à casa de banho. Regressou com a escova de dentes enfiada na boca e a espuma a fugir pelos cantos e a sucessiva acção da escova a bailar. Após a passageira irritação ela olhou com ternura e vaidade, o corpo musculado e esbelto do amante, sorriu interiormente e pensou:

- A este homem jamais será revelada a verdade, porque há-se sempre julgar que lhe mentem! Ou será que não?

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por José da Xã às 23:44


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